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Os leões e os germanos

31 de outubro de 2009 15

Os germanos eram assustadores, e esse adjetivo não é força de expressão. Numa das primeiras vezes em que os romanos depararam com eles ocorreu o seguinte: os germanos emergiram das sombras da Floresta Negra urrando feito selvagens que eram, um som horrendo, como se predadores monstruosos investissem sobre a legião. Detrás de seus escudos de madeira revestida com bronze, os romanos viram correr em sua direção aqueles homens de estatura descomunal, como se fossem todos zagueiros do Gaúcho de Passo Fundo, e de músculos desenvolvidos pela vida ao ar livre, pelas caçadas e pelas eternas guerras tribais. As longas cabeleiras amarelas e vermelhas dos germanos esvoaçavam e davam uma aparência ainda mais ameaçadora aos seus rostos barbados.

Por um momento, os legionários ficaram petrificados debaixo de seus elmos. No momento seguinte, não vacilaram: giraram em cima das sandálias e correram com devoção a fim de salvar suas peles latinas. Veni, vidi, corri.

Depois que os romanos se acostumaram com a visão pouco ortodoxa dos guerreiros germanos em ação, não entraram mais em pânico e até passaram a derrotá-los, isso graças à disciplina tática das legiões. Mesmo assim, os germanos jamais se submeteram completamente ao Império, nem quando o Império os absorveu. Por volta do ano 200 da Era Cristã, o imperador filósofo, Marco Aurélio, já nem morava mais em Roma, vivia nas fronteiras, vigiando os movimentos inquietos e inquietantes dos bárbaros.

Um dia, o imperador teve uma ideia que julgou supimpa: mandou buscar leões da África e, numa batalha perto de Vindobona, a atual Viena, açulou-os sobre os germanos. Calculava, Marco Aurélio, que os bárbaros ficariam aterrorizados com o ataque daquelas feras das quais nunca nem tinham ouvido falar. De fato, numa época sem National Geographic, os germanos não conheciam leões, e essa foi a sorte deles. Acreditando que fossem apenas cães enormes, os louros guerreiros da Alemanha não só não fugiram como chacinaram os bichos a golpes de espada, lança e clava, pouco se importando com a repercussão entre os protetores dos animais.

Nos dois casos, como se viu, o medo foi decisivo. Os romanos só bateram os germanos quando perderam o medo deles; os germanos mataram os leões porque não tinham medo deles. O medo, muitas vezes, é o que faz diferença na batalha. Um jogo de futebol é a representação moderna de uma batalha, nada mais do que isso. Em 2009, as legiões porto-alegrenses têm sido batidas pelo medo. O Grêmio, pelo medo que o paralisa quando sai de casa. O Inter, pelo medo que o faz estremecer em cada decisão. Os verdadeiros conquistadores, não é que eles não sintam medo: eles o dominam. Grêmio e Inter, não. Grêmio e Inter, o medo é que os domina. E um coração que vive com medo é, sempre, um coração que sente o pior dos medos: o medo de ser feliz.


*Texto publicado na página 33 de Zero Hora dominical

Postado por David Coimbra

Comentários (15)

  • Leonardo diz: 1 de novembro de 2009

    Como gremista, faço minha tuas palavras: o grêmio é talhado ao 3-5-2, pois montado por Roth para jogar assim. Foi um ano jogado fora por “conceitos”. Conceitos que o germanos não conheciam (de que era perigoso enfrentar leões), e assim, venceram.

  • geroncio almeida diz: 1 de novembro de 2009

    sou colorado e ha tempos cheguei a conclusão:o inter é um time razoável tecnicamente,mas de fraca personalidade,pois perdeu várias chances de reassumir a liderança.

  • ANTHENOR HUGO diz: 1 de novembro de 2009

    MEDO? SÓ SE FOR DE ATRASAR SALÁRIO; QUE NÃO É O CASO DA DUPLA…PROPONHO MULTA DE 10% EM CASO DE DERROTA…AÍ VAMOS VER ELES DAR SANGUE E VOLTAR A COMPETIR E ACIMA DE TUDO RESPEITAR O TORCEDOR. GARRA E LUTA ERA MARCA DO FUTEBOL GAUCHO…PERDEMOS NA IMPORTAÇÃO DE TANTOS JOGADORES E TECNICOS DE FORA.

