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O Gre-Nal e as coxas

19 de outubro de 2009 14

Sabem qual é uma das minhas lembranças mais intensas quando se aproxima um Gre-Nal? Coxas. É, penso em coxas. Não qualquer coxa, mas uma determinada, específica, morena, lisinha, ah… Já sei, vão me chamar de tarado: até quando o assunto é Gre-Nal, esse cara pensa em sexo! Mas, calma não é bem assim. É que foi um Gre-Nal especial e um par de coxas especiais. Na verdade, minhas primeiras coxas.

Hoje talvez seja difícil de entender, mas naquela época não havia coxas e seios em abundância como agora. Pelo menos não para nós que tínhamos doze, treze, catorze anos. As relações humanas não eram tão avançadas no subúrbio porto-alegrense ali pelo começo dos anos 70. O guri precisava arregimentar a coragem de todos os seus ancestrais para se aproximar da menina e propor:

– Quer namorar comigo?

E ela sempre respondia, miseravelmente:

–  Vou pensar.

Mas acabava aceitando, e aí começava a trabalhosa negociação do beijo na boca. Oh, Deus, como era difícil conseguir um beijo na boca. E, depois de conquistada a boca, quem dispunha da perícia necessária para se deleitar adequadamente com ela? Aquilo de línguas entrelaçadas, entrechoque de dentes, troca de salivas, tudo aquilo funcionava muito bem nas novelas, mas ali, no tête-à-tête, no cara a cara, na hora da verdade, por favor, não era tão simples!

Pois eu e essa minha namorada, a das coxas, beijávamo-nos na boca. Eu já havia atingido esse estágio. Língua e tudo. Beijos demorados, olhinho fechado, hmhmhmhmhm e talicoisa. Ela era a morena mais rutilante do IAPI e adjacências. Não vou revelar seu nome porque ela hoje está casada, anda por aí, sabem como é, pode pegar mal. Mas era linda, linda. A turma ficou com ciúme quando eu comecei a namorar com ela. Havia um guri, um xarope lá do outro bloco de edifícios, que ficou especialmente furioso. Começou a me provocar. Um dia, vínhamos passando e eu e o meu amigo Jorge Barnabé, e ele gritou, cheio de ironia:

– Lá vão o linguiça e o quase feio!

Paramos.

– Que que tu tá inticando aí, ô, bobalhão? – rosnei.

– Quem é bobalhão?

– Tu!

– Ah, é?

–  É! Tu e tua mãe!

E foi aquela briga.

Depois, eu e o Jorge ficamos em dúvida. Quem seria o linguiça? Quem seria o quase feio? Os dois éramos magrelas, ambos poderíamos ser tachados de linguiça. E, honestamente, nenhum de nós ganharia vaga de galã na Globo. Podíamos ser quase feio. Pensei, pensei, e disse:

– Acho que tu é o linguiça, Jorge.

– Então tu é o quase feio! Quá-quá-quá!

Aquilo me desorientou. Quase feio, não! Mudei de ideia:

– Pensando bem, acho que tu é o quase feio!

E o Jorge, gargalhando, apontando o dedo para o meu peito:

– Linguiça! Quá-quá-quá!

E eu:

– Não!

Tudo porque o xarope do outro bloco queria namorar com a minha namorada. Mas quem namorava com ela era eu. E beijava na boca. De língua! Se bem que era só. Nada dessas modernidades de seios e coxas, não mesmo. Uma tarde, ela até me testou:

David, tu ia querer transar comigo?

Disse isso espreguiçando-se toda, cheia de curvas, uma serpente em volta de um tronco. Eu dei um salto de surpresa e alegria:

– Claro que sim! _ gritei.

Era uma cilada. Ela respirou fundo, balançou a cabeça e disse, lamentando-se, antes de ir embora em passo marcial, simulando fúria:

– Sabia que não podia confiar em ti!

Tive o maior trabalho, depois para convencê-la de que eu me referia a uma transa espiritual, elevada, nada da volúpia da carne. Não sei se ela acreditou muito.

Aí chegou o dia do Gre-Nal. Dia, não; noite. Não fui ao estádio. Quando a bola começou a rolar, fomos escutar a transmissão no carro do pai dela, que aliás, era bem brabo. O carro era um Fusca, ou uma Variant, ou um Corcel, algo do gênero. Verde. Isso é certo: era um carro verde.

Pois bem, sentei no banco do motorista do Corcel verde, liguei o rádio e sintonizei o Ranzolin. Comentários do Ruy e do Lauro, os dois juntos! E bola e bola e bola e eu abracei a minha namorada. O Grêmio tinha Zequinha, Tarciso e Nenê no ataque, o Inter tinha Falcão, Carpeggiani e Escurinho no meio-campo e a minha namorada usava um short branco curtinho que, ai, deixava ver as bochechas das nádegas dela. Como eu gostava daquele shortinho.

