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Posts de junho 2009

Crack, Nem Pensar

30 de junho de 2009 1

Diego Vara

Ontem teve um painel no BarraShoppingSul para reforçar a campanha Crack, Nem Pensar. Eu e o pessoal do Pretinho Básico conversamos com os universitários sobre as consequências e as medidas de prevenção e conscientização sobre o uso da droga.

 

Confere aí o vídeo com a nossa participação:

Postado por David

A volta de Jô — 7º capítulo

29 de junho de 2009 18

De volta ao apartamento, Maia saltitou para o quarto de Jô e estendeu na cama o que havia comprado durante a tarde: o vestidinho branco de alcinhas, sandálias de salto alto com tiras brancas que escalavam até as canelas e uma calcinha também branca. Jô ficou olhando para aquilo.

- Para você – disse Maia, estendendo o braço.

Jô suspirou.

- Onde você quer me levar hoje à noite, afinal?

Maia sorriu. Deu dois passos em direção à saída do quarto. À porta, girou o corpo com graça e respondeu:

- É uma surpresa. Você vai gostar.

Jô suspirou. Olhou para as roupas. Decidiu experimentá-las. Despiu-se. Nua, levou as mãos à cintura estreita e examinou mais uma vez o figurino que a amiga escolhera para ela. Pescou a calcinha do colchão. Vestiu-a. Era suave porém minúscula, presa por duas alcinhas finas. Jô olhou-se no espelho. Gostava de calcinhas pequenas. Achava que ficava bem com elas. Mas aquelas talvez fossem… sensuais demais… Ainda assim eram bonitas. Ousadas, mas sensuais.

Calçou as sandálias. Os saltos altos a empinavam toda. Panturrilhas empinadas, coxas empinadas, nádegas empinadas. As tiras trançadas nas canelas eram um detalhe provocante. Finalmente, enfiou o vestido pela cabeça. Era curto. Curtíssimo. As coxas douradas de Jô ficavam expostas quase que inteiramente. Mirou-se mais uma vez no espelho. Vendo sua figura, entendeu o que Maia queria: queria levá-la ao lugar onde trabalhava. À boate… Queria que ela… Oh, Deus!

Jô sentou-se à beira do colchão. Ultimamente, sentia-se envolta numa aura de sexo como nunca havia sentido na vida. O que era aquilo??? O que estava acontecendo com ela??? Pensou no marido e nos filhos. Procurou o celular na bolsa. Ligou sofregamente para casa. Fábio atendeu.

- Amor! – ela exclamou.

- Oi, Jô – como da outra vez, percebeu certo distanciamento na voz dele. Ressentimento, talvez.

- Tudo bem aí em casa?

- Tudo… Tudo bem.

- E as crianças?

- Estão ótimas.

- E você?

- Tudo bem, Jô. Como estão suas férias?

- Tudo certo. Vi a Aninha e a filha dela. A coisa mais linda.

- Ah… Você está na casa daquela outra?

- Da Maia, isso.

- É boa a casa?

- Um apartamento ótimo. Você tinha que ver.

- Ah…

- Fábio…

- Sim?

- Olha, eu te amo.

- Eu também, Jô.

- Estou com saudade.

- Eu também.

- E estou com saudade das crianças também.

- Jô, vou ter que desligar agora. Combinei de levar o Pedro e a Alice ao cinema.

- Está bem. Um beijo, então.

- Beijo.

A frieza da conversa a amassou. Jô desligou sentindo-se estranha. Algo estava errado. Deitou-se na cama. Ficou de costas, fitando o teto, o coração diminuindo-lhe no peito. Queria entender o que se passava. O que lhe vinha na alma.

Chegou a uma conclusão. Algo, que na verdade, sempre soubera: amava o marido. Amava-o solidamente. Fábio era uma pessoa boa, um homem digno, um pai atencioso e, mais importante, a amava também. E Jô amava a vida que eles levavam. Amava seus filhos, amava sua casa, amava os programas que ela e Fábio faziam juntos. Mas… e esse era o problema: o mas… mas não amava mais fazer sexo com ele.

Esse todo o drama. Alguém tinha de ajudá-la. Alguém tinha de dizer-lhe o que fazer. Ela não podia passar a vida traindo o marido. Não queria trair o marido. Não podia. Não suportaria isso. Não suportaria mentir para ele. E também não queria se separar. Queria contiuar vivendo a sua vida.

O que fazer, então? Desistir do sexo para continuar levando a vida agradável que levava ou desistir do marido e das coisas boas que construíram juntos para experimentar as delícias do prazer carnal? Quem poderia ajudá-la? Quem?

Você, leitor, pode? Diga o que Jô deveria fazer!

E aguarde para saber o que ela fez no próximo capítulo de A Volta de Jô!

Postado por David

Café TVCOM

29 de junho de 2009 2

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

 

Confere aí:

 

Postado por David

O mestre-sala dos mares

27 de junho de 2009 12

O bandido apanhava uma corda mediana de linho, atravessava-a de pequenas agulhas de aço das mais resistentes e, para inchar a corda, punha-a de molho, com o fim de aparecerem apenas as pontas das agulhas. A guarnição formava e vinha, então, o marinheiro faltoso, algemado. O comandante, depois do toque de silêncio, lia a proclamação. Tiravam as algemas das mãos do infeliz e o suspendiam, nu da cintura para cima, no ferro que se prende à balaustrada do navio. E então Alípio começava a aplicar os golpes. O sangue escorria. O paciente gemia, suplicava, mas o facínora prosseguia. Os tambores, batidos com furor, sufocavam os gritos. Muitos oficiais voltavam o rosto para o lado. A marinhada, possuída de repulsa e de profunda indignação concentrada, murmurava: “Isso vai acabar.”

