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Posts de julho 2009

Saturação

31 de julho de 2009 68

Não aguento mais esses caras. Todos eles. Precisávamos fazer alguma coisa. Nós precisávamos. Nós, que digo, somos nós contribuintes, eleitores, trabalhadores. Nós “povo”. Para começar, vamos extinguir o Senado. Podemos fazer isso.

Direi como.

Antes, faz-se necessário sublinhar que o Senado não é o único culpado pela minha saturação, que, suponho, seja a nossa saturação. A culpa cai sobre o Legislativo inteiro, do vereador verdureiro de um povoado do Tocantins ao nababo que se elegeu deputado federal por São Paulo a golpes de euros. Os parlamentares, enfim, eles com suas barganhas espúrias, com suas viagens de turismo patrocinadas pelas burras do Estado. Com sua demagogia.

Mas não só os parlamentares. O Executivo também. Sobretudo o governo federal, que intumesce os quadros do funcionalismo para se eternizar no poder, que tolera e acalenta corruptos, que faz caridade com o dinheiro dos impostos. E também o governo estadual, com suas escolas de lata. E o municipal, com sua letargia crônica.

O Judiciário, ainda que seja menos devassável, não é menos reprovável, com seus palácios de mármore e seu nepotismo figadal.

Executivo, Legislativo, Judiciário. Se nenhuma peça funciona como devia, o defeito está no sistema. Nosso estilo de democracia não funcionou, temos que admitir. Esse modelo, baseado no norte-americano, teria de ser trocado. Mantendo-se a democracia, claro, mas de outro tipo. Um rodízio de governantes, como na Suíça. Parlamentares não remunerados talvez não fosse boa ideia… Sei lá. Sei que é preciso mudar.

Mas não vai mudar, se não fizermos nada. Por isso, a extinção do Senado. Vamos tomá-lo como um símbolo. Vamos fechá-lo para sempre e adotar o unicameralismo, que existe em tantas nações.

Como fazer? Assim: não vote para senador nas próximas eleições. Peça a seus familiares, a seus amigos, a seus colegas, peça a quem você encontrar na rua que não vote para senador. Espalhe essa mensagem pela internet, cole adesivos nos vidros do seu carro, grite que você se recusa a votar para senador. Em qualquer senador.

Os senadores dignos, que há senadores dignos, como há homens dignos em todos os três poderes putrefatos, pois esses senadores dignos deveriam tomar a peito a campanha. Deveriam renunciar. Um Cristovam Buarque, um Eduardo Suplicy, eles deveriam subir à tribuna e, num gesto grandioso, desistir do mandato em nome do povo brasileiro. Os nossos senadores, Simon, Paim e Zambiasi, homens sérios, tinham de fazer o mesmo. Que as cadeiras do Rio Grande do Sul fiquem vazias no Senado. Que nenhum gaúcho, nenhum brasileiro vote para senador nas próximas eleições. Para gritar a nossa indignação, vamos fechar aquele lugar. Vamos acabar com os senadores. Ou, pelo menos, cobri-los de vergonha.

* Texto publicado hoje na página 2 de Zero Hora.

Postado por David

Como fugir do quartel

30 de julho de 2009 1

Marcos Nagelstein, Banco de Dados ZH

Um ouvinte do Pretinho Básico pediu ajuda:

“Sexta-feira vou me apresentar ao quartel. Queria uma dicas do que fazer para não pegar o exército?”

Quer saber o que fazer para fugir do quartel? Clica aí para descobrir!

 

Se não estiver vendo o player, clique aqui.

Postado por David

De volta

29 de julho de 2009 18

Pessoal, foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que, tudo bem, ela voltará.

Sim, ela: Jô!

Suas novas aventuras começarão em breve. Aguarde.

Enquanto isso, reveja as belas ilustrações que o Fraga fez sobre nossa heroína.

Postado por David

Fazia tanto frio

29 de julho de 2009 11

Ilustração: Fraga

Vi um Fusca, uma vez, e esse Fusca estava estacionado junto ao meio-fio de uma pequena rua de Breckenridge, cidadezinha do Colorado. Colorado, manja? Um daqueles estados perfeitamente retangulares do Grande Irmão do Norte. É lá que ficam as Montanhas Rochosas. Um lugar frio, cheio de neve, em que as pessoas vão para esquiar. A capital do Colorado é Denver, mas me hospedei nessa Breckenridge. Foi onde vi o tal Fusca.

