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Schopenhauer e Salamander

21 de outubro de 2009 27

Da próxima vez que brindar com chope vou gritar salamander reiben. Bem alto:

— SALAMANDER REIBEN!!!

Era o que bradavam os estudantes alemães nas sombrias tabernas do começo do século 19. Praticavam uma espécie de ritual. As canecas que empunhavam continham um litro inteiro de chope cremoso, porém não tão gelado naquele triste tempo sem freezer. Servidos, eles primeiro batiam com as canecas três vezes na mesa de madeira, TÓ, TÓ, TÓ! Em seguida, chocavam-nas umas contra as outras também três vezes, TRAC, TRAC, TRAC! Então, urravam o salamander reiben a plenos pulmões alemães, que são pulmões acostumados a tons graves. E depois tinham de esvaziar o capitoso conteúdo das canecas em três grandes goles, certamente uma façanha da raça ariana.

Os estudantes faziam isso tudo não apenas pelo prazer de beber com os amigos, mas para demonstrar que estavam ali reunidos numa espécie de confraria com objetivos mais elevados. Eles almejavam o que almejam todos os seres humanos de alma nobre desde que um homem mais forte submeteu outros homens mais fracos: liberdade.

Estimulados pela Revolução Francesa e seus novíssimos princípios de igualdade e fraternidade, os jovens alemães ansiavam por abolir o feudalismo retardatário dos principados germânicos. Suas associações não se restringiam às mesas dos bares. Eles fundavam sociedades e confrarias secretas, cantavam hinos republicanos e, curioso, faziam exercícios físicos.

Um ex-soldado que lutou nas Guerras Napoleônicas, um certo Friedrich Jahn, é chamado de “o pai da ginástica” porque conclamava os estudantes a se reunirem em clubes a fim de praticar esportes. A ideia de Jahn era patriótica: os músculos de aço dos jovens alemães os ajudariam a derrotar o invasor francês que os humilhava havia anos. Quer dizer: os estudantes aprovavam as ideias francesas, mas não a presença francesa em seu território. Pretendiam, portanto, bater Napoleão e libertar sua jovem pátria.

Os nobres, porém, não gostaram do ajuntamento de estudantes nacionalistas. Por uma razão óbvia: o nacionalismo lhes despertava anseios de unificação (a Alemanha era dividida em mais de 80 principados), e a unificação inevitavelmente acabaria em república.

O pai da ginástica acabou preso por incitar essas reuniões. Mais tarde, foi expulso de Berlim. Mas aquele sentimento associativo e esportivo se entranhou no espírito germânico, e foi esse espírito que os imigrantes alemães trouxeram para o Sul do Brasil no século 19.

Movidos por tal disposição, os alemães se consagraram como fundadores de clubes esportivos na Capital. Entre tantos, a Sogipa, o Juvenil e o Grêmio. Que depois, de forma indireta, motivou a fundação do Inter.

Ou seja: essa rivalidade de 100 anos, que terá mais um capítulo no domingo, existe por causa do espírito associativo e esportivo dos alemães, que desenvolveram esse espírito por causa da invasão dos exércitos de Napoleão, que só se tornou grande por causa da Revolução Francesa, que espalhou seus ideais de liberdade pela Europa, principalmente entre os estudantes alemães, que se reuniam para falar das novas ideologias nas tabernas, onde iam para beber chope.

Você entendeu?

O Gre-Nal só existe por causa do chope! SALAMANDER REIBEN!

***

Havia um homem importante na Alemanha d’antanho que não apreciava o Salamander Reiden: Arthur Schopenhauer, o filósofo imortal de quem Freud bebeu para cerzir as teses que redundaram na psicanálise. Mas não era por ideologia que Schopenhauer não participava dos festivos convescotes estudantis. É porque ele detestava barulho. Schopenhauer dizia que a inteligência de um homem está diretamente relacionada à sua tolerância ao ruído – quanto maior tolerância, mais burro é o homem. Eu aqui, neste ruidoso século 21, vou dizer: Schopenhauer tinha razão.

*Texto publicado na página 51 da Zero Hora de hoje

Postado por David

Comentários (27)

  • josé de alencar souza da silva diz: 21 de outubro de 2009

    Eu sei que tu não sabe Coimbra,mas vou te dizer:o gre-nal existe por causa do futebol que foi inventado pelos ingleses que chutavam a bola de couro com os pés.Fosse pelos alemães e o gre-nal seria um insosso jogo de handebol.Mas vai dizer isso pra um gremista…

  • Leonardo Ribas diz: 21 de outubro de 2009

    David, nada a ver esse seu comentário. Daqui a pouco tudo vai ligar a tudo, se seguir nesse seu raciocínio. Se passou desta vez!

  • Julio Cesar Schneider diz: 21 de outubro de 2009

    Parabéns pelo texto. Difundir cultura com bom humor é a única saída que vejo para melhorarmos o nível socio-cultural de nosso país. O bom humor faz prender a atenção e a cultura se permeia como água na areia.

  • Helen diz: 21 de outubro de 2009

    Schopenhauer odiava as mulheres, não curto ele

  • Deborah diz: 22 de outubro de 2009

    Puxa, eu devo ser um gênio, então… ou muuuuito chata, né? vai saber…
    Gre-Nal, então?! Feira do Livro, também. Ai, que tô morrendo de saudades de Porto Alegre!
    Beijo grande, meu lindo. Um beijão bem silencioso.

  • felipe diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Maico diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Luís Gustavo diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Dudu diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Sfm diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino

  • Paulo Juliano diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Animes diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • ??? diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Bruno diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Hnerique diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Luciana diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Thaynan diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Lucian diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Luisa diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Araldi diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Dalvan diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Diogo Carvalho (Tricolor) diz: 23 de outubro de 2009

    A Alemanha pouco antes da unificação engendrada por Bismarck contava exatamente com 265 feudos. O curioso é que todos tinham a consciência de si e do todo, ou seja, a unificação foi um processo `natural`.. Lá já existia a NAÇÃO antes do ESTADO.. enquanto aqui, surgiu o ESTADO… quiçá um dia cheguemos à NAÇÃO.. OUTRA: Quem ensinou o Grêmio a jogar bola foi o S.C. Rio Grande, o mais antigo do Brasil.

  • Marcelo II diz: 21 de outubro de 2009

    Isso prova que o Inter sempre imitou o Grêmio e que não tem criatividade para realizar alguma coisa verdadeiramente nova. Vejam, o Grêmio foi Campeão do Mundo no século passado e somente no século atual o Inter conseguiu o feito. Ou seja, anda sempre correndo atrás, inclusive no ranking da FIFA onde o Grêmio está na frente do Inter quilômetros de distância. Fazer o quê? Dá-lhe Grêmio!

  • Lucas diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • Giio diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

  • ??????? diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino

  • Marcio diz: 30 de outubro de 2009

    Gabriel Nonino.

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