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Qual é a sua melhor foto?

24 de outubro de 2009 9

Que foto você publicaria no seu obituário? Importante decidir o quanto antes. Aquela foto que resume quem você de fato é, colhida no tempo em que você foi mais você. Brigitte Bardot, por exemplo, decerto não pode ser considerada a senhora rugosa que hoje brada pelos direitos dos poodles. Não. Ela é a deusa loira e seminua dos anos 60, sempre será. O que não significa que o melhor de nós seja sempre o mais robusto de nós. Ninguém pensa em Sigmund Freud como o jovem imberbe de cabelos negros que andava empertigado na Viena do século 19. Nada disso. Freud é o senhor septuagenário, de veneranda barba branca, óculos sobre o nariz e charuto pendente da boca, que encara o fotógrafo com ar levemente ameaçador na primeira metade do século 20.

Uma cidade também tem o seu momento em que ela é mais ela do que em qualquer outro período de sua história. Se bem que uma cidade tem mais tempo para se transformar. Às vezes até em outra cidade. No ano 300, o imperador Constantino reconstruiu Bizâncio ao seu gosto, inclusive no nome: Constantinopla. Que, mil anos depois, virou Istambul, a cidade de dois continentes. O Barão Haussmann fez uma operação plástica na Paris do começo do século 19, assim como Pereira Passos fez no Rio no começo do 20, mas uma e outra são, mais do que tudo, cidades dos anos 60.

Porto Alegre é dos anos 40 e, se houver uma foto ideal para retratar a cidade em seu tempo de maior esplendor, será uma foto da Rua da Praia daquela década. Na Porto Alegre dos anos 40, as pessoas faziam o footing na Rua da Praia. Elas falavam assim:

– Vamos fazer o footing?

Todo mundo sabia o que era. Os homens se enfarpelavam, punham-se debaixo de seus chapéus e, ao chegar à Rua da Praia, colavam as costas nas paredes dos prédios, como num corredor polonês. Pelo centro do corredor deslizavam as alvas mocinhas da época, elas também sob chapéus, muitas vezes enluvadas, sempre de braços umas com as outras, disfarçando olhares, emitindo risinhos secos, negaceando.

No meio do caminho, moças e rapazes podiam deparar com o escritor Erico Verissimo, quiçá levando pela mão o seu filhinho Luis Fernando, que em 1940 tinha quatro anos de idade. Quem sabe divisassem o poeta Mario Quintana saindo do vetusto prédio da Livraria do Globo, preocupado com os dilemas da tradução de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Não seria impossível de ver Dyonélio Machado observando o lugar para ambientar as desventuras do seu personagem Naziazeno no romance Os Ratos. E nem parecia tão complicada a tarefa do escritor. A Rua da Praia dos anos 40 era sarapintada de bons cafés, livrarias bem fornidas e histórias coloridas. Na Rua da Praia circulavam os malandros e gozadores, como Odonne Greco, e os homens que decidiam o futuro do país, como Oswaldo Aranha. Na Rua da Praia batia o coração do Estado.

As sedes de Grêmio e Inter se localizavam na Rua da Praia, em prédios contíguos, onde hoje se ergue o mais alto edifício do Rio Grande do Sul, o Santa Cruz. As sacadas dos dois clubes quase se beijavam, eram tão próximas que alguém poderia passar de uma para outra apenas esticando a perna e levantando-a por sobre os parapeitos.

Depois dos Gre-Nais, a torcida do time vencedor ia para a calçada em frente aos dois prédios com faixas e cartazes. Muito conveniente: festejava-se a vitória e gozava-se do perdedor ao mesmo tempo. Uma vez, depois de um Gre-Nal em que o Grêmio venceu, os gremistas levaram uma eletrola para a sacada e puseram para rodar um disco com músicas zombando dos colorados. Repetiram o disco durante um dia inteiro, enlouquecendo os rivais. Outro dia, na véspera de um clássico, os dois chefes de torcida trabalhavam em suas respectivas sedes, Salim Nigri na do Grêmio, Vicente Rau na do Inter. Picavam papel, pintavam faixas, bolavam provocações. O trabalho ia adiantado dos dois lados, até que o martelo de Rau quebrou. Ele não vacilou. Foi até o outro prédio e pediu um martelo emprestado a Salim. Que acedeu, com uma condição:

– Eu vou até lá e prego o que tiver de ser pregado, porque, se eu emprestar o martelo, vocês são capazes de fazer macumba, e o Grêmio perde o clássico.

