Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de setembro 2009

Perdido na floresta de pernas

30 de setembro de 2009 12

Pernas de mulher são emocionantes. A loirinha Sândi tinha coxas grossas e desenhadas com o capricho com que desenha um Gilmar Fraga. Eu não conseguia não olhar para as coxas dela. Uma vez, estava sentado num banco de pedra lá no fundo da Coorigha, esperando a turma para jogar bola, e a Sândi apareceu, gingando dentro de uma minissaia de quatro dedos de altura. Veio na minha direção, os olhos azuis faiscando. À primeira chicotada de olhar, notei que havia um vergão na parte de trás da coxa direita dela. Por pudor, tentei disfarçar, fazer de conta que não tinha visto. Só que ela mal chegou e já se virou assim de ladinho e miou:

— Viu que estou com um vergãozinho na coxa?

Pronunciava coxa assim: coxxxah. Isso me deixava nervoso. Uma coxa dita desse jeito é muito mais suculenta.

Eu ali, sentado no banco, gaguejei:

— Ver-ver…gão? Não tinha visto…

— Ó aqui ó — ela se virou mais um pouquinho, ficou toda empinada bem ali, a palmo e meio do meu nariz.

Olhei para o risco róseo na carne branca e lisa.

— Nc — comentei.

— Foi o fio da pandorga do meu irmão que passou aqui. Doeu na hora. Agora não mais. Agora está bom. Mas ficou altinho. Quer ver como ficou altinho?

Ergui a cabeça. Encarei-a, aflito. O que ela queria dizer com “quer ver como ficou altinho?” Propunha que olhasse mais de perto? Ou que… oh, Cristo, que tocasse na cicatriz?

Segunda alternativa. Ela sussurrou:

— Passa a mão…

Com um milhão de pandorgas, pipas e papagaios, ela queria que eu passasse a mão no vergãozinho dela!

Aí estiquei o dedo indicador da mão direita, esse mesmo dedo que tecla botões de celular, aperta campainhas e faz o número um, esse que já indicou a professoras que eu queria ir ao banheiro e que já parou táxis e ônibus na rua e que já deflorou bolos de chocolate. Pois estiquei esse dedo e o fiz voar, trêmulo, até aquela marquinha rosada, e esfreguei-o ali, e quase chorei de felicidade. Era a primeira vez que eu tocava numa coxa de mulher.

A segunda vez não foi numa coxa alva de loira. Foi numa coxa bronzeada, da cor de canela, da morena Alice. Nós dois estávamos no Fusca verde do pai dela, estacionado bem em frente à Tenda do Seu Zequinha, e a Alice vestia um short branco que, por Deus, faz parte da história da minha vida. Abracei-a pela cintura e, lentamente, ardilosamente, fui descendo a mão. Descendo, descendo, rumo às… coxas!

Hoje ninguém mais colocaria ponto de exclamação depois de coxas, sei bem disso, hoje qualquer adolescente espinhudo tem vasta experiência em coxas, mas naquele tempo as coxas de uma mulher eram um território que poucos guris podiam se gabar de conhecer com intimidade, faziam parte da nossa mitologia, eram um prêmio quase inatingível. Dizíamos, entre nós:

— Quando vou alisar uma coxa de mulher pela primeira vez?

Por isso, quando finalmente empalmei as coxas de Alice e as acariciei com sofreguidão, pensei: não acredito que isso está acontecendo comigo, não acredito! Obrigado, Deus. Obrigado!

Foi bem isso o que pensei e, ao sair do Fusca verde do pai da Alice, sentia-me tonto de emoção. Fui para casa, deitei-me ao comprido no sofá e, ainda experimentando as vertigens do prazer, disse para mim mesmo que a vida é boa, é boa, é boa.

Coxas de mulher são emocionantes.

Agora calcule a minha situação: certa tarde, estava entre essas quatro coxas, as dourado-escuras de Alice e as dourado-claras de Sândi, mais as bem fornidas de Josie, as compridas de Ariadne, as macias de Débora, todas as gurias vestiam short naquele entardecer de verão, e o mundo parecia tão belo, tudo parecia exatamente em seu lugar, aí o céu azul-Grêmio começou a ficar azul-Cruzeiro e logo se tornou preto-Botafogo e o ar se transformou em um ar pesado e vibrante. Era a tempestade de verão que se aproximava. Olhamos para o céu, eu e as minas, e eu ali, no meio daquela floresta de coxas, só eu de homem entre tantas belas, e sabe o que pensei? Vou confessar exatamente o que pensei. E-xa-ta-men-te: que vontade de jogar bola na chuva! Foi isso que pensei.

Então, como se tivessem ouvido os meus pensamentos, os guris chegaram correndo de algum lugar. Vinham em matilha, o Barnabé, o Plisnou, o Cavalo, o Anão, o Tosão, o Diana, o Zoreia, o Barril, o Languiça, o Mochila, o Apara Peido, o Fio, o Zé Índio, o Beto Zúqui, e outros mais, e alguém levava debaixo do braço a bola vermelha do Zé Fernandes, e eles gritavam:

— David! Vamos jogar na chuva lá no Alim Pedro, David! Vamos! Vamos!

Olhei para as pernas todas das gurias à minha volta. Umas estavam com as pernas cruzadas; outras paradas, com o peso do corpo apoiado numa única perna; uma tinha as mãos à cintura; uma se espreguiçava, adoro ver uma mulher se espreguiçando; e todas aquelas pernas reluziam como um cântico à glória da obra da Mãe Natureza. Mas os guris corriam para o Alim Pedro, e imaginei o jogo na chuva e no barro, a gente escorregando e caindo e rindo e levantando lama e água, e disse:

— Tiau, gurias!