      Quem eram os homens supliciados por Alípio? Negros, quase todos. Negros. Ex-escravos ou filhos de escravos que encontravam na Marinha sua única chance de sobrevivência. Muitos viam-se conscritos à força, arrebanhados nas localidades pobres quando tinham 10 ou 12 anos de idade. Depois de alistados, passavam 15 anos em serviço, recebendo soldos miseráveis e punições desumanas.

      Negros eles eram. Eis porque os açoitavam com tanta crueldade. A lei brasileira só permitia 25 chibatadas, mas houve casos de faltas serem punidas com até 300. Ninguém reagia. Porque eles eram negros.

      Conto isso para que se entenda a reação explosiva ocorrida no país devido ao caso Elicarlos versus Maxi López, dias atrás. Relembro: Maxi López teria chamado Elicarlos de “macaco” durante o jogo do Cruzeiro com o Grêmio. Não sei se é verdade, talvez não seja. Falo da reação. É positiva. Porque, agora, os negros reagem.

      A primeira vez que reagiram, na história da República, foi justamente na época de Alípio. Na noite de 22 de novembro de 1910, um marinheiro havia sido condenado a levar 250 chibatadas no convés do Minas Gerais. Em meio ao martírio, ele desmaiou. Alípio continuou com o castigo. Entre os marinheiros que assistiam à tortura estava o gaúcho João Cândido. Negro, alto, filho de ex-escravos, João Cândido era analfabeto, mas as viagens internacionais tinham lhe emprestado certo lustro. Aos poucos, começou a cevar a rebelião entre os marinheiros. Devia ser deflagrada no fim do mês, mas o castigo brutal que Alípio impôs ao seu colega antecipou tudo.

      Naquela noite, o mais delicado creme da sociedade estava reunido nos salões do Clube da Tijuca, no Rio, para os festejos da posse do presidente Hermes da Fonseca. Em meio à apresentação da ópera Tannhauser, de Richard Wagner, um estrondo arrancou guinchos das damas e calou os instrumentos – um tiro de canhão fora disparado contra a Capital. A bala partira do Minas Gerais.

      Era a Revolta da Chibata.

      Depois de alguns dias ameaçando bombardear o Rio, os amotinados venceram. A punição pela chibata foi abolida e eles receberam anistia. Mas a traição estava preparada. Nos dias seguintes, o governo brasileiro engendrou sua vingança. Os marinheiros passaram a ser perseguidos, demitidos e presos. Assustados, reuniram-se na Ilha das Cobras para tentar se arregimentar. A Marinha aproveitou para bombardeá-los. Mais de 500 morreram no ataque. Outras centenas viram-se enviadas ao degredo na Amazônia. João Cândido foi preso com outros 17 marinheiros. Na noite de Natal, os encarceraram numa cela minúscula com o chão coberto por água e cal. Ao amanhecer, 16 homens jaziam mortos. João Cândido sobreviveu para ser encerrado em um manicômio.

      A mulher e a filha de João Cândido se suicidaram. Ele morreu em 1969. Em 24 de junho, completaria 129 anos. Na década de 70, João Bosco e Aldir Blanc teceram uma das mais belas composições da MPB em sua homenagem, O Mestre-Sala dos Mares. A ditadura militar não gostou da letra que tecia loas a um sublevado. Abaixo, a letra original, com as mudanças assinaladas:

      Há muito tempo,

      Nas águas da Guanabara,

      O dragão do mar reapareceu,

      Na figura de um bravo marinheiro,

      A quem a História não esqueceu.

      Conhecido como o Almirante Negro,

      Tinha a dignidade de um mestre-sala,

      E ao acenar pelo mar

      Na alegria das regatas,

      Foi saudado no porto

      Pelas mocinhas francesas,

      Jovens polacas

      E por batalhões de mulatas!

      Rubras cascatas

      Jorravam das costas dos negros

      Entre cantos e chibatas

      Inundando o coração

      Do pessoal do porão

      Que a exemplo do marinheiro

      Gritava: Não!

      Glória aos piratas, às mulatas,

      Às sereias!

      Glória à farofa, à cachaça,

      Às baleias!

      Glória a todas as lutas inglórias

      Que através da nossa História

      Não esquecemos jamais!

      Salve o Almirante Negro

      Que tem por monumento

      As pedras pisadas do cais

      A censura pediu mudanças, e mudanças foram feitas. Só que os censores nunca se satisfaziam. Aldir Blanc tirava as referências ao sangue, à Marinha, e nada de os censores aprovarem. Até que ele perguntou:

      – Mas o que é que vocês querem exatamente?

      E a resposta do censor, direta e lacerante como um golpe de Alípio:

      – Sabe o que é? É essa história de negro, negro, negro…

      Como se vê, existe alguma razão para os negros acalentarem traumas no Brasil.

 

* Texto publicado na página 43 da ZH dominical

Postado por David Coimbra

O primeiro dia

26 de junho de 2009 70

Lembro com nitidez do dia em que fui para a faculdade pela primeira vez. Dia importante. Significava uma passagem de nível, uma troca de condição. Era como se finalmente ingressasse na vida adulta. Lembro que, aboletado no fundão do Linha 20, partindo de ruelas sinuosas do IAPI para o Centro selvagem, sentia-me, por algum motivo, desamparado. Já na Praça XV, embarquei no, mais do que lotado, Ipiranga-PUC. Como cabia tanta gente naquele canudo de lata?

