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Posts de agosto 2009

Café TVCOM

31 de agosto de 2009 11

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

 

Confere aí:

Postado por David

Jô em casa — 3º Capítulo

31 de agosto de 2009 18

Aquele beijo passou a ocupar todos os espaços da cabeça de Jô. Era só no que pensava, todos os dias, o dia inteiro. Estava certa, completa, absoluta, radical, brutalmente certa de que não pretendia ter nada com o cunhado. Que aquilo fora apenas um acidente sensual, um escorregão, uma obra do acaso que não teria futuro nem sucesso. Mas o beijo a perturbara, isso não podia negar. Fora um beijo bom, um beijo demorado, amoroso e excitante, que lhe despertara vontades e sentimentos. Não lembrava mais da última vez em que fora beijada assim, não apenas com desejo, mas também com afeto.

Na noite do dia em que foi beijada, praticamente não dormiu. Atravessou-a rolando na cama, o peito apertado, a mente em ebulição. Lembrava dos braços fortes de Lucas cingindo-a, tomando-a, acariciando-a, e queria de novo e não queria nunca mais e de novo queria outra vez e mais uma vez não queria jamais.

Nos dias seguintes, Lucas não apareceu. O que era de se estranhar. Desde menino, Lucas frequentava a casa do irmão mais velho como se fosse a sua própria ou a de seus pais. Aparecia para jantar pelo menos três vezes por semana e, aos sábados, sempre almoçavam juntos. Mas, depois daquele beijo, ele sumiu. Ficou quase um mês sem dar notícias, o que deixou Fábio bastante preocupado.

- Alguma coisa aconteceu com meu irmão… – comentou, durante um almoço de domingo.

Jô sentiu o sangue latejar nas têmporas à menção do cunhado. Será que Fábio desconfiava de algo? Tinha sentido. Afinal, na última vez em que Lucas os visitara, ele e ela, Lucas e Jô, haviam ficado sozinhos na piscina por algumas horas e, quando Fábio retornou, o irmão já saíra e não mais retornara.

Como ela deveria agir? Deveria perguntar a razão do comentário de Fábio? Deveria ignorá-lo e mudar de assunto? Deveria simplesmente não responder? Fincou o garfo na chuleta de porco dourada, coberta de rodelas de cebola, ela adorava chuleta de porco dourada, coberta de rodelas de cebola. Pensou. Concluiu que devia ser sincera e dizer que também reparara no sumiço do cunhado.

- Pois é – comentou, esforçando-se para ser casual. – Ele não aparece mais… Mas o que pode ter acontecido?

- Acho que é algo com alguma mulher – Fábio pronunciou essa frase olhando fixamente para ela, a mão esquerda segurando a faca, a direita segurando o garfo, ambas pousadas na borda da mesa.

Por que aquele olhar? Seria algum tipo de acusação muda? Será que Fábio estava mesmo desconfiado? Jô sentiu a garganta se fechar. Perdeu o apetite naquele instante. Percebeu que seria quase impossível continuar comendo.

- O que houve com o tio? – quis saber o filho Pedro, no outro lado da mesa.

- Algum acidente? – emendou Alice, a filha.

- Não – Jô queria acabar logo com aquele assunto. – Deve ser alguma namorada nova mesmo. Vocês sabem como é o tio de vocês. Está sempre envolvido com alguma mulher – e, calculando que com a observação certa poderia desviar a conversa para outro tema, propôs: – Que tal irmos todos tomar um chimarrão no Parcão hoje à tarde?

- Ah, mãe – protestou Pedro. – Eu quero ir ao jogo!

- E eu combinei de me encontrar com a Cíntia – reclamou Alice.

Deu certo. Os minutos seguintes foram consumidos no debate do programa vespertino. Jô prosseguiu empurrando a comida goela abaixo, enquanto Fábio se manteve em um silêncio que só fez crescer a apreensão dela. O que será que se passava pela cabeça do marido?

Nenhum outro sinal foi emitido por Fábio no restante do almoço, da tarde e da semana. Jô já estava se acostumando com a ausência do cunhado, estava até preferindo que fosse assim. Sem Lucas por perto, não existia dilema algum, nem constrangimento, nem tentação. Mas, na sexta-feira, ela recebeu um telefonema que lhe tirou a paz. Trabalhava em casa, no pequeno escritório que montara no segundo andar. Tentava se concentrar para escrever uma matéria sobre o aproveitamento da fibra da banana no desenvolvimento econômico de áreas do Norte de Santa Catarina, quando o marido ligou do trabalho e, antes mesmo de dizer alô, anunciou:

- Era mulher mesmo.

Jô não entendeu:

- Quê?

- A razão do sumiço do Lucas.

- Ahn? – o nome de Lucas fez com que seus pensamentos se embaralhassem. A fibra da banana no Norte de Santa Catarina. Lucas. O marido. Sumiço. Mulheres. Banana.

- Era mulher. Ele está de namorada nova.

- Namorada nova?

- É. Ele vai à praia conosco amanhã. E vai levar a namorada.

- Vai levar?…

- Vai. Deve estar apaixonado, para fazer isso.

Apaixonado… O coração de Jô quase que lhe saiu boca afora e enfiou-se pela linha telefônica.

- Apaixonado… Deve estar…

- Estou ansioso para conhecer a moça.

- Eu também…

Ao desligar o telefone, Jô não sabia o que pensar. O que significava aquilo? O que Lucas pretendia? Que namorada era aquela? Por que reaparecer daquela forma?

