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Conheça o final da história do Seu Camilo

31 de outubro de 2009 17

Os leitores do blog decidiram pelo texto de Marcelo Carvalho.

Ilustração: Fraga

Seu Camilo era um homem metódico. Seu Camilo fazia tudo sempre igual. Acordava todos os dias à mesma hora. Seis e quinze. Nunca antes. Nunca depois. Todos os dias. Menos aos domingos, quando desabrochava da penumbra do quarto, febril de energia, pontualmente às 8h15min.

Seu Camilo comia sempre porções idênticas da mesma comida. Talvez por isso fosse magro. Seu peso mantinha-se estável nos últimos 37 anos. Quase não bebia. Um cálice de vinho do Porto após o jantar, para facilitar a digestão. Um copo de conhaque nos sábados à noite. E só.

Seu Camilo era professor de literatura. Estudou sempre na mesma escola, a escola em que agora lecionava. Nas férias, dava aulas particulares para apenas três alunos, nunca mais do que três. Depois, durante 15 dias, ia para Gramado, onde também repetia a rotina ano após ano.

Seu Camilo estava casado havia 35 anos com a mulher que fora sua única namorada. Jamais sequer beijara outra que não Dona Lúcia. Até o sexo entre eles era sistemático. Os dois filhos, um homem e uma mulher, já casados, sabiam que Seu Camilo e Dona Lúcia exerciam suas obrigações conjugais infalivelmente aos sábados. Nesse dia, eles iam para a alcova mais cedo, às 22h. Subiam juntos, de mãos dadas e, o mais importante, levavam com eles as lâmpadas coloridas. Ninguém nunca havia desvendado a utilidade das lâmpadas coloridas, mas o fato era que existiam diversas delas em casa, de diversas cores. Ficavam guardadas num grande armário da sala. Às quartas e aos sábados, logo depois do jantar, Seu Camilo e Dona Lúcia se reuniam rapidamente num canto da casa e, aos sussurros, combinavam algo. Que, depois de anos de observação, os filhos descobriram ser:

- Azul?

- Hoje preferia roxa.

- Está bem, querida. Roxa.

Então iam os dois até a sala, abriam o armário com uma chave que Seu Camilo levava no bolso direito das calças e apanhavam duas lâmpadas roxas. Subiam com elas, trancavam-se no quarto e lá permaneciam, em absoluto silêncio, até a manhã seguinte. Às 6h15min.

Tudo continuou assim, tão igual, até aparecer Marina. Naquele ano, ela era um dos três alunos que iriam tomar aulas particulares com Seu Camilo. Ele não a conhecia. Viu-a pela primeira vez no dia da primeira aula. Foi abrir a porta e, ao deparar com ela, tomou um choque. Não que ela fosse especialmente linda, mas era… sensual demais. Não precisou mais de um olhar para perceber. Seu sorriso blasé, seu olhar lânguido, seus gestos felinos, tudo dizia que ali, parada diante da porta entreaberta, estava uma mulher feita para o sexo e para enlouquecer os homens. Seu Camilo hesitou. Devia deixá-la entrar? Afinal, sua mulher não estava em casa, fora passar uns dias com a filha, em Torres, a presença daquela mulher… daquela menina… talvez não fosse adequada.

Mas Seu Camilo abriu a porta.

Marina entrou. E a vida do Seu Camilo, contra todas as expectativas, mudou.

E ao abrir a porta por ele passou Marina, despojada e inquieta, e logo após adentrar a sala foi tirando o casaco e passando as mãos pelos cabelos para deixá-los soltos. Tinha o olhar traiçoeiro, aquele que procura e analisa tudo a sua volta. Seu olhar passou em revista as paredes, as escadas e encontrou com Seu Camilo, prostrado na sua frente, com os olhos arregalados. Ele tentava compreender porque a havia deixado entrar.

Não tiveram tempo para maiores conversas, pois logo após Marina jogar a bolsa sobre o sofá, a campainha tocou anunciando a chegada dos outros dois alunos, que completaram a turma de três. Afinal, Seu Camilo dava aula sempre para três alunos, nunca mais do que três e nunca menos que três.

Sentiu a situação minorar com a chegada dos garotos. Previu a volta da normalidade, mas não a teve. Descobriu enquanto tentava ministrar sua aula, que o pior pesadelo de um homem pode se chamar mulher. Uma mulher com corpo de menina, com o sorriso de criança e o olhar que enfeitiça. E assim era Marina, a dona do perfume que o deixava inquieto. Sem perceber sua vida deixava de ser tão igual.

As aulas eram dadas três vezes na semana e na terceira asseverou-se que não era mais o mesmo. Dia desses acordou em meio a madrugada e foi até a sala onde guardava as lâmpadas e imaginou qual cor usaria com aquela garota. Sem sono, lembrou que Marina insistia em vir de mini-saia mesmo após ter solicitado que ela não usasse roupa tão curta. Argumentou que os outros rapazes não conseguiam se concentrar na aula, mas quem não conseguia se manter concentrado era ele próprio.

Pensou em desejar a morte se Eros fosse, mas diferente deste ele não desejou a morte, passou a desejar o corpo de Marina, sua boca e seu toque. Fitando as curvas do corpo de Marina via em cada uma um segredo. Romanceava nas entranhas do seu ser encontros proibidos, esses que são despertados pela libido. A vontade de tê-la o enfraquece e atormenta, tem a certeza que quando as aulas acabarem ou quando sua esposa voltar vai ter de volta o marasmo.