Era um Fusca azul. Alguém o havia deixado em frente ao resort em que fiquei. À noitinha, antes de ir para o resort, olhei para aquele Fusca parado bem ali, a alguns metros do hotel. Aí entrei e não pensei mais no Fusca. Uma noite inteira se passou. De manhã, nós, eu e os outros jornalistas, íamos sair para esquiar. Ou para tentar esquiar. O nosso instrutor, um americano grande, vermelho e de camisa xadrez, advertiu:

— Well, alimentem-se bem no breakfast, que vamos gastar muita energy nesta morning.

Obedeci. Tinha um prato com linguiça e bacon no café da manhã. Linguiça e bacon fritos em bastante óleo. Comi. Tinha panqueca com melado. Uma panqueca espessa e um melado igualmente espesso. Comi também. E ainda pão com manteiga e queijo. E um bolo de chocolate. Tudo isso com café, claro. Saí do hotel reluzente de energia, pronto para uma boa esquiada.

Aí vi o Fusca.

Ou, melhor: não vi. Em vez do Fusca, havia um monte de gelo. A neve que caíra à noite cobrira o Fusca completamente. Foi então que pensei: cara, nesse lugar faz muito frio. Sim, pensei isso, mas continuei me recusando a vestir cuecões. Meus colegas jornalistas todos saíam com cuecões por baixo das calças e eu balançava a cabeça e dizia:

— Não, rapaz, não sou o tipo de homem que usa cuecões.

Naquele mesmo dia, ao entardecer, eu andava sozinho pelas ruas de Breckenridge, e, de repente, o sol não caiu; despencou. Em um minuto era dia; no outro, noite. Com a noite, o frio tornou-se agudo como um ponta-esquerda dos anos 70. Sentia-me enregelar. Lembrei-me das histórias da Operação Barbarossa, a invasão da União Soviética pelo exército de Hitler em 1941. Os alemães enfrentaram um dos piores invernos russos. O combustível congelava nos tanques. Narizes e orelhas endureciam e quebravam. Se o soldado fosse urinar, o pênis congelava e, crec, partia ao meio.

Não pretendia urinar numa rua de Breckenridge, mas percebi que as calças jeans não ofereciam proteção suficiente contra o frio que começava a sentir. O frio subia-me pelos pés e repuxava-me os músculos das pernas. Lamentei a minha postura diante dos cuecões. Qual era o problema de um simples cuecão, afinal? Imaginei se em algum dia alguém teve o pênis quebrado pelo frio de Breckenridge. Pensar naquela possibilidade não me fazia bem, realmente. Além disso, na pior das hipóteses a ponta do meu nariz ou os lóbulos das minhas orelhas poderiam se partir. Cristo!

A salvação foi um bar que avistei no meio da quadra. Empurrei as portas de vai-e-vem e entrei. Tocava música country. Havia homens encostados no balcão. Eles bebiam em silêncio. Colocavam um maço de dólares no balcão, diante deles, e pediam drinques. O garçom apenas tirava o correspondente ao preço da bebida e botava o troco junto ao maço. Fiz o mesmo. Depositei alguns dólares na minha frente e pedi:

— Um bourbon, plis.

Então pensei mais uma vez sobre todo aquele frio. Há quem diga que no Rio Grande do Sul é que se sente frio. Que até os russos reclamam do frio gaúcho. Por favor! Temos essa mania de exaltação. O mais lindo pôr-do-sol do mundo, como se o sol não se pusesse em todos os lugares, todos os dias, com exceção, talvez, da Groenlândia. A cidade mais politizada do Brasil, com Getúlios Vargas e Oswaldos Aranhas discursando em cada Câmara de Vereadores vulgar. As mais belas mulheres do planeta, onde as Giseles Bündechens e as Alessandras Ambrósios são pingentes de ônibus. Francamente! Só há uma valência na qual o Rio Grande do Sul é de fato insuperável. Em nenhum outro lugar do mundo, a desgraça do adversário alegra tanto o torcedor como na relação entre os apaixonados da Dupla Gre-Nal. Ninguém detesta e teme um rival como um gaúcho.

* Texto publicado hoje na página 42 de Zero Hora.

Postado por David

Piada sobre sogra

28 de julho de 2009 5

Uma piada rápida e rasteira nesse final de tarde…

 

Postado por David

Ela fazia tudo e em todos os sentidos

27 de julho de 2009 7

Olha só a carta da Ana Paula Alves Jardim que foi lida no Pretinho Básico na semana passada:

“Namorava há um ano com um rapaz que entrou namminha vida no pior momento no momento dela, que foi quando perdi meu pai. Ele esteve no meu lado e foi me conquistando aos poucos e eu, completamente apaixonada por ele, fazia TUDO o que ele queria em TODOS os sentidos

 

Quer escutar os melhores momentos? Então clica aí para descobrir!