Lembro que foi quando o Ranzolin descrevia uma evolução de Iúra e Cacau até a meia-lua da área do Inter que eu abracei minha namorada pela cintura. Foi uma boa ideia aquela, abraçá-la pela cintura. Assim como, para o Inter, foi muito bom o Figueroa ter parado o ataque do Grêmio com falta.

A cintura dela estava bem cingida pelo meu braço, sentia o calor do seu corpo e a maciez da pele do seu rosto contra a do meu. E o seu cheiro, aquele cheiro moreno e quente… O Escurinho andou cabeceando na área do Picasso e, em resposta, o Grêmio saiu em contra-ataque na velocidade do Tarciso. O Ranzolin gritava que o Tarciso ia e ia e ia e quem ia era a minha imaginação e a minha mão. Imaginava o Tarciso indo e indo e indo e lá se ia minha mão também pelo shortinho e abaixo dele e o Tarciso dando o passe para o meio da área e a minha mão descendo e o Zequinha pegando a bola e a minha mão ia chegando e o Zequinha ajeitou, eu ajeitei também, ela não falou nada, não fez nada, a defesa do Inter parou e…coxa! Botei a mão pela primeira vez numa coxa feminina. Cristo, Cristo! Que sensação. Fiquei o resto do jogo ali, sentindo a pele perfeita, de avelã, o músculo rijo, os contornos suaves, e nem acreditava, apenas sorria e tonteava e me sentia desfalecer numa vertigem doce, doce. Que noite, aquela. Que jogo.

* Publicado no meu livro A Cantada Infalível e a Mulher do Centroavante

Postado por David

Comentários (14)

  • Paulo diz: 20 de outubro de 2009

    He, he, he. Fantástico! E pelo jeito o Grêmio ainda ganhou…

  • pedro NO SEGUNDA diz: 20 de outubro de 2009

    botou a mão nas coxas e .. ejac. prec. como um gurizinho gremistinha de apartamento… o figueroa deve ter dado um chega pra lá em um banana de pijama qquer, o carpegiani dominou, levantou a cabeça, tocou pro falcão que arrancou pelo meio, tabelou com escurinho e mais uma das tantas vitorias coloradas

  • ICARO diz: 21 de outubro de 2009

    davi tem muita coxo dedindo bis mas as mulheres sao lindas. domingo tem grenal espero que veça o melhor mas sou colorado
    abraço

  • Cesar Savedra diz: 19 de outubro de 2009

    David…

    Soh falat tu dizeres que foi o GRE-nal dos 3 x 1…O famoso GRE-nal do Zequinha.

    Aih, com certeza, essa tua noite foi perfeita!!!!

    Abracos

  • Marcus diz: 19 de outubro de 2009

    Pq o “Gre” está em negrito e o “Nal” não David?

  • Carlos diz: 20 de outubro de 2009

    haha…

    parece aquele cara que não conseguiu pegar a mulher de jeito e tenta curar a frustração mentindo pros amigos depois na mesa do bar!!!!

    bem coisa de gremista! haha

  • Maicon Zulianello diz: 20 de outubro de 2009

    Meu deus, mas que povo mais desconfiado… Até o negrito é sinal de Paixão clubística… Vão se tratar, bando de lunático

  • Jeruza! diz: 20 de outubro de 2009

    Meu querido David…faz tempo que isso aconteceu ….lembro-me até hoje daquela noite!
    A propósito: meu marido não eh ciumento e nem bravo…
    Beijão pra tu!

  • josé de alencar souza da silva diz: 20 de outubro de 2009

    Pra esse grenal o Coimbra deve estar pensando nas coxas dos jogadores gremistas,já que o Coimbra é gremista fanático,vai até se oferecer pra fazer massagem neles.

  • Lili Marlene diz: 19 de outubro de 2009

    Mas tu é bobo hem! Diz um ditado: Quem muito fala, pouco faz.

  • pedro NO SEGUNDA diz: 20 de outubro de 2009

    botou a mão nas coxas e .. ejac. prec. como um gurizinho gremistinha de apartamento… o figueroa deve ter dado um chega pra lá em um banana de pijama qquer, o carpegiani dominou, levantou a cabeça, tocou pro falcão que arrancou pelo meio, tabelou com escurinho e mais uma das tantas vitorias coloradas

  • carlos lima jr diz: 19 de outubro de 2009

    mao na coxa pra ti soh podia ser um grenal em que o zequinha ganhou da maquina colorada dos anos 90.

    boa analogia, racional e passional ao mesmo tempo.

    gol do gremio! Mao na coxa! hehehehe EXTASE.

  • Nilton diz: 20 de outubro de 2009

    É uma pena que os chapolins colorados não tenham um cronista tão talentoso e divertido como o David. Cuidado,chapolins, inveja faz mal para a saúde.

  • mariana diz: 19 de outubro de 2009

    heheh!
    muito boa!

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