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O carrinho e O Campeão

23 de outubro de 2009 21

Não chorei quando assisti ao filme O Campeão lá no longínquo desfecho dos anos 70. Prova de macheza. Todo mundo saía do cinema com os olhos injetados, assoando o nariz, ou em pranto desbragado. Eu, não.

Mas reconheci que a história é comovente. Jon Voight é um boxeador peso-pesado que lesiona o cérebro de tanto levar jabs, uppercuts, cruzados e ganchos. Tem de abandonar os ringues no auge, e se entrega ao jogo e à bebida. Arruína-se financeiramente, a mulher, uma jovem Faye Dunaway, separa-se dele, todos o consideram um fracasso, menos o filhinho de oito anos, que o venera e o chama de Campeão.

O eixo do filme é a relação entre o pai e o filho. O curioso é que o Jon Voight de verdade, não o personagem, enfrentou problemas com a filha, que, você sabe, é ninguém menos do que a Angelina Jolie. Ela o acusava de ter abandonado a mãe (dela, claro), emburrou-se, não o procurou mais, levou seis anos para se falarem de novo. Uma vez, tentando a reconciliação, Jon decidiu elogiar a filha de Angelina durante uma cerimônia. No discurso, chamou-a de Shakira. Angelina ficou fula: o nome da menina é Zahara. Para ver como Angelina é injusta. Bota na criança um nome desses e depois a culpa é do pai, se ele se confunde.

Mas o filme. Dias atrás, deparei com uma reprise na TV. Colhi a história pelo meio e não troquei de canal. Aí chegou o momento em que Jon se envolve numa briga, é preso, e conclui que o mundo tem razão: ele, de fato, se trata de um fracasso. Resolve entregar o filho à mãe, agora casada com um nababo. O menino não aceita, chora, implora para ficar com o pai. In extremis, Jon o esbofeteia e manda-o embora. Sente-se arrasado, mas acha que fez o que devia fazer. Sacrificou-se por amor ao filho. Só que o menino não consegue ficar longe do pai, e tanto insiste, tanto clama pelo Campeão, que Faye o leva de volta para casa. Na cena do reencontro, o menino, vestido com apuro, o cabelo loiro bem penteado, carrega uma malinha que o torna a imagem do desamparo. Acha o pai parado ao pé de uma arquibancada vazia de estádio, deprimido, cabisbaixo. Então, o pai ergue a cabeça. E eles se avistam. Caminham vacilantes um para o outro. Param a metro e meio de distância. Encaram-se. Abraçam-se, enfim, e juram jamais se separar. E eu, aboletado no sofá da sala, sinto uma bola de sentimentos se formando no meu peito, e a bola escala até a garganta, e logo me embaça o olhar, e percebo que, maldição!, não vou conseguir me controlar, e as lágrimas já me despencam rosto abaixo, e eu choro sem pudor, feito uma bandeirante adolescente.

Depois de ter filhos, a gente fica suscetível a dramas infantis. Que saudade do David durão do longínquo desfecho dos anos 70.

***

Ainda sobre crianças. Sobre a cena impressiva da semana passada, em que um trem arrasta por 30 metros um carrinho de nenê, e o nenê emerge ileso dos dormentes. O carrinho deslizou pela plataforma da estação, mas a mãe não chegou a ser imprudente, teve apenas um segundo de distração para ajeitar as calças à cintura. Se houvesse travado o carrinho, ou escorado-o com o pé, ou estacionado-o lateralmente na plataforma, o caso não teria ocorrido. Um ato singelo de cautela, o pé detendo a roda, a chaleira na boca detrás do fogão, a rua não atravessada, às vezes esse breve gesto é o mais importante de uma vida. Mas ninguém o valoriza, ninguém homenageia a prudência, porque a prudência não acontece, a prudência evita de acontecer.

*Texto publicado na página 2 da Zero Hora de hoje

Postado por David

Comentários (21)

  • Deborah diz: 23 de outubro de 2009

    Amo você, David ! você é mais que demais !! e é isso mesmo: depois dos filhos, vemos a Vida com outros olhos (o que é ótimo, aliás).
    Escuta: posso usar sua frase sobre a “prudência” no meu orkut ? prometo colocá-la entre aspas e dizer toda orgulhosa que é de sua autoria. Achei o máximo! Grande beijo.

  • Vantoir diz: 23 de outubro de 2009

    A idade aflora os sentimentos, tu tá ficando velho.Um abraço.

  • Cláudio M. Bortowski diz: 25 de outubro de 2009

    Discordo de Machiavel.Se meu filho alcançar por seus méritos, alturas maiores daquelas que conquistei entre meus iguais,serei então o mais orgulhoso dos homens pois que;aquele homem vencedor,aquele homem distinguido entre seus pares,veio de mim e fará em minha história de vida uma nobre marca que se estenderá até após a minha morte.
    A marca que lhe dei em sua concepção,será a marca que nos eternizará a ambos.Pai e filho.O maior legado que um pai dá ao filho é o amor.O filho o honrará,amando-o.

  • Cristiano diz: 23 de outubro de 2009

    O cara só deixa de ser o capeão pro filho quando o filho tá na faixa dos 15 aos 30. Tanto antes quanto depois o cara É SIM campeão. Meu pai é o Campeão! Tenho mais de 30.
    Angelina… ah, Angelina…

  • josé de alencar souza da silva diz: 23 de outubro de 2009

    O Coimbra chorava muito nos anos 70 vendo o Grêmio ser octavice e o Inter sendo o Campeão de tudo:tri brasileiro invicto e octacampeão gaúcho.