Enquanto corria para o Alim Pedro, ainda ouvi a Alice me chamando:

— Davim…

Elas falavam Davim. Era legal. Mas jogar na chuva também era. Pode não ser o melhor para jogo valendo três pontos, mas que é divertido, isso é.

Postado por David

Jô em casa — 14º Capítulo

29 de setembro de 2009 46

Fraga

E então as águas escuras do mar de Pinhal abriram-se para receber aquelas duas beldades nuas, como um dia antigo de milênios as do Mar Vermelho se afastaram para deixar passar o povo de Moisés. Desta vez não eram sandálias toscas de couro de jumento que afundavam na areia molhada, mas dois pares de pés delicados, tratados a creme francês, as unhas decoradas pelo trabalho afanoso de manicures especializadas, as cutículas removidas com critério de artesão, os calcanhares macios como pãezinhos seven boys. As ondas azuis lhes lambiam as coxas lisas, elas se arrepiavam de frio, os bicos de seus seios enrijeceram, os pelinhos macios de suas nucas se eriçaram, mas elas continuavam avançando mar adentro. Karina, que estava alguns metros adiantada, parou ao ouvir o chamado de Jô.

Virou-se de lado. Esperou-a. A silhueta longilínea de Karina se destacava contra o horizonte azul. Jô a admirou. Parada nua no meio do mar, era como a Vênus de Boticelli emergindo de sua concha em toda a glória da beleza da mulher.
Jô caminhou na direção dela emitindo pequenos gemidos à medida em que a água gelada lhe envolvia novos nacos de carne. Karina aproveitou uma onda um pouco maior e mergulhou para que o corpo se acostumasse à temperatura da água. Desapareceu no mar feito uma sereia para reaparecer mais adiante, sorridente, luminosa. Jô sorriu e a imitou. Logo, as duas puseram-se lado a lado e saltaram com as ondas, rindo, gritando de prazer. Quem as visse da praia poderia julgar que eram duas crianças brincando e, na verdade, era o que eram.

E brincaram e saltaram e nadaram, duas meninas, dois peixinhos, duas sereias, duas deusas. Jô sentia-se livre, sentia-se completa assim, nua, contemplando a nudez resplandecente de Karina. Elas podiam fazer o que quisessem, elas eram duas belas mulheres estuantes de vida, que não deviam nada a ninguém, que não tinham culpa ou remorsos. Elas tinham o poder.

Jô não se cansava de olhar para Karina, tão perfeita, uma obra acabada da Natureza. O mundo se tornava melhor sabendo-se que Karina estava nele. Continuaram pulando na água, nenhuma delas falava, apenas riam e se olhavam e se olhavam e se olhavam e permitiam que o olhar de uma lambesse o corpo da outra.

Em meio às brincadeiras, Jô se desequilibrou ao quebrar de uma onda e Karina a segurou pelo braço, puxou-a para si, não deixou que caísse. Ficaram muito próximas, muito juntas, pele contra pele. Karina era um pouco mais alta, mas, ao apoiar o peso do corpo num só pé, colocou-se à altura de Jô e os seios das duas se roçaram, os mamilos tesos esgrimindo. Por um segundo, Jô achou que aquela carícia não fosse intencional, mas não demorou a concluir que, sim, era sim, Karina queria fazer o que estava fazendo. Jô empinou-se toda, projetou os quadris para trás e o peito para frente, tornou-se um S de carne tenra e segurou Karina pela cintura e olhou no fundo de seus olhos verdes de água. Karina respirava pela boca e olhava-a languidamente e continuou lânguida e entregue enquanto Jô a prendeu com mais força e a envolveu com seus braços e aproximou seus lábios dos lábios dela.

E Jô a beijou.

Teve consciência, durante o beijo, que, pela primeira vez na sua vida, tomava a iniciativa. Nunca fizera algo parecido antes, nunca tentara possuir alguém, fora sempre ela a possuída, ela era o banquete, jamais o comensal. Agora era diferente. Agora, Jô queria tomar Karina, e isso a deixou ainda mais excitada. Esgueirou a língua por entre os dentes de Karina, sentiu-lhe o gosto doce da boca, apalpou-a e acariciou-a, teve-a para si. Karina era dela naquele momento, dela, sua propriedade, sua, Jô tinha a seu dispor um outro corpo com o qual se deliciar, e aquela era uma sensação inédita e inebriante.

Entregaram-se, as duas, a um beijo sem fim, carinhoso e sôfrego ao mesmo tempo, um beijo que jamais haviam beijado. E da boca Jô desceu para o pescoço e do pescoço para os seios de Karina e as pequenas mãos de Jô empalmavam a carne rija das nádegas da outra e Jô ia enlouquecer de prazer, quando ouviu aquele grito:

- Jô!

Uma voz de homem. Uma voz horrivelmente familiar:

- Jô!

Foi como se o mar inteiro tivesse congelado. Jô tirou a cabeça do corpo molhado de Karina e olhou para a praia. Ali adiante, parado na areia, os pés cobertos pela espuma branca, estava o seu marido Fábio, os olhos muito arregalados, a boca muito aberta, repetindo sem cessar:

- Jô… Jô… Jô…

 

E agora???
O que acontecerá com a nua Jô e a não menos nua Karina???
Saiba logo, no próximo empolgante capítulo de… Jô em casa!

Postado por David

Café TVCOM

28 de setembro de 2009 3

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

Confere aí:

Postado por David

Jô e Karina

27 de setembro de 2009 9


Ansioso leitor, pela ilustração do Fraga você já pode imaginar o que vai acontecer entre as nossas heroínas…

Postado por David, ouvindo música com o Pocolino

Jô em casa — 13º Capítulo

27 de setembro de 2009 10

Era uma cena familiar. A cena mais familiar que Jô poderia presenciar. O marido, Fábio, sentado à mesa de jantar, jogando pontinho com os filhos.

