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Posts de novembro 2009

O que vai acontecer domingo, no Maracanã

30 de novembro de 2009 221

Divulgação

É mais do que ingenuidade, é estultice pretender que o Grêmio escale titulares e cometa desatinos para ganhar ou empatar o jogo com o Flamengo, no domingo. Pior: isso seria ruim até para o Inter, sobretudo se o Inter se sagrasse campeão.

Seria a negação de tudo o que representa o futebol gaúcho.

O prócer gremista Rudy Armin Petry, homem íntegro e inteligente, um dia disse:

— O Grêmio é grande devido à grandeza do Inter.

Verdade. E a premissa contrária também é verdadeira: o Inter é grande devido à grandeza do Grêmio.

Mas isso só acontece porque existe a rivalidade entre os dois clubes. Um inveja a grandeza do outro, mira-se nela e tenta superá-la. Porque eles vivem para essa dualidade, porque as torcidas se provocam e se açulam eternamente, porque um existe para ser melhor do que o outro. No momento em que um ajudar o outro dentro de campo, se extinguirá a essência da dupla Gre-Nal.

Afinal, isso é o futebol. O futebol não é um esporte, em que o atleta luta contra si mesmo, tenta superar os seus próprios limites com movimentos repetidos, com treino, dedicação e concentração. Não. O futebol é um jogo, com todas as nuances e negaças de um jogo, onde entram a força, a velocidade e a habilidade, sim, mas também a inteligência, a perspicácia, a malícia.

No futebol, o torcedor de um time anseia pela derrota do rival, mesmo que seja para outros times. Não há nada de mal nisso. Não significa que um queira o mal do outro, não significa a destruição do outro. O gremista querer que o Inter perca, o colorado querer que o Grêmio perca, é diferente de o gremista desejar o mal ao colorado, o colorado desejar o mal ao gremista. Gremistas e colorados convivem todos os dias no Rio Grande do Sul, são colegas de trabalho, amigos, alguns até estão casados. Não é errado um torcer pelo insucesso do outro. Porque o futebol é um jogo, não é a vida.

O futebol não passa de uma brincadeira. E é bom que assim seja.

Pretender eliminar essa rivalidade em nome de uma demagógica integridade de uma competição é eliminar a lógica do futebol.

É acabar com sua razão de ser.

É óbvio que o Grêmio não vai pisar no campo do Maracanã programado para perder. Nenhum jogador vai marcar gol contra de propósito, o goleiro não deixará de tentar a defesa, o atacante, se tiver oportunidade, fará o gol a favor. O Flamengo que não se desconcentre, se quiser ser campeão.

Mas também é óbvio que nenhum jogador do Grêmio arriscará a tíbia numa dividida temerária, nem correrá mais do que correria numa partida de meados do campeonato. O Grêmio de domingo não jogará de mão no bolso, mas também não jogará de dentes rilhados. Jogará um amistoso contra um time que jogará uma final de campeonato.

E tem de ser assim.

Pela honra da rivalidade.

Pela honra da Dupla Gre-Nal.

Em nome do espírito do futebol.

Postado por David

Café TVCOM

30 de novembro de 2009 3

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

Confere aí:

Postado por David

Cuidado com o Calvo Adúltero

28 de novembro de 2009 14

Fraga
Depois de oito anos de exitosa guerra contra os gauleses, Júlio César decidiu retornar a Roma. Pôs-se em marcha com seus legionários, que cantavam, rútilos de orgulhoso:

Maridos, escondam suas mulheres: aí vem o Calvo Adúltero!

O Calvo Adúltero! Chamavam-no assim porque Júlio César era careca. E porque adorava assediar uma casada. Há homens com esse vício, acredite. Eu mesmo conheço um que é especialista em mulheres casadas. Ele sempre as aborda da mesma forma. É infalível. Ele chega e… Mas estou tergiversando. Além disso, muitas esposas jovens e incautas, belas e frescas, esposinhas inocentes, enfim, poderiam ser facilmente seduzidas, se divulgasse aqui a fórmula do meu amigo. Abalaria matrimônios, dissolveria famílias, seria horrível. Melhor calar. Melhor voltar à senda reta do Calvo Adúltero.

Então: não era só por casadas que Júlio César tinha preferência. Aliás, ele não tinha exatamente preferências. Nem preconceitos. Diziam que JC era “marido de todas as mulheres e mulher de todos os homens“. Se bem que esses boatos podiam ser apenas aleivosias lançadas pelos senadores. Não duvido. Muitos senadores odiavam Júlio César. Espalhavam, por exemplo, que ele era a mulherzinha do rei da Bitínia, uma província romana que ficava mais ou menos onde hoje é a Turquia. Não sei… Ainda que o rei da Bitínia fosse bonitão, não me parece que este fosse o perfil do conquistador Júlio César.

De qualquer maneira, o fato é que Júlio César gostava da coisa. Era um pândego. Os pândegos são pessoas mais tolerantes, acredite. São pessoas melhores. O próprio JC cultivava o hábito de perdoar seus mais acérrimos inimigos, algo incomum naqueles tempos de galés e crucificações. E que terminou não lhe sendo exatamente saudável: foram seus inimigos outrora perdoados que o assassinaram nos idos de março de 44 a.C. com 23 facadas traiçoeiras nas escadarias do Senado.