No dia seguinte, manhã de sábado, Jô ainda estava encaixando as bagagens no porta-malas quando Lucas apareceu com a nova namorada. Tudo aconteceu como num sonho. Em um átimo, a moça se materializou ao lado de Jô, como se tivesse sido cuspida das entranhas da Terra e não descido de uma Land Rover. Ficou ali, parada de pé, sorrindo, e o coração de Jô quase parou.

 

 

Por quê? O que aconteceu?

Saiba logo, no próximo capítulo de… Jô em casa!

Postado por David

O dilema da gravata

30 de agosto de 2009 4

Meu amigo José Antônio Pinheiro Machado respondeu hoje no espaço do Anonymus Gourmet àquela coluna que escrevi sobre a gravata, dias atrás. E o fez com a classe e o talento habituais. Leia abaixo a coluna do Anonymus:

A gravata torta do vagabundo celeste

José Antonio Pinheiro Machado

Meu caro David Coimbra: a culpa do triunfo de pessoas pouco sérias, que hipocritamente se levam a sério, não é da gravata que usam. A gravata e a roupa, sempre, em todos os tempos, ocultaram a desfaçatez – mas também sublinharam virtudes. Anonymus Gourmet, que usa gravata borboleta, gosta de lembrar a censura de Fradique Mendes, o mais encantador dos personagens de Eça Queiroz, numa carta ao seu alfaiate, o bom Sturmm, por lhe ter cortado uma casaca que “assenta tão bem nas costas de uma cadeira de pau, como nas costas do Comandante da Guarda Municipal, ou nas de um filósofo, se houvesse algum nestes reinos”. O que queria Fradique Mendes: “Eu desejava que essa casaca me mostrasse a Lisboa como sou: reservado, frio, cético e inacessível aos pedidos de meias libras”. O casaco está para o homem como a palavra para a ideia, exaltava-se Fradique, que esperava algo que ressaltasse suas qualidades e disfarçasse seus defeitos: “Os alfaiates ingleses talham certas sobrecasacas longas e retas, que emanam virtude por todas as costuras, justamente para esconder a velhacaria de quem as veste!”.

Além de esconder a velhacaria, a vestimenta serviu para democratizar a política, segundo o escritor Contardo Calligaris. Ele acredita que, desde o fim do século 18, os dândis (que fizeram da elegância um culto) tiveram uma função decisiva na revolução social moderna: “A idéia era a seguinte: se o critério da elegância substituísse o da nobreza de berço, qualquer um poderia ser elite; bastaria que fosse elegante. Disraeli (que era um dândi) tornou-se primeiro-ministro da rainha Vitória porque sua elegância contou mais que sua origem judaica (que, em princípio impediria que ele tivesse acesso a tamanho cargo)”. Para os dândis, a elegância era “uma fineza rica”, com implicações morais. Na frase de Calligaris: “O cuidado frívolo com as aparências - do nó da gravata ao corte das calças - era também uma revolta do bom gosto contra as feiúras do capitalismo incipiente”. Sem essa dimensão, as roupas elegantes “seriam apenas babadouros para comedores vorazes” – e sabemos bem, David, da voracidade de certos engravatados.

Lanvin, um dos homens mais elegantes do Século XX, modelo de discrição e sobriedade, resumiu seu estilo pessoal a um repórter: “De gravata, sempre. Exceto na praia.” As gravatas podem ser de seda ou de poliéster, escuras ou escandalosas, com nó Duque de Windsor ou borboletas – e, seguidamente, pendem do pescoço de gente digna e nobre.

Lobo Antunes recorda alguém assim, o homem que iluminou sua vida, de gravata torta e casaco amassado: “Charlie Parker… Esse pobre, sublime, miserável, genial drogado que passou a vida a matar-se e morreu de juventude como outros de velhice. Cresci com um enorme retrato dele no quarto. Usa uma gravata torta e um casaco amassado, e poucas pessoas estiveram tão perto de Deus quanto esse vagabundo celeste.”

 

E agora clique aqui para ler a minha coluna sobre a gravata!

Postado por David

A doçura de um tratamento de canal

29 de agosto de 2009 10

Ilustração: Fraga

Às vezes me dá uma saudade de fazer um tratamento de canal… Por causa do Doutor Vuaden. Dois dentistas mudaram minha vida, o Doutor Ramão e o Doutor Vuaden. O Doutor Ramão aplica uma anestesia que é como se você tivesse a boca beijada pela Megan Fox. Manja a Megan Fox, a nova Mulher-Gato? Oh, quantas fantasias infanto-juvenis tive com a Mulher-Gato, quantos sonhos sensuais irrealizados, e agora ela será encarnada pela Megan Fox. Megan Fox, maaan. Procure no Google Imagens.

É doce assim uma anestesia aplicada pelo Doutor Ramão. E um tratamento de canal feito pelo Doutor Vuaden, Cristo!, que prazer! O Doutor Vuaden é um homem que, à primeira vista, pode assustar. Um alemão de quase dois metros de altura, poderia ser quarto-zagueiro do Bayer Munich. No entanto, o Doutor Vuaden é todo discrição. Sua voz é ronronada, seus movimentos são suaves e a mão com que ele torce o nervo de um canino é uma mão de Cinderela, com artelhos de fadinha, com falanges, falanginhas e até falangetas delicadas como as de uma debutante. Um tratamento de canal do Doutor Vuaden é um afago de mãe.

Mas o que mais me faz sentir saudade do Doutor Vuaden e do Doutor Ramão é a filosofia. Porque, quando me instalo numa cadeira de dentista, sou um Platão, um Spinoza, um Kant. Ali, de boca aberta, com o sugador pendurado na comissura dos lábios, compreendo a verdadeira dimensão da existência. Ali sei o que é o ser humano: é um ser eminentemente físico.