– Oi, mãe! – saudaram-na em coro Pedro e Alice, assim que ela pisou no soalho de tábuas da casa com seu pequeno pé coberto de areia da praia.

Jô sentiu o peito se comprimir. Sua família ali, reunida em alegria e harmonia, e ela pensando em cometer desatinos sexuais. Sentiu-se uma mulher pérfida e imoral, sentiu-se uma ingrata. Ela tinha uma bela família, lindos filhos, um bom marido, e tudo o que queria era se entregar aos prazeres da carne.

Por que isso? Por quê???

Será que ela não podia simplesmente viver uma vida… normal? Será que ela não podia mais ser quem era tempos atrás? Jô ficou parada à porta, assistindo à cena. Depois de aproximou devagar, tomada não pelas labaredas do desejo, mas pela brisa da ternura. Posicionou-se atrás da cadeira do marido. suspirou. Pousou a mão suavemente na cabeça dele, fazendo um carinho. Fábio se retesou, como se tivesse levado um choque.

– Não atrapalha, Jô! – reclamou. – Estou jogando!

Jô tirou a mão, magoada, sentindo-se agredida. Não disse nada, caminhou até a cozinha, tentando avaliar os seus sentimentos. Amava aquelas pessoas, seus filhos, seu marido, amava-os, mas tinha bem claro em sua alma que a vida familiar era pouco para ela. Não que lhe fosse insuportável. Não era, era até boa. Uma garantia de tranquilidade, de paz e de proteção. Só que era pouco. O gesto de Fábio, um gesto de evidente impaciência, revelava o quão pouco se tornara aquela vida para ela. Pois o que dera a Fábio o direito de ser impaciente com ela, o que lhe dera o direito de se virar na cama e dormir, o que lhe dera o direito de quase nem mais olhar para ela com admiração ou cobiça, o que lhe dera tais direitos era, justamente, a vida familiar. A intimidade. A convivência diária. Aquilo, aquele carinho renegado, aquela frase brusca, aquilo representava muito para Jô.

Jô queria mais.

Jô sabia que era uma mulher linda e desejável, e sabia que a vida é curta. Jô queria absorver o melhor da vida já. Agora. Sem esperar.

Estava em frente à geladeira, raciocinando, quando Karina entrou na cozinha. Vestia um short branco curto e a parte de cima do biquíni. Calçava um chinelinho de couro. Jô olhou para ela; ela olhou para Jô. O que havia naquele olhar verde-água? Karina era uma esfinge.

– Você tomou banho de mar agora? – perguntou Karina, abaixando a cabeça e olhando para o vestido de Jô, que lhe grudara na pele à altura da calcinha.
Jô pensou que Fábio não havia percebido isso. Fábio nem sequer olhara direito para ela.

– Tomei – respondeu.

– Nua?

A pergunta de Karina, por algum motivo, a perturbou. Nua, ela disse. Nua. Por que Karina queria saber se ela tomara banho nua? Não era o tipo de pergunta que se fizesse. Ao menos não daquela maneira tão formal. Ao responder, a voz de Jô saiu rouca:

– Entrei no mar só de calcinha.

Karina continou olhando-a, séria. Jô sustentou aquele olhar. Karina enfim falou, e sua voz também saiu-lhe baixa.

– Vou fazer isso. Vou imitar você. Vou tomar banho de mar agora. Nua.

Dito isso, saiu da cozinha, deixando Jô parada, de pé, pensando. Aquilo era uma provocação. Só podia ser uma provocação. Por que ela dissera que iria tomar banho nua? E por que dissera com tamanha gravidade, de um jeito tão insinuante. Karina queria algo com ela, claro que queria.

A respiração de Jô ficou mais pesada. Entreabriu os lábios. Decidiu-se. Ia atrás. Ia!

Foi.

Saiu da cozinha, foi para a sala, passou pela mesa em que o marido e os filhos jogavam. Nem repararam nela, estavam marcando os pontos num caderno de pauta. Jô saiu de casa. Desceu o deque. Pisou na areia. Avistou Karina logo adiante. Já estava sem o short. Vestia apenas o biquíni. E, pelo que Jô conseguiu entrever na escuridão, levava as mãos às costas para tirar a parte de cima. Ia se despir. Ia ficar nua. Jô resolveu que ficaria nua também. Entrariam as duas nuas no mar.


Entraram? O que aconteceu?
Saiba logo, logo, no próximo capítulo de… Jô em casa!

Postado por David

No tempo da pantalona

26 de setembro de 2009 10


Eu tinha uma pantalona cor-de-rosa. A boca de sino da pantalona era do tamanho de uma tampa de panela de pressão, arrastava no parquê, cobria o Bamba branco. Cara, aquele Bamba branco era tric. Meu primeiro Bamba. Até então só usava Conga, e uma vez ganhei um par de Ki-Chutes. Nunca vou esquecer da sensação de abrir a caixa e olhar aquela lindeza. Pretinho, com travas de borracha, cadarço comprido, de amarrar em volta do tênis, igual aos argentinos. Nossa, eu corria muito mais de Ki-Chute, corria que nem o Cyborg, o Homem de Seis Milhões de Dólares (baratinho, hoje). Mas era o Bamba que combinava com a pantalona rosa, sim, senhor. A camisa também fazia sucesso. Amarelona, com umas golas marrons que desciam a curva dos ombros. Evidentemente, tinha de ter três botões abertos ao peito. Uma elegância. As gurias olhavam e miavam:

– Djoia…

Lembrei dos velhos tempos da pantalona cor-de-rosa quando o Jones Lopes da Silva me veio com essa foto, dias atrás. O Jones está escrevendo um livro sobre a vida do Escurinho. No Último Minuto será o título. Estou ansioso para ler. Porque o trabalho do Jones, vejo todos os dias, é minucioso, é dedicado, é trabalho de artesão.