Postado por David

Café TVCOM

27 de julho de 2009 3

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

 

Confere aí:

Postado por David

As Meninas e as meninas

26 de julho de 2009 1

Joana (à esquerda) e Júlia, ambas de sete anos, diante das “Meninas” de Renoir: Júlia era Rosa, Joana, Azul/Ricardo Chaves

Fazia frio na quinta-feira, quando, munidas de casaco, capuz e as respectivas mães, as colegas de aula Joana Celeste e Júlia Coelho, ambas de sete anos, esperavam pacientemente a hora de entrar no Margs. Foi então que viram, no alto da parede do museu, um pôster de Rosa e Azul. Olhando de longe, as meninas de Porto Alegre não se empolgaram com As Meninas de Renoir.

Cerca de 20 minutos depois, um novo encontro, agora cara a cara.

– Parecem de verdade – comentou Júlia.

—– Elas ficam bem bonitas de pertinho — avaliou Joana. — Parecem com colegas da minha escola antiga. A loirinha parece a Roberta.

Júlia e Joana também concordaram que as meninas de Renoir, antes de posar para o quadro, deviam estar numa festa – daí estarem tão arrumadas. A dupla também gostou de A Creche, de Henry Geoffroy.

— Eu seria aquele bebê ali, no colo — apontou Joana.

Ao fim, escolheram em que parede da casa pendurariam esses dois quadros. E então, ainda diante das Meninas, chegaram a um consenso importante: Júlia era Rosa, Joana, Azul.

Tiradas de mestres
- MONET era um adepto da pintura que retratava cenas ao ar livre. Sobretudo de paisagens em que houvesse água. Chegou a montar seu estúdio em um barco sobre o Sena e ali desenvolveu a técnica de reproduzir as impressões que a luz causava ao incidir na superfície do rio. Essa maestria pode ser admirada no quadro exposto no Margs, A Canoa sobre o Epte, de 1890.
- MODIGLIANI pintava retratos. Um dos que estão expostos no Margs é o Retrato de Léopold Zborowski, um polonês a quem o artista chamava de Zbo. Foi esse Zbo um dos grandes responsáveis pelo sucesso de Modigliani. Enquanto o artista pintava ou bebia, e ele pintava muito e bebia ainda mais, Zbo saía com seus quadros debaixo do braço, procurava os marchands de Paris e tentava convencê-los de que valia a pena investir na obra de seu amigo italiano.
- PICASSO sempre aplicava a mesma cantada nas mulheres. Com voz cava, ele ronronava:
– Sabia que a pintei antes mesmo de conhecê-la? Andando pela rua, ninguém nunca disse que você parece uma pintura de Picasso?
Funcionava. Picasso somou uma dúzia de mulheres importantes na vida e algumas centenas de outras nem tão importantes assim. Pintava quase todas – é autor de mais de 20 mil obras. Uma delas,Toalete, reproduz a imagem de Fernande, sua primeira mulher e, talvez, o seu maior amor. Agora está ali no Margs, à disposição até de quem nunca tem uma boa cantada à mão.

Arte na França
- Em cartaz até 30 de agosto. Aberta à visitação de terças a domingos, das 10h às 19h.
- Margs (Praça da Alfândega, s/nº), fone: (51) 3227-2311.
- Ingresso: um quilo de alimento não-perecível ou um agasalho.

* Texto publicado na página 5 de Zero Hora Dominical.

Postado por David

Por trás dos quadros

26 de julho de 2009 2

Um passeio pela exposição “Arte na França 1860 – 1960: O Realismo”, em cartaz no Margs, na CapitalEssa mesma figura retratada por Van Gogh que milhares de porto-alegrenses ora contemplam no Margs, na Praça da Alfândega, exatamente a mesma figura de olhar algo enfarado e queixo apoiado no punho que o genial pintor holandês intitulou de A Arlesiana, precisamente a mesma figura foi também contemplada por Henri Matisse, há 110 anos. Na época, Matisse tinha 30 anos de idade, mas ainda vivia da mesada do pai. Queria se transformar em pintor bem-sucedido e procurava um mestre que lhe servisse de modelo. Uma tarde, entrou na galeria de Ambroise Vollard, em Paris, e deparou com a Arlesiana. Apaixonou-se. Perguntou quanto custava o quadro. Vollard respondeu que eram 500 francos. Matisse pediu que o marchand lhe reservasse a pintura, saiu para arregimentar recursos paternos e voltou dois dias depois com o dinheiro contado. O dono da galeria, porém, havia aumentado o preço para 900 francos. Decepcionado, Matisse vagou pela galeria à procura de outras obras. Encontrou Três Banhistas, de Cézanne, e trocou de amor. Resolveu que seria Cézanne, e não Van Gogh, quem iria lhe servir de guia.

