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A casa branca no alto do morro

16 de outubro de 2009 20

No alto do morro, lá em Criciúma, existe uma casa pintada de branco por dentro e por fora, habitada por um velho lobo da imprensa chamado Nei Manique. Trata-se de um jornalista talentoso, um bom amigo e um homem capaz de preparar massa feita em casa. Quando o visito, o Nei, com suas próprias mãos, subtrai da despensa um pacote da mais pura farinha de trigo, seleciona os ovos mais frescos, coleta a água mais límpida, e bem ali, em sua branca cozinha, começa a fazer ele mesmo o macarrão para o jantar. Fico observando-o admirado, sentado à mesa branca, sorvendo goles redondos da cerveja gelada que o Nei arrancou das entranhas do freezer.

Enquanto conversamos, o Nei polvilha de farinha a massa que repousa em tiras sobre o balcão branco, e logo corre até o fogão branco e distribui mínimos cubos de bacon pela frigideira, que a esta hora se encontra incandescente como o coração dos amantes adolescentes. E o cheiro inebriante do bacon a fritar se evola pelo ar da cozinha, e o óleo exsuda dos cubos de carne, e o Nei já roja finas listas de presunto no soalho da frigideira tremente de calor, e a tudo ajunta cebola previamente picada, e mistura e mistura e mistura com uma colher de pau, para que, ao fim e ao cabo, seja acrescentado o creme de leite denso. E branco. Como a casa inteira.

Todo o processo pode levar até três horas, mas a massa à carbonara fica supimpa, como o Nei diria, que o Nei é velho lobo de imprensa.

Quando o Nei prepara esta massa, sempre lhe digo, detrás do copo de cerveja, sentado à alva mesa:

– Nei, velho lobo de imprensa, é assim que se transforma uma casa em lar.

Porque um lar tem de ser levantado em torno da cozinha. No peito de cada casa tem que bater um fogão. E a relação dos moradores da casa com a comida que lhes é servida diz muito sobre eles. Uma pessoa que come com prazer é uma pessoa que gosta da vida. Uma pessoa que tem tudo para ser feliz.

Observe uma pessoa comendo. Se ela olha para a comida enquanto come, ela está sorvendo um momento importante da existência. Não me refiro ao olhar distraído de quem não quer errar a garfada na batatinha. Falo de quem admira a comida como admira um Renoir. De quem examina detidamente o chocolate antes de lhe dar uma dentada, de quem aprecia a aparência do bife antes de feri-lo à faca. É bonito isso. É bonito ver alguém se entregar a este prazer simples e visceral.

Não é à toa que há tantos chefs e cozinheiros com programas de TV, tanta gente escrevendo sobre comida, tantos homens que se orgulham da autoria de pratos especiais, como o velho lobo de imprensa Nei Manique, em sua casa branca, lá em cima do morro. Pois quanto mais a humanidade se sofistica, mais ela se volta para as suas motivações básicas, as motivações carnais, verdadeiramente animais. Tudo o que realmente importa.

Publicado na página 2 de Zero Hora de hoje

Postado por David

Comentários (20)

  • André diz: 16 de outubro de 2009

    Mas vamos combinar que “excesso de carnes” também não tá com nada…mulher que usa calça de cós baixo e tem barriga saliente é de doer!!! Infelizmente, tem muitas por aí!

  • andre diz: 16 de outubro de 2009

    Que papo de esfomeado. Deve-se comer para viver e não viver para comer. Isso é só um “descarrego” de consciência para justificar a gula.

  • Vinicius diz: 16 de outubro de 2009

    bravo!
    sou destes que comem com calma e atenção, sorvendo o sabor, a cor e o aroma de cada bocada.
    bela crônica.
    e viva o slow food!

  • Carlos Salvador diz: 16 de outubro de 2009

    A vida é simples… o ser humano é que é complicado e, conseqüentemente, a complica!

  • Lucia diz: 16 de outubro de 2009

    Belo texto, me deu fome… E tu, David, sabes cozinhar assim como o teu amigo Nei Manique? Fiquei curiosa. Beijos :)

  • Roberto Duarte diz: 16 de outubro de 2009

    Eis um motivo, dentre outros, da minha felicidade.