Esta é uma das fotos que ilustrarão o livro. Foi clicada na loja de roupas que o volante Tovar inaugurou creio que em 1974. Veja que preciosidade. Os seis rapagões vestidos com esmero, todos dentro de vistosas pantalonas, são jogadores daquela década. Os seguintes, da esquerda para a direita:

O tipo de terninho branco e pose de pistoleiro é o ponta-esquerda pernambucano Lula. Apelido bem de pernambucano, esse. Tratava-se de um temperamental, como a maioria dos canhotos. Enfurecia-se facilmente, como se nota pelo olhar grave que lança ao fotógrafo. Brigava no vestiário, xingava o treinador, discutia com os colegas por qualquer tiro de meta mal cobrado. Mas, no jogo, apanhava a bola na esquerda e partia a drible rumo à área, rojando os adversários na grama, investindo gol adentro em velocidade, um ponta agressivo que não podia ficar um minuto sem vigilância. Hoje não existem mais pontas. Pena.

Ao lado de Lula, também de pantalona branca e também sério, Bolívar, o único jogador do Grêmio do grupo. É o pai do Bolívar que joga hoje no Inter. Bolívar Pai começou na ponta-esquerda, foi recuado para a lateral e acabou na quarta-zaga, sendo inclusive convocado para a Seleção. Uma vez, Maurinho, um ponta do Caxias, tentou driblá-lo. Bolívar desferiu-lhe um golpe de bico de chuteira que lhe extraiu um contrafilé da coxa. Maurinho saiu de campo guinchando. Muitos queriam driblar Bolívar, alguns tentavam, poucos conseguiam, nenhum saía ileso.

Um pouco à frente, todo sorrisos, bigodes e cabelos, está o Cláudio Duarte. Chamavam-no “Bonitão”, porque, bem, naquele tempo de pantalonas e golas asa-delta, achavam-no bonito. Cláudio ainda é um homem de sorriso fácil, mas não gosta mais de usar bigode e não pode mais usar cabelo.

O de cabelo black-power é Jair, o Príncipe Jajá, que não dizia que o nome dele era Jair, dizia que era Jérrr, em carioquês.

O último de pé é Dom Elias Figueroa. Além de zagueiro de cotovelos de aço, tratava-se de um arrebatador de mulheres, o que se percebe pelos trajes calculados com critério. Olhe bem: se ninguém ali é casual, Figueroa é o menos casual.

E sentado debaixo de uma redoma de cabelos pretos, dentadura reluzente, blusa listrada, está o personagem do Jones. Escurinho. Preste atenção nos saltos plataforma que ele usa. Uma beleza. Nunca tive a experiência de subir em cima de saltos como estes.

Para completar a cena, bem à direita, já saindo da foto, uma velha máquina de escrever repousa sobre a mesa. Onde estará aquela máquina? Onde estarão hoje todos os bilhões de máquinas de escrever já produzidos pela humanidade? Alguém aí me diga.

Enfim, o que importa é que, naquele tempo, um ponta era um ponta, um lateral era um lateral. Ninguém era ala, jogador de quem não se exige a capacidade de marcar que tinha um lateral, e de quem não se espera a agressividade de atacar como tinha um ponta. Um ala, que não é bem bem ponta, nem bem lateral, não é nada. Como as máquinas de escrever e as pantalonas, os pontas se foram. Mas, como o computador pessoal e o jeans, os alas não são a solução.

*Texto publicado na página 43 de Zero Hora dominical.

 

Postado por David

A entrevista

25 de setembro de 2009 19

Vez em quando, releio certo naco de um livro que descansa na estante bem às minhas costas, ao alcance do braço esticado. O livro é A Arte da Entrevista. O texto, bem, é uma entrevista. Com Freud, feita por um jornalista americano, George Viereck. Os dois caminham em meio a um jardim, admirando as flores, conversando. Passa-se em 1930. Aos 74 anos, Freud era torturado por um câncer na boca e usava uma prótese no maxilar. Nove anos depois, num 23 de setembro como o que há pouco se foi, morreu. A seu pedido, por meio de uma eutanásia piedosa.

Mas em 1930 Freud ainda produzia com vigor. Escreveu um de seus melhores livros, O Mal-Estar na Civilização, genial pelo conteúdo e pelo estilo. E, na entrevista, concebeu reflexões de uma sabedoria singela e comovedora da qual só é capaz um homem no rumo do fim. Algumas frases são diamantes:

“Não permito que nenhuma reflexão filosófica me tire a alegria das coisas simples da vida.”

Quando o repórter toca o tema da decrepitude inevitável, Freud faz um comentário resignado, mas suave, quase doce:

“Não me revolto contra a ordem universal, afinal, vivi mais de 70 anos. Tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas – do companheirismo da minha esposa, dos meus filhos, do pôr do sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me entendeu. O que mais eu posso querer?”

Finalmente, o repórter tece uma observação que irrita Freud:

– Sempre me pareceu que a psicanálise desperta em todos aqueles que a praticam o espírito da caridade cristã. Não há nada na vida humana que a psicanálise não nos permita entender. E tudo compreendido é tudo perdoado.

Freud, segundo o repórter, enfureceu-se:

– Pelo contrário. Entender não é perdoar. A psicanálise não apenas nos ensina o que temos de suportar, também ensina o que temos de evitar. Nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância do mal não é, de maneira nenhuma, uma consequência do conhecimento.