Levava debaixo do braço uma pasta preta reluzindo de nova. Dentro, um caderno de espiral deliciosamente em branco, canetas BIC e o livro que estava lendo na semana. Era Os Buddenbrooks, do Thomas Mann, que emprestei para a minha colega Rosane Aubin, e ela nunca devolveu.

Instalei-me na carteira da Famecos um tanto ansioso. Imaginava que, naquele instante, entrava no mundo do conhecimento superior. Para minha surpresa, não foi bem o que ocorreu. Nem naquele dia, nem nos seguintes. O conteúdo das aulas, de tão leve, chegava a ser etéreo. Pouco aprendi no primeiro semestre. Pensei: o segundo será melhor. Não foi. Nem os demais. Até tive alguns bons professores. Mas aquele caderno de espiral permaneceu em branco. Conteúdo não é exatamente o forte da faculdade de Jornalismo.

Esta semana mesmo, uma professora escreveu um texto com o instigante título “Jornalista diplomado aprende o quê?”. Fiquei curioso. O que será que aprendem? Fui ler. Ela explicou: “Português, filosofia, legislação, sociologia, entre outras disciplinas”, mais “técnicas específicas, como reportagem, edição, linguagens para diferentes mídias, estudos de recepção, formas de tratar um acontecimento, considerando princípios éticos”.

Não sei bem o que são “estudos de recepção”, mas entendi o que a professora quis dizer. É que tudo isso consta no currículo do curso. Só que nada disso é de fato ensinado. As faculdades de Jornalismo são um quase logro. Como, aliás, diversas outras fora das áreas técnica e científica. Ainda assim, admito: seria um jornalista pior se não tivesse cursado a faculdade. Cresci com a convivência de colegas, de profissionais que foram chamados à aula para conversar e até com a experiência de alguns professores. Fazer faculdade não transforma aluno em profissional, mas o coloca adiante de quem quer ser profissional sem fazer faculdade. Isso sendo as faculdades precárias. Fossem melhores, não seriam apenas importantes: seriam indispensáveis.

Faculdades de excelência formariam profissionais de excelência, e profissionais de excelência fazem diferença. O diploma de jornalismo não é mais obrigatório? Que a faculdade de Jornalismo se torne obrigatória, tornando-se, antes, uma faculdade que valha a delícia de um caderno de espiral em branco.

* Texto publicado na página 3 de ZH de hoje.

Postado por David

A volta de Jô — 6º capítulo

25 de junho de 2009 15

Jô permaneceu deitada. Enrodilhou-se sobre si mesma, ficou em posição fetal. Sentiu frio. Puxou o lençol. Estava confusa. Nunca havia se imaginado tão… sexual… Não podia imaginar que o desejo a dominasse tanto. Ah, lógico, sempre gostara de sexo, mas só agora, depois de ter dois filhos, depois dos 30 anos de idade, é que sentia certas… certas… certas vontades. Mais até: certas necessidades.

Tentou analisar-se. Teria sido para isso, para viver aventuras sexuais, que ela saíra para aquelas férias? Não queria acreditar nisso. Não… Ela queria apenas conhecer-se, queria apenas viver alguns dias por conta própria, sem ter ninguém para cuidar dela ou de ter quem cuidar, queria saber como se comportava em liberdade plena, era isso que queria.

Como devia proceder agora? Jô não sabia o que pensar. Não sabia o que fazer. Que situação constrangedora. Será que Maia ficara ofendida? De qualquer forma, Jô não se sentia preparada para aquilo. Para uma relação daquelas. Não por ora. Ai, Deus, Jô, em vez de se descobrir, já nem sabia mais quem era ou o que queria. Tinha de pensar, pensar…

Pensando, Jô adormeceu. Dormiu um dos sonos mais relaxantes da sua vida. Um sono sem sonhos, repousante, intenso. Quando despertou, a luminosidade do dia já invadia o quarto. Jô espreguiçou-se, sentou no colchão. Que horas seriam? Procurou a toalha com a qual saíra do banho no dia anterior. Cobriu-se com ela e escorregou para o banheiro. Lavou-se. Foi para o seu quarto. Entou num vestido curto, leve, azul-claro, e calçou sandálias brancas. Estava tensa. Como Maia se comportaria? Braba? Ofendida? Triste?

Saiu do quarto pisando devagar, meio desconfiada. Encontrou Maia no corredor. Ao contrário do que esperava, a loira enviou-lhe um sorriso sem laivos de ressentimento.

- Dormiu bem? – perguntou.

- Dormi, sim. Um sono maravilhoso.

- Nem foi para o seu quarto…

- Só de manhã.

- Então a massagem funcionou. Deixou você relaxada. Que bom!

Jô corou.

- Foi uma ótima massagem – admitiu.

- Vamos tomar café?

- Vamos.

A mesa do café estava posta, para surpresa de Jô.

- Maia, você me espanta. Você tem uma empregada invisível?

Maia sorriu.

- Tenho uma empregada, sim. Só que ela não é invisível; é discreta. Ela deixou o café pronto e agora foi ao supermercado. Vai voltar para arrumar a casa, mas acho que você não vai vê-la.

- Por quê?

- Porque quero convidar você para dar um passeio pela cidade, que tal?

Jô sorriu, aliviada. A amiga realmente não ficara nem um pouco ressentida. Assim são os amigos de verdade!

- Claro! – assentiu. – Vai ser maravilhoso.