Físico, nada mais do que isso.

Não me venha com teorias sofisticadas, não me venha com lógicas intricadas, não me venha com toda a psicologia de Freud e Lacan, com as reflexões de Schopenhauer, com os dilemas sociais de Marx e Engels ou com a literatura de Balzac e Dostoievski, não me venha com nada disso se eu estiver com uma dor de dente. Eis a realidade: se você está com um pré-molar inflamado, aquela pequena área de meio centímetro quadrado é o centro do universo, é todo o seu ser. Nada mais importa, nada vale, nenhuma consideração é procedente, se você está sentindo dor física. A moral, o espírito, a inteligência são meros acessórios. O mundo só voltará a ser belo quando passar a enxaqueca.

Tudo é muito simples, afinal. O mundo é simples. É físico, em sua essência. É com esse raciocínio reto e liso que se tira proveito da luz de cada dia. Uma alegoria? O futebol. O futebol sempre se presta a alegorias. Lembro do sistema de jogo do Huracán, nosso time do IAPI. Dois zagueiros brabos lá atrás, o Larri e o Manga. Todo mundo tinha medo do Larri e do Manga. Quando algum desavisado vinha para cima de nós em qualquer viela entre o Cemitério São João e a Zivi-Hércules, bastava dizer:

– Nós somos amigos do Larri e do Manga.

Pronto. Sem problemas. Ser amigo do Larri e do Manga era salvo-conduto.

Antes do Larri e do Manga, debaixo do travessão, tínhamos um goleiro de dois metros de altura e bigode, o Raimundão. O Raimundão, quando ia jogar, levava junto uma capanga. Entrava em campo todo fardado de goleiro, com a capanga debaixo do braço. Colocava a capanga no fundo da rede. Os adversários ficavam olhando aquilo. Sabiam que, dentro da capanga, dormia um trezoitão cano longo.

Os outros integrantes do sistema defensivo, entre eles o degas aqui, eram menos relevantes no esquema técnico-tático da equipe. Minha função, basicamente, era marcar algum meia e esticar a bola para a direita, por onde zanzava o Jorge Barnabé. O busílis da questão era precisamente esse: a velocidade do Jorge Barnabé. Quando ele atirava a bola para frente, ninguém o alcançava. O Barnabé zunia rumo à linha de fundo, tzzzzimmm!, e cruzava para a área, ou entrava em diagonal e mandava um chute seco, rente ao capim ou a palmo e meio de altura, feito o Vento Sul. Uma gazela de chuteiras, o Barnabé. Um perigo para as defesas. Então, nosso esquema era simples: todo mundo lá atrás, com duas missões: tomar a bola e lançá-la ao rapidinho do time. Todo time tem que ter um rapidinho. Era isso que tinha o Inter. Nilmar era o rapidinho. Quando o Inter se fechava, com quatro zagueiros e três centromédios, o Inter vencia. Por quê? Porque era objetivo. Reto e liso. Todo mundo lá atrás e o rapidinho na frente, esperando. Que Rolo Compressor, que nada: Huracán. O Inter jogava como o velho Huracán. De um jeito simples, mas prático. Como as melhores coisas da vida.

 

                                      * Texto publicado na página 43 da Zero Hora de hoje

Postado por David

Comentários a respeito de John

28 de agosto de 2009 15


Há algo de comovente neste sumiço do Belchior. Não o digo por ser admirador dele, que sou.

Quando fui morar em Criciúma, minhas únicas posses eram, além das roupas poucas, um colchonete, um gravador de entrevistas do tamanho de uma agenda e três fitas cassete: uma dos Beatles, uma do João Bosco, uma do Belchior. Ouvia-as até gastar as pilhas e o gravador começar a fazer uon-uon-uon. Decorei todas as letras de Coração Selvagem, um dos maiores discos da história da MPB.

Belchior era um sujeito capaz de escrever uma frase destas:

Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção
Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão.

Não é uma lindeza de imagem? Ela guardando o beijo para ele no blusão enrugado, como se fosse uma bala Sete Belo.

Nesta mesma música ele diz:

Talvez eu morra jovem
Alguma curva no caminho
Algum punhal de amor traído
Completará o meu destino.

O destino finalizado por um punhal de amor traído. Outra pedra preciosa.

Numa de suas músicas mais belas, Belchior chegou a avisar que, um dia, poderia sumir:

Há tempo, muito tempo, que eu estou longe de casa
E nessas ilhas cheias de distância o meu blusão de couro se estragou.
E, mais adiante, um verso poderoso:
Gente de minha rua, como eu andei distante
Quando eu desapareci ela arranjou um amante
Minha normalista linda, ainda sou estudante da vida que eu quero dar.

Não é tão difícil de a gente descobrir a vida que quer dar? Suponho que Belchior ainda não tenha descoberto. Suponho que ele ainda seja aquele estudante desesperado de 73. Por isso saiu por aí e já há dois anos ninguém, nem família nem amigos, sabe do seu paradeiro. Belchior está pelo mundo, estudando a vida que quer dar.

As músicas de Belchior sempre tiveram esse cheiro do asfalto da estrada, esse tom de rebeldia, de ânsia por liberdade.

Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho
Deixem que eu decida a minha vida
Não preciso que me digam de que lado nasce o sol
Porque bate lá meu coração.

O que explica em parte o seu desaparecimento. Quem aspira à liberdade total não pode se apegar às outras pessoas. Belchior não depende de ninguém. Mas é a outra parte da explicação que me comove. É que, parece evidente, ninguém depende de Belchior. E não existe solidão maior do que viver sem ter quem precise da gente.