A Arlesiana iria aumentar bastante de preço no futuro. Três anos atrás, em 2006, uma Arlesiana foi leiloada na Casa Christie’s, de Nova York, por US$ 40 milhões. A modelo desta série de quadros era a dona de um café frequentado por Van Gogh e seu amigo Paul Gauguin, quando eles moravam juntos em Arles, no sul da França, antes de Van Gogh se irritar com Gauguin e tentar esfaqueá-lo, antes de Van Gogh decepar a própria orelha e, obviamente, antes de Van Gogh se suicidar com um tiro. Um dia, Gauguin rabiscou o desenho da madame parada junto ao balcão, esperando os fregueses, levemente aborrecida. Van Gogh gostou e usou o desenho para várias de suas pinturas até morrer, meses depois.

A Arlesiana que está à disposição dos porto-alegrenses pertence ao acervo do Museu de Arte de São Paulo, o Masp. Assim como um quadro que Matisse pintou 20 anos após ter trocado Van Gogh por Cézanne. É O Torso de Gesso, igualmente à mercê dos olhares gaúchos, que corresponde a uma fase mais avançada de Matisse. Ele já havia encontrado seu rumo e já dispunha de segurança sobre o que fazia. Nesse tempo, durante uma exposição, uma senhora comentou acerca de um quadro seu:

— Nunca vi uma mulher de barriga verde…

Matisse rebateu:

— Minha senhora, isso não é uma mulher; é uma pintura.

O ídolo de Matisse, Paul Cézanne, é outro que se encontra à mão de qualquer incauto que estiver trocando pernas pelo Centro e resolver cruzar por debaixo dos jacarandás da praça, até o outro lado do Largo dos Medeiros. Lá está, pendurado em uma das paredes do museu, Madame Cézanne em Vermelho. Volta e meia Cézanne fazia de modelos a própria mulher, Hortense Fiquet, e o filho Paul. Eles se quedavam horas posando, estáticos, e quando enfim se mexiam Cézanne se irritava:

— Por que você se mexe? Uma maçã, por acaso, se mexe???

Quem galgar as escadarias do museu da Praça da Alfândega e se dispuser a examinar bem o quadro de Cézanne lá exposto conseguirá divisar, no olhar oblíquo de Hortense Fiquet, um pouco do tédio conformado que ela deve ter sentido ao posar para o seu exigente e genial marido.

Nenhum dos personagens dessa história acha-se a salvo do crivo do gaúcho amante (ou não) das artes plásticas. Paul Gauguin, o amigo dileto de Van Gogh, também passa uma temporada às margens do Guaíba, representado pelo quadro Pobre Pescador. Esse quadro Gauguin pintou com conhecimento de causa. Ele viveu entre os pescadores do Taiti, que chamava de “a terra deliciosa, a terra perfumada”, e os da Bretanha, que o apelidaram de “O Selvagem”. Uma adequada definição desse homem que atravessou a existência inquieto, em busca da forma mais autêntica de se expressar, sem jamais aceitar a resignação do conforto, tanto que, aos 35 anos de idade, casado, com cinco filhos e um bom emprego, decidiu largar tudo para se dedicar à arte. Não foi uma opção fácil, como ele mesmo relatou mais tarde:

— Conheci a miséria extrema, o que significa passar fome e tudo que se lhe segue. Isso não é nada, ou quase nada. A gente se acostuma e, tendo boa vontade, pode até rir disso. (…) Com muito orgulho, acabei por conseguir bastante energia. Eu quis querer.

Gauguin quis querer. Isso diz tudo. Todos esses gênios da pintura que se apresentam ao porto-alegrense comum, hoje, no Margs, quiseram querer. Transformaram-se em artistas por necessidade, sim, mas principalmente por opção. Sacrificaram-se por isso. Sofreram por isso. E agora estão aqui. Ao alcance da mão. Ou, pelo menos, do mais curto olhar.

* Texto publicado na página 4 de Zero Hora Dominical.

Postado por David

A mordida do Drácula

26 de julho de 2009 0

Ítalo, nove anos, comenta sobre “O Torso de Gesso”: “Tenho um probleminha com estátuas sem cabeça, mas dessa vez gostei”/Ricardo Chaves

Ítalo Dessimon, nove anos, não lembrava bem, mas aquele dia no Margs não era a primeira vez em que visitava um “museu de quadros”. Lá, teceu considerações a respeito das obras.

Diante de A Creche, de Henry Geoffroy, em que um bebê dorme no berço, ele viu uma manchinha no pescoço da criança e perguntou para a mãe:

— Ele foi mordido pelo Drácula?