E foi. Foram a lugares inusitados da grande cidade, fizeram compras em lojas caras, comeram em um restaurante caríssimo. No fim da tarde, Maia a arrastou para uma loja e lhe deu de presente um lindo vestido branco, de alcinhas.

- Não prova agora – disse. – Já havia escolhido para você. Sei o seu tamanho. É para você usar hoje à noite.

- Hoje à noite? O que haverá hoje à noite?

- Quero que você vá a um lugar comigo.

- Que lugar?

- Surpresa. Você vai gostar. Prometo.

Jô sentiu um arrepio lhe percorrendo a coluna vertebral. O que Maia estaria planejando? Não demorou a descobrir.

 

 

Você também não vai demorar.
Aguarde o próximo capítulo de… A volta de Jô!

Postado por David

A primeira cabeçada

24 de junho de 2009 11

O Grêmio tem de jogar para Maxi López/Diego Vara

Seu nome era Black. Georg Black. Um alemão retaco, de ombros largos e barba hirsuta, egresso de Munique, terra da deliciosa cerveja Paulaner, da mais antiga cervejaria do mundo e da Oktoberfest, lugar sobre o qual Adolf Hitler disse um dia:

— Quem não conhece Munique, não conhece a Alemanha.

Black jogou nos primórdios do Grêmio, era centromédio, seu nome consta na escalação do primeiro Gre-Nal, disputado há um século menos um mês. Foi por aquele tempo, jogando na Baixada, que Black fez o impensável: num lançamento alto para a área, ele saltou, deu um testaço na bola e mandou-a para o gol sem redes, que rede era um instrumento que não se usava ainda por aqui.

O juiz paralisou a partida. Que espécie de jogada era aquela? Nunca ninguém tinha colocado a cabeça na bola antes. Pelo menos não em gramados do Rio Grande amado.

O gol valia ou não valia? Todo mundo discutia: jogadores, torcedores, árbitros. Depois disso, Black tornou-se famoso no Estado como o homem que dava “cocadas” na bola.

Não foram muitos os cabeceadores célebres depois dele. Nos anos 40, o Grêmio contratou um argentino, Ramón Castro, que, segundo o Salim Nigri, pulava um metro mais alto do que qualquer zagueiro e cabeceava com a potência de quem chuta um tiro-de-meta. Era o herói do Salim, o Ramón Castro.

Nos anos 50, o Inter teve o seu cabeceador, um pernambucano que, não por acaso, era apelidado de Bodinho. Nos 70, surgiu no flamante Beira-Rio o grande Escurinho, que metia na bola uma cabeça ornada de cabelo black-power da altura de um chapéu de cozinheiro. Na mesma época, o Grêmio contragolpeava com Neca, que, num único ano, marcou 40 gols de cabeça.

Depois deles, os cabeceadores mais nobres da Dupla foram Jardel e Fernandão. Fernandão, diziam que Fernandão imprimia violência inusitada na bola com um golpe de cabeça porque os médicos lhe implantaram uma placa de titânio na testa. Pode ser, mas não aconselho os meninos que queiram se transformar em cabeceadores a fazer o mesmo em casa.

Agora, o Grêmio tem o argentino Maxi López. Um cabeceador de nascença, vê-se, e que joga com o 16 às costas, o mesmo número da camisa de Jardel na Libertadores de 95.

Como ocorria com Jardel nos anos 90, o Grêmio de agora tinha de jogar para Maxi López. Todo o esquema do Grêmio devia ser desenhado para que os movimentos do time culminassem em Maxi López. Maxi López, a salvação do paupérrimo Grêmio dos anos 2000. Aproveitem-no. Não é sempre que se tem no ataque um jogador da estirpe do velho Georg Black.

 

* Texto publicado na página 50 de ZH de hoje.

Postado por David

Como enganar um nenê

24 de junho de 2009 11

O Bernardo só gosta de um tipo de bico. Um bico importado. Da Inglaterra, parece, ou de algum outro país extremamente sofisticado da Europa Ocidental. Enfim, tenho um nenê exigente lá em casa.

O problema é que o bico esse não tem autonomia maior do que um ano e nove meses e, ao cabo desse período, os dois exemplares que ele tinha, puf, furaram.

Basta comprar outro, certo? Certo.

Só que aqueles bicos foram presenteados por alguém que provavelmente veio do ultramar, e agora não tem jeito de encontrar um igual.


Oferecemos vários bicos ao Bernardo, alguns quase idênticos aos que furaram, mas ele nem bota na boca, ou, se bota, logo tira, olha para o bico com nojo, faz ergh e o joga longe.

Noite dessas, quando ele já havia mamado e estava sonolento, agarrado ao seu paninho e pedindo que lhe cantasse boi, boi, boi, nós o enganamos.

A substituição foi feita em silêncio… Acenamos com o velho bico e, sem que ele percebesse, colocamos-lhe o outro entre os dentes. Assim ele dormiu tranquilo toda a noite. Vitória!

De manhã, o Bernardo acordou na penumbra do quarto e, como sempre, permaneceu alguns minutos em silêncio, de olhos abertos.

Todos os dias ele fica um pouco assim, suponho que pensando em todas as atividades que lhe esperam nas próximas horas, mamar, fazer cocô, tirar um soninho, ver os filmes do Baby Einstein ou dos Teletubies e, o mais importante, brincar.

Depois ele se sentou no berço e começou a tecer considerações sobre a existência. Falava sozinho, olhando para as paredes do quarto. Falou do papai, da mamãe, da vovó, do Bingo (o cachorro do vizinho da esquerda), do Piti (gato da vizinha da direita) e, claro, dos seus carrinhos, que ele tem 11 carrinhos.