 

* Texto publicado na página 51 da Zero Hora de hoje

Postado por David

Jô em casa — 2º Capítulo

27 de agosto de 2009 29

Fraga

Lucas era 18 anos mais jovem do que Fábio e dois anos mais velho do que Jô. Fazia o tipo atlético. Enxergava o mundo do alto de seu quase um metro e noventa, tinha os músculos das longas pernas e dos longos braços definidos pela prática de todo o gênero de esporte — Lucas disputava provas de triatlo, jogava tênis, basquete e futebol, tudo como um profissional. As atividades ao ar livre lhe conferiam um tom acobreado de pele que combinava com os cabelos igualmente cor de cobre. Riso fácil, descontraído, espirituoso, era, para além de todos esses predicados, bem-sucedido profissionalmente. Antes dos 30 anos, conquistara a independência financeira graças aos seus conhecimentos na área econômica.

Fluente em inglês, espanhol e francês, circulava com naturalidade pelos meandros selváticos do mercado financeiro internacional. Bancos e empresas de todo o mundo o contratavam como consultor. Na bolsa de valores, tornara-se uma lenda. Volta e meia recusava convites para trabalhar até para governos estrangeiros.

Um homem desse quilate tinha a mulher que quisesse. Elas adejavam em torno dele, pidonas. Mas Lucas não tinha mulher; tinha mulheres. Conquistava-as e as descartava com a mesma desenvoltura com que cobrava uma falta da meia-lua nos jogos de fim de semana. Jamais se apegava. Levava a sério apenas uma: Jô, a mulher de seu irmão Fábio. Jô era a única mulher de quem Lucas ouvia a opinião, a única com quem conversava de verdade, a única a quem pedia conselhos.

Amava-a como uma irmã e era desta forma que se tratavam desde sempre: como maninhos. Brincavam feito crianças, Lucas lhe fazia cócegas nos flancos e pregava-lhe peças. Jô protestava, simulando irritação. Lucas contava-lhe sobre suas aventuras, Jô ria como se estivesse ouvindo confissões de um menino arteiro. Jamais houve conotação sexual em seu relacionamento.

Até que Jô retornou da viagem a São Paulo.

Na primeira vez que se encontraram, Lucas percebeu a mudança:

— Você está diferente — constatou, depois de um churrasco em família, os dois à beira da piscina, tomando sol.

— Diferente como?

— Sei lá, parece mais… mulher…

Jô riu:

— Quer dizer que envelheci?

— Não! Ao contrário, parece até mais jovem. Só que… Não sei… É que…

— Vai um licorzinho aí? — interrompeu Fábio, vindo de dentro da casa.

A conversa não teve prosseguimento, mas, a partir daquele dia, Lucas passou a olhar Jô de um jeito diferente, e ela o percebia. Às vezes, flagrava-o a fitar-lhe, entre absorto e extasiado, um naco de coxa exposto pelo seu cruzar de pernas durante um jantar de fim de semana. Noutras, ela se debruçava sobre a mesa e notava que o olhar do cunhado enfiava-se por seu decote adentro e descia-lhe o vale macio dos seios. E Jô gostava disso. Não que tivesse qualquer intenção sexual com o cunhado, mas apreciava provocar aquele homem disputado pelas mulheres. Não pretendia nada com Lucas, nem sequer pensava nele quando ele não estava por perto, mas o jogo levemente erótico entre eles a agradava, demonstrava seu poder de fêmea, provava para ela mesma a sua capacidade de titilar os instintos masculinos.

A coisa ia assim, navegando sobre um mar de brejeirice até certo ponto inocente, até um domingo em que Fábio foi ao jogo de futebol, os filhos saíram cada um para um programa com os amigos e ela e Lucas ficaram a sós, em casa, à beira da piscina. Eles bebiam caipirinha de vodca e já estavam altos, eles se jogaram os dois na piscina, ela com seu biquíni minúsculo, ele com seu corpo de Apolo, e nadaram juntos e brincaram como duas crianças, até que ele mergulhou e a agarrou pelas pernas compridas e macias, puxando-a para baixo como se quisesse afogá-la, e ela sentiu a pressão da mão dele em suas coxas e riu e se desvencilhou, e ele emergiu e saiu da água como um semideus aquático de músculos retesados e luzentes d`água, e seus rostos ficaram a centímetros um do outro, e então, sem que eles descobrissem de quem foi a iniciativa, como se fosse algo muito natural, esperado, previsto, escrito no roteiro, então eles se beijaram…

Foi um beijo longo, ofegante, sôfrego, um beijo em que um parecia sequioso da boca do outro, um beijo desesperado, sem fim, mas que acabou e, quando acabou, Jô olhou nos olhos de Lucas e como que se curou da bebida num átimo e gritou:

— Não!

Saiu correndo da piscina, deixando-o ali, desamparado, boquiaberto e envergonhado.

 

E agora? O que aconteceu entre Jô e o cunhado?
Saiba a seguir, no próximo capítulo de… Jô em casa!

Postado por David

Um raio de bairro

26 de agosto de 2009 2

Quer saber da relação entre raios, um bairro de Criciúma e um ex-colega jornalista?

Então clica aí no player para descobrir!

 

Postado por David

Briga no vestiário

26 de agosto de 2009 16

Fraga

Tudo dava briga na turma. Nada mais do que falar da mãe, claro. Uma vez, contei já, um gordinho disse que minha mãe não era virgem. Bá. Apliquei-lhe uma rasteira, ele deu uma sentada, uma daquelas sentadas que o cara dá e não se levanta mais sozinho. Safado. Minha mãe é virgem e sempre foi virgem e sempre será. Qualquer homem decente sabe que todas as mães são virgens.