Entender não é perdoar. Irretocável. Mas Freud se irritou precisamente por saber que a psicanálise estava conduzindo a humanidade na direção oposta, como talvez Cristo se irritasse ao ver no que se transformou o cristianismo.

Depois da II Guerra, a compreensão se confundiu com a leniência. Sobretudo no Brasil, qualquer repressão era antidemocrática, qualquer punição era cruel. Hoje, a sociedade movimenta-se para o outro lado. Nesta semana, junto ao registro do aniversário de 70 anos da morte de Freud, os jornais mostraram a comunidade exultante por duas razões: com a punição aplicada ao menino que pichou sua escola, e com as crianças obrigadas a cantar o Hino Nacional. Uma notícia se relaciona com a outra. A intenção óbvia da lei que obriga a execução do Hino é despertar nas crianças o chamado “amor à pátria”. Que, em tese, é bom sentimento: quem ama sua pátria a preserva e não faz como o garoto pichador, não vandaliza o patrimônio público. Mas e a pátria dos outros? E a escola dos outros? Pode ser depredada? Pela lógica do patriotismo, isso é irrelevante – relevante é a pátria. Freud, um judeu-austríaco que durante a maior parte da vida se considerou alemão, sofreu com esse tipo de sentimento mais do que com o câncer na boca. Talvez por isso, em vez do amor à pátria, preferisse o amor às pessoas. Um amor que sempre entende, como pretende a psicanálise, e às vezes perdoa, como prega o cristianismo. E que, como uma e outro, reprime, se tiver de reprimir, pune, se for preciso punir.

*Texto publicado hoje na página 2 de Zero Hora.

Postado por David

Jô em casa — 12º Capítulo

24 de setembro de 2009 32

Jô caminhou apressada pela areia, ansiosa para chegar logo em casa. Estava resolvida. Não ia entrar no quarto, fechar a porta, despir-se e atirar-se na cama. Não. Mas quase isso. Ia entrar no quarto, fechar a porta e esperar. Ficaria parada, muda. Esperando. Se um dos dois, Lucas ou Karina, a puxasse pela mão e a conduzisse até a cama, se um dos dois, ou os dois, lhe sacasse as roupas e a fizesse deitar, se um deles, ou ambos, começasse a acariciá-la, a passar a mão nela, a fazer o que quisesse com ela, ela permitiria. Caso contrário, se eles estranhassem sua presença ali, se perguntassem o que ela queria, se manifestassem qualquer forma de desconforto, Jô simplesmente diria que viera pedir desculpas por ter entrado antes no quarto, que entrara por engano, que estava meio tonta de sono e por isso errara de porta. Era um bom plano. Pelo menos era o que Jô achava.

Assim decidida, avançou pelo escuro da noite, ouvindo o bramido do oceano, cogitando se o lugar, a praia, as roupas poucas, se todo aquele ambiente não contribuía para transtorná-la daquela maneira. Jô precisava de sexo. Precisava.

Chegou à casa, enfim.

Entrou.

E o que viu a paralisou. O que viu quase a fez chorar.

 

 

O que Jô viu???

 

Esse capítulo foi curtinho, sei, mas só assim para não deixar os leitorinhos na mão numa quinta-feira de começo de primavera, em que as obrigações a toda hora me solicitam. Daqui a pouco vem mais. Aguardem!

Postado por David, correndo para o Pretinho Básico

Uma irmã linda, outra feia

23 de setembro de 2009 18

Fraga
Raquel e Lia eram irmãs. Raquel, que em hebraico significa “ovelha”, era linda; Lia, que em hebraico significa “gazela”, era feia. A história delas é narrada no Gênesis, o primeiro dos 73 livros da Bíblia. Ou seja: desde o princípio do mundo isso de haver uma irmã linda e outra feia na mesma família rende boas histórias.

Jacó, um dos patriarcas do povo hebreu, neto de Abraão, o fundador das três grandes religiões monoteístas, Jacó era primo dessas duas irmãs. O pai delas, tio de Jacó, chamava-se Labão. Nome estranho, certo, mas não menos do que Wianey.

Jacó, que não era bobo, apaixonou-se pela bonita. Pediu-a em casamento. Labão concordou, mas interpôs uma condição: Jacó teria de trabalhar de graça para ele durante sete anos. Jacó topou, donde se conclui que Raquel devia ser mesmo a mulher mais linda da Mesopotâmia. Depois de sete anos se esfalfando feito um subeditor no plantão de sábado, Jacó enfim viu chegar o dia do casamento. Sentia-se tão feliz com a ideia de se libertar e possuir a mulher amada que bebeu demais durante a festa. À noite, enquanto o noivo se abraçava aos convidados e dizia te considero pra caramba, Labão mandou que Lia, a feia, se enfiasse no leito conjugal. Quando Jacó chegou, meteu-se entre os lençóis e consumou o ato com Lia, balbuciando:

– Du é a minha brinzezinha, Raquel…

No dia seguinte… Ah, o dia seguinte… Todos os homens já experimentaram a medonha sensação que Jacó experimentou naquela manhã. Ao despertar, ele abriu os olhos pensando cara, como a vida é boa, virou-se para o lado e… WOLFREMBAER!!! O que é que aquele xis-bacon estava fazendo ali???

Jacó correu furioso até Labão, mas Labão era como a maioria dos comerciantes brasileiros: não aceitava devoluções. Jacó reclamou que havia sido enganado, e aí Labão veio com uma conversinha, explicou que era tradição casar a filha mais velha antes da mais nova e bibibi. Naqueles tempos em que não havia Engov, Jacó, decerto com a cabeça latejando, acreditou. Concordou em ficar com a feia, mas queria casar com a bonita também. Labão aceitou. Com uma condição:

– Vai ter que trabalhar outros sete anos de graça.