O próximo quadro em análise tinha figuras borradas – porque o autor não fazia questão de identificar os personagens, explicou a avó. Ítalo tinha outra hipótese:

— É para não ficar difícil de fazer…

Seguiu atento a outras obras e suas datas, e então chegou a Rosa e Azul, de Renoir. Observou que a menor das meninas estava com cara de choro. Parou, pensou e completou:

— Em quase todos os quadros que vi as pessoas parecem que vão chorar.

Frente a O Torso de Gesso, sorriu:

— Tenho um probleminha com estátuas sem cabeça, mas dessa vez gostei.

* Texto publicado na página 4 de Zero Hora Dominical.

Postado por David

Pudim de leite condensado

25 de julho de 2009 18


Cheguei a um restaurante para almoçar, sexta-feira passada, e vi que em cima do balcão das sobremesas havia uma travessa com pudim de leite condensado. Fiquei feliz. Sou um adepto ardoroso de pudins de leite condensado. Sentei-me à mesa, cumprimentei os amigos que me esperavam e pensei: cara, depois do almoço vou comer uma boa fatia daquele pudim de leite condensado, e vai ser bem legal.

Começamos a conversar. Éramos eu, o Degô, o Professor Juninho e o Fabiano Monstro. O Fabiano Monstro tem o tamanho e a força de um urso. No verão, em Floripa, ele pegava duas mulheres na piscina, não duas mulheres pequenas, duas king size, e as levantava acima da cabeça, uma em cada mão, e as atirava para o alto, dois metros em direção ao firmamento. Elas caíam na água gritando:

– Urruuuuuuuuuuu!

Mulheres gostam de gritar urru.

Quem olha para o Fabiano Monstro, se assusta. Em vão. Ele tem um coração de avozinha. É por isso que as mulheres o chamam de… Fabi.

Foi o Fabi quem comentou, em meio ao almoço:

– Aquele pudim de leite condensado parece realmente muito bom.

Aí passamos a falar de pudim de leite condensado. Contei a velha história do meu amigo Élder Olgliari, para quem as quatro melhores coisas na vida são, pela ordem:

1. Pudim de leite condensado.

2. Gol do Grêmio.

3. O doce sabor da vingança.

4. Mulher.

Houve debate a respeito. Um, um único, disse que melhor do que pudim de leite condensado era mulher, outros que o melhor era um gol em Gre-Nal. O doce sabor da vingança não teve votos. Na mesa ao lado havia um sujeito branquicela, de cabelo amarelo e carapinhado, e com uma baita cara de padre. Estava sozinho, e percebi que prestava atenção na conversa.

Bem. Continuamos a falar a respeito das delícias do pudim de leite condensado. Aí o Professor Juninho e o Degô, mais adiantados do que eu no almoço, levantaram-se anunciando que iam buscar a sobremesa. Foram. Voltaram com luzidias porções de pudim de leite condensado. Eu já estava no fim dos meus torféis cremosos por fora e crocantes por dentro, mas parei de comer para observar como eles reagiriam ao primeiro naco de pudim de leite condensado. Levaram as colheres à boca quase ao mesmo tempo. Respiraram fundo. Sorriram, ambos.

– Hmmmmmm… – gemeram em coro, como se fossem Anonymus Gourmets.

Pisquei:

– Está tão bom assim?

– Melhor do que gol em Gre-Nal – testemunhou o gremista Degô.

– Muito melhor – concordou o colorado Juninho.

O Fabiano se ergueu:

– Vou lá buscar um para mim!

Foi-se. Concentrei-me nos torféis.

O Fabiano voltou de lá avisando:

– O pudim vai acabar!

Faltava pouco para terminar meu prato. Fui em frente nas garfadas, com afinco e denodo. Nisso, o Fabiano, degustando um pedaço cremoso de pudim, exclamou:

– Fan! Tás! Ti! Co! Melhor do que gol em Gre-Nal!

Engoli o último torfel às pressas. Mas, antes que levantasse, o sujeito da mesa ao lado arrastou sua cadeira e pôs-se a caminhar na direção das sobremesas. Deu-me uma aflição. Empurrei o prato para o meio da mesa e fui atrás. Quando cheguei às sobremesas, analisei a situação: havia arroz-doce, havia sagu com creme, havia torta de nozes, havia cheesecake, havia ambrosia, havia musse de chocolate. E havia pudim de leite condensado. Uma última e exígua, porém aparentemente saborosa, fatia de pudim de leite condensado. O vizinho da nossa mesa posicionou-se estrategicamente diante da travessa de pudim de leite condensado, que por sua vez se encontrava no centro da mesa de sobremesas. Quer dizer: ele, e só ele naquele momento, podia escolher a sobremesa que bem entendesse, sem que ninguém pudesse fazer nada para evitar.

