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Posts de outubro 2009

Os leões e os germanos

31 de outubro de 2009 15

Os germanos eram assustadores, e esse adjetivo não é força de expressão. Numa das primeiras vezes em que os romanos depararam com eles ocorreu o seguinte: os germanos emergiram das sombras da Floresta Negra urrando feito selvagens que eram, um som horrendo, como se predadores monstruosos investissem sobre a legião. Detrás de seus escudos de madeira revestida com bronze, os romanos viram correr em sua direção aqueles homens de estatura descomunal, como se fossem todos zagueiros do Gaúcho de Passo Fundo, e de músculos desenvolvidos pela vida ao ar livre, pelas caçadas e pelas eternas guerras tribais. As longas cabeleiras amarelas e vermelhas dos germanos esvoaçavam e davam uma aparência ainda mais ameaçadora aos seus rostos barbados.

Por um momento, os legionários ficaram petrificados debaixo de seus elmos. No momento seguinte, não vacilaram: giraram em cima das sandálias e correram com devoção a fim de salvar suas peles latinas. Veni, vidi, corri.

Depois que os romanos se acostumaram com a visão pouco ortodoxa dos guerreiros germanos em ação, não entraram mais em pânico e até passaram a derrotá-los, isso graças à disciplina tática das legiões. Mesmo assim, os germanos jamais se submeteram completamente ao Império, nem quando o Império os absorveu. Por volta do ano 200 da Era Cristã, o imperador filósofo, Marco Aurélio, já nem morava mais em Roma, vivia nas fronteiras, vigiando os movimentos inquietos e inquietantes dos bárbaros.

Um dia, o imperador teve uma ideia que julgou supimpa: mandou buscar leões da África e, numa batalha perto de Vindobona, a atual Viena, açulou-os sobre os germanos. Calculava, Marco Aurélio, que os bárbaros ficariam aterrorizados com o ataque daquelas feras das quais nunca nem tinham ouvido falar. De fato, numa época sem National Geographic, os germanos não conheciam leões, e essa foi a sorte deles. Acreditando que fossem apenas cães enormes, os louros guerreiros da Alemanha não só não fugiram como chacinaram os bichos a golpes de espada, lança e clava, pouco se importando com a repercussão entre os protetores dos animais.

Nos dois casos, como se viu, o medo foi decisivo. Os romanos só bateram os germanos quando perderam o medo deles; os germanos mataram os leões porque não tinham medo deles. O medo, muitas vezes, é o que faz diferença na batalha. Um jogo de futebol é a representação moderna de uma batalha, nada mais do que isso. Em 2009, as legiões porto-alegrenses têm sido batidas pelo medo. O Grêmio, pelo medo que o paralisa quando sai de casa. O Inter, pelo medo que o faz estremecer em cada decisão. Os verdadeiros conquistadores, não é que eles não sintam medo: eles o dominam. Grêmio e Inter, não. Grêmio e Inter, o medo é que os domina. E um coração que vive com medo é, sempre, um coração que sente o pior dos medos: o medo de ser feliz.


*Texto publicado na página 33 de Zero Hora dominical

Postado por David Coimbra

O tripé

31 de outubro de 2009 1

Grêmio e Inter têm jogadores talhados para o esquema 3-5-2, embora eu aqui não seja um entusiasta desta forma de jogar. O Grêmio dispõe de um trio final, Victor, Mário Fernandes e Réver, que talvez seja o melhor do Brasil. Com um Leo ou um Rafael Marques entre os dois zagueiros, aí está um alvissareiro começo de time. Na ala direita, bem que poderiam convencer o Souza a correr por lá. O Souza é ótimo, mas não pode ser o centro técnico do time. No meio-campo, Douglas Costa, que, se vê, Douglas Costa está diferente, está confiante – perdeu o medo!

O Inter não tem um tripé de defesa tão virtuoso, mas sobejam-lhe jogadores competentes nas demais posições, onde o Grêmio é só escassez. No Inter há abundância de bons jogadores, titulares e reservas. Falta o ajuste, mas, olha, o Mário Sérgio parece saber como fazer o ajuste.

*Texto publicado na página 33 de Zero Hora dominical

Postado por David

Conheça o final da história do Seu Camilo

31 de outubro de 2009 17

Os leitores do blog decidiram pelo texto de Marcelo Carvalho.

Ilustração: Fraga

Seu Camilo era um homem metódico. Seu Camilo fazia tudo sempre igual. Acordava todos os dias à mesma hora. Seis e quinze. Nunca antes. Nunca depois. Todos os dias. Menos aos domingos, quando desabrochava da penumbra do quarto, febril de energia, pontualmente às 8h15min.

Seu Camilo comia sempre porções idênticas da mesma comida. Talvez por isso fosse magro. Seu peso mantinha-se estável nos últimos 37 anos. Quase não bebia. Um cálice de vinho do Porto após o jantar, para facilitar a digestão. Um copo de conhaque nos sábados à noite. E só.

Seu Camilo era professor de literatura. Estudou sempre na mesma escola, a escola em que agora lecionava. Nas férias, dava aulas particulares para apenas três alunos, nunca mais do que três. Depois, durante 15 dias, ia para Gramado, onde também repetia a rotina ano após ano.

Seu Camilo estava casado havia 35 anos com a mulher que fora sua única namorada. Jamais sequer beijara outra que não Dona Lúcia. Até o sexo entre eles era sistemático. Os dois filhos, um homem e uma mulher, já casados, sabiam que Seu Camilo e Dona Lúcia exerciam suas obrigações conjugais infalivelmente aos sábados. Nesse dia, eles iam para a alcova mais cedo, às 22h. Subiam juntos, de mãos dadas e, o mais importante, levavam com eles as lâmpadas coloridas. Ninguém nunca havia desvendado a utilidade das lâmpadas coloridas, mas o fato era que existiam diversas delas em casa, de diversas cores. Ficavam guardadas num grande armário da sala. Às quartas e aos sábados, logo depois do jantar, Seu Camilo e Dona Lúcia se reuniam rapidamente num canto da casa e, aos sussurros, combinavam algo. Que, depois de anos de observação, os filhos descobriram ser:

- Azul?

- Hoje preferia roxa.

- Está bem, querida. Roxa.

Então iam os dois até a sala, abriam o armário com uma chave que Seu Camilo levava no bolso direito das calças e apanhavam duas lâmpadas roxas. Subiam com elas, trancavam-se no quarto e lá permaneciam, em absoluto silêncio, até a manhã seguinte. Às 6h15min.

Tudo continuou assim, tão igual, até aparecer Marina. Naquele ano, ela era um dos três alunos que iriam tomar aulas particulares com Seu Camilo. Ele não a conhecia. Viu-a pela primeira vez no dia da primeira aula. Foi abrir a porta e, ao deparar com ela, tomou um choque. Não que ela fosse especialmente linda, mas era… sensual demais. Não precisou mais de um olhar para perceber. Seu sorriso blasé, seu olhar lânguido, seus gestos felinos, tudo dizia que ali, parada diante da porta entreaberta, estava uma mulher feita para o sexo e para enlouquecer os homens. Seu Camilo hesitou. Devia deixá-la entrar? Afinal, sua mulher não estava em casa, fora passar uns dias com a filha, em Torres, a presença daquela mulher… daquela menina… talvez não fosse adequada.

Mas Seu Camilo abriu a porta.

Marina entrou. E a vida do Seu Camilo, contra todas as expectativas, mudou.