Jacó suspirou e topou. Essa Raquel devia ser mesmo uma côsa. Fico imaginando-a: uma mulher de pernas de louça e voz de leite condensado e… bem, você sabe. O fato é que, depois de mais sete anos suando como um moto-boy, Jacó se casou com Raquel.

Labão, mostrando afinal alguma generosidade, deu duas moças de presente às filhas. Não como criadas, apenas para lhes fazer companhia. Zilpa e Bila, chamavam-se elas. Nomes estranhos, sei, mas não menos do que Suélen.

Jacó, obviamente, preferia a bonita, e passava quase todas as noites com ela. Mas vez em quando decidia dar uma variada, dormia com Lia e, sempre que fazia isso, blup, Lia engravidava. Teve quatro filhos, um atrás do outro, enquanto Raquel, nada. Naqueles tempos a turma ainda estava na atividade de povoar a Terra e tudo mais. Assim, Jacó passou a admirar a fecundidade de Lia. Raquel, aflita, decidiu contragolpear. Deu sua dama de companhia Bila ao marido, que nela fez dois filhos: Naftali, ou “engenhoso”, e Dã. Algum gaiato pode achar que o menino se chamava Dã por ser meio abobado. Não: Dã quer dizer “julgamento de Deus”.

Nesse meio tempo, Lia, que não queria perder para a irmã, deu Zilpa a Jacó, e nela Jacó fez outros dois filhos de nomes interessantes: Gade, “vindo por acaso”; e Aser, “felicidade”.

Jacó, portanto, estava bem abastecido de filhos e mulheres. Mas ainda preferia a bela Raquel e praticamente só dormia com ela. Até que um dia o filho mais velho de Lia lhe trouxe algumas mandrágoras para comer. Nunca comi uma mandrágora, mas já li a respeito. Sei que as bruxas da Idade Média adoravam mandrágora, uma planta que tinha o apelido de “Maçã de Satã”. Seja. Acontece que Raquel gostava muito de mandrágora e pediu uma para Lia. Lia respondeu que lhe daria uma madragorinha, desde que pudesse passar mais uma ou duas noites com Jacó. Negócio fechado. E, claro, Lia engravidou. Mais dois filhos.

Nessa história, contada tanto no Gênesis como por Flávio Josefo, o que me espanta não é a capacidade parideira de Lia, a beleza de Raquel ou a astúcia de Labão. É a forma como as mulheres dispunham de Jacó. Eram mulheres do Oriente Médio, que viviam pouco depois do rei Hamurábi, isto é, há cerca de 3.500 anos. Deviam ser submissas, pois. Não eram. Ao fim e ao cabo, elas é que tomavam as decisões sobre o que era importante.

É assim mesmo: quem resolve são os jogadores em campo, não o técnico no banco. Jonas decidiu bater o pênalti. Nem sequer olhou para a margem do gramado, onde Autuori esbravejava. Foi lá e bateu. Errou, verdade, mas foi ele quem tomou a decisão. As mulheres em casa e os jogadores em campo, são esses que ganham o jogo. A história do mundo deve mais a resoluções pessoais dos subalternos do que se pode concluir pelo que está escrito.

*Texto publicado hoje na página 48 de Zero Hora.

Postado por David

Jô em casa — 11º Capítulo

22 de setembro de 2009 22

Fraga

Era pouco mais que um menino. Quantos anos teria? Dezessete? Talvez menos. Devia ser surfista. Pelo menos tinha o tipo. Corpo bem proporcionado, músculos desenvolvidos, cabelo alourado. Vestia bermuda, e nada mais. Levava o vestidinho de Jô numa das mãos e, no rosto, um sorriso que era todo malícia. Ao avançar pela areia e pela escuridão, Jô divisou aquele sorriso maroto e se irritou. Ele havia pego o vestido, evidentemente, para provocar a mulher que decidira nadar nua. Uma molecagem de um moleque, nada mais. Só que ela não era moleca. Ela era uma mulher. Avançou em direção ao garoto sem hesitação. Já fizera isso antes e sabia que reação uma mulher bonita e nua, ou seminua, desperta num homem. A beleza de uma mulher pode ser opressiva para alguns homens. Um garoto, então, não teria como resistir. Ela ia fazer picadinho dele. Picadinho.

Foi em frente, decidida como um general conquistador. E viu o sorriso no rosto do rapaz se dissipar aos poucos. Ele arregalou os olhos, engoliu em seco e estendeu o braço que carregava o vestido.

- É seu? – perguntou.

- Você sabe que é meu! – respondeu Jô, irritada. – Por que pegou?

O garoto olhava embasbacado para ela. Jô sabia-se dona de um corpo perfeito e de um belo rosto, sabia que os homens a desejavam, sabia que muitos seriam capazes de loucuras para tê-la nem que fosse por uma única noite. Jô conhecia a extensão do seu poder. Agora, ia experimentá-lo naquele moleque. Aproximou-se dele. Parou a poucos centímetros de seu peito nu, que arfava de nervosismo.

- D-d-desculpa… – balbuciou o garoto.

Jô analisou-o bem. Examinou-o com olhar crítico de alto a baixo, propositalmente arrogante.

- Desculpa… – repetiu ele. Estava a ponto de chorar.

Jô aproximou-se ainda mais. Encostou o corpo molhado no corpo dele. Os bicos de seus seios roçaram no peito do menino. Que entreabriu os lábios e emitiu um ruído rouco:

- Aaaah…

Jô sorriu. Olhou para baixo. Para o volume que crescia sob a bermuda.

- Garoto… – sussurrou.