Aí acendi a luz.

O Bernardo baixou os olhos negros para os próprios lábios. Percebeu que havia algo errado. Puxou o bico dos dentes. Olhou-o. Concluiu, surpreso:

— Bico novo!

Fez ergh.

E atirou-o longe.

Alguns reservas, por melhores que sejam, não resolvem. O Bernardo e o Inter já aprenderam isso.

* Texto publicado na página 50 de ZH de hoje.

Postado por David

A volta de Jô — 5º capítulo

23 de junho de 2009 14

Fraga

Quando Jô ficou nua, completamente nua, desamparadamente nua, um calor invadiu-lhe o peito, sua cabeça rodava, ela sabia que estava cometendo algo que talvez fosse irreversível.

- Ai, amiga… – gemeu.

Maia estava acavalada sobre ela, também nua, só que de uma nudez agressiva, não uma nudez desprotegida, como a de Jô. Porque Maia, ela própria havia se despido, e Jô, Jô não: Jô fora despida. Por Maia.

Jô estava tonta. Não sabia o que fazer. Maia esfregava-se nela. Era uma massagem quase que de corpo inteiro. Jô sentia as coxas de Maia pressionando a parte de baixo de suas coxas, sentia a aspereza suave dos pêlos pubianos de Maia roçando-lhe a pele das pernas, sentia os dedos macios e firmes de Maia fazendo pressão sobre suas nádegas, apalpando-as com sede, abrindo-as e fechando-as. Jô não queria admitir, mas sentia… prazer…

Isso, o fato de sentir prazer, de sentir até mesmo… Oh, como era difícil reconhecer!… De sentir até mesmo desejo por sua amiga, isso a estava pondo louca. Jô sempre dissera para si mesma que não tinha preconceitos contra homossexuais, mas também sempre dissera para si mesma que preferia homem. E agora… Agora quase desfalecia de prazer com o toque da linda loira montada sobre ela. Montada como se quisesse possuí-la. Como se fosse sua dona.

Mas Jô não queria! Não queria!

- Ai, meu Deus! – sussurrou.

Ao que Maia falou baixinho em seu ouvido:

- Calma… Calma…

As respirações de ambas estavam pesadas e compassadas, praticamente no mesmo ritmo. Jô tremia, suava, sentia-se molhada por dentro, sentia vontade de chorar, de gritar, de entregar-se, de sair correndo, de dizer não, de dizer sim, de dizer não, e disse, num murmúrio:

- Não…

Maia continuou, cada vez mais ousada.

- Não…

Os dedos de Maia já lhe exploravam os lugares mais recônditos.

- Não…

Então… então… a ponta úmida da língua de Maia lhe percorreu a carne do entrecoxas. Foi demais para Jô. Desta vez ela quase gritou:

- Não!

E seu tom de voz fez com que Maia parasse. A língua, as mãos, as pernas, tudo parou. Maia permaneceu acavalada sobre ela, Jô de bruços, sem vê-la, sem saber o que a amiga estava fazendo, apenas ouvindo o som da sua respiração. Jô não levantou a cabeça, não disse nada. Maia nada disse também. Ficaram assim por alguns segundos, as duas imóveis, até que Maia saiu de cima dela. Desmontou-a. Pulou fora do colchão. Parou de pé ao lado da cama. E saiu do quarto. Jô não se mexeu. Deitada de bruços, nua e resfolegante, pensava: será que fiz o certo? Será que fiz o que devia fazer? E agora? O que faço agora? Será que minha amiga ficou ofendida? Será que devia sair da casa dela e ir para um hotel? Oh, Deus, o que fazer?

 

O que Jô fez???

Saiba logo, no próximo excitante capítulo de… A volta de Jô!

Postado por David

A volta de Jô — 4º capítulo

22 de junho de 2009 8

Fraga

As mãos de Maia. Mãos de dedos longos e delgados, mãos macias mas também firmes. Mãos experientes, que sabiam e-xa-ta-men-te onde tocar.

- Aaaaah… – gemeu Jô. – Você é boa nisso…

- Sou massagista profissional.

- Aaah… Mesmo?

- Mesmo. Fiz curso e tudo mais.

- Aaaaaah…

- Vamos desmanchar essas nódoas…

- Ai… ai…

- Aqui tem um saquinho de areia…

- Ai…

- Aqui outro.

- Aaaaiii…

As mãos de Maia apertavam-lhe os músculos dos ombros, desciam pelas espáduas, percorriam a espinha dorsal habilmente, até o cóccix, e subiam de novo, serelepes como esquilinhos, e esticavam-lhe os braços, e lhe tocavam até nas pontas dos dedos. Jô sentia-se quase desfalecer. Gania baixinho.

- Oooh… Ahhh…

O aroma suave do óleo impregnava-lhe as narinas e a inebriava. Jô como que estava embriagada.

Em seguida, as mãos de Maia desceram até suas longas pernas, e Jô arrepiou-se de prazer. Aquilo era bom. Já fora massageada antes, mas não com tamanha destreza. Maia era veloz e carinhosa ao mesmo tempo. Seus dedos finos lhe tocaram as solas dos pés, galgaram o outeiro das panturrilhas, escalaram-lhe o monte sinuoso das coxas e chegaram à base das nádegas. Jô se arrepiou outra vez. O que Maia pretendia?

Jô sentia a respiração pesada. Sua cabeça rodava. Ela queria parar com aquilo e, ao mesmo tempo, queria prosseguir. Gostava daquela massagem de carícias e, ao mesmo tempo, repudiava esse sentimento. Queria e não queria, queria e não queria. O que ela queria? Não sabia…

Então, Maia removeu a toalha que lhe cobria as nádegas. Jô estava nua. Desprotegida. À mercê. A outra acavalou-se sobre suas pernas. E agora?