  • Bruno diz: 16 de outubro de 2009

    Isso me lembra o excelente filme “Estômago”… realmente, acho que tudo o que proporciona prazer tem que ser apreciado com um certo grau de devoção. Isso vale tanto para a arte como para os prazeres mais carnais. Uma bela refeição estaria no meio termo entre esses dois tipos de prazer. Afinal de contas, um prato bem elaborado que prime pela máxima satisfação dos sentidos não deixa de ser arte, assim como uma mulher fenomenal pode muito bem ser apreciada como obra-prima da natureza.

  • Beth diz: 16 de outubro de 2009

    David !!!

    Poético e maravilhosa sua descrição do amigo !!!!
    Sim, é assim que se transforma uma casa em lar !!! com sentidos ,saberes, prazeres e amizades.Sempre acompanhados de um bom vinho, claro !

  • josé de alencar souza da silva diz: 16 de outubro de 2009

    O ser humano continua escravo do estômago como sempre foi.

  • Vinicius Kirsch diz: 16 de outubro de 2009

    Além das boas histórias, do estilo próprio e inconfundível de escrever, da diversão que encontro aqui todo dia, e de tudo mais, um dos fatores que me fazem gostar tanto dos teus textos, David, é a quantidade de palavras novas que aprendo. Na maioria das vezes, ao ler teus textos, tenho que dar uma olhadinha no dicionário, e eu gosto muito disso. Obrigado!

  • LAMBARI diz: 16 de outubro de 2009

    O COITADO DO MACHIAVEL NUNCA PEGOU UMA MULHER DE VEREDADE.

  • Ju diz: 17 de outubro de 2009

    DAVID COIMBRA, EU QUERO VOCÊ!

  • Machiavel diz: 16 de outubro de 2009

    Desta vez vou discordar, David. A única coisa que eu como devagar é mulher. O resto é vapt-vupt. Um vinho até que vai devagarinho. Acho que faz parte de um ritual. No mais, a comida para mim é para sobreviver apenas. É uma coisa cheia de calorias e que, basta um vacilo, e lá vem as gorduras e as estrias atrás dela. E gordura, não tá com nada. Não sou dos que comem as boazudas. Prefiro as magras e suas costelas meio aparentes. Acho que se faz posições mais variadas,criativas e divertidas, acho!

  • Geverson diz: 16 de outubro de 2009

    Acredito que comer seja um dos maiores prazeres da vida, uma necessidade basica que pode e deve ser feita com muito amor e prazer, despertando sentidos que nos fazem viajar pra muito longe dentro da nossa memória emocional. Vale muito apena prestar atençao nesse ato. Pde ser muito prazeroso.

  • Machiavel diz: 17 de outubro de 2009

    MarcOOOO! Só te respondo assim: SEI!
    PS: Pelo teu horário estavas visitando a geladeira ou trepando, já que trepas muito, ou fazendo as duas coisas? Só não me faças responder SEI de novo, ok!

  • Homem Moderno diz: 16 de outubro de 2009

    hummmm. Esse seu comentário contrária a todos os médicos, mas que seria bom comermos tudo o que temos vontade seria.

  • Leonardo Ribas diz: 16 de outubro de 2009

    Concordo David… o “pecado” da gula é o melhor de todos! Poucas coisas dão tanto prazer quando degustar um belo prato de comida.

  • Marco diz: 17 de outubro de 2009

    Aos anoréxicos e chatos politicamente corretos de plantão, aviso: sou gordo, ganho bem, transo muito, como e bebo muito bem. Em resumo = SOU FELIZ !!!

  • Cláudio Pinto da Silva diz: 16 de outubro de 2009

    Ô Machiavel: NÃO VIAJA!!!!

  • Rita Helena diz: 16 de outubro de 2009

    iii Machiavel, tudo bem que cada um tem sua opinião, mas tu nao tá com nada querido..
    Voto no davizinho!
    Que costelas aparentes oq… isso sim que nao é saudável!

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