Bom. Fora as mães em geral e a minha em particular, o que rendia mais briga era bola. Lá no Alim Pedro o pessoal assistia aos jogos do alto dos morros que rodeavam o campo, aboletados na grama como se a grama fosse arquibancada. Ficavam lá, olhando e esperando, fumando coisas. De repente, estourava uma discussão na grande área, normalmente porque o Cabral, selvagem lateral-direito do Canarinho, tinha trincado uma tíbia. Ou um perônio, sabe-se lá. Aí eles desabavam do morrinho gritando feito comanches, brandindo sarrafos como se fossem tacapes, não sei de onde tiravam tanto sarrafo. O time adversário, se desse tempo, saía na tradicional desabalada carreira e se contentava em perder por dáblio ó. Se não desse, era uma polvadeira, era manotaço, era pernada, era paulada.

Já briguei muito em joguinho. Não que gostasse. Não gosto, sou contra. Mas era preciso, naquele tempo. Coisa de guri bobo.

Domingo passado, o Fabiano Eller, que de guri e de bobo nada tem, contou sobre uma briga que travou com o Fábio Costa, pouco tempo atrás, quando jogava no Santos. O time refocilava no pântano da linha do rebaixamento. No intervalo de um jogo desastrado contra o Sport, Eller repunha as forças com goles de isotônico, sentado no chão do vestiário, e o zagueirão Domingos irrompeu no ambiente esbravejando com sua voz de Aguinaldo Rayol, seu bíceps de Hollyfield e seu peito de aço:

— Pô! Ninguém tá jogando nada! Temos que pegar, pô! Temos que pegar!

Talvez sua linguagem tenha sido um pouco mais impublicável, mas, como foi impublicável, não publicá-la-ei como foi. Tratou-se de mais ou menos isso, em todo caso. Eller se irritou com a cobrança:

— Tu também não está jogando nada!

Então Fábio Costa fez sua entrada. E, tomando as dores de Domingos, foi direto para cima do Eller.

— O que que é? O que que é?

Fábio Costa, como se sabe, é um goleiro com cara de mau que, quando levanta o braço, sua mão ultrapassa a altura do travessão. Meteria medo até em um cara brabo como o Wianey Carlet. Mas Eller, em vez de se intimidar, valeu-se de um trunfo que é decisivo na maioria dos conflitos: a surpresa. Antes que Fábio Costa pudesse dizer cucamonga, ele se pôs de pé e desferiu-lhe dois mata-cobras, um com a direita, outro com a canhota, PUM!, PAM! Fábio Costa tonteou, cambaleou e, espumando de fúria, decidiu partir para o revide. Só que cometeu um erro: quis tirar a camisa de goleiro antes da luta. Enquanto a puxava pela cabeça, Eller se aproveitou e mandou mais dois socos bem mandados, mas bem mandados mesmo, CADOF!, CAPOF!, e Fábio Costa, batido, urrando de raiva, lá ficou, enredado na camisa, já seguro pelos colegas apaziguadores, jurando que ele ia ver só, que ia ter volta, ia ter, ah, como ia ter.

Não teve. Hoje Eller e Fábio Costa falam-se cordialmente, como dois adultos que são. Mas o incidente, contado assim com tanta sinceridade por um de seus protagonistas, expõe meandros do futebol profissional pouco conhecidos do público. E prova que o futebol, por profissional que seja, continua sendo uma brincadeira, jamais será muito diferente daquele joguinho de vila, no qual homens feitos, muitas e muitas e muitas vezes, se comportam como guris bobos. O que, aliás, é um ponto a favor do futebol.

* Texto publicado na página 51 da Zero Hora de hoje

Postado por David

Jô em casa — 1º Capítulo

25 de agosto de 2009 40

Fraga

Uma senhora casada, mãe de filhos, pode olhar com cobiça sensual para outros homens que não o seu marido?

Uma senhora casada, mãe de filhos, pode tocar-se com volúpia e ânsia enquanto toma banho de banheira, à tardinha?

Uma senhora casada, mãe de filhos, pode gastar uma hora do seu dia a admirar o próprio corpo nu no espelho grande do quarto, e, enquanto se admira, imaginar o que um grupo de homens sequiosos por sexo sem limites seria capaz de fazer com ela?

Uma senhora casada, mãe de filhos, pode sentir gana de ser desejada até por mulheres?

Não.

Claro que não.

Senhoras casadas, mães de filhos, não cometem loucuras desse quilate. Mas era assim que Jô vivia seus dias, agora. Depois da experiência em São Paulo, não tinha mais paz. Cruzara uma fronteira e sabia que não havia retorno. Mas era só o que sabia. De si, não sabia mais nada. Não sabia ao certo nem o que pensar sobre seus sentimentos, sobre o que queria ou deixava de querer. Sobre quem era. Uma devassa? Uma vadia? Era errado o que havia feito?

O que havia feito…

O que havia feito…

Jô relembrou mais uma vez o que aconteceu naquela noite paulistana. A forma como se entregou aos caprichos não de um homem, mas de dois. E mais uma mulher. Sua linda amiga Maya. Maya e seu corpo flexível, Maya e seus dedos indômitos, Maya e sua língua insaciável, Maya e sua ousadia sem limites. Como Maya era capaz de fazer as coisas que fazia? Como Jô foi capaz de deixar que ela fizesse o que quisesse? Que vergonha. E que prazer.