E ao abrir a porta por ele passou Marina, despojada e inquieta, e logo após adentrar a sala foi tirando o casaco e passando as mãos pelos cabelos para deixá-los soltos. Tinha o olhar traiçoeiro, aquele que procura e analisa tudo a sua volta. Seu olhar passou em revista as paredes, as escadas e encontrou com Seu Camilo, prostrado na sua frente, com os olhos arregalados. Ele tentava compreender porque a havia deixado entrar.

Não tiveram tempo para maiores conversas, pois logo após Marina jogar a bolsa sobre o sofá, a campainha tocou anunciando a chegada dos outros dois alunos, que completaram a turma de três. Afinal, Seu Camilo dava aula sempre para três alunos, nunca mais do que três e nunca menos que três.

Sentiu a situação minorar com a chegada dos garotos. Previu a volta da normalidade, mas não a teve. Descobriu enquanto tentava ministrar sua aula, que o pior pesadelo de um homem pode se chamar mulher. Uma mulher com corpo de menina, com o sorriso de criança e o olhar que enfeitiça. E assim era Marina, a dona do perfume que o deixava inquieto. Sem perceber sua vida deixava de ser tão igual.

As aulas eram dadas três vezes na semana e na terceira asseverou-se que não era mais o mesmo. Dia desses acordou em meio a madrugada e foi até a sala onde guardava as lâmpadas e imaginou qual cor usaria com aquela garota. Sem sono, lembrou que Marina insistia em vir de mini-saia mesmo após ter solicitado que ela não usasse roupa tão curta. Argumentou que os outros rapazes não conseguiam se concentrar na aula, mas quem não conseguia se manter concentrado era ele próprio.

Pensou em desejar a morte se Eros fosse, mas diferente deste ele não desejou a morte, passou a desejar o corpo de Marina, sua boca e seu toque. Fitando as curvas do corpo de Marina via em cada uma um segredo. Romanceava nas entranhas do seu ser encontros proibidos, esses que são despertados pela libido. A vontade de tê-la o enfraquece e atormenta, tem a certeza que quando as aulas acabarem ou quando sua esposa voltar vai ter de volta o marasmo.

O costume de acordar sempre no mesmo horário, perdeu. Agora tem acordado em meio a madrugada suando e destemperado. Observou que a menina flerta com um dos alunos e se enfureceu de inveja. Seu Camilo não tinha mais o controle de seu corpo, de sua aula e de suas vontades.

Já não era mais um homem metódico tanto que, ao chegar às aulas da segunda semana, teve medo de se deixar levar pelo desejo e perder a razão. Se a libido ordenava que a possuísse, ou tentasse possuir Marina, a razão o fazia desistir. Por isso desejou muito ser além de comedido, também pusilânime.

Tocou com a mão no bolso direito da calça e não achou as chaves que sempre estavam ali. Sempre se intrigava quando Marina demorava, ao dizer que ia ao banheiro. Ela era muito bisbilhoteira. Tomado de susto pela ausência das chaves pensou em ir atrás de sua aluna, mas decidiu esperar mais alguns minutos. Desesperado com a demora, foi até a sala e encontrou a garota com algumas lâmpadas nas mãos. Tocava, olhava e nem percebeu a presença de Seu Camilo. Os alunos já haviam ido embora. A garota estava ainda mais sensual, temeu perder os sentidos. Num golpe de reflexo fechou a porta e praticamente expulsou a menina da sala e da casa. Depois saiu a caminhar pela cidade sem destino, como nunca havia feito antes, e entrou num bordel.

Estava com o corpo quente, sentia-se tremulo e entregue aos desejos. Achou uma garota parecida com Marina e a levou para o quarto. Fez amor como há tempos não fazia. Na verdade não fez amor, fez sexo, deixou tudo o que estava preso dentro de si aflorar, vencido pelo tesão possuiu sua ninfeta sem pudores. Após o banho voltou para casa. Desejou jogar todas as lâmpadas fora, mas temia não saber o que explicar à sua esposa.

Praticamente passou a noite acordado, querendo saber se todos aqueles anos tão regrados não foram tempos perdidos. Tentava descobrir se o que fizera era certo ou errado, mas adormeceu tranquilo e em paz, consigo mesmo, afinal não tinha mantido relações carnais com sua aluna, estava livre desse pecado. Depois daquela noite, contrariando todas expectativas, a vida de Seu Camilo mudou.

E aí, o que achou do final da história do Seu Camilo?

Postado por David

Ana Paula deve ou não namorar?

30 de outubro de 2009 1

Clique no player abaixo e conheça o dilema de Ana Paula!

 

Postado por David

A virtude educativa da desgraça

30 de outubro de 2009 7

Existiu um dia uma doce alemã chamada Carlota Sofia. Ela vivia no século 19, e era casada com um escritor de poucas luzes de quem você nunca deve ter ouvido falar: Enrique Stieglitz. Os contemporâneos de Carlota Sofia a descreviam como uma jovem não apenas bela, mas também culta. Apesar de tais ótimos predicados, depois de certo tempo de casamento, ela passava seus dias angustiada com a falta de talento do marido. Não sabia mais o que fazer para inspirá-lo a escrever uma grande obra.

Até que teve uma ideia: suicidar-se. A tragédia serviria de inspiração para Stieglitz compor um romance imortal.

E o fez. Carlota Sofia matou-se, legando à posteridade uma carta tocante, que explicava o seguinte:

“Eu tinha esgotado todos os meios que me sugeriam o meu espírito estimulado pelo amor e pelo dever. Foi então que pensei na virtude educativa da desgraça”.

Lindo isso: a virtude educativa da desgraça.

Agora pergunto: algum homem, algum dia, seria capaz de um sacrifício como o que fez Carlota Sofia pelo seu amor e por amor à arte?

Claro que não. Só as mulheres têm essa generosidade, essa capacidade de doação.

Há, entre nós, duas mulheres que doaram suas vidas à arte: Dona Eva Sopher e a professora Tânia Rösing.

O sacrifício de Dona Eva está erguido em pedra e concreto no peito da cidade, o sesquicentenário Theatro São Pedro e o flamante Multipalco. O de Tânia Rösing repete-se todos os anos, mês a mês, semana a semana, até se tornar sólido sob as lonas dos circos da Jornada Literária de Passo Fundo.

Participei da Jornada deste ano. Testemunhei a grandiosidade e a intensidade do evento. Admirei-me com a organização ao mesmo tempo suave e implacável de cada atividade, cada palestra, cada debate. Percebi que, por trás de tudo, move-se a mão germânica de Tânia Rösing, atenta o dia inteiro, a semana inteira, o ano inteiro.

***

Se Tânia Rösing tentasse realizar a Jornada em Porto Alegre, não conseguiria. De pronto saltariam opositores de todo lado, protestando, bradando que não daria certo, dizendo não. A Jornada vingou porque se fez à sorrelfa, quase escondida pela terra vermelha do Planalto Médio. Quando os sabotadores de costume se aperceberam, já estava pronta. E, óbvio, só se fez porque quem decidiu fazê-la foi uma mulher. Só uma mulher suportaria ir em frente apesar da eterna oposição dos gaúchos a tudo que se pretenda realizar no Estado. Só uma mulher se sacrifica a tal ponto, como um dia se sacrificou a bela Carlota Sofia. Embora, é claro, nem todo sacrifício resulte em sucesso. O marido de Carlota Sofia sobreviveu 15 anos a ela, e durante todo esse tempo bem que tentou, mas não conseguiu produzir nada além do medíocre. Tenho pena de Stieglitz, como ele deve ter sofrido com sua incompetência e com a perda de Carlota Sofia. Mas não deixo de admirá-lo: afinal, ele de fato era um homem capaz de inspirar amor em uma mulher.