  • Pedro diz: 23 de outubro de 2009

    Tchê, se a Angelina ficou fula com alguma coisa, ela está certa e a coisa em questão está errada. Aquela mulher é tão perfeita que não pode ser injusta.

  • Eduardo Ritter diz: 24 de outubro de 2009

    Bom, se ela tivesse acionado a tranca do carrinho ou tivesse segurado com o pé, nada disso teria acontecido e ninguém ficaria sabendo dela, nem do nenê, que até então era apenas mais um bebê do mundo cruel… Agora não, agora ele é um herói! Aliás, é disso que todos gostam: do inesperado, do que não foi previnido, do que não era desejado mas aconteceu inesperadamente… Enfim, para terminar, eu sempre choro vendo filmes. Ah, e ia esquecendo: a verdade é outra e diversa, já dizia um gringo por ai

  • Alex diz: 23 de outubro de 2009

    “Depois de ter filhos, a gente fica suscetível a dramas infantis”
    Bah… pior que é bem por aí… acaba o “machão”… mesma coisa comigo.

  • Catimba diz: 23 de outubro de 2009

    Pro José de Alencar ali se o David chorou nos anos 70 vendo o inter ganhar tudo nos anos 70(Brasileiro e Gauchão, não faltou Libertadores e Mundial nessa época?)tu deves ter chorado bem mais que ele nos anos 80 e 90 vendo o Grêmio ser infinitamente superior. E mesmo agora que o inter ganhou finalmente seus titulos internacionais apenas conseguiram fazer isso 23 anos depois que o Grêmio já havia conseguido primeiro. Choro por choro meu amigo, creio que tu deves ter chorado bem mais que o David…

  • Machiavel diz: 23 de outubro de 2009

    Enquanto eles são pequenos, a gente é campeão. Depois, o tempo passa e, na visão deles, a gente vira coisa do passado e ultrapassado. Talvez até mesmo por causa daquela previsão bíblica: “vai chegar o tempo em que o filho entregará o pai e o pai entregará o filho”.

  • Pedro – PROPOSTA PRO CATIMBA diz: 23 de outubro de 2009

    Tenho uma proposta pra ti. Tem duas GATINHAS, uma de 30 e outra de 53. Pela tua ótica, tu ficaria com a de 53, certo? E nem vem com essa de “mais bonita”, pois mais bonito é mundo inteiro, não mundo-de-dois-continentes. Chora, zebrinha!

  • Leonardo Ribas diz: 23 de outubro de 2009

    NINGUÉM HOMENAGEIA A PRUDÊNCIA, PORQUE A PRUDÊNCIA NÃO ACONTECE, A PRUDÊNCIA EVITA DE ACONTECER!

    Melhor frase da semana David. Parabéns!!

  • Chinoca diz: 23 de outubro de 2009

    Excelente texto! Realmente,qdo chegam os filhos nossos sentimentos mudam.Eu tbm muudei muito,tenho um guri de 07 anos q me fez amadurecer em muitas coisas.

  • Ricardo B. diz: 24 de outubro de 2009

    ninguém homenageia a prudência, porque a prudência não acontece, a prudência evita de acontecer.

    JÁ TÁ NO MEU MSN!

  • ICARO diz: 29 de outubro de 2009

    O JOGO ENTRE SÃO PAULO E SANTOS FOI MUITO LINDO, SANTOS SAIU NA FRENTE DEPOIS O SÃO PAULO ENPATOU O JOGO FICOU TRES A TRES ATE QUE o goleiro do são paulo rogerio sene bateu aquela falta e fez são paulo 4 e santos tes esse goleiro e muito bom

  • Machiavel diz: 24 de outubro de 2009

    A regra é o pai sempre desejar o sucesso do filho. Só que a maioria dos filhos nunca acredita nisso. E aí surge o problema: se o filho alcançar sucesso superior ao do pai, a tendência é a imagem do pai ficar diminuída perante o filho porque ele vai considerar o pai incompetente. Se a situação for inversa, ou seja, o filho não conseguir alcançar o sucesso do pai, a tendência é o filho ficar recalcado e, consequentemente, infeliz.A coisa é tipo “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

  • Bruna diz: 23 de outubro de 2009

    David,sinceramente…tu é O CARA! Adoooro

  • alceu diz: 23 de outubro de 2009

    Finalmente um texto em tamanho certo. Em todos os sentidos

  • Tiago Medina diz: 23 de outubro de 2009

    Pior que depois de velho passei a chorar em filmes também…
    E, sobre o ocorrido na estação de trem, um amigo tem uma teoria: Deus protege as crianças e os bêbados.
    E olha que eu já vi ele se safar de cada uma depois que bebeu umas a mais, que tenho medo até de saber suas histórias de anos atrás.

  • Junior Haas diz: 23 de outubro de 2009

    Adorei a ultima conclusão.

  • Cesar Savedra diz: 23 de outubro de 2009

    Putz David….

    Tu eras durao mesmo…Nao ir as lagrimas com as atuacoes do Jon Voight e do Ricky Schroder (o menino TJ) era tarefa das mais arduas.

    Mas o Desembargador deu um jeito nesse coracao de pedra!!! rsssss

    Abracos

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