 

 

O que Jô devia fazer?
Saiba logo, no próximo capítulo de… A volta de Jô!

Postado por David

Beatles versus Stones

22 de junho de 2009 13

Surgiu uma pequena polêmica no Blog sobre o encontro dos Beatles com os Stones, então vou contar um pouco mais a respeito. O primeiro a identificar nos Stones um grupo com qualidade para rivalizar com os Beatles foi George Harrison, que os ouviu tocar em algum porão sujo da Velha Álbion. Esse episódio está descrito em detalhes no alentado livro de Bob Spitz, “The Beatles”, sem nenhuma dúvida a melhor obra já escrita sobre a banda, que indico vivamente para quem gosta de Beatles, e todo mundo gosta de Beatles.

Um pouco depois, em 1963, Brian Epstein levou Paul e John para o tal encontro com os Stones, que tocavam em um clube de Richmond. Foi de Epstein a ideia de os Beatles fazerem uma música para os Stones. Eles fizeram, como descrevi na coluna. Era “I wanna be your man”, que não pode ser considerada uma das composições mais inspiradas de John e Paul. Eles só ficam repetindo I wanna be your man, I wanna be your man, como se fosse música baiana.

Enfim.

“I wanna be your man” está no segundo compacto dos Stones. Um dia depois do lançamento do compacto, os Beatles, por algum motivo, a incluíram no seu LP “With the Beatles”. Mas, como Paul e John acharam a composição fraca, deram para Ringo gravar. Há filmes de Beatles e Stones cantando esse música no Youtube.

 

Versão dos Rolling Stones:

Versão dos Beatles:

Postado por David, escravo dos leitores

Eles sabem o que fazem

20 de junho de 2009 9

Acho que foi na primeira vez em que os Beatles e os Rolling Stones se encontraram, deve ter sido. Os Stones mal começavam sua carreira eterna, eram fãs dos Beatles, estavam encantados em conhecê-los. Aí Paul MacCartney e John Lennon decidiram homenageá-los. Avisaram que iam fazer uma musiquinha para seus novos amigos. E foram para um canto, levando uma folha de papel e uma caneta, e começaram a escrever.

Mick Jaegger e Keith Richards olharam, espantados. Um deles comentou:

– My God! Olha ali! I don’t believe! Eles estão fazendo uma música neste momento! Agora mesmo! E nós estamos testemunhando tudo!

Compreensível a admiração: eles assistiam ao momento sagrado da criação dos Beatles, e tudo era tão simples…

Isso na Velha Álbion. Por aqui, no lado de baixo do Equador, onde aliás não existe pecado, sucedeu o seguinte: Chico Buarque, Tom Jobim et caterva estavam numa festa na casa do Francis Hime, bebendo uísque. Era uma época de uísque na vida de Chico, Tom e Vinícius.

Mais tarde, Chico trocaria os destilados pelos fermentados, aderiu à cerveja para continuar vestindo a 9 do Politeama, o time de futebol sete dele. Politeama, por sinal, significa o seguinte, em bom grego: poli é igual a muitos; theama é igual a espetáculo. “Muitos espetáculos”, o nome do time.

Mas voltando à festa da turma: Francis Hime sentou-se ao piano e foi tirando uma melodia. Chico, parado ao lado, de pé, com um copo numa mão e uma Bic na outra, ouvia e escrevia a letra da música. Fácil assim, ouvindo e escrevendo. Só que, no meio da letra, o uísque acabou. Chico largou a caneta. Sem uísque, sem festa; sem festa, sem música. Foi-se embora e deixou a letra inacabada.

Francis Hime ficou com aquele pedaço de letra. Vez em quando, ligava para o Chico, pedia que ele concluísse a música. O Chico, nada. Preguiça, sabe como é. O tempo foi passando. Meses, anos, e a música na gaveta do Francis Hime. Um dia, Francis Hime decidiu tomar uma atitude: pediu para uma certa cantora gravar aquele naco de música e enviou a fita ao Chico, para ver se ele se animava a completá-la. O Chico ouviu a gravação:

Quando olhaste bem nos olhos meus

E o teu olhar era de adeus

Juro que não acreditei, eu te estranhei

Me debrucei sobre teu corpo e duvidei

E me arrastei e te arranhei

E me agarrei nos teus cabelos

Nos teus pelos, teu pijama

Nos teus pés, aos pés da cama…

Cara, era “Atrás da Porta”, e a voz era da Elis.

Elis sempre cantava com alma, mas essa música em especial parecia vir direto de suas entranhas, do seu pâncreas, da sua vesícula, ela chorava em meio à poesia. O Chico, ouvindo-a, obviamente se emocionou. Finalizou a canção. Com a facilidade habitual, como se estivesse ao lado do piano do Francis Hime, exatamente como Lennon & MacCartney quando foram compor para os Stones.

Por quê? Porque, para quem sabe, tudo é simples. Quem não sabe, olha e diz:

– É fácil!

Afinal, a música, o texto, o quadro, a escultura ou o gol são construídos com gestos econômicos, sem muito dispêndio de energia, quase que casualmente.

O Zé Pedro Goulart, que não é centroavante, disse, depois do jogo de quarta, que Ronaldo foi lento ao marcar o gol no Inter. Aí é que está: Ronaldo pareceu lento. Porque teve tanta capacidade para se livrar da marcação do Índio que lhe sobrou tempo para enquadrar o corpo e bater a gol da forma que mais lhe apeteceu. Ronaldo é como um Chico Buarque, é um Beatle da grande área. Simplifica tudo. E o genial é simples.