*Texto publicado na página 2 da Zero Hora de hoje

Postado por David

Escolha o melhor final: História do Seu Camilo

29 de outubro de 2009 177

“Seu Camilo

A equipe de Blog, liderada pela editora-executiva interina Ariane Jorej, escolheu três finais para a história do Seu Camilo. Você, leitor, votará para decidir quem é o vencedor. Que ganhará um novíssimo exemplar de “A Cantada Infalível e A Mulher do Centroavante”, livro que lançarei no dia 6, às 19h30, na Feira.

Votem fazendo comentários neste post”

Continuação de Rafael Dadia

Não podia ser possível. Depois de 35 anos de casado, destinado apenas a uma mulher, sua amada e dedicada Lúcia, Seu Camilo se via entregue à fulgurante vontade de satisfazer a lascívia de seus instintos adormecidos. Uma inconteste sensação de prazer efêmero. Sozinho, ali, com aquela ninfeta.

Marina vestia um sumário vestidinho (sim, pois era uma cálida tarde de verão). Daqueles vestidinhos que a mulher ergue os braços para cima e o deixa despencar lisamente pelo seu corpo até encontrar os ombros. E Seu Camilo não resistiu. Sem que Marina pudesse ter reação, tascou-lhe um beijo suculento. Marina afastou-lhe de perto dela, olhou bem no fundo dos olhos e sussurrou:

- Me possua, Prof. Camilo!

Seu Camilo partiu para cima dela, jogando seus livros no chão. Apalpou-a com entusiasmo levantando-lhe o vestidinho. Deitou-a no sofá, mordiscou-lhe os tenros seios e alisou as lindas, grossas e torneadas coxas. Beijou seus lindos pés, com unhas francesinhas metodicamente bem feitas, e… balbuciando disse:

- O, o, olá, Marina! Como vai? Vamos entrando.

Pois é. Seu Camilo caiu em si após os devaneios, e enquanto Marina foi entrando, pensava na sua amada Lúcia e na triste realidade de que não daria conta daquela mulher díspar à sua frente. Pensou também que já estava na hora de repensar sua vida e deixá-la mais colorida. Hoje, Seu Camilo não levanta mais pontualmente às 6h15min. Quer dizer, ao menos duas vezes por semana, fora o sábado, quando ele e Dona Lúcia vão dormir mais tarde. E também as quartas-feiras não servem mais só para testar a iluminação. Seu Camilo aposentou as chaves do armário e providenciou um globo colorido para o teto do seu quarto.

É isso aí. Num casamento as coisas esfriam e se perde o foco se não mantê-lo acesso. Pode-se dar uma apimentada no relacionamento em Paris ou em Capão da Canoa. O que importa é valer-se de tudo, com ou sem dinheiro, mas com criatividade. Assim como no futebol, onde há clubes que contam com estrutura e gerenciamento sólidos, pensamento empreendedor, sabem vender, sabem comprar, e estão sempre apimentando o relacionamento com a torcida; e já há outros, sem dinheiro, sem direção, que necessitam da prata da casa para manter-se com honra, prataria essa que depois é exportada de graça para a Europa.

Continuação de Gabriel Nonino

Marina com seu andar malevolente, e seu olhar de fera, permaneceu na frente de Seu Camilo por no mínimo 15 minutos, um silêncio assustador do qual Seu Camilo não ousou interromper. Até que dos lábios carnudos de marina sai um simplório e encantador:

- Oi

Foi o bastante para Seu Camilo desmoronar, todo o seu senso de o que era certo e o que era errado se foi como uma pluma em um vento refrescante de verão. Então se ruborizou, e ficava cada vez mais vermelho com uma raiva, ódio, cólera, de si mesmo. Emitiu um:

-Oi

Um oi ríspido e colérico oi, percebendo então o que fez tentou melhorar a entonação:

-Você deve ser Marina?

Ela então respondeu com o cenho confuso:

-Sim

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! Que sim, não era possível que a cada palavra que Marina emitiria, essa sensação de gozo contínuo iria inundar seu corpo. Mas não. Ele tinha que se conter, era um homem de 37 anos, tinha mulher, filhos, tinha uma rotina, tinha uma obrigação a seguir. Sendo extremamente profissional falou:

-Vamos marcar então os horários para as aulas?

Marina balançou a cabeça em sinal de sim. Seu Camilo ofereceu lugar na mesa, Marina sentou e cruzou suas lindas e fogosas pernas, das quais se podiam ver, pois estava com uma mini-saia, beeeem mini, poderia se dizer que era uma micro-saia.

Marina era a Scarlet Johansson brasileira, com lábios de Angelina Jolie, e coxas de Jennifer Aniston. Seu Camilo, não conseguia resistir a ela, principalmente quando ela se curvou para frente para ver os horários na agenda de Seu Camilo. Através de seu decote, transpareceu seus seios de Scarlet Johansson. Seu Camilo, quase teve uma ereção em plena conversa.

Ficou marcado então que todas as segundas, quartas e sextas Marina iria ás 15h na casa de Seu Camilo. Ela seria a única aluna por 1 semanas, Seu Camilo, pela primeira vez quebrara algo em sua rotina, ao invés de 3 iria ter apenas uma aluna, e que aluna. Em uma coincidência absurda sua esposa ficaria fora por 1 semana. 1 semana de pura tortura. 1 semana de pura sensualidade. 1 semana de virgindade – Marina era virgem, Seu Camilo sabia disso, a virgindade de Marina emanava por suas têmporas.

Seu Camilo passou o fim-de-semana inteiro pensando nela, era Marina no café, Marina no almoço, Marina na tv, Marina no chimarrão, Marina até nos livros que Seu Camilo tanto amava.

Chegou então a tão esperada Segunda-feira. Primeira aula de Marina, ela entrou sorridente com seus cadernos na mão e suas pernas mais uma vez a mostra, só que desta vez com um shortinho, mas de novo, beeeeem curtinho, do jeito que todos nós – homens – gostamos. A cada minuto que se passava era uma tortura para Seu Camilo, ele não agüentava mais aquele cruzar, e des-cruzar de pernas de Marina, tinha vontade de pular nela e não soltar nunca mais. Já Marina mostrava adorar a aula, fazia perguntas, escrevia, ria, aaaaah, como ela estava gostando de Seu Camilo. No fim da aula Marina falou:

- Muuuuuito obrigada Seu Camilo, nunca pensei que literatura fosse tão bom. É tãããão mais legal aprender contigo.

E Abraçou Seu Camilo, nas pontas dos pés, fazendo com que seu traseiro arrebitasse, e seus seios encostassem em Seu Camilo. “AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH. NÃO, NÃO, NÃO E NÃO”. Era o que Seu Camilo pensava. Ele tinha uma rotina, amava sua esposa, e seus filhos, não podia agora apaixonar-se por uma menina. Então prometeu para si mesmo que da próxima vez iria cortar Marina. Iria ser curto e groso.

Chegou quarta-feira, a aula foi como Seu Camilo queria: Quando Marina se engraçava, Seu Camilo já a cortava. Mas isso não bastou. Seu Camilo cometeu o erro de julgar Marina como uma menina inocente, e fraca, mas não, Marina era uma ninfeta safada, e persistente seu objetivo era ter Seu Camilo e não descansaria até conseguir, prometeu para si mesmo que sexta-feira iria ao clímax de seu plano.

Sexta-feira chega. Sexta-feira é um dia bonito, já diz até no nome Sexta-feira. É quando os amigos se reúnem no bar após o trabalho para conversar, falar de futebol, mulher e etc. Sexta é o dia da alforria, o dia em que todos estão felizes, por terem como próximo dia o sábado.