Ele ficou olhando para o pudim. Olhava bem para o pudim, com uma tigela na mão. Eu, com a minha tigela, olhava para ele. Tentei usar a força do pensamento positivo. Disse, de mim para mim: “Não pega o pudim, não pega o pudim, não pega o pudim!” Ele se debruçou em direção ao pudim. Senti um aperto no peito. Ia gritar:

– Não toque nesse pudim, seu desgraçado!

Mas não gritei. Fiquei na expectativa. Dei-lhe mais uma chance. Ele balançou o corpo para um lado. Para outro. Esticou o braço para a mesa. Para o pudim! Pensei em sussurrar no ouvido dele, entre dentes:

– Se tocar no pudim, morre!

Mas não sussurrei. O freio de 12 mil anos de Civilização foi mais forte em mim. Só que pela terceira vez ele fez um movimento rumo ao pudim. Estendeu o braço. Tomou a colher da travessa do pudim. Ia pegar o derradeiro pedaço de pudim! Aí não suportei. Rugi:

– Gr!

Só isso. Gr! Mas ele parou. Ficou teso, com a colher suspensa no ar, expectante. Senti o medo que emanava de suas espáduas. Ele pressentiu que vivia um momento decisivo. Que algo poderia ocorrer, dependendo de sua atitude. Então, ele, devagar, bem devagar, levou a colher do pudim devolta à travessa. Depositou-a ao lado da fatia, sem capturá-la. E, em seguida, muniu-se de um sagu vulgar. Voltei para a mesa sorridente e vitorioso. Não ia perder um pudim que valia mais do que um gol em Gre-Nal.

Postado por David Coimbra

Nua no rio

24 de julho de 2009 6

Um dia, o imperador Napoleão III entrou cheio de pompa imperial numa exposição semelhante a essa que se encontra aqui em Porto Alegre, no Margs, e deparou com uma pintura de Gustave Courbet. Ficou tão irritado com o que viu que chicoteou a tela, provocando tremor e espanto no entorno. Napoleão III, sobrinho do grande Napoleão, dava-se ares de entendedor de arte. Provavelmente considerou a pintura de Courbet pornográfica: uma camponesa emerge nua das águas escuras de um rio. Tem a pele rosada e os cabelos castanhos em desalinho. Cruza os braços acima da cabeça, gesto que lhe empina os seios fartos, porém rijos, e deixa-lhe à mostra um suave, quase diáfano, tufo de pelos sob as axilas.

A reação do imperador teve dois efeitos. O primeiro: consagrou Courbet como um artista maldito – em alguns cafés refinados de Paris, os proprietários dos estabelecimentos colaram cartazes nas paredes solicitando aos fregueses que não discutissem Courbet no recinto. Por outro lado, e esse foi o segundo efeito do escândalo, o pintor se tornou popular. Converteu-se em ídolo dos impressionistas, que tentavam imitá-lo, a despeito da má vontade da crítica. Quando algumas de suas obras foram rejeitadas pela Exposição Universal de 1855, Courbet decidiu ousar. Organizou sua própria exposição, a primeira mostra individual da pintura francesa, com um detalhe ainda mais inovador: a cobrança de ingresso. Nunca antes na história daquele país um pintor havia cobrado entrada para que seus quadros fossem admirados pelo público.

Existem fotos de Courbet, além de seus autorretratos. Era um homem robusto, enérgico, de barba espessa e negra. Gostava de vinho e de mulheres, o que indica que devia ser boa pessoa. Mantinha casos com as modelos que posavam para seus quadros, vários casos, com várias modelos, o que justificava com uma frase preciosa:

– Não se pode pintar mulheres quando se conhece apenas uma.

Courbet era muito amigo do poeta Baudelaire, que, como ele, também era maldito e também amava as mulheres e o vinho. Baudelaire dizia que o homem que só bebe água tem algo a esconder e, sobre as mulheres, cunhou a seguinte máxima:

“Amar mulheres inteligentes é um prazer de pederasta”.