Mas agora, no dia 1º, o Inter também terá em campo alguém que sabe o que faz. Nilmar. Se Ronaldo é imbatível no logro do zagueiro e na conclusão indefensável, ninguém hoje, no Brasil, chega à bola antes de Nilmar.

Não é à toa que Inter e Corinthians estão na final. Eles têm centroavantes. E mais importante: centroavantes que sabem o que fazem.

Postado por David

Toda a sensualidade do mocotó

19 de junho de 2009 58

Uma bela mulher em frente a um prato de mocotó é uma cena profundamente sensual. Em primeiro lugar, porque sempre foram raras as mulheres que comem mocotó, e cada vez há menos delas sobre a Terra. Na verdade, a quantidade de apreciadores de mocotó, homens e mulheres, diminui dia a dia. Nem entendo como aqueles restaurantes que só servem mocotó ainda sobrevivem na cidade.

Trata-se de um fenômeno da urbe: eles começam a vender mocotó em abril e param em novembro. Sete meses, só. No resto do ano, os restaurantes permanecem fechados e seus proprietários decerto ficam se esbaldando em turnês pela Europa, alimentando-se de sutis suflês e petit gateau. Tudo por conta do velho e pastoso mocotó.

Que aproveitem, pois não será eternamente assim. O mocotó está em extinção, como o mico-leão-dourado e a onça-pintada. Porque as pessoas agora não comem mais mocotó, ou feijoada, ou torta de bolacha. Não. Elas ingerem proteínas, carboidratos, glicose. Elas se nutrem, entende? Lá vêm elas com aquelas chicórias, aqueles grãos-de-bico, bifinhos na chapa, refrigerantes dietéticos. Ah, elas só querem saber de pilates e de dormir depois da novela, elas vão ao terapeuta e correm na rua às oito da manhã. Cristo, há quem jante barras de cereal!

Agora pergunto: isso é vida? A vida sem fritura é uma vida que valha a pena ser vivida???

Essas pessoas, essas que têm ojeriza ao mocotó, elas são capazes de se aventurar? Não estou falando de pular de paraquedas ou de fazer rafting. Nada de aventura assistida. Estou falando das pequenas loucuras que podem ser cometidas no trivial dos dias, da fuga do trabalho no meio da tarde para uma cerveja à margem do rio, do sexo pecaminoso com a loira do sétimo andar, do filme às quatro da madrugada, de comer mocotó com vinho no almoço de quarta-feira, é disso que estou falando!

Eis por que uma bela mulher diante de um prato fumegante de mocotó é, mais até do que sensual, terno, meigo, romântico, é bucólico. Ela, linda, primaveril, fresca como uma manhã de maio, ela uma imperatriz, ela uma sílfide, ela e seu mocotó estão gritando que ali está uma mulher que não teme a vida, uma mulher capaz de rir de uma piada, que topa uma viagem planejada 15 minutos atrás, uma mulher que talvez até jogue palitinho, embora eu bem saiba que jogar palitinho talvez seja pedir demais.

É isso que é importante, é nisso que penso nesse inverno de rigores. Que a extinção do mocotó é o símbolo de uma sociedade bem-comportada, tão bem-comportada, que se torna incapaz de mastigar a fatia mais saborosa da vida, que é a da fruição do pecado, só possível se o homem tiver a grandeza de perdoar o erro, de esquecer a falha, de conviver com a diferença, de experimentar a novidade. Só possível se existir no peito a qualidade que transforma um conjunto de seres humanos em civilização: a tolerância. Um prato de mocotó é também um prato transbordante de tolerância.

* Texto publicado na página 3 de ZH de hoje.

Postado por David Coimbra

A volta de Jô — 3º capítulo

18 de junho de 2009 14

Fraga

- Você está loira! – admirou-se Maia.

- Quase, quase… – riu Jô. - Só umas luzes…

- Parecida comigo!

- Nem tanto! Se eu tivesse toda essa exuberância…

- Ai, amiga – Maia puxou-a pelo ombro e a abraçou. – Você é tão linda!

Assim abraçadas saíram do aeroporto. Maia a conduziu até seu carro, uma enorme caminhonete preta, que, pelos cálculos de Jô, devia custar algo como um apartamento de três quartos. Jô não sabia nem qual era a marca do carrão.
Quando chegaram ao belo apartamento de Maia, Aninha e a filha já estavam esperando. O dia foi aprazível para as três amigas e o nenê. Elas almoçaram, conversaram, brincaram com o nenê, tomaram chá com bolo, conversaram, brincaram com o nenê, riram, quase choraram juntas, trocaram as fraldas do nenê. Tudo muito cândido, tudo muito puro.

Até o sol desaparecer.

À medida que a noite foi se estendendo sobre a grande metrópole, o clima mudou no apartamento de Maia. Aninha e o nenê foram embora. Jô e Maia ficaram conversando por mais algum tempo, até que Jô decidiu tomar um banho. Foi um longo banho, de banheira, com direito a sais e tudo mais. Ao sair do banheiro, envolta numa toalha, ela deparou com Maia na mesma situação, a loira também apenas coberta por uma toalha, também recém-saída do banho, sorrindo.

- Você está cansada da viagem? – perguntou-lhe Maia e, antes que Jô respondesse, apresentou-lhe um vidrinho de óleo que levava na mão direita: - Que tal uma massagem?