Para Seu Camilo. Não. Sexta-feira queria dizer mais um dia de tortura, mais um dia que iria contrariar seus malditos instintos de homem. Marina entrou na sala, com uma de suas maravilhosas “micro-saias”. Mas nela tinha uma surpresa para Seu Camilo: Ela estava sem calcinha. Sentou-se em sua classe, e cruzou as penas. PRONTO! Na primeira cruzada de pernas Seu Camilo já percebeu, ficou vermelho, muito vermelho, muito, muito, muuuito vermelho. Marina percebeu, levantou-se da classe e caminhou em direção a Seu Camilo. Que estava engolindo sua saliva como se fosse um oásis em um deserto, seu coração não batia, seu coração bombardeava, e em suas pernas um volume subia. Em sua cabeça passou sua vida inteira – o que não foi bom – pois aí ele percebeu que nunca tinha provado nenhuma outra mulher além de Dona Lúcia, e agora tinha logo Marina para provar. Era como se uma pessoa passasse a vida inteira comendo tofu, e de repente oferecem a ela um filé mignon.

Marina então percebendo que ele iria se entregar, abriu as pernas e sentou-se em seu colo. Beijou-o na boca, com um beijo, fogoso, como se uma lava incandescente invadisse uma geleira, e descongelasse todos os pólos do nosso planeta. Tirou sua camisa, e finalmente desprendeu o cinto de Seu Camilo. Seu sexo roçava no dele, ela cavalgava nele e dava nítidos gemidos, até chegar ao êxtase do momento, ao gozo. Seu Camilo gozou, gozou como nunca tinha gozado na vida. E Marina em seu orgasmo, gritou, gritou, gritou muito e começou a rir, de alegria, de triunfo. Foi para o lado. Pegou suas roupas se vestiu e foi embora. Deixando Seu Camilo ali no nada, a ruína, Marina despedaçará Seu Camilo. Ele nunca mais foi o mesmo depois de se deleitar com Marina. Agora não tinha mais rotina, levantava cada dia em uma hora, almoçava em horários diferentes, sempre dava uma desculpa para a mulher quando eles iam escolher lâmpadas, o que levou ao divórcio e a ruína de Seu Camilo. Ele nunca esqueceu Marina, e sempre, sempre, sempre, sempre imaginou o dia, em que Marina bateria em sua porta, e cairia em seus braços, para outro gozo infinito.

Continuação de Marcelo Carvalho

E ao abrir a porta por ele passou Marina, despojada e inquieta, e logo após adentrar a sala foi tirando o casaco e passando as mãos pelos cabelos para deixá-los soltos. Tinha o olhar traiçoeiro, aquele que procura e analisa tudo a sua volta. Seu olhar passou em revista as paredes, as escadas e encontrou com Seu Camilo, prostrado na sua frente, com os olhos arregalados. Ele tentava compreender porque a havia deixado entrar.

Não tiveram tempo para maiores conversas, pois logo após Marina jogar a bolsa sobre o sofá, a campainha tocou anunciando a chegada dos outros dois alunos, que completaram a turma de três. Afinal, Seu Camilo dava aula sempre para três alunos, nunca mais do que três e nunca menos que três.

Sentiu a situação minorar com a chegada dos garotos. Previu a volta da normalidade, mas não a teve. Descobriu enquanto tentava ministrar sua aula, que o pior pesadelo de um homem pode se chamar mulher. Uma mulher com corpo de menina, com o sorriso de criança e o olhar que enfeitiça. E assim era Marina, a dona do perfume que o deixava inquieto. Sem perceber sua vida deixava de ser tão igual.

As aulas eram dadas três vezes na semana e na terceira asseverou-se que não era mais o mesmo. Dia desses acordou em meio a madrugada e foi até a sala onde guardava as lâmpadas e imaginou qual cor usaria com aquela garota. Sem sono, lembrou que Marina insistia em vir de mini-saia mesmo após ter solicitado que ela não usasse roupa tão curta. Argumentou que os outros rapazes não conseguiam se concentrar na aula, mas quem não conseguia se manter concentrado era ele próprio.

Pensou em desejar a morte se Eros fosse, mas diferente deste ele não desejou a morte, passou a desejar o corpo de Marina, sua boca e seu toque. Fitando as curvas do corpo de Marina via em cada uma um segredo. Romanceava nas entranhas do seu ser encontros proibidos, esses que são despertados pela libido. A vontade de tê-la o enfraquece e atormenta, tem a certeza que quando as aulas acabarem ou quando sua esposa voltar vai ter de volta o marasmo.

O costume de acordar sempre no mesmo horário, perdeu. Agora tem acordado em meio a madrugada suando e destemperado. Observou que a menina flerta com um dos alunos e se enfureceu de inveja. Seu Camilo não tinha mais o controle de seu corpo, de sua aula e de suas vontades.

Já não era mais um homem metódico tanto que, ao chegar às aulas da segunda semana, teve medo de se deixar levar pelo desejo e perder a razão. Se a libido ordenava que a possuísse, ou tentasse possuir Marina, a razão o fazia desistir. Por isso desejou muito ser além de comedido, também pusilânime.

Tocou com a mão no bolso direito da calça e não achou as chaves que sempre estavam ali. Sempre se intrigava quando Marina demorava, ao dizer que ia ao banheiro. Ela era muito bisbilhoteira. Tomado de susto pela ausência das chaves pensou em ir atrás de sua aluna, mas decidiu esperar mais alguns minutos. Desesperado com a demora, foi até a sala e encontrou a garota com algumas lâmpadas nas mãos. Tocava, olhava e nem percebeu a presença de Seu Camilo. Os alunos já haviam ido embora. A garota estava ainda mais sensual, temeu perder os sentidos. Num golpe de reflexo fechou a porta e praticamente expulsou a menina da sala e da casa. Depois saiu a caminhar pela cidade sem destino, como nunca havia feito antes, e entrou num bordel.

Estava com o corpo quente, sentia-se tremulo e entregue aos desejos. Achou uma garota parecida com Marina e a levou para o quarto. Fez amor como há tempos não fazia. Na verdade não fez amor, fez sexo, deixou tudo o que estava preso dentro de si aflorar, vencido pelo tesão possuiu sua ninfeta sem pudores. Após o banho voltou para casa. Desejou jogar todas as lâmpadas fora, mas temia não saber o que explicar à sua esposa.

Praticamente passou a noite acordado, querendo saber se todos aqueles anos tão regrados não foram tempos perdidos. Tentava descobrir se o que fizera era certo ou errado, mas adormeceu tranquilo e em paz, consigo mesmo, afinal não tinha mantido relações carnais com sua aluna, estava livre desse pecado.

Depois daquela noite, contrariando todas expectativas, a vida de Seu Camilo mudou.

Postado por David Coimbra

As monstruosidades da cidade

28 de outubro de 2009 16

Ernst Gombrich nasceu na Áustria há cem anos, poucos meses antes de dois mil porto-alegrenses assistirem ao primeiro jogo entre Grêmio e Inter no Estádio da Baixada. Ao completar 41 anos de idade, publicou A História da Arte, e depois disso poderia morrer. Aí está uma obra-prima que justifica uma vida. Talvez seja o livro de arte mais famoso do mundo. Pelo menos é o meu preferido, eu que leio bastante sobre o assunto, o que não adianta nada — não entendo lhufas de arte. Limito-me a seguir os ensinamentos do Professor Gombrich, que escreveu o seguinte:

“Não existem razões erradas para se gostar de uma obra de arte. Existem razões erradas para não se gostar de uma obra de arte”.