E levou a mão espalmada ao peito dele, e sentiu-lhe a carne adolescente entre os dedos, e percorreu com a mão aberta o peito, o abdômen, a virilha, e mergulhou-a na bermuda sem pedir licença, invasora, desbravadora, perpetradora. Sorrindo, sorrindo sempre, sorrindo malevolamente, sentindo-se má e poderosa, Jô agarrou o membro do rapaz, apertou-o, manipulou-o por alguns segundos, fazendo-o gemer e se retorcer, e depois o soltou. Tirou a mão de dentro da bermuda. Tomou o vestido da mão dele. Ralhou:

- Isso é meu.

Com o que, deu-lhe as costas e marchou pela areia, deixando-o prostrado, murmurando:

- Oh… Ooooh…

Parou para pôr o vestido e, quando o vestiu, o rapaz fez menção de segui-la. Jô esticou o braço, num gesto de guarda de trânsito. Mirou-o, séria:

- Não sai daí! – ordenou, como se ele fosse um cachorro, e, como um cachorro, ele obedeceu.

Jô caminhou de volta à casa, satisfeita consigo mesma, resolvida a fazer o que havia pensado em fazer originalmente: a entrar no quarto de Lucas e Karina e atirar-se no meio deles, feito uma vagabunda. Uma vagabunda. Uma vagabunda.

Fez? Jô fez o que decidiu fazer?
Saiba logo, no próximo excitante capítulo de Jô em casa!

Postado por David

Jô em casa

22 de setembro de 2009 11

Fraga
Eis Jô, aflita, na praia. O que acontecerá com nossa bela heroína?

Postado por David

Jô em casa — 10º Capítulo

21 de setembro de 2009 29

Enquanto corria pela areia, Jô pensava sou louca, louca, me transformei numa desvairada, numa tarada. Há pouco tempo, era uma mulher certinha, comportada, até previsível, e agora nem ela mesma sabia o que podia esperar dela. O que faria quando chegasse à casa? Entraria no quarto, cerraria a porta, tiraria a roupa e se jogaria nua na cama entre Lucas e Karina, esfregando-se neles, entregando-se a eles? Pediria façam tudo comigo, tudo, tudo? Tinha ganas de agir assim, claro que tinha, mas aí já seria demais. Algum prurido, algum cálculo, alguma concessão à inteligência Jô teria de fazer. Afinal, ela não podia atirar-se exclusivamente aos seus desejos. Era certo que queria fazer coisas que ainda não fizera, que queria se jogar à aventura do próprio corpo, era certo que queria experimentar mais do que experimentara até então. Mas precisava tomar alguns cuidados. Afinal, havia o marido Fábio, havia os filhos, havia a sua família. Ainda que tivesse certeza de que satisfazer suas vontades não causaria mal algum a qualquer pessoa, tinha a consciência de que a moral, a hipocrisia e os costumes poderiam fazer sua família sofrer. Precisava resolver essa equação. Precisava ser quem ela queria ser, livre, dona de si mesma, inteira e, ao mesmo tempo, manter os seus afetos, preservar as pessoas de quem ela gostava e que gostavam dela.

Mas como fazer isso?

Como???

Em primeiro lugar, precisava pensar. Parou de correr. Virou-se para o mar. Fincou as mãos à cintura. Estava confusa. Como deveria agir? O desejo, a vontade de ser possuída, de tocar e ser tocada, a ânsia por outros corpos tomara conta de seu corpo, endurecia-lhe os bicos dos seios, latejava-lhe no sexo.

- Ai, meu Deus - murmurou Jô. - Aiai…

Jô sentia o desejo lhe escalar as coxas e instalar-se-lhe no entrepernas. Olhou em volta. A praia estava vazia. Anoitecia, já. Repetiu, num suspiro:

- Ai, meu Deus…

Nunca se sentira assim, tão dependente das ardências do próprio corpo. Tinha que fazer algo para se acalmar. Se tivesse coragem, procuraria um homem atraente, o primeiro que visse, um completo estranho de quem não soubesse nem o nome e, como uma vagabunda vulgar, pediria:

- Faça comigo o que você quiser. Agora.

E se deixaria possuir e, depois do gozo animal, iria embora sem nem lhe revelar seu nome ou perguntar o dele, para nunca mais vê-lo, nunca mais…

Era uma fantasia, Jô sabia que se tratava de uma fantasia, mas estava tão louca, tomada de tal maneira pelo desejo, que sentia medo de querer realizá-la. Olhou mais uma vez para os lados. Tomou uma decisão. Tirou o vestido pela cabeça, ficou só de calcinha e, só de calcinha, entrou no mar. Sabia que era uma maluquice, sabia que era perigoso, sabia que não devia fazer aquilo, mas fez. Sentiu a água gelada lhe bater nas canelas, arrepiou-se toda, riu alto e, ignorando o frio, correu para as ondas. Atirou-se na primeira vaga alta que veio ao seu encontro e nadou vigorosamente em paralelo com a areia. Sentia-se deliciosamente livre dentro do oceano, deliciosamente insana. Nadou, nadou para um lado, para outro, até que, enfim, decidiu sair. Caminhou pela areia sentindo a calcinha molhada e minúscula lhe grudando no corpo. Fora da água, pisou na areia e… oh, Deus… oh, Deus…

Onde estava o vestido?

Jô olhou para um lado, para outro, procurando desesperadamente sua roupa. Não podia voltar para casa assim, praticamente nua. O escuro da noite lhe confundia não apenas a visão, mas a percepção do que estava acontecendo. Será que saíra no lugar certo? No lugar onde deixara o vestido? Caminhou para um lado, para outro, então viu um vulto parado logo adiante, ao lado de um cômoro. Na mão do vulto, ela reconheceu, estava o seu vestido.

