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As monstruosidades da cidade

28 de outubro de 2009 16

Ernst Gombrich nasceu na Áustria há cem anos, poucos meses antes de dois mil porto-alegrenses assistirem ao primeiro jogo entre Grêmio e Inter no Estádio da Baixada. Ao completar 41 anos de idade, publicou A História da Arte, e depois disso poderia morrer. Aí está uma obra-prima que justifica uma vida. Talvez seja o livro de arte mais famoso do mundo. Pelo menos é o meu preferido, eu que leio bastante sobre o assunto, o que não adianta nada — não entendo lhufas de arte. Limito-me a seguir os ensinamentos do Professor Gombrich, que escreveu o seguinte:

“Não existem razões erradas para se gostar de uma obra de arte. Existem razões erradas para não se gostar de uma obra de arte”.

Isso se tornou uma aflição para mim. Porque obriga-me a um torturante esforço para gostar de qualquer obra de arte. Afinal, se gostar, estou incontestavelmente certo. Se não, há grande chance de que isso ocorra pelo motivo errado.

O problema é que sou de fato tosco na coisa. Por exemplo: lá em casa havia três reproduções de quadros do Miró. A primeira vez que as vi, não gostei delas. Depois, tentei entendê-las, porque é aquilo: a gente só gosta do que conhece. Dediquei-me com todo o empenho a esta tarefa. Sentava-me numa poltrona da sala e ficava olhando para os quadros. Olhando. Olhando. Sabia que na certa havia algo profundo além das figuras e das cores que divisava. Mas o quê? O quê???

Os quadros permaneceram durante anos pendurados naquela parede, sem que jamais os tivesse decifrado por completo. Terminei por me enternecer com a presença deles e até por apreciá-los, mas não pelo que representavam em termos de arte, porque isso, tanso, não entendi.

O drama é que algumas obras, mesmo que invista nelas toda a minha boa vontade, não consigo gostar delas. Donde toda a simpatia que me despertou o texto do Voltaire Schilling no domingo passado, afirmando que algumas das obras de arte que enfeitam Porto Alegre na verdade não a enfeitam; enfeiam-na.

Custo a admitir, mas não gosto da maioria das instalações das bienais de Porto Alegre, principalmente das que foram deixadas pelos desvãos da cidade, um bloco vermelho num parque, uma cuia do tamanho de um caminhão à margem de uma avenida. Que fazer? Triste deficiência, essa minha.

Pessoas que entendem de arte afirmam que, no futuro, é possível que essas obras sejam consideradas belíssimas. Usam como exemplo os impressionistas, criticados em sua época, amados hoje. Um bom exemplo, mas ainda assim não aplaca as dores de minh’alma atormentada. Porque, embora adore os impressionistas, não adoro todos os impressionistas. Algumas de suas obras eu simplesmente… não gosto delas. Imagino que pelo motivo errado.

Quem entende de arte é assim. Aprecia a arte contemporânea, as abstrações, as instalações, mesmo as aparentemente tolas, que, no meu precário entender, são quase todas.

O futebol também tem os seus estetas da tática, sobretudo os técnicos. O Gre-Nal ofereceu ilustrações perfeitas a respeito. Autuori tinha uma razão teórica para tirar Douglas Costa do time: ele queria um jogador com outras características no ataque. Pouco lhe importava que Douglas fosse o melhor em campo, importava-lhe o movimento mudo das peças. Já Mário Sérgio elogiou Taison por ter marcado o lateral do Grêmio. Será que não é pouco para um atacante? Será que essa tarefa não seria mais bem exercida por um zagueiro? Decerto que sim, mas para o treinador o que interessa é o jogador cumprir a função que lhe foi designada, como um estafeta do futebol.

Como se estivesse prenhe do conceito emitido pelo Professor Gombrich, um esteta da tática considera qualquer esquema de jogo belo, apenas porque o compreende. Ou o concebe, no caso de ele ser um treinador. Mas futebol não é arte. Nem esporte é: é jogo. Que só se vence quando se emprega o talento do atacante, a iniciativa pessoal na solidão bem vigiada da intermediária, a inspiração na zona conflagrada da grande área, o drible na esquina do campo, a negaça diante do zagueiro, o improviso impossível de ser previsto pela tática, por um analista, por um técnico, por mais sábio que seja. Ou que pretenda ser.

*Texto publicado na página 50 de Zero Hora

Postado por David

Comentários (16)

  • ICARO diz: 3 de novembro de 2009

    amanha o gremio vai jogar com o sao paulo eu acredito que de sao paulo pois sou colorado mas se der gremo os gremistas ficarao contentes
    abraço

  • maria josé diz: 30 de outubro de 2009

    Oscar Niemeyer diz que a ‘estética também é uma função’. Na arte atualmente a estética não é um ponto central a todos os artistas. Alguns utilizam-na, outros não. Não gostar, não ver valor num trabalho em arte contemporânea porque não é belo, é não gostar pelos motivos errados, como bem lembrou o David Coimbra.

    Se um trabalho não tem como proposta ser belo, mas fazer pens

  • JOSIAS diz: 29 de outubro de 2009

    FICA MÁRIO SÉRGIO. FICA TAISON AMARELÃO.