Isso se tornou uma aflição para mim. Porque obriga-me a um torturante esforço para gostar de qualquer obra de arte. Afinal, se gostar, estou incontestavelmente certo. Se não, há grande chance de que isso ocorra pelo motivo errado.

O problema é que sou de fato tosco na coisa. Por exemplo: lá em casa havia três reproduções de quadros do Miró. A primeira vez que as vi, não gostei delas. Depois, tentei entendê-las, porque é aquilo: a gente só gosta do que conhece. Dediquei-me com todo o empenho a esta tarefa. Sentava-me numa poltrona da sala e ficava olhando para os quadros. Olhando. Olhando. Sabia que na certa havia algo profundo além das figuras e das cores que divisava. Mas o quê? O quê???

Os quadros permaneceram durante anos pendurados naquela parede, sem que jamais os tivesse decifrado por completo. Terminei por me enternecer com a presença deles e até por apreciá-los, mas não pelo que representavam em termos de arte, porque isso, tanso, não entendi.

O drama é que algumas obras, mesmo que invista nelas toda a minha boa vontade, não consigo gostar delas. Donde toda a simpatia que me despertou o texto do Voltaire Schilling no domingo passado, afirmando que algumas das obras de arte que enfeitam Porto Alegre na verdade não a enfeitam; enfeiam-na.

Custo a admitir, mas não gosto da maioria das instalações das bienais de Porto Alegre, principalmente das que foram deixadas pelos desvãos da cidade, um bloco vermelho num parque, uma cuia do tamanho de um caminhão à margem de uma avenida. Que fazer? Triste deficiência, essa minha.

Pessoas que entendem de arte afirmam que, no futuro, é possível que essas obras sejam consideradas belíssimas. Usam como exemplo os impressionistas, criticados em sua época, amados hoje. Um bom exemplo, mas ainda assim não aplaca as dores de minh’alma atormentada. Porque, embora adore os impressionistas, não adoro todos os impressionistas. Algumas de suas obras eu simplesmente… não gosto delas. Imagino que pelo motivo errado.

Quem entende de arte é assim. Aprecia a arte contemporânea, as abstrações, as instalações, mesmo as aparentemente tolas, que, no meu precário entender, são quase todas.

O futebol também tem os seus estetas da tática, sobretudo os técnicos. O Gre-Nal ofereceu ilustrações perfeitas a respeito. Autuori tinha uma razão teórica para tirar Douglas Costa do time: ele queria um jogador com outras características no ataque. Pouco lhe importava que Douglas fosse o melhor em campo, importava-lhe o movimento mudo das peças. Já Mário Sérgio elogiou Taison por ter marcado o lateral do Grêmio. Será que não é pouco para um atacante? Será que essa tarefa não seria mais bem exercida por um zagueiro? Decerto que sim, mas para o treinador o que interessa é o jogador cumprir a função que lhe foi designada, como um estafeta do futebol.

Como se estivesse prenhe do conceito emitido pelo Professor Gombrich, um esteta da tática considera qualquer esquema de jogo belo, apenas porque o compreende. Ou o concebe, no caso de ele ser um treinador. Mas futebol não é arte. Nem esporte é: é jogo. Que só se vence quando se emprega o talento do atacante, a iniciativa pessoal na solidão bem vigiada da intermediária, a inspiração na zona conflagrada da grande área, o drible na esquina do campo, a negaça diante do zagueiro, o improviso impossível de ser previsto pela tática, por um analista, por um técnico, por mais sábio que seja. Ou que pretenda ser.

*Texto publicado na página 50 de Zero Hora

Postado por David

Seu Camilo

27 de outubro de 2009 12

Seu Camilo era um homem metódico. Seu Camilo fazia tudo sempre igual. Acordava todos os dias à mesma hora. Seis e quinze. Nunca antes. Nunca depois. Todos os dias. Menos aos domingos, quando desabrochava da penumbra do quarto, febril de energia, pontualmente às 8h15min.

Seu Camilo comia sempre porções idênticas da mesma comida. Talvez por isso fosse magro. Seu peso mantinha-se estável nos últimos 37 anos. Quase não bebia. Um cálice de vinho do Porto após o jantar, para facilitar a digestão. Um copo de conhaque nos sábados à noite. E só.

Seu Camilo era professor de literatura. Estudou sempre na mesma escola, a escola em que agora lecionava. Nas férias, dava aulas particulares para apenas três alunos, nunca mais do que três. Depois, durante 15 dias, ia para Gramado, onde também repetia a rotina ano após ano.

Seu Camilo estava casado havia 35 anos com a mulher que fora sua única namorada. Jamais sequer beijara outra que não Dona Lúcia. Até o sexo entre eles era sistemático. Os dois filhos, um homem e uma mulher, já casados, sabiam que Seu Camilo e Dona Lúcia exerciam suas obrigações conjugais infalivelmente aos sábados. Nesse dia, eles iam para a alcova mais cedo, às 22h. Subiam juntos, de mãos dadas e, o mais importante, levavam com eles as lâmpadas coloridas. Ninguém nunca havia desvendado a utilidade das lâmpadas coloridas, mas o fato era que existiam diversas delas em casa, de diversas cores. Ficavam guardadas num grande armário da sala. Às quartas e aos sábados, logo depois do jantar, Seu Camilo e Dona Lúcia se reuniam rapidamente num canto da casa e, aos sussurros, combinavam algo. Que, depois de anos de observação, os filhos descobriram ser:

- Azul?

- Hoje preferia roxa.

- Está bem, querida. Roxa.

Então iam os dois até a sala, abriam o armário com uma chave que Seu Camilo levava no bolso direito das calças e apanhavam duas lâmpadas roxas. Subiam com elas, trancavam-se no quarto e lá permaneciam, em absoluto silêncio, até a manhã seguinte. Às 6h15min.

Tudo continuou assim, tão igual, até aparecer Marina. Naquele ano, ela era um dos três alunos que iriam tomar aulas particulares com Seu Camilo. Ele não a conhecia. Viu-a pela primeira vez no dia da primeira aula. Foi abrir a porta e, ao deparar com ela, tomou um choque. Não que ela fosse especialmente linda, mas era… sensual demais. Não precisou mais de um olhar para perceber. Seu sorriso blasé, seu olhar lânguido, seus gestos felinos, tudo dizia que ali, parada diante da porta entreaberta, estava uma mulher feita para o sexo e para enlouquecer os homens. Seu Camilo hesitou. Devia deixá-la entrar? Afinal, sua mulher não estava em casa, fora passar uns dias com a filha, em Torres, a presença daquela mulher… daquela menina… talvez não fosse adequada.

Mas Seu Camilo abriu a porta.

Marina entrou. E a vida do Seu Camilo, contra todas as expectativas, mudou.

O que aconteceu na vida do Seu Camilo???

Arrá!

Você decide!

Continue a história. Mande seu texto, curto, de preferência, para david.coimbra@zerohora.com.br e ariane.jorej@zerohora.com.br

A melhor versão, escolhida pela diretoria do blog, será publicada.

Mexa-se.

Postado por David

Café TVCOM

26 de outubro de 2009 2

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado. Confere aí:

Postado por David

O beijo da vitória

26 de outubro de 2009 32

Mauro Vieira
Encerrado o Gre-Nal vencido pelo Inter por 1 a 0, ontem à tarde, o meia D’Alessandro correu pela pista atlética do Beira-Rio, ergueu o técnico Mário Sérgio nos braços e pespegou-lhe um terno beijo no alto da testa. Era o reconhecimento do autor do único gol do jogo ao maior responsável pelo resultado. Numa partida insossa a ponto de ser enfadonha para quem não é torcedor da Dupla, Mário Sérgio fez reluzir o seu talento de estrategista e conquistou os três pontos que deixam seu time a dois pontos da liderança do Campeonato.