Baudelaire também devia ser boa pessoa. Mas, fisicamente, era o oposto de Courbet. Baudelaire tinha um aspecto frágil e delicado. Courbet o retratou numa pintura interessantíssima. O poeta lê um livro apoiado à borda de uma mesa de madeira. Na mesa há uma pena fincada em um tinteiro. Baudelaire está sentado, concentrado na leitura e, em sua face, insinua-se um leve rubor de menino, de guri de apartamento, de poeta, enfim. Um gozador, esse Courbet. Há duas telas dele expostas no Margs, ali na Praça da Alfândega. Retratos de suas irmãs. Parei diante deles, num sábado desses, e imaginei que Napoleão III também os contemplou um dia, e provavelmente os rechaçou. Há histórias como essa atrás de cada um dos quadros que ficarão pendurados nas paredes do Margs até o dia 30. Contarei algumas delas numa matéria de domingo próximo. Courbet, Picasso, Van Gogh, Manet, Monet e tantos outros bem aqui, entre nós. Pelo menos por algum tempo, Porto Alegre sentirá o sabor de ser, um pouco, Paris.

*Texto publicado hoje na página 2 de Zero Hora.

Postado por David

Os negros na Dupla Gre-Nal

23 de julho de 2009 30

 

Recebi um interessante email de um leitor acerca da matéria que escrevi no dia do Gre-Nal do Centenário sobre alguns dos clássicos mais importantes já disputados desde 1909. Reproduzo-o em parte abaixo:

 

“(…) Lendo sua coluna a respeito do Gre-Nal, onde você aborda a questão dos anos em que houve a “abolição” do racismo nos nossos clubes, caracteriza-se, mais uma vez, o grande dano que a escravatura causou em nossa formação. Fica evidente que, mesmo tendo a melhor das intenções, falta ao nosso jornalismo, com maioria branca, uma visão mais acurada sobre o racismo. Na questão histórica dos nossos times, podemos verificar que muitos “afro-brasileiros” jogaram no Grêmio e Inter antes do fenômeno Tesourinha . Mas, pelo racismo existente, não se identificavam como negros.

Mas, com certeza, muito embora não se sentissem negros, eram olhados como tal, e não passaram de coadjuvantes nesses importante times da dupla Gre-Nal.

Cito como exemplo, meu pai, Fontoura, vindo do Juventude como um jogador muito promissor e que jogou nos aspirantes do Grêmio em 1943 ( jogou somente uma partida nos profissionais, na qual foi muito mal…) e que sofreu uma fratura importante treinando contra Sanguinetti, ficando um ano afastado, e que depois jogou muitos anos no Nacional, até encerrar a carreira com 28 anos (veterano para a época).

Quando você afirma que o Grêmio aboliu o preconceito racial contratando Tesourinha fico muito preocupado. Vocês, como jornalistas, que devem sempre informar a verdade, deveriam aprofundar o conhecimento sobre o racismo. Você, se não me falha a memoria, é judeu. E sabe, com profundidade, o que ocorreu com o Holocausto e suas consequências.

Realmente espero que você evolua na questão do racismo e saiba interpretar o que significa para um negro sentir o olhar de superioridade de um branco, fato corriqueiro nos dias de hoje em muitos lugares …..

Os nossos clubes de futebol, como toda a sociedade privilegiada, são racistas! Vamos botar para fora o que realmente absorvemos através da observação! Os clubes (Inter e Grêmio), se pudessem e tivessem muitos jogadores de talento brancos, continuariam até hoje sem negros nas suas equipes. Esses clubes se viram “obrigados” a contratar negros, o que causou um grande choque, pois viram, como Hitler viu, que os negros podem ter talento igual ou superior aos brancos. A abolição continua inconclusa, pois enquanto a sociedade não aceitar a igualdade para a diversidade étnica, continuaremos a ter mais prisões, mais revoltados, mais exclusão social e mais diferenças entre pessoas, seres humanos.

Atenciosamente,

Manoel Fernando Rosa e Silva

 

A propósito das observações do Manoel: quando falei em “abolição” do racismo, falei em abolição oficial. Institucional. É óbvio que tanto no Inter depois dos anos 40 quanto no Grêmio depois dos 50 continuou a haver racismo. Ainda há. Há racistas em toda parte, em todos os clubes, em todas as empresas, em toda a sociedade. Mas também há muita gente que não é racista. E quero crer que esses, os não racistas, hoje, sejam a maioria. Quero crer, também, que, cada vez mais, o racismo esteja diminuindo. Acabará um dia, quando todos compreenderem que raça não existe, que nenhum povo é de composição homogênea e que essa homogeneidade, felizmente, nunca existiu.

Postado por David, da Redação

A descoberta da liberdade

23 de julho de 2009 7

HISTÓRIA FALADA

 

Depois de uma vida tensa, namorando duas mulheres ao mesmo tempo, um colega jornalista decide optar pela liberdade. A vida estava leve e tranquila em barzinhos e festas até que…

 

Assiste aí:

 

 

Veja todas as Histórias Faladas

Quer colocar este vídeo no seu blog?
Clique aqui para pegar o link. E leia as intruções aqui.