O costume de acordar sempre no mesmo horário, perdeu. Agora tem acordado em meio a madrugada suando e destemperado. Observou que a menina flerta com um dos alunos e se enfureceu de inveja. Seu Camilo não tinha mais o controle de seu corpo, de sua aula e de suas vontades.

Já não era mais um homem metódico tanto que, ao chegar às aulas da segunda semana, teve medo de se deixar levar pelo desejo e perder a razão. Se a libido ordenava que a possuísse, ou tentasse possuir Marina, a razão o fazia desistir. Por isso desejou muito ser além de comedido, também pusilânime.

Tocou com a mão no bolso direito da calça e não achou as chaves que sempre estavam ali. Sempre se intrigava quando Marina demorava, ao dizer que ia ao banheiro. Ela era muito bisbilhoteira. Tomado de susto pela ausência das chaves pensou em ir atrás de sua aluna, mas decidiu esperar mais alguns minutos. Desesperado com a demora, foi até a sala e encontrou a garota com algumas lâmpadas nas mãos. Tocava, olhava e nem percebeu a presença de Seu Camilo. Os alunos já haviam ido embora. A garota estava ainda mais sensual, temeu perder os sentidos. Num golpe de reflexo fechou a porta e praticamente expulsou a menina da sala e da casa. Depois saiu a caminhar pela cidade sem destino, como nunca havia feito antes, e entrou num bordel.

Estava com o corpo quente, sentia-se tremulo e entregue aos desejos. Achou uma garota parecida com Marina e a levou para o quarto. Fez amor como há tempos não fazia. Na verdade não fez amor, fez sexo, deixou tudo o que estava preso dentro de si aflorar, vencido pelo tesão possuiu sua ninfeta sem pudores. Após o banho voltou para casa. Desejou jogar todas as lâmpadas fora, mas temia não saber o que explicar à sua esposa.

Praticamente passou a noite acordado, querendo saber se todos aqueles anos tão regrados não foram tempos perdidos. Tentava descobrir se o que fizera era certo ou errado, mas adormeceu tranquilo e em paz, consigo mesmo, afinal não tinha mantido relações carnais com sua aluna, estava livre desse pecado. Depois daquela noite, contrariando todas expectativas, a vida de Seu Camilo mudou.

E aí, o que achou do final da história do Seu Camilo?

Postado por David

Comentários (17)

  • Vitor diz: 7 de novembro de 2009

    mais ou menos

  • luzinha diz: 31 de outubro de 2009

    bah, muito brega… parece revistinha barata de conto pornô… mas muito legal essa ideia de concurso cultural no teu blog… continue fazendo esses concursos… e ve se escreve o teu final, David! Bjos!

  • Mauro diz: 4 de novembro de 2009

    Já que o David não sabe fazer os finais para estas histórias do blog…

  • Marcelo Carvalho diz: 1 de novembro de 2009

    Quero agradecer a todos que votaram no meu texto e dar parabéns ao Rafael e ao Gabriel por seus textos.
    David continue com esta iniciativa !!!
    Abraços

  • alice diz: 3 de novembro de 2009

    Parabéns Marcelo e tb aos outros, adorei todos, mas o do vencedor realmente foi o melhor..
    Vocês escrevem muito parecido com o David e sou super fã dele .. vcs tem futuro, certo que sim !!
    Bjos !!

  • josé de alencar souza da silva diz: 3 de novembro de 2009

    Ficaria melhor se tu tivesse escrito Coimbra porque tu é o craque,o Pelé.

  • Maurício diz: 31 de outubro de 2009

    É isso aí… David Coimbra em abrir espaços para novos talentos. Quem nunca pensou como seu Camilo? E devido seus príncipios não fizeram o pior. Separação. Parabéns pelos finalistas do conto e principalmente ao ganhador. Por que não se apresentam na feira do livro? Abraços e sucessos:.

  • Gisele diz: 31 de outubro de 2009

    Pois eu achei muiiiiito bom! Parabéns Marcelo!!!

  • Gabriel Nonino diz: 1 de novembro de 2009

    Parabéns Marcelo Carvalho, seu texto estava realmente muito bom. Muito obrigado a todos que votaram em mim, a David e a diretoria do Blog pela iniciativa.

  • Pasquale diz: 6 de novembro de 2009

    Tirando os muitos erros de concordância, tá bacaninha.

  • Nunes diz: 3 de novembro de 2009

    Ótimo. Maravilhoso… acredito que na sequência ele deve pegar essa aluna!

  • Marina Brum Marquetto diz: 31 de outubro de 2009

    Eu gostei… bem legal…

  • Rafael Dadia diz: 31 de outubro de 2009

    Parabéns ao vencedor. Muito obrigado a todos que votaram em mim. David, parabéns pelo blog e pela iniciativa.

  • letícia chaves diz: 31 de outubro de 2009

    Gostei muito! Quem nunca não pensou quebrar as regras, mas na última hora achou uma solução melhor, mais adequada e aí viu sua vida e seus valores mudarem? Continue assim Marcelo
    Letícia

  • Mariângela diz: 2 de novembro de 2009

    Chato! Como um bom professor chato!Opa, ficou legal!

  • Deborah diz: 3 de novembro de 2009

    Ueba !!! gostei do final ! tinha votado no Marcelo, mesmo.
    Aliás, Parabéns, Marcelo !!!
    Beijos.

  • Marisa Oliveira diz: 31 de outubro de 2009

    Parabéns pela iniciativa do concurso! Espero que venham outros. Também queria ler o seu final.

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