  • Gilberto Jasper diz: 28 de outubro de 2009

    Muitos mortais comuns morrem Soa brega, pouco “fino” e, dependendo do círculo social, o cara é “rifado” por absoluta ignorância e falta de “cultura”. Bom exemplo é a novela Caras & Bocas, onde um macaco encantou a todos até descobrirem… que era um macaco que pintava lindas e transcedentais telas! Basta uma grife, uma assinatura de milhares de dólares que tudo fica… lindo!

  • elio diz: 28 de outubro de 2009

    Porque deixam colocarem porcarias de gosto duvidoso em avenidas e parques? Chamar isso de arte é brincar com a capacidade de discernimento das pessoas . Já vi um monte de lixo pendurado e chamaram de “arte”. Que nojo o gosto para brincar com o bom gosto alheio. Sou obrigado a suportar e aceitar, porque jamais fizeram consulta para colocarem “porcarias” serem vistas por aqueles que não gostam de lixo. Arte e cultura é outra coisa e não é o que vemos por aí.

  • Bruno diz: 28 de outubro de 2009

    Por que o Ginazu tá chutando o saco do Maxi Lopez?

  • ERNANDE diz: 29 de outubro de 2009

    Aprecio todo tipo de arte,tenho minhas preferências,acho-as bonitas, as vezes sem entende-las.Quero elogiar a atitude do téc. Autuore ontem,nos poupou de ouvir suas abobrinhas, porque ele fala e fala e o time não joga.O time dele é como se fosse uma tela vázia…Com Douglas no time
    ela ganha um colorido,ganha uma qualidade.
    Se ele não atrapalhar,podemos biliscar o g 4,e virar(pq não) obra de arte.Vou torcer para que Autuore barre o Roquemback
    ponha Douglas C.e não de mais entrevistas.

  • Ricardo Santos diz: 29 de outubro de 2009

    David, parabéns pelo texto. Foi por textos como este que eu comecei a acompanhar sua coluna na ZH. Penso que o “excesso” de produção requerida pelo blog estava fazendo com que tu perdesses tua melhor característica. Ao que parece não.

  • Marcelo Xavier diz: 28 de outubro de 2009

    Se futebol não é esporte, tente correr atrás da bola sem fazer um alongamento antes…

  • Tiago Medina diz: 28 de outubro de 2009

    Primeiro, desconsiderando os dois últimos parágrafos…
    Também dei uma olhada na bienal e, francamente, achei muito chato. Prefiro a arte de uma boa música num boteco – que é bem mais arte – do que o que vi.

    Sobre o Gre-Nal…
    Até quando vão continuar enchendo a bola do Douglas Costa se, até agora – com várias chances -, ele não fez `lhufas` pelo Grêmio? Deu, né!

  • albino enderle diz: 28 de outubro de 2009

    David: como é agradável e satisfatório ler artigos de quem sabe! Esse teu último periodo é de um conteúdo sem simular. Na maioria das vêzes, os técnicos de futebol vêem o jogo de uma forma totalmente contrária aos milhares de torcedores presentes no estádio. Visão louca e única!

  • Edgar Pires Ramos diz: 28 de outubro de 2009

    David
    Você não entendeu nada dos quadros de Miró justamente porque não há nada há entender! Se você ver os documentários sobre Miró, irá vê-lo pintando, um risco aqui, outro acolá! Arte Moderna abstrata tem muito de convenção, interesses, etc. Um livro dificil de encontrar, “Ser ou Nao Ser da Arte”, de Danubio Gonçalves, pinto gaucho, retrata isto. Você já deve ter visto na TV quadros que foram pintados por animais, exposicões onde são mostrados fetos humanos, etc. É arte, mas é horroroso! Abç

  • dyano diz: 28 de outubro de 2009

    Que se queria??? Um time mediocre como o grêmio, contra o time fraco do inter, uma partida feia, ou abstrata, como se queira. Mas a sorte escolheu seu lado, ou alguem vai dizer que o inter ta jogando um bolão pra ser campeão brasileiro????

  • Gabriel Aita Ost diz: 29 de outubro de 2009

    pô Gabriel Nonino
    tu arrebento cara

  • josé de alencar souza da silva diz: 28 de outubro de 2009

    Coimbra tu ainda tá de cabeça inchada por causa do gre-nal,chorando por ver o Inter ser o Campeão de Tudo,não admira a obra de arte que foi o gol do Inter no frangaço do Vítor.

  • Juarez Borges diz: 28 de outubro de 2009

    David,
    Anos atrás fui visitar o MoMa de Nova Iorque. Havia uma exposição de esculturas do Rodin, incluindo a célebre “O Pensador”. Achei muito bonito. Entendi o que queriam dizer. O problema foi o restante do museu! Tenho problemas sérios, pois não entendi quase nada das mensagens intrínsecas daquelas instalações. Inclusive, quase acabei preso, porque, sem querer, pisei em cima de uma delas: uma chapa de aço colocado no meio de uma sala vazia. Achei que era parte do piso! Quanta ignorância!

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