Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

A virtude educativa da desgraça

30 de outubro de 2009 7

Existiu um dia uma doce alemã chamada Carlota Sofia. Ela vivia no século 19, e era casada com um escritor de poucas luzes de quem você nunca deve ter ouvido falar: Enrique Stieglitz. Os contemporâneos de Carlota Sofia a descreviam como uma jovem não apenas bela, mas também culta. Apesar de tais ótimos predicados, depois de certo tempo de casamento, ela passava seus dias angustiada com a falta de talento do marido. Não sabia mais o que fazer para inspirá-lo a escrever uma grande obra.

Até que teve uma ideia: suicidar-se. A tragédia serviria de inspiração para Stieglitz compor um romance imortal.

E o fez. Carlota Sofia matou-se, legando à posteridade uma carta tocante, que explicava o seguinte:

“Eu tinha esgotado todos os meios que me sugeriam o meu espírito estimulado pelo amor e pelo dever. Foi então que pensei na virtude educativa da desgraça”.

Lindo isso: a virtude educativa da desgraça.

Agora pergunto: algum homem, algum dia, seria capaz de um sacrifício como o que fez Carlota Sofia pelo seu amor e por amor à arte?

Claro que não. Só as mulheres têm essa generosidade, essa capacidade de doação.

Há, entre nós, duas mulheres que doaram suas vidas à arte: Dona Eva Sopher e a professora Tânia Rösing.

O sacrifício de Dona Eva está erguido em pedra e concreto no peito da cidade, o sesquicentenário Theatro São Pedro e o flamante Multipalco. O de Tânia Rösing repete-se todos os anos, mês a mês, semana a semana, até se tornar sólido sob as lonas dos circos da Jornada Literária de Passo Fundo.

Participei da Jornada deste ano. Testemunhei a grandiosidade e a intensidade do evento. Admirei-me com a organização ao mesmo tempo suave e implacável de cada atividade, cada palestra, cada debate. Percebi que, por trás de tudo, move-se a mão germânica de Tânia Rösing, atenta o dia inteiro, a semana inteira, o ano inteiro.

***

Se Tânia Rösing tentasse realizar a Jornada em Porto Alegre, não conseguiria. De pronto saltariam opositores de todo lado, protestando, bradando que não daria certo, dizendo não. A Jornada vingou porque se fez à sorrelfa, quase escondida pela terra vermelha do Planalto Médio. Quando os sabotadores de costume se aperceberam, já estava pronta. E, óbvio, só se fez porque quem decidiu fazê-la foi uma mulher. Só uma mulher suportaria ir em frente apesar da eterna oposição dos gaúchos a tudo que se pretenda realizar no Estado. Só uma mulher se sacrifica a tal ponto, como um dia se sacrificou a bela Carlota Sofia. Embora, é claro, nem todo sacrifício resulte em sucesso. O marido de Carlota Sofia sobreviveu 15 anos a ela, e durante todo esse tempo bem que tentou, mas não conseguiu produzir nada além do medíocre. Tenho pena de Stieglitz, como ele deve ter sofrido com sua incompetência e com a perda de Carlota Sofia. Mas não deixo de admirá-lo: afinal, ele de fato era um homem capaz de inspirar amor em uma mulher.

*Texto publicado na página 2 da Zero Hora de hoje

Postado por David

Comentários (7)

  • Adriano diz: 30 de outubro de 2009

    “Só uma mulher se sacrifica a tal ponto, como um dia se sacrificou a bela Carlota Sofia. Embora, é claro, nem todo sacrifício resulte em sucesso.” ai..ai..seu Davizinho levado…propaganda “subliminar” é contra as normas do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar)

  • Deborah diz: 30 de outubro de 2009

    Você é lindo, David! adorei o texto. Até porque se me contassem a história da Carlota Sofia, eu só ia enxergar uma mulher infeliz, cheia de viver com um mosca-morta, como o marido. Beijo grandão.

  • ingra diz: 30 de outubro de 2009

    suahsuahs
    que maldade desse Machiavel aí! :D
    Realmente David,a Prof. Tania é um exemplo, ela é uma guerreira.Ela acreditou no sonho dela,meteu a cara e o resultado é esse espetáculo da literatura que temos aqui.
    Que pena, não pude falar com você ao vivo, mas esta semana te ligo (denovo) :D
    beijo

  • Fabiano diz: 2 de novembro de 2009

    David,
    Meu filho de 12 anos aguarda ansioso pela jornadinha, sempre volta de la com varios livros, que sao prontamente devorados. SENSACIONAL.

  • Machiavel diz: 30 de outubro de 2009

    Atualmente deve ter muito escritor por aí pedindo, de joelhos, que sua mulher se suicide.

  • FSm diz: 30 de outubro de 2009

    David aqui em Passo Fundo, as coisas acontecem, há a união de toda comunidade. A capital nacional da literatura le em média 6,7 livros por ano, número equivalente á França. Enfim somos uma cidade evoluída, prospera, um dos carros chefes do estado juntamente com Porto Alegre e Caxias do Sul

  • josé de alencar souza da silva diz: 3 de novembro de 2009

    Desgraça tem a “virtude“ de arrasar uma pessoa,só o que é bom pode ser educativo.

Envie seu Comentário