A rivalidade Gre-Nal nos anos 40 era assim: intensa, mas leve, como a Porto Alegre da época. Nos anos que se seguiram, a situação foi se transformando. Grêmio e Inter mudaram de endereço; a Rua da Praia, lentamente, deixou de ser uma rua sofisticada e foi tomada pelos camelôs, pela sujeira e pela violência. Ao mesmo tempo, a cidade tornou-se mais americana do que europeia, mais sisuda do que brejeira. Hoje, Porto Alegre e o Gre-Nal são inegavelmente menos divertidos. Agora, uma aragem grave e alga ameaçadora ronda a cidade e o seu clássico. Mas as cidades podem mudar, as histórias de rivalidades esportivas podem mudar, e talvez até mudem. Espera-se que para melhor.

*Texto publicado na página 43 de Zero Hora dominical

Postado por David Coimbra

Comentários (9)

  • Joe diz: 25 de outubro de 2009

    Por favor, tirem a palavra SUL do nome de vocês. Um mês sem transmitir nenhum jogo de times do SUL.
    Hoje tem GRE-NAL, por que a rede brasil SUUUL não vai transmitir?
    Isso sem falar dos times de Santa Catarina.
    Para que noticiar sobre os times do sul, se não assistimos aos jogos dos sul? Vocês são ati-sul, então tirem a palavra sul do nome de vocês. Seriam mais honestos.

  • flavio marques da silva diz: 25 de outubro de 2009

    Sacanagem da Globo e RBS, não tem grenal para o Interior, só quem paga para eles.Acho
    que devemos repensar nossa audiência a RBS.
    As coisas tem que mudar mesmo.

  • Fabrício Bittencourt Nunes diz: 28 de outubro de 2009

    David, o Santa Cruz não é o edifício mais alto do RS. Desde 1980, pelo menos, há um maior que ele, em Caxias. Tipo 35/36 andares e muitos metros mais.

    abraço.

  • Jacira Franco diz: 26 de outubro de 2009

    Adorei David, parabéns belíssimo texto, já fiz muitas fotos da cidade entre outras, adoro fotografia amo de paixão, porém estou muito deprimida pois estou sem câmera fotográfica, ela foi “ROUBADA” e não estou em condições financeiras para adquirir outra, porém por enquanto vou me divertindo com as fotos do ClicRBS e Zero Hora, etc…
    Teu texto me transportou por épocas e lugares que só a fotografia é capaz de registrar e atravessar os tempos
    Parabéns e obrigada David, abraços até a próxima….

  • josé de alencar souza da silva diz: 26 de outubro de 2009

    Nos anos 40 o Inter esmagava o Grêmio com o Rolo Compressor,o Grêmio já tinha se acostumado a ser freguês do Inter,a usar a touca vermelha.

  • Vera diz: 24 de outubro de 2009

    Ainda bem que POA tem um David Coimbra que sempre remoça e ameniza essa paisagem tão lúgubre e desgastada. Apesar de gostar do Erico e do Quintana, me sinto mais representada por esses cronistas vigorosos que estão surgindo nesta POA cansada do séc XXI.(talvez pq tenha nascido bem depois dos anos 40). Parabéns!

  • charles diz: 24 de outubro de 2009

    Ligeiramente melancólico. Esperançosamente triste. Mas, interessante. Como são os retratos. Até os quadros alegres, quando envelhecidos, ficam assim.

  • Rosana fagundes diz: 25 de outubro de 2009
  • Carla Maciel diz: 25 de outubro de 2009

    David transmita minha indignaçao com o presidente do gremio. O time está com a mesma cara de abobado desse presidente. Ele vai acabar com uma história, uma imortalidade sem tamanho. Tirem esse presidente, tirem esse tecnico, tirem o tcheco (amarelao, medroso, medíocre). Esse vai ser o presidente dos sonhos DESFEITOS, IMPOSSÍVEIS, INACREDITÁVEIS. Fora duda!!!

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