O prazer. Naquela noite, Jô, de repente viu-se transformada no centro de prazer daqueles três, no prato principal do banquete, no brinquedo preferido. E eles brincaram, ah, como brincaram. Às vezes ela queria protestar, gritar que parassem, que era demais, que não aguentaria tudo aquilo que faziam com ela. Mas eles fizeram, e fizeram, e fizeram de novo. E Jô aguentou. E… gostou… Admitia: gostou.

Sim, era uma vadia. Uma mulher que fazia o que ela fez, que permitia que lhe fizessem o que ela permitiu, essa mulher era uma vadia.

Ou não?

Ou será que não havia mal algum? Ou será que, como sua amiga Maya disse, ela não estava prejudicando ninguém, estava apenas dando e recebendo prazer?
E seu marido Fábio? Teria-lhe feito algum mal? Afinal, ele não sabia de nada, jamais descobriria uma fatia sequer do que aconteceu quando ela estava em viagem, disso estava certa. Logo, o que fazia com seu próprio corpo era um assunto só dela, não é? Não é???

Jô não tinha certeza. Às vezes, sentia-se suja ao lembrar as coisas que fez naquela noite. Noutras vezes, as mesmas recordações a excitavam. Às vezes Jô jurava quase às lágrimas que jamais repetiria algo parecido. Noutras vezes, punha-se tão ansiosa de voltar a experimentar aquelas sensações que chegava a ligar para a agência de viagens a fim de comprar passagem para São Paulo.
Não, Jô não sabia mais quem era. Tinha se transformado. Sentia-se outra. Inclusive fisicamente. Mudara a cor do cabelo mais uma vez. Na sua viagem solitária de carro, era castanho. Antes de ir para São Paulo, trocou para loiro. Agora, experimentava o ruivo.

Seu closet também havia sido renovado. Jô vestia roupas mais ousadas, mais provocantes, roupas que lhe expunham nacos do corpo antes só apreciados pelo marido, no recôndito do quarto.

O marido… Fábio também mudara e, Jô não se enganava, foram as aventuras dela que impeliram as transformações dele. Fábio, obviamente, não sabia de nada do que ocorrera quando ela se lançara país acima, mas algum instinto de macho ameaçado avisava-lhe que estava a perigo, que estava prestes a perder sua fêmea para outros machos. Fábio, então, se tornara dócil como jamais fora. Não possuía mais aquela segurança típica de homem experiente, que despertava a concupiscência de outras mulheres. Não. Vinte anos mais velho, Fábio agora sentia-se em desvantagem física ante sua mulher bela e desejável, sobretudo porque ela, agora, queria mais do que a vida familiar. Queria experimentar o que ele já havia experimentado. E, o principal, querendo, ela podia. Tenra e rija, sensual e discreta, Jô açulava os instintos dos homens. De quaisquer homens.

Açulou de um em especial. O mais proibido deles. Aquele que, de todos no mundo, era o mais interdito a Jô.

Lucas. O irmão de Fábio.

Postado por David

Duas

24 de agosto de 2009 1

Amanhã, sem mais preterições ou atrasos, Jô estará de volta. Com uma novidade: nossa heroína enfrentará suas aventuras debaixo de cabelos ruivos!

E, sexta-feira, não percam: Anonymus Gourmet responde à minha coluna sobre a gravata em um texto memorável.

Postado por David

Café TVCOM

24 de agosto de 2009 1

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

 

Confere aí:

Postado por David

Por que não votar neste domingo

22 de agosto de 2009 27

Direi agora por que não vou votar no plebiscito deste domingo. Não é porque vou à missa, que domingo é dia de ir à missa. Nunca vou à missa. Até já fui. Uma vez, numa reunião dançante, tinha lá uma loirinha.

Sandy.

Sim, Sandy. Olhos azuis, como devem ser os olhos das loirinhas. Delicadas sardas nas maçãs do rosto. Mas o que eu mais gostava nela eram as pernas. Compridas. Fortes. Macias. Duas pilastras de carne tenra. Sandy vivia de minissaia. Eu olhava para aquelas pernas douradas e pensava:

– Ououou, Sandy…

Bem. Naquela reunião dançante calhou de eu ficar o tempo todo dançando com ela. Lentas, claro. Elton John. Johnny Rivers. Do you wanna dance and hold my hand… Pressionava suavemente as costas de Sandy, enfiava o nariz em seu cabelo da cor dos trigais e sentia seu cheiro de loira. Estava ali, flutuando pelo salão, e de repente ela entreabriu os lábios úmidos e sussurrou ao lóbulo da minha orelha direita:

– David…

Um arrepio escalou-me a coluna ao ouvir meu nome ser pronunciado por Sandy. Ah, ela dizia meu nome enquanto dançava agarradinha comigo. Murmurei, em resposta:

– Sandy…

Ela:

– David…

Eu:

– Sandy, Sandy…

– David…

– Sandy, Sandy, Sandy, Sandy…

– Quero te fazer uma pergunta, David!

– Ah. O que é, Sandy?

– O que tu vais fazer amanhã de manhã?

A manhã seguinte seria domingo. Nunca via as manhãs de domingo. Dormia enquanto elas estavam acontecendo. Mas é claro que, por Sandy, toparia acordar cedo para fazer um programa qualquer. Decerto ela queria me convidar para um piquenique, algo assim. Então respondi:

– Não vou fazer nada, Sandy.

Ela:

– Quer ir à missa comigo?

Putzgrillvrcktzrntyensbvrt@f!$w&@()!!!