 

E agora? O que aconteceu?

Saiba logo, no próximo capítulo de Jô em casa!

>>> Confira, em instantes, a ilustração do Fraga para este epísódio da saga de Jô!

Postado por David

Café TVCOM

21 de setembro de 2009 3

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

 

Confere aí:

Postado por David

Uma história de lordes, ladys e condes

19 de setembro de 2009 11

Durante uma de suas temporadas londrinas, o conde Alfred d’Orsay envolveu-se com uma mulher casada. Esse d’Orsay do conde, se você reparou, é o mesmo d’Orsay do belíssimo museu montado em uma antiga estação de trem de Paris, quase em frente ao Louvre, só que do outro lado do rio. Tenho dúvidas se o museu foi batizado em homenagem ao conde, talvez seja por causa do pai dele, um dos generais de Napoleão. Tanto faz. Um ou outro, é bom visitar o museu e contemplar seus Van Goghs e seus impressionistas e tudo mais.

Mas o conde. Ele também foi célebre, só que por sua elegância, sua inteligência, sua beleza e sua cultura. Um homem de tal quilate enfeitiça inclusive as casadas mais castas. Foi o que se deu.

Chamava-se Margareth, a dita-cuja, mas em toda a Velha Álbion conheciam-na como Lady Blessington. A história dessa lady é deliciosa. Era irlandesa, filha de um juiz de pouca projeção, mas alguma ambição. Por conta desta segunda característica, ele obrigou a filha a casar-se aos 15 anos de idade com um compatriota irlandês que tinha a vantagem de ser rico e a desvantagem de ser louco.

Margareth suportou o matrimônio até conhecer Lord Blessington, grande proprietário de terras inglês, riquíssimo, como sói acontecer com grandes proprietários, pai de duas filhas e, o melhor de tudo, viúvo. O lorde olhou para Maggie e se embeveceu de imediato com sua beleza alourada e provocante. Fez com que se divorciasse, casou-se com ela e levou-a para a Inglaterra.

Lá, conheceram d’Orsay. Era um homem de conversação impecável, um perfeito dândi, experiente no convívio com nobres dos mais requintados salões europeus. Com sua conversinha de conde, d’Orsay conquistou ambos os Blessingtons, o lorde e a lady. Tornou-se amante da lady.

O lorde? Uma coisa ou outra: nem sequer desconfiava da infidelidade de Margareth ou não se importava com isso. Porque d’Orsay passava o tempo todo com o casal. O tempo todo mesmo: quando os Blessingtons viajaram de férias para a Itália, levaram o conde junto. Lord Blessington sentia-se tão satisfeito com esse convívio que fez um testamento deixando para o conde a maior parte da sua fortuna. No entanto, havia uma condição: d’Orsay teria de se casar com uma de suas duas filhas, à sua escolha.

Quando o lorde morreu, d’Orsay decidiu casar-se com a mais velha, então com 16 anos. Lady Blessington, prática, como todas as mulheres, concordou com o enlace; e ardilosa, como todas as mulheres, fez d’Orsay prometer que não manteria relações com sua enteada. O conde, arrebatado pela lady, topou o arranjo. Durante algum tempo, os três conviveram em harmonia, o conde, sua esposa virgem e a madrasta-amante. A filha de Blessington, contudo, cresceu, transformou-se em uma mulher atraente e desejável, e resolveu acabar com a farsa. Foi-se embora e deixou o conde com a lady.

Não é um homem digno de admiração, esse conde d’Orsay? Um fidalgo, um cavalheiro e ao mesmo tempo um sedutor. Fosse compará-lo a um time de futebol, o compararia ao Fluminense.

O Fluminense foi fundado em 1902. Junto com o Grêmio, que é do ano seguinte, é o mais antigo e tradicional dos grandes clubes brasileiros. O Fluminense é dono do lindo Estádio das Laranjeiras, sede do primeiro jogo da Seleção Brasileira. O Fluminense é também um clube de dândis. Um de seus jogadores-símbolo, o goleiro Marcos Carneiro de Mendonça, era praticamente um d’Orsay. Jogava com uma fitinha roxa prendendo-lhe os calções, era alto, magro, de uma distinção pálida que extraía suspiros das carioquinhas do começo do século passado. E o maior jogador do Fluminense, Roberto Rivellino, jogava como um fidalgo. Seu pé canhoto número 37 batia na bola como se fosse um sir britânico dando uma tacada de críquete – com donaire, são raros os que tocam na bola com donaire. Pena que esse nobre Fluminense, que ora enfrenta seu quase contemporâneo Grêmio, é, como foi d’Orsay, um perdulário. Uma vez, uma única vez, o futuro primeiro-ministro Disraeli viu-se obrigado a cobrar uma dívida de d’Orsay. O conde suspirou:

– Juro por Deus que não tenho um só penny na minha conta bancária.

Era verdade. Até os nobres, às vezes, enfrentam essas desagradáveis vicissitudes plebeias.

* Texto publicado na página 43 de ZH dominical

Postado por David Coimbra

Jô em casa — Fraga volta com tudo

18 de setembro de 2009 52

Fraga

Depois de parar alguns dias para reflexão, deixando os leitorinhos ansiosos e pidões, Fraga retornou com energia às peripécias de Jô. Reproduziu nossa heroína imaginando o que ocorria entre a bela Karina e Lucas no quarto contíguo ao seu e causou um debate entre a diretoria do blog. Uns acharam que ele foi longe demais, outros que é isso mesmo, que o Fraga está certo em dar ao povo o que o povo quer.

Beba da ilustração do nosso artista e dê você a sua opinião!

Postado por David