Verdade que foi beneficiado por um lance quase fortuito: aos dois minutos e meio, D’Alessandro dominou a bola na intermediária, a cerca de 30 metros de distância do gol, e chutou de perna esquerda. A bola voou à meia-altura, sem muita força, quicou no gramado a dois metros do goleiro Victor, que saltou atrasado. A bola roçou na luva do goleiro e, anêmica, desmaiou no canto da rede. Foi talvez a primeira falha de Victor em seus dois anos de Grêmio. E uma falha decisiva. Uma falha em Gre-Nal.

O árbitro poderia ter apitado o final da partida depois desse lance, porque nada mais aconteceu. Mas o fundamental, no caso, é saber por que nada mais aconteceu. Ou, antes, quem fez com que nada mais acontecesse.

Foi Mário Sérgio.

Conhecedor das deficiências do adversário, o treinador do Inter soube como manietá-lo. Tarefa para a qual, há que se ressaltar, contou com a preciosa colaboração do treinador do outro lado, Paulo Autuori. O ataque titular do Grêmio estava impedido de jogar por lesão e suspensão. Autuori escalou apenas um atacante, Perea. O que permitiu a Mário Sérgio sacar um zagueiro para acrescentar um jogador ao meio-campo. E, no meio-campo, o Grêmio foi próximo do trágico. Autuori incrustou no setor três volantes de futebol… rude. Um pouco mais perto da defesa, Túlio e Adilson, marcadores razoáveis que ficavam constrangidos quando recuperavam a bola. Na frente deles, o pior jogador do clássico: Fábio Rochemback.

A atuação de Rochemback merece um parágrafo exclusivo. Chegou ao Olímpico como grande reforço em meio ao campeonato, não conseguiu jogar bem uma única vez, e ontem foi nada menos do que bisonho. Rochemback passou o jogo recebendo a bola na intermediária e alçando-a para a área do Inter, com um dos seguintes resultados: na mão do goleiro, na cabeça do zagueiro ou para fora. Não conseguiu marcar, não conseguiu passar, não conseguiu chutar, não conseguiu driblar. E ainda assim foi mantido em campo o tempo inteiro!

Em vez de tirar Rochemback, Autuori, por algum motivo, subtraiu do time o melhor jogador do primeiro tempo: Douglas Costa. Em seu lugar colocou o pior jogador do segundo tempo: Herrera. Douglas Costa era o único jogador do Grêmio que tentava a vitória pessoal sobre os adversários. E tinha sucesso em cada tentativa. Herrera entrou para furar em bola, cair sozinho, errar passes e discutir com Souza. Discutiu muito bem com o Souza.

Enquanto isso, Mário Sérgio via o que estava ocorrendo em campo, e agia. O Inter, quase todo, postou-se em frente à meia-lua e deixou o Grêmio ficar com a bola. Por um motivo singelo: o Grêmio não sabia o que fazer com ela. E o jogo foi assim: os jogadores do Grêmio, com a bola nos pés, trocavam passes da intermediária de defesa até a intermediária de ataque. Bola para a esquerda, bola para o meio, bola para a direita. Depois: bola para o meio, bola para a esquerda, bola para o meio de novo, bola para a direita. E finalmente: bola outra vez para o meio, bola para a esquerda, bola virada para a direita. Se o jogo avançasse madrugada adentro, terminaria 1 a 0 para o Inter.

No primeiro tempo não houve uma só chance clara de gol. Nem mesmo o gol. No segundo, o Grêmio voltou um pouco mais agressivo, parecendo até inconformado. Aos 30 segundos, Lúcio foi ao fundo pela esquerda e cruzou para Souza, que bateu sobre o travessão. Aos 11, Souza cabeceou na pequena área, por cima. Aos 21, Souza entrou a drible na área e passou para trás, para Herrera, que encostou na bola de tornozelo e pariu algo entre um passe e um chute, um troço torto e fraco, sem direção.

O Inter, de campana, aguardava o contragolpe. Aos 22, Índio chutou na rede, pelo lado de fora. Aos 26, Bolívar empurrou Réver dentro da área, o árbitro não marcou pênalti e o Inter respondeu num contra-ataque em que Alecsandro se confundiu com a bola e, sozinho na área, permitiu a defesa de Victor.

E foi só.

Foi um Gre-Nal mais tático do que técnico, em que os destaques em campo, curiosamente, estavam no lado perdedor: Mário Fernandes e Réver. Um Gre-Nal que se decidiu na prancheta dos treinadores e no erro de um grande goleiro. Que extinguiu as possibilidades de o derrotado alcançar a classificação à Libertadores. Que deu a chance ao vencedor de seguir no Brasileirão com passo firme e, agora, talvez, seguro. No rumo do seu quarto título nacional.

*Texto publicado hoje na página 2 do Caderno de Esportes de Zero Hora

Postado por David

Qual é a sua melhor foto?

24 de outubro de 2009 9

Que foto você publicaria no seu obituário? Importante decidir o quanto antes. Aquela foto que resume quem você de fato é, colhida no tempo em que você foi mais você. Brigitte Bardot, por exemplo, decerto não pode ser considerada a senhora rugosa que hoje brada pelos direitos dos poodles. Não. Ela é a deusa loira e seminua dos anos 60, sempre será. O que não significa que o melhor de nós seja sempre o mais robusto de nós. Ninguém pensa em Sigmund Freud como o jovem imberbe de cabelos negros que andava empertigado na Viena do século 19. Nada disso. Freud é o senhor septuagenário, de veneranda barba branca, óculos sobre o nariz e charuto pendente da boca, que encara o fotógrafo com ar levemente ameaçador na primeira metade do século 20.

Uma cidade também tem o seu momento em que ela é mais ela do que em qualquer outro período de sua história. Se bem que uma cidade tem mais tempo para se transformar. Às vezes até em outra cidade. No ano 300, o imperador Constantino reconstruiu Bizâncio ao seu gosto, inclusive no nome: Constantinopla. Que, mil anos depois, virou Istambul, a cidade de dois continentes. O Barão Haussmann fez uma operação plástica na Paris do começo do século 19, assim como Pereira Passos fez no Rio no começo do 20, mas uma e outra são, mais do que tudo, cidades dos anos 60.

Porto Alegre é dos anos 40 e, se houver uma foto ideal para retratar a cidade em seu tempo de maior esplendor, será uma foto da Rua da Praia daquela década. Na Porto Alegre dos anos 40, as pessoas faziam o footing na Rua da Praia. Elas falavam assim:

– Vamos fazer o footing?

Todo mundo sabia o que era. Os homens se enfarpelavam, punham-se debaixo de seus chapéus e, ao chegar à Rua da Praia, colavam as costas nas paredes dos prédios, como num corredor polonês. Pelo centro do corredor deslizavam as alvas mocinhas da época, elas também sob chapéus, muitas vezes enluvadas, sempre de braços umas com as outras, disfarçando olhares, emitindo risinhos secos, negaceando.

No meio do caminho, moças e rapazes podiam deparar com o escritor Erico Verissimo, quiçá levando pela mão o seu filhinho Luis Fernando, que em 1940 tinha quatro anos de idade. Quem sabe divisassem o poeta Mario Quintana saindo do vetusto prédio da Livraria do Globo, preocupado com os dilemas da tradução de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Não seria impossível de ver Dyonélio Machado observando o lugar para ambientar as desventuras do seu personagem Naziazeno no romance Os Ratos. E nem parecia tão complicada a tarefa do escritor. A Rua da Praia dos anos 40 era sarapintada de bons cafés, livrarias bem fornidas e histórias coloridas. Na Rua da Praia circulavam os malandros e gozadores, como Odonne Greco, e os homens que decidiam o futuro do país, como Oswaldo Aranha. Na Rua da Praia batia o coração do Estado.