No dia seguinte, oito horas da manhã, lá estava eu sentado no banco de madeira, cantando:

– Louvado seja o meu senhooooooor…

O que um homem não faz por uma loira dourada…

Por uma morena também. Depois de Sandy, foi Alice, cabelos e olhos nigérrimos, pele cor de canela, quem me arrastou para a igrejinha em frente ao Alim Pedro. Ela era do Onda, aquele grupo de jovens católicos. Eu ia vê-la no Onda. Eles sentavam-se em roda e tocavam violão e cantavam para Jesus Cristo:

Eu tenho tanto pra te falar

Mas com palavras não sei dizer…

Depois daquela experiência, passei a gostar um pouco menos de violão.

Portanto, não irei à missa, neste domingo. Domingo também é dia de galinha com arroz, minha avó sempre fazia galinha com arroz aos domingos. Como no caso do violão da igreja, isso igualmente me traumatizou. Não sou um entusiasta de pratos com galinha. Logo, nada de galinha com arroz neste domingo.

Aos domingos as pessoas assistem a programas de auditório na TV, mas basta ouvir o som de um desses programas para me deprimir. Domingo é mesmo um dia melancólico, com sabor de fim de festa. O que fazer? Irei ao jogo do Grêmio, isso as pessoas fazem aos domingos, e farei também. Estou curioso para ver como a torcida vai recepcionar Celso Roth. E curioso para saber como Celso Roth enfrentará seu ex-time. Presumivelmente, ele conhece as frestas por onde o Atlético pode se infiltrar Grêmio adentro e, assim, vencer a partida.

Mas o jogo é às quatro da tarde, poderia votar, se quisesse. Não quero. Porque esse plebiscito não decide nada – já está decidido que só vão ser construídos prédios comerciais no Pontal. Também não é referendo para nada – se alguém quiser mudar as regras de construção na orla do Guaíba, terá de enfrentar todos os trâmites legais de novo. O plebiscito não passa de um capricho político da prefeitura. Uma veleidade que custa mais de meio milhão de Reais, importância que poderia ter levantado um posto de saúde ou melhorado as condições de dezenas de escolas. Por isso, o meu não-voto. Não fazer, cruzar os braços, não falar, tudo isso pode ser um protesto. Quero que esse plebiscito seja um fracasso. Quero dizer a quem articulou esse plebiscito que eu o desaprovo – ao plebiscito. Que acho um desperdício, quase uma afronta. O não-voto às vezes é mais eloquente do que o voto. É um grito. Não votarei para senador, não votarei no plebiscito de hoje, não irei à missa, não vou comer galinha com arroz e muito menos assistir a programas na TV. Vou ao jogo do Grêmio. Antes ver o Celso Roth do que endossar a demagogia.

 * Texto publicado na página 43 da Zero Hora dominical

Postado por David

Contra a gravata

21 de agosto de 2009 27

Estou com preconceito contra a gravata. Não me é difícil admitir isso. Não tenho preconceito contra os preconceitos. Apascento alguns com todo critério, inclusive. Por exemplo: sou preconceituoso contra quem se leva a sério. Não que desgoste dessas pessoas, em geral gosto de todas as pessoas, mas sei que quem se leva a sério logo vai arrumar problema comigo — quem se leva a sério sempre arruma problema com os outros.

Minhas colunas já me causaram dissabores com algumas dessas pessoas. Uma vez um gaudério negou-me cumprimento. Encontrei-o em um restaurante, em companhia de amigos comuns, estendi-lhe a mão e a mão ali ficou, suspensa, ele de braços cruzados e beiço retorcido, grunhindo:

— Tu disse que eu não existo!

Levei tempo para compreender. Referia-se a uma coluna antiga: “O gaúcho não existe”.

Não fiquei ofendido com o gesto dele; fiquei intrigado. Não o havia citado nem remotamente no texto. Apenas questionara a suposta identidade racial ou cultural do gaúcho, que é um na Serra, outro na Capital, outro na Fronteira, e por aí afora. Mas ele se enfureceu assim mesmo. Que fazer? Pessoas que se levam a sério são assim.

Às vezes, ao contrário do que ocorreu naquela coluna, cito uma pessoa, escrevo sobre algum amigo, e o amigo pode não gostar, pode ficar chateado. O que me entristece. Porque nunca escrevo para magoar alguém. Posso criticar um homem público, mas jamais teço crítica pessoal. Agora, se conto uma história envolvendo um amigo, é possível que ele não aprecie a repercussão, e então o assunto, óbvia e inevitavelmente, se torna pessoal. Mas aí basta explicar que era uma brincadeira e tudo bem, fazemos as pazes. A não ser que ele seja uma pessoa que se leva a sério. Um dia, fiz uma brincadeira com uma pessoa que achava que era minha amiga, ela se ofendeu e rompeu comigo. Pedi desculpas, jurei que foi um mal-entendido e tudo mais. Não adiantou. Nunca mais me tratou com naturalidade. Contei o caso para a Mariana Bertolucci e ela diagnosticou:

— Então essa pessoa não era tua amiga.

Certo. Porque meus amigos sabem: perco a piada, mas não o amigo. Carlos Wagner, o repórter mais premiado do Brasil, diz que suas amizades duram até o amigo virar matéria. Digo o contrário. Digo que nenhuma matéria vale um amigo. Logo, se um amigo se chateia com um texto que escrevo é porque ele não entendeu a intenção do texto.

Mas a maioria dos meus amigos não se leva a sério. Eles sabem que faz muito tempo que tenho preconceito contra quem se leva a sério.