  • Machiavel diz: 2 de novembro de 2009

    Seguinte: botaram fogo no rabo do leão e ele foi lá e comeu o co-germano que vai ficar mais trinta anos sonhando com o título do brasileirão porque não vão ter mais o Gabiru para fazer gol espírita.

  • kako dallagnese diz: 1 de novembro de 2009

    Falta RAÇA … muita RAÇA …para esse time do Grêmio merecer a torcida que tem !

  • josé de alencar souza da silva diz: 3 de novembro de 2009

    O Grêmio é um leão em casa(Olímpico e Aflitos),e é um gatinho fora de casa.

  • flavio couto diz: 1 de novembro de 2009

    na verdade nosso estado esta morrendo por inanição. Sem em tempos passados, não “morriamos” sem pelear.Agora morremos antes para pelar depois.

  • josé de alencar souza da silva diz: 3 de novembro de 2009

    O Grêmio Miau perdeu até para o quase-rebaixado Santo André fora de casa.

  • ERNANDE diz: 1 de novembro de 2009

    O AUTUORE TEM QUE SE RECICLAR COMO TÉCNICO DE FUTEBOL,ELE FICOU MUITO TEMPO LONGE DA ALDEIA,E, PENSA QUE SABE TUDO.RECHEAR O MEIO
    TROCANDO PASSES LATERAIS,SEM UM CHUTE À GOL?QUERO QUE ELE NÃO DÊ MAIS ENTREVISTAS
    MAIS DEIXE DOUGLAS C. JOGANDO. E O ROQUEMBACK QUE ELE GOSTA TANTO,FIQUE AO SEU LADO NO BANCO.

  • antonio augusto borges diz: 1 de novembro de 2009

    nao e o medo que se agiganta,e a nossa coragem que diminui.

  • Gilmar Rosso diz: 3 de novembro de 2009

    obrigado pela citação do NOSSO- Sport Club Gaúcho . Estamos preparando nosso Centenário 2018 .ESTAMOS VOLTANDO , Vamos disputar a Segundona ano que vem.Solicito sua autorização para utilizar as referências que você já fez ao nosso clube . Quem viveu o nosso Gaúcho, acredito ser o seu caso, SABE O QUE SIGNIFICADO DA PALAVRA :NÃO TER MEDO ,referido na sua coluna ,DE VENCER.Saudações Alviverde

  • Bernardo diz: 1 de novembro de 2009

    Agora tu te superaste David. Que crônica bonita! És, ainda, humilde, por não teres recorrido ao exemplo do teu xará bíblico, que, armado apenas com um bodoque, deu uma sova num zagueirão filisteu, o Golias. Jogando fora de casa, se não me engano. Tens toda a razão: que times cagões, os nossos!
    Abraços,

    rlbernardo

  • Rômulo Luft diz: 2 de novembro de 2009

    É exatamente isso que acontece com Inter e Grêmio. Quem jogar pra vencer, neste campeonato, vai ser o Campeão.

  • João Carlos Welter diz: 1 de novembro de 2009

    Acho que a comparação se adapta à era Tite,que tinha uma atitude respeitosa demais com os adversários.Já com Mário Sérgio vejo um time mais aguerrido e confiante.Hoje é o dia de provar isso definitivamente!Me parece que Mário Sérgio sabe aproveitar melhor o elenco e não teme os riscos.Mas os resultados dependem também de outros fatores,inclusive sorte(ou é normal um goleiro defender 3 penaltis consecutivos,como o Bruno?-só aí são 5 pontos!!!!!!!).A crônica foi ótima,um prazer em ler.

  • Alex diz: 1 de novembro de 2009

    david, excelente texto……………..a grande maioria das pessoas do mundo tem medo de ser feliz, de ganhar, do sucesso….por isso nunca os alcancam……
    coragem pessoal, o mundo esta ae pra ser conquistado por qualquer um, basta ter coragem……
    sucesso a todos.

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