Postado por David

A compra de um só botão

22 de julho de 2009 15


Um dia, minha avó saiu de casa para comprar um botão. Um único botão. Minha avó era assim, mobilizava-se para comprar um só botão, comprava-o e voltava para casa. Ou então ia ao súper e de lá trazia uma maçã solitária, uma minúscula caixa de fósforo, um pãozinho de nada.

Gostava de ir ao supermercado, verdade. Era um passeio para ela. Ia e retornava narrando as delícias das amostras-grátis, comentando horrorizada quanto havia aumentado o preço do açúcar. Mas também é verdade que essa prática fazia parte do método que minha avó desenvolveu para economizar. Comprando aos poucos, ela comprava menos. Funcionava. Recebia uma pensão de meio salário mínimo e ainda assim sempre tinha dinheiro. Mais do que eu.

Uma época, não essa época em que ela saiu de casa para comprar tão-somente um botão, outra época, uma época em que eu trabalhava na Sulina, nessa época a Sulina concedia-nos vales às sextas-feiras. Uma maravilha. Passava o fim de semana abastecido de notas de 50, podia pagar jantares e cinemas para eventuais namoradas.

O problema é que na segunda-feira os recursos já tinham se evanescido, e na sexta seguinte lá ia eu pedir vale de novo e no dia do pagamento, maldição!, o salário vinha desse tamanhinho. Então, andava sempre duro, durango kig. Num desses dias de dureza, almoçava na casa da minha avó e me queixava das parcas condições financeiras. Ela disse:

— Eu resolvo isso, David.

E tirou de uma estante uma latinha e abriu a tampa da latinha e lá de dentro puxou um maço de notas amarradas em atilho e me estendeu:

— Ó.

Recuei:

— Não, vó!!!

Não ia pegar o dinheiro que minha avó economizava comprando um botão de cada vez. Como naquele dia em que ela saiu de casa junto comigo para comprar aquele único botão. Estávamos na casa dos meus pais no Parque Minuano e eu devia ter, sei lá, uns cinco anos, faz tempo, mas não me esqueci do que aconteceu.

Lá fomos nós, eu levado pela mão dela, caminhando devagar entre as ruas modorrentas do bairro. Fomos a uma vendinha. Dessas que ainda há no subúrbio, com uma caderneta onde o dono da venda anota o fiado dos fregueses. Minha mãe ia quase todos os dias a essa vendinha e registrava suas compras na caderneta. Uma tarde, saindo do lugar com a minha mãe, perguntei:

— Não tem que pagar?

Ela:

— Não. É só botar na caderneta.

Fiquei encantado. Todos os acepipes e guloseimas que rebrilhavam nos balcões de vidro da venda estavam ao meu alcance. Bastava que anotasse na caderneta. No dia seguinte, reuni meus amigos. Uns 15 ou 20.

— Vamos todos pra vendinha! — gritei. — Hoje tem bala e chocolate de graça pra todo mundo!

Fomos. Fizemos um rancho de Choco Branco e Preto e Diamante Negro, balas Gasosa, Quebra-queixo e Sete Belo, Beijo de Moça e Beijo Africano, Amor Carioca e Sonho de Valsa. Minha mãe só não foi à falência porque o dono da venda desconfiou e a avisou. Ela conseguiu recuperar a metade dos doces e os devolveu, para a consternação da turma.

Era nessa mesma caderneta mágica que a minha avó pretendia anotar a compra do único botão que ela pretendia adquirir naquele dia. Então, chegamos à vendinha e deu-se o seguinte diálogo. Minha avó para o bodegueiro:

— Quanto é o botão?

O bodegueiro:

— Cinquenta centavos.

— Cinquenta centavos?!?

— É.

— Muito caro!

— Mas custa cinquenta centavos.

— Então não vou levar!

E a minha avó saiu da vendinha sem o botão que queria comprar.

No caminho de volta, levantei o queixo e questionei:

— Vó, cinquenta centavos não é barato?

Ela, olhando para frente:

— Não para um botão.

— Por que não?

— Mais tarde, quando crescer, tu vais aprender o que é caro e o que é barato.

Detestava quando um adulto fazia isso, quando não me explicavam as coisas e diziam que eu ia aprender ao crescer. Mas, de fato, aprendi. Às vezes, algo custa 50 centavos e é caro. Às vezes custa milhões, e é barato. Quinze milhões por um centroavante como Nilmar, por exemplo, é tão barato que podia ser anotado numa caderneta de vendinha lá do bom e velho subúrbio do Parque Minuano.

                                            * Texto publicado hoje na página 42 de Zero Hora.

Postado por David Coimbra