Já o da gravata é recente. Adquiri-o devido à corrupção que escorre dia a dia pelo noticiário. Mas não só por isso. O que mais me incomoda não é o roubo, a malversação. É a dissimulação. Vejo um desses caras de gravata deitando falação atrás de um microfone ou sobre uma tribuna e já desconfio dele. Sei que ele sempre tem segundas intenções. Um exemplo rápido: por que tanta CPI? CPIs não são constituídas para apurar ou esclarecer. Aqui ou em Brasília, em qualquer câmara ou assembleia, uma CPI tem por objetivo fazer o governo sangrar, desgastar candidaturas até a hora da eleição. Enquanto isso, as crianças estão esmolando nos semáforos. Por que eles não se empenham assim para salvar as crianças que esmolam nos semáforos?

Não, esses homens de gravata estão pouco se lixando para criancinhas que fumam crack debaixo dos viadutos, para meninas que se prostituem, para garotinhos que são abusados pelos pais. Eles querem é fazer política. A gravata que amarram em torno do pescoço é um símbolo disso. Um símbolo da política que fazem. Devia ser um símbolo de seriedade. Homem de gravata é homem sério, já se disse uma vez. Não mais. Homem de gravata é homem que se leva a sério, e disso eu não gosto. Tenho preconceito contra essa gente de gravata que se leva a sério.

 

 * Texto publicado na página 2 da Zero Hora de hoje.

Postado por David

Em defesa das gordas

19 de agosto de 2009 14

Eu sou um defensor das gordas! Clica no player e confere o movimento que nós fizemos no Pretinho em favor das moças com uns quilinhos a mais:

Postado por David

A vitória da delicadeza

19 de agosto de 2009 22

Fraga

A folhas tantas do show em que comemorou cinco décadas de carreira, o Rei desabafou. Disse que gostaria de só ter cantado músicas de amor bem-sucedido neste tempo todo, só amores que deram certo, só alegrias e rosas, o som de violinos ao fundo. Mas não. A vida não é assim, bicho.

Mesmo ele, mesmo Erre Cê, sofre por amor. E Roberto Carlos sofreu, admitiu-o sob as luzes do palco. Uma época em especial: 1986. Zico perdia o pênalti na partida decisiva contra a França, nós assalariados usufruíamos das delícias do Plano Cruzado, e o Rei se angustiava por uma paixão irresolvida. Aí ele compôs uma música. Contou sua história e cantou-a na apresentação porto-alegrense. Eu não a conhecia, distraído que sou da obra do Rei concebida após os anos 70. Uma música bela e compassiva, na qual o verso mais forte, e se trata de um verso forte, pede à mulher amada:

Do fundo do meu coração
Não volte nunca mais pra mim.

Uau! Fiquei pensando: quem seria essa tigresa que feriu tão profundamente o coração do Rei? Calculei: 1986. Só pode ser Myriam Rios. Tem lógica. Foi Myriam Rios quem o deixou, depois de 10 anos de relacionamento. Formavam o casal 20 daquele tempo. O Conjunto Impacto chegou a fazer sucesso nas reuniões dançantes cantando:

Queria ser como o Roberto
E ter a Myriam sempre por perto
Viajar no meu iate
Coçando e tomando mate.

Pois bem. Roberto não teve a Myriam sempre por perto, e isso dilacerou-lhe a alma, e o levou a tecer uma linda canção. As mulheres na plateia uivavam enquanto o ouviam cantar sua dor com a suavidade de costume. Duas ao meu lado alcançaram o êxtase, tinham convulsões de prazer, ganiam feito labradoras adolescentes.

Como pode, pensei, depois de 50 anos, como pode Roberto Carlos ainda enlevar a tal ponto o público? Mais: como pode RC manter cativo um público que, só em Porto Alegre, somou 50 mil pessoas em cinco dias?

Aí está: o reinado cinquentenário de Roberto Carlos é a vitória da delicadeza. E uma prova de que o caráter do brasileiro, se nem sempre é afável, pelo menos preza a afabilidade. O cantor-símbolo de um país diz muito do que é esse país. Os Estados Unidos não são o brega glamouroso de um Élvis, de um Michael Jackson? A Inglaterra não é o produto da rebeldia que explode da pressão da tradição, como são os Beatles e os Stones? Os argentinos não são dramáticos como um tango de Gardel? A França não é a sofisticação afetada de uma Piaf, de um Charles Aznavour?

Pois é. E por aqui, nada vinga sem que seja usada a gentileza eterna de um Roberto Carlos, sem a ponderação, a paciência e a tergiversação. Sem que seja usada a política, portanto. Casos exemplares de governantes fracassados são casos de fracassos políticos, mais do que fracassos administrativos: Collor antes, Yeda agora. Lula, ao contrário deles, é um político nato. Foi acossado por denúncias tão graves quanto as que apodrecem o governo Yeda, e saiu incólume de todas elas. Por quê? Porque Lula conversa, trama alianças, protege-se e, suavemente, sempre suavemente, avança.

Eis a fórmula da CBF. Uma entidade que era odiada pelos clubes e pelos torcedores, tanto que clubes e torcedores se rebelaram. Foi fundado o Clube dos 13, que seria a libertação dos grandes clubes brasileiros, os que representam a maior parcela da torcida do país, os que realmente importam. Tudo ia mudar, e isso aconteceu exatamente na época em que o Rei sofria e, sofrendo, pediu que ela nunca mais voltasse pra ele. Justamente nessa época o futebol brasileiro ia mudar. Não mudou. Porque à crueza da rebelião dos clubes a CBF reagiu com uma resistência maleável, com uma solidez macia e, por isso mesmo, irresistível. Com política reagiu a CBF. E venceu.

É assim que se vence entre os súditos de Roberto Carlos.


* Texto publicado hoje na página 42 de Zero Hora.

Postado por David