Aquele beijo passou a ocupar todos os espaços da cabeça de Jô. Era só no que pensava, todos os dias, o dia inteiro. Estava certa, completa, absoluta, radical, brutalmente certa de que não pretendia ter nada com o cunhado. Que aquilo fora apenas um acidente sensual, um escorregão, uma obra do acaso que não teria futuro nem sucesso. Mas o beijo a perturbara, isso não podia negar. Fora um beijo bom, um beijo demorado, amoroso e excitante, que lhe despertara vontades e sentimentos. Não lembrava mais da última vez em que fora beijada assim, não apenas com desejo, mas também com afeto.
Na noite do dia em que foi beijada, praticamente não dormiu. Atravessou-a rolando na cama, o peito apertado, a mente em ebulição. Lembrava dos braços fortes de Lucas cingindo-a, tomando-a, acariciando-a, e queria de novo e não queria nunca mais e de novo queria outra vez e mais uma vez não queria jamais.
Nos dias seguintes, Lucas não apareceu. O que era de se estranhar. Desde menino, Lucas frequentava a casa do irmão mais velho como se fosse a sua própria ou a de seus pais. Aparecia para jantar pelo menos três vezes por semana e, aos sábados, sempre almoçavam juntos. Mas, depois daquele beijo, ele sumiu. Ficou quase um mês sem dar notícias, o que deixou Fábio bastante preocupado.
- Alguma coisa aconteceu com meu irmão... – comentou, durante um almoço de domingo.
Jô sentiu o sangue latejar nas têmporas à menção do cunhado. Será que Fábio desconfiava de algo? Tinha sentido. Afinal, na última vez em que Lucas os visitara, ele e ela, Lucas e Jô, haviam ficado sozinhos na piscina por algumas horas e, quando Fábio retornou, o irmão já saíra e não mais retornara.
Como ela deveria agir? Deveria perguntar a razão do comentário de Fábio? Deveria ignorá-lo e mudar de assunto? Deveria simplesmente não responder? Fincou o garfo na chuleta de porco dourada, coberta de rodelas de cebola, ela adorava chuleta de porco dourada, coberta de rodelas de cebola. Pensou. Concluiu que devia ser sincera e dizer que também reparara no sumiço do cunhado.
- Pois é – comentou, esforçando-se para ser casual. – Ele não aparece mais... Mas o que pode ter acontecido?
- Acho que é algo com alguma mulher – Fábio pronunciou essa frase olhando fixamente para ela, a mão esquerda segurando a faca, a direita segurando o garfo, ambas pousadas na borda da mesa.
Por que aquele olhar? Seria algum tipo de acusação muda? Será que Fábio estava mesmo desconfiado? Jô sentiu a garganta se fechar. Perdeu o apetite naquele instante. Percebeu que seria quase impossível continuar comendo.
- O que houve com o tio? – quis saber o filho Pedro, no outro lado da mesa.
- Algum acidente? – emendou Alice, a filha.
- Não – Jô queria acabar logo com aquele assunto. – Deve ser alguma namorada nova mesmo. Vocês sabem como é o tio de vocês. Está sempre envolvido com alguma mulher – e, calculando que com a observação certa poderia desviar a conversa para outro tema, propôs: - Que tal irmos todos tomar um chimarrão no Parcão hoje à tarde?
- Ah, mãe – protestou Pedro. – Eu quero ir ao jogo!
- E eu combinei de me encontrar com a Cíntia – reclamou Alice.
Deu certo. Os minutos seguintes foram consumidos no debate do programa vespertino. Jô prosseguiu empurrando a comida goela abaixo, enquanto Fábio se manteve em um silêncio que só fez crescer a apreensão dela. O que será que se passava pela cabeça do marido?
Nenhum outro sinal foi emitido por Fábio no restante do almoço, da tarde e da semana. Jô já estava se acostumando com a ausência do cunhado, estava até preferindo que fosse assim. Sem Lucas por perto, não existia dilema algum, nem constrangimento, nem tentação. Mas, na sexta-feira, ela recebeu um telefonema que lhe tirou a paz. Trabalhava em casa, no pequeno escritório que montara no segundo andar. Tentava se concentrar para escrever uma matéria sobre o aproveitamento da fibra da banana no desenvolvimento econômico de áreas do Norte de Santa Catarina, quando o marido ligou do trabalho e, antes mesmo de dizer alô, anunciou:
- Era mulher mesmo.
Jô não entendeu:
- Quê?
- A razão do sumiço do Lucas.
- Ahn? – o nome de Lucas fez com que seus pensamentos se embaralhassem. A fibra da banana no Norte de Santa Catarina. Lucas. O marido. Sumiço. Mulheres. Banana.
- Era mulher. Ele está de namorada nova.
- Namorada nova?
- É. Ele vai à praia conosco amanhã. E vai levar a namorada.
- Vai levar?...
- Vai. Deve estar apaixonado, para fazer isso.
Apaixonado... O coração de Jô quase que lhe saiu boca afora e enfiou-se pela linha telefônica.
- Apaixonado... Deve estar...
- Estou ansioso para conhecer a moça.
- Eu também...
Ao desligar o telefone, Jô não sabia o que pensar. O que significava aquilo? O que Lucas pretendia? Que namorada era aquela? Por que reaparecer daquela forma?
No dia seguinte, manhã de sábado, Jô ainda estava encaixando as bagagens no porta-malas quando Lucas apareceu com a nova namorada. Tudo aconteceu como num sonho. Em um átimo, a moça se materializou ao lado de Jô, como se tivesse sido cuspida das entranhas da Terra e não descido de uma Land Rover. Ficou ali, parada de pé, sorrindo, e o coração de Jô quase parou.
Por quê? O que aconteceu?
Saiba logo, no próximo capítulo de... Jô em casa!
Postado por David





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