As sedes de Grêmio e Inter se localizavam na Rua da Praia, em prédios contíguos, onde hoje se ergue o mais alto edifício do Rio Grande do Sul, o Santa Cruz. As sacadas dos dois clubes quase se beijavam, eram tão próximas que alguém poderia passar de uma para outra apenas esticando a perna e levantando-a por sobre os parapeitos.

Depois dos Gre-Nais, a torcida do time vencedor ia para a calçada em frente aos dois prédios com faixas e cartazes. Muito conveniente: festejava-se a vitória e gozava-se do perdedor ao mesmo tempo. Uma vez, depois de um Gre-Nal em que o Grêmio venceu, os gremistas levaram uma eletrola para a sacada e puseram para rodar um disco com músicas zombando dos colorados. Repetiram o disco durante um dia inteiro, enlouquecendo os rivais. Outro dia, na véspera de um clássico, os dois chefes de torcida trabalhavam em suas respectivas sedes, Salim Nigri na do Grêmio, Vicente Rau na do Inter. Picavam papel, pintavam faixas, bolavam provocações. O trabalho ia adiantado dos dois lados, até que o martelo de Rau quebrou. Ele não vacilou. Foi até o outro prédio e pediu um martelo emprestado a Salim. Que acedeu, com uma condição:

– Eu vou até lá e prego o que tiver de ser pregado, porque, se eu emprestar o martelo, vocês são capazes de fazer macumba, e o Grêmio perde o clássico.

A rivalidade Gre-Nal nos anos 40 era assim: intensa, mas leve, como a Porto Alegre da época. Nos anos que se seguiram, a situação foi se transformando. Grêmio e Inter mudaram de endereço; a Rua da Praia, lentamente, deixou de ser uma rua sofisticada e foi tomada pelos camelôs, pela sujeira e pela violência. Ao mesmo tempo, a cidade tornou-se mais americana do que europeia, mais sisuda do que brejeira. Hoje, Porto Alegre e o Gre-Nal são inegavelmente menos divertidos. Agora, uma aragem grave e alga ameaçadora ronda a cidade e o seu clássico. Mas as cidades podem mudar, as histórias de rivalidades esportivas podem mudar, e talvez até mudem. Espera-se que para melhor.

*Texto publicado na página 43 de Zero Hora dominical

Postado por David Coimbra

A História dos Grenais

24 de outubro de 2009 11

ReproduçãoAí está, em primeira mão, a capa de “A História dos Grenais”, que será lançado dia 6, às 19h30, na Feira.

O livro ainda está na gráfica, só fica pronto depois do jogo de domingo. Ilustração dele, Gilmar Fraga.

Não é uma lindeza?

Postado por David

O drama de Josi

23 de outubro de 2009 3

Josi, que namora há sete anos, mas mora junto há quatro meses, está aflita com uma situação que envolve seu namorido.

Clique no player abaixo e conheça o drama de Josi!

 

Postado por David

O carrinho e O Campeão

23 de outubro de 2009 21

Não chorei quando assisti ao filme O Campeão lá no longínquo desfecho dos anos 70. Prova de macheza. Todo mundo saía do cinema com os olhos injetados, assoando o nariz, ou em pranto desbragado. Eu, não.

Mas reconheci que a história é comovente. Jon Voight é um boxeador peso-pesado que lesiona o cérebro de tanto levar jabs, uppercuts, cruzados e ganchos. Tem de abandonar os ringues no auge, e se entrega ao jogo e à bebida. Arruína-se financeiramente, a mulher, uma jovem Faye Dunaway, separa-se dele, todos o consideram um fracasso, menos o filhinho de oito anos, que o venera e o chama de Campeão.

O eixo do filme é a relação entre o pai e o filho. O curioso é que o Jon Voight de verdade, não o personagem, enfrentou problemas com a filha, que, você sabe, é ninguém menos do que a Angelina Jolie. Ela o acusava de ter abandonado a mãe (dela, claro), emburrou-se, não o procurou mais, levou seis anos para se falarem de novo. Uma vez, tentando a reconciliação, Jon decidiu elogiar a filha de Angelina durante uma cerimônia. No discurso, chamou-a de Shakira. Angelina ficou fula: o nome da menina é Zahara. Para ver como Angelina é injusta. Bota na criança um nome desses e depois a culpa é do pai, se ele se confunde.

Mas o filme. Dias atrás, deparei com uma reprise na TV. Colhi a história pelo meio e não troquei de canal. Aí chegou o momento em que Jon se envolve numa briga, é preso, e conclui que o mundo tem razão: ele, de fato, se trata de um fracasso. Resolve entregar o filho à mãe, agora casada com um nababo. O menino não aceita, chora, implora para ficar com o pai. In extremis, Jon o esbofeteia e manda-o embora. Sente-se arrasado, mas acha que fez o que devia fazer. Sacrificou-se por amor ao filho. Só que o menino não consegue ficar longe do pai, e tanto insiste, tanto clama pelo Campeão, que Faye o leva de volta para casa. Na cena do reencontro, o menino, vestido com apuro, o cabelo loiro bem penteado, carrega uma malinha que o torna a imagem do desamparo. Acha o pai parado ao pé de uma arquibancada vazia de estádio, deprimido, cabisbaixo. Então, o pai ergue a cabeça. E eles se avistam. Caminham vacilantes um para o outro. Param a metro e meio de distância. Encaram-se. Abraçam-se, enfim, e juram jamais se separar. E eu, aboletado no sofá da sala, sinto uma bola de sentimentos se formando no meu peito, e a bola escala até a garganta, e logo me embaça o olhar, e percebo que, maldição!, não vou conseguir me controlar, e as lágrimas já me despencam rosto abaixo, e eu choro sem pudor, feito uma bandeirante adolescente.

Depois de ter filhos, a gente fica suscetível a dramas infantis. Que saudade do David durão do longínquo desfecho dos anos 70.

***

Ainda sobre crianças. Sobre a cena impressiva da semana passada, em que um trem arrasta por 30 metros um carrinho de nenê, e o nenê emerge ileso dos dormentes. O carrinho deslizou pela plataforma da estação, mas a mãe não chegou a ser imprudente, teve apenas um segundo de distração para ajeitar as calças à cintura. Se houvesse travado o carrinho, ou escorado-o com o pé, ou estacionado-o lateralmente na plataforma, o caso não teria ocorrido. Um ato singelo de cautela, o pé detendo a roda, a chaleira na boca detrás do fogão, a rua não atravessada, às vezes esse breve gesto é o mais importante de uma vida. Mas ninguém o valoriza, ninguém homenageia a prudência, porque a prudência não acontece, a prudência evita de acontecer.

*Texto publicado na página 2 da Zero Hora de hoje

Postado por David

Estudantes de Jornalismo em Ação

22 de outubro de 2009 35

Tempos atrás, abri o blog para matérias de estudantes de jornalismo. Conversei com alguns, mas, confesso, por falta de tempo, não dei sequência aos trabalhos. Minha culpa, minha máxima culpa. Agora, vou tocar o projeto em frente. Abaixo, a primeira matéria de um dos estudantes. Da Morgana Gualdi Laux. Ela entrevistou um antigo jogador da Liga da Canela Preta, entidade que organizava campeonatos abertos a todas as raças, já que os negros não podiam jogar na Primeira Divisão.