Jô sorriu, hesitante. Lembrou-se do dia em que Maia lhe beijou a boca, as duas na Praia da Gamboa. Sentiu certo formigamento nas virilhas, a tensão lhe comprimindo o peito. Não estava em seus planos ter um relacionamento homossexual, de jeito nenhum, mas também não queria ofender a amiga com uma recusa infantil, como se estivesse fugindo dela. Afinal, Maia era tão doce, tão querida, tão gentil, tão boa, tão…

Suspirou.

Será que devia aceitar o convite?

Ponderou: se Maia ultrapassasse o sinal, ela protestaria. Com jeito, mas protestaria.

- Tudo bem – topou.

Maia abriu o sorriso.

- Vem comigo – tomou-a pela mão. Levou-a até um quarto que Jô ainda não conhecia.

- É meu quarto de relaxamento – informou. – Aqui eu faço massagens, tenho uma sauna, uma banheira de hidro…

- Que maravilha – admirou-se Jô.

Maia estendeu a mão em direção à cama:

- Deita.

Jô obedeceu. Deitou-se de bruços. Acomodou a toalha sobre as nádegas. Maia ajoelhou-se ao lado. Jô ficou imaginando se a amiga estaria nua. Provavelmente estava. Provavelmente ela deixara a toalha escorregar para o colchão. Aquilo a perturbava. Sentiu o toque das mãos da loira em suas costas. Ela começava a espalhar o óleo. Jô estremeceu. De medo? De prazer? Não sabia identificar o que sentia, mas estava sentindo algo poderoso.

 

Como aquilo acabaria? Como acabou?
Saiba logo, no próximo capítulo de A volta de Jô!

Postado por David

A volta de Jô — 2º capítulo

17 de junho de 2009 19

Fraga

Ser uma vagabunda, uma vaca, uma cachorra por um único dia, sem que ninguém soubesse, sem que ninguém descobrisse, uma aventura completamente segura. Completamente segura… Jô estaria em um lugar onde ninguém a conhecesse, e estaria protegida por uma máscara, talvez até por uma peruca loira. Entregar-se-ia à volúpia dos homens, que a possuiriam com fome, sem nem sequer saber seu nome, sem saber quem ela era, o que sentia ou pensava. O sexo pelo sexo. Apenas o corpo. O desejo em sua forma mais pura.

Era o que propunha sua amiga Maia e era o que atraía Jô. Mas ela não tinha coragem. A moral que seus pais lhe incutiram, sua educação formal, religiosa, pequeno burguesa, comportada não permitia que pensasse em si própria como uma meretriz, mesmo que fosse por um só dia. Ainda assim, Jô admitia que era excitante a ideia de que seu corpo despertava o desejo animal dos homens. Mas não podia fazer aquilo. Não podia! Foi o que disse para Maia ao telefone.

- Não posso, amiga. Não conseguiria fazer isso.

- Covarde… – Maia riu.

- Covarde mesmo, admito.

- Então, ao menos vem me visitar. Estou com saudade de você. Que tal passar uns dias aqui, comigo. Você vai rever a Aninha…

Aninha era a amiga que Jô levara para viver em São Paulo, aos cuidados de Maia. Quando Jô voltou para Porto Alegre, Aninha estava grávida. O nenê já havia nascido e Jô ainda não o vira.

- Como ela está?

- Está morando aqui pertinho. Está trabalhando de secretária em uma locadora de automóveis. A filhinha dela é a coisa mais linda. Você tem que vir aqui ver!

- Ah, isso é verdade… Talvez eu vá aí para isso… Mas só para isso!

- Vem, por favor, vem…

Jô desligou prometendo que iria. Por que não? Umas férias em São Paulo… Talvez até, quando voltasse a Porto Alegre, a chama do seu casamento se reacendesse. Quem sabe?

Naquela noite mesmo, comunicou ao marido que iria a São Paulo para ver suas amigas. Não pediu permissão; não era mulher de pedir permissão. Comunicou. Ele não gostou, mas também não falou nada. Desde a viagem dela, no ano anterior, Fábio sentia medo de perdê-la. Um homem, quando teme perder a mulher, esse homem começa por se angustiar, e se a angústia não passa logo, ele se enerva, e se continua a angústia, ele se desespera, e logo está se humilhando, logo ele se torna um verme.

Fábio estava prestes a se tornar um verme. Estava prestes a rastejar. Porque olhava para sua jovem mulher e a via cada vez mais linda, cada vez mais desejável. Sabia que os outros homens a queriam, percebia os olhares compridos deles, percebia o quanto a respiração deles se alterava quando a viam, sabia de tudo isso. Por isso sofria. Um verme. Era nisso que se transformaria em pouco tempo. Portanto, não estava em condições de protestar.

Fábio, a princípio, ficou amuado. Depois, nos dias seguintes, enquanto ela se preparava para a viagem, ele amoleceu. Virou um cachorro pidão, um mero chantagista sentimental. Isso fez despertar certo laivo de desprezo no peito de Jô. Não muito desprezo. Um pouco, só. Mas o suficiente para ela querer partir o quanto antes.

E Jô partiu. Desta vez, não de carro. Via aérea. Chegou a São Paulo e sua amiga Maia a esperava no aeroporto. A loira estava linda. Jô a admirou. Lembrou-se do beijo que trocaram certa vez, na praia, e estremeceu. O que aquelas férias lhe reservariam? Isso descobriria em seguida.

 

E agora, o que aconteceria nesta viagem?

Saiba no próximo capítulo de A volta de Jô!!!

Postado por David