A matéria da Morgana revela fatos interessantes na voz de seu entrevistado. Leiam e digam que tal.

Histórias da Liga da Canela Preta Ex-jogador, de 93 anos, conta sobre o tempo em que havia campeonatos só de branco e só de negros

Por Morgana Gualdi Laux, estudante de Jornalismo da PUCRS

Foto: Divulgação

O futebol gaúcho, no início do século 20, não aceitava a participação de negros e mulatos em clubes como o Grêmio, Inter e Cruzeiro de Porto Alegre. Incoformados, os excluídos formaram a Liga da Canela Preta – campeonato em que qualquer indivíduo podia jogar, independentemente da raça. Jayme Moreira da Silva, hoje com 93 anos, foi personagem dessa incrível história do esporte rio grandense.

A data de fundação da liga perde-se entre 1911 e 1912. Com uniformes confeccionados e botinas amaciadas pelo desgaste dos jogos praticados no campo localizado na rua Arlindo, os atletas negros faziam parte de um campeonato praticado em dois turnos, lembrando o atual sistema do Brasileirão. Alguns clubes que faziam parte: 8 de Setembro, Rio Grandense, Palmeiras e Bento Gonçalves.

- A Rua Arlindo era uma grande várzea, um gramado da própria natureza. Ali ficavam os campos da liga da Canela Preta. O 8 de Setembro treinava no local e também na Oswaldo Aranha, no Parque Farroupilha e também, de frente à Oswaldo Aranha, na Fernandes Vieira – lembra Jayme, ex-jogador da Liga.

A realização dos jogos acontecia também na Rua Arlindo, atual Praça Garibaldi, bairro Cidade Baixa. No endereço, havia três campos de futebol, sendo eles o Riograndense, o Palmeiras e o Ford (clube fundado na Rua 7 de setembro por motoristas que dirigiram os primeiros carros na capital). Para assistir aos jogos, os torcedores já pagavam ingresso:

- Tinha que pagar ingresso na época. Era baratinho. Mas, nada era de graça. – comenta o atleta.

Alguns clubes da Liga da Canela Preta também contavam com quadro de sócios:

- Podia se associar no clube. Lembro-me que no 8 de Setembro podia sim. Além disso, havia outros que eram bem organizados – lembra Jayme, que também pertenceu à diretoria do clube Oito de Setembro, organizando bailes.

A liga reunia um número de torcedores de destaque. No término do campeonato, havia desfile pelas ruas, na Praça Garibaldi, João Alfredo, e alguns pontos da Cidade Baixa até a Oswaldo Aranha. Nas cerimônias, as rainhas de cada clube se apresentavam.

No entanto, nem tudo era festa. Assim como Grêmio e Inter apresentavam rivalidade desde a origem, 8 de Setembro e Rio Grandense eram rivais acirrados.

- O pessoal da colônia chamava o pessoal do Riograndense de os mulatinhos cor-de-rosa. Eles faziam parte da família Cunha, família da Zona U ( atualmente local que contempla a parte da João Pessoa até a margem do Guaíba). A família Cunha era uma família por cima, então para abusar dizíamos que eram os mulatinhos cor-de-rosa – brinca o ex-atleta.

Os nomes feios e xingamentos por parte de jogadores eram ditos por conta da disputa fora de campo, em decorrência dos cargos ocupados por cada um:

- Brigávamos com os Cunha porque eles sempre tiveram posição no governo, por serem empregados de categoria e do tribunal de justiça. Mas em nenhum momento ocorreram brigas físicas.

Os jogadores da Liga da Canela Preta não eram remunerados com salários, apenas recebiam pequenas ajudas de dirigentes do clube ao qual pertenciam, começaram a sentir interesse pelas instituições maiores. Coincidentemente, a liga tradicional abriu a segunda divisão no ano de 1922, ocasionando oportunidades para jogadores negros e facilitando a decadência da Liga da Canela Preta.

O campeonato, então, perdeu força e os craques de maior habilidade acabaram por preencher lugares em clubes de expressão como o Internacional. Em 1928, Dirceu Alves entrou para o elenco do colorado, sendo o primeiro jogador negro. Logo após, outros conquistaram espaço. No ano de 1931, período em que Jayme atuou na liga, jogadores da Liga da Canela Preta almejavam espaço no Internacional:

- Eles tinham vontade de ir para o Inter para arrumar emprego de destaque. Alguns recebiam em salário. Um conhecido, por exemplo, jogador do Inter, na época em que eu trabalhei numa empresa, comprava roupa lá, por conta do clube. Então, já era salário, o atleta estava ganhando alguma coisa – revela Jayme.

Como os grandes clubes se abriram para os negros, sobretudo nos anos 40, a Liga da Canela Preta foi perdendo sua razão de ser. Foi se esvaindo aos poucos, até desaparecer em silêncio.

Quase um século de futebol

Jayme Moreira da Silva, ex- jogador de futebol, conciliou partidas da Liga da Canela Preta com os estudos realizados no colégio Paulo Soares. Filho de pai branco e mãe mulata, ele atuou no clube 8 de Setembro em 1930, quando apresentava apenas dezesseis anos.

O ex-jogador também pertenceu à diretoria do clube. Aos dezessete anos, organizava bailes no salão Rui Barbosa. Na época, Jayme ainda era responsável pelos convites e pela formação dos quinze pares para a festa. Os pares eram uma espécie de diretores, que ajudavam na arrecadação do dinheiro para os eventuais gastos.

Jayme também fundou um clube varzeano de verão chamado Paraná. O elenco contava até mesmo com Clarimundo, um alemão. No cenário futebolístico, o irmão de Jayme, Luiz, também se destacou pela habilidade e acabou sendo contratado pelo Internacional. Indisciplinado, não permaneceu por muito tempo no clube, pois assinou contrato com duas instituições, o que era proibido.

Desde a época de atuação na Liga da Canela Preta, o ex-jogador é torcedor gremista. Coincidentemente, ele chegou a vizinhar com o Eurico Lara:

- O Lara era um homem muito fechado. Eu me relacionava mais com os filhos dele, do que com ele. Mas para entrar nos jogos do Grêmio eu tinha que falar com ele. E ele dizia: “fica no portão que eu vou chegar tal hora, ai tu entra junto comigo”.

Jayme também esclarece a lenda sobre a participação de brancos no antigo campeonato:

- A maioria da Liga da Canela Preta era negro. No entanto, também jogava brancos.

Para o ex-atleta, algumas personalidades do futebol brasileiro conquistariam espaço no cenário futebolístico de 1930:

- Um jogador que brilharia na Liga da Canela Preta seria o Jonas do Grêmio. Do futebol mundial eu admiro o Ronaldinho Gaúcho, mas o principal foi o Pelé. É muito futebol, até enjoa, muita habilidade. Todos os dias têm futebol – brinca Jayme.

Prestes a completar 94 anos no dia 4 de novembro, Jayme Moreira da Silva reconhece as limitações que apresentava quando jovem, no entanto nunca esqueceu da preferência ao clube do coração:

- Eu daria preferência para o Grêmio se pudesse jogar na primeira divisão, mas não tinha condições.

Hoje, Jayme mora em uma residência no bairro Mont Serrat, acompanhado das filhas. Entretanto, o que resta a ele são apenas saudades dos tempos da Liga da Canela Preta:

- A minha saudades é muito grande, eu choro muito. Se ainda tivesse alguém para conversar, no entanto a maioria dos jogadores já morreu – menciona o ex-atleta, ex-diretor de clube e também ex-bancário.

E aí, o que achou da matéria da Morgana?

Postado por David