Maldito Senado.

Gosto de Júlio César como personagem histórico exatamente por esse seu traço de humanidade. Plutarco foi muito feliz ao relacioná-lo com Alexandre em seu “Vidas Comparadas”. Alexandre também era um ser humano complexo, às vezes contraditório, um apaixonado pela vida e pelas pessoas. Contava-se de Alexandre que ele “jamais rejeitava o amor”, e isso diz muito acerca do caráter de um homem.

Eram, Alexandre e César, homens que choravam e riam, se apaixonavam e sabiam-se objeto de paixão, ambos erravam e voltavam atrás ao constatar o erro, ou teimavam e seguiam em frente. Ou seja: homens.

Mas também heróis.

Por isso, concordei com Eric Cantona quando ele destacou Maradona como um personagem mais interessante do que Pelé, em entrevista publicada por ZH, sexta passada. Maradona é mesmo mais desregrado, mais engraçado, mais apaixonado e mais apaixonante. Mais humano, afinal. Pelé jogou mais, ganhou mais, fez mais gols. Foi melhor do que Maradona. Mas Maradona é muito mais divertido.

Postado por David Coimbra

Odeio o lúdico

27 de novembro de 2009 55

Garanto que o Lula nunca falou lúdico. Ponto a favor do Lula. Se tem palavra desprezível, é lúdico. Porque ela é o oposto do que significa. Quando alguém diz lúdico, e esse alguém em geral são os caras de teatro ou os que escrevem nos suplementos de cultura, eles, quando dizem lúdico, nunca estão sendo engraçados ou divertidos, nem estão fazendo uma brincadeira. Estão sendo afetados. Lúdico é uma palavra afetada. Palavrinha que se acha.

Lúdico não é como manemolente, que soa exatamente como seu sentido. Manemolente é mole, é a própria pachorra. Aliás, a pachorra é bem pachorrenta. Se você diz pachorra, você sente pachorra. Você não se confunde nem com a semelhança de vocábulos. Nenhum funkeiro ia cantar:

— Só as pachorras! As preparadas!

É importante que as palavras pareçam com o que querem dizer. Tanto que, apesar das 228.500 unidades léxicas à disposição na língua portuguesa, as pessoas volta e meia criam novas palavras mais adequadas, mais sonoras, menos esnobes, que melhor representam o que o falante pretende expressar. As palavras podem nem constar no Houaiss, mas todo mundo entende se alguém diz:

— Que ingresilha! Desta vez o Wianey extradulou. Ficou todo algariado quando deu um xiribitz no computador dele, mandou uma bangornada na tela e estrunchou a máquina todinha.

O Lula se expressaria assim. E todos os brasileiros compreenderiam. É o trunfo dele. Seu discurso é genuíno, e não vai aí nenhum trocadilho com aliados polêmicos.

Agora: não concordo com quem diz ser o Lula um gênio da comunicação. Ouço isso desde seus tempos de presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Descreviam-no como um orador envolvente, um carismático de olhos brilhantes que falava diretamente ao coração do povo, munido da linguagem do povo.

Será que era mesmo?
Decidi prestar atenção.

Tive várias chances de constatar este suposto poder de Lula. Venho participando de entrevistas com ele desde 1989, quando da primeira eleição direta para presidente depois da Redentora, observando-o a dois metros de distância, procurando em seu olho a tal luz que hipnotiza as massas. Além disso, cada vez que Lula se põe a discursar, apuro os tímpanos. O que identifiquei de tão especial?

Nada.

As imagens que Lula emprega são rasteiras, o raciocínio que o embala é óbvio. Como explicar seu sucesso? Também por isso. Oscar Wilde dizia que, para ser popular, é indispensável ser medíocre. E é. Mas a popularidade de Lula não advém só de sua mediocridade; advém da sua autenticidade. Ele fala o que lhe vem à cabeça, como lhe vem à cabeça. Assim, jamais falaria lúdico. Lúdico é sempre premeditado, ninguém pensa em lúdico sem um naco de reflexão.

Só que o discurso de Lula é autêntico e impensado apenas na forma. No conteúdo é repisado, planejado e, não raro, dissimulado, porque as ações de Lula são assim. São pensadas. São produto de cálculo.

Por saber disso, fico a questionar: por que Lula se aliou tão amorosamente a Ahmadinejad? Por que ridicularizou os protestos pela democracia no Irã? Por que se esforça para legitimar um governo considerado espúrio em todo o Ocidente? Há algo de suspeito por trás disso. Algo que, suponho, não tenha nada de lúdico.

*Publicado na página 2 de Zero Hora de hoje

Postado por David

A imoralidade da fórmula

25 de novembro de 2009 76

Minha candente desaprovação à fórmula de pontos corridos no Brasileiro não tem a ver com a emoção na competição — qualquer campeonato de futebol, com qualquer fórmula, acaba sendo emocionante. Tenho ojeriza a essa fórmula precisamente pelo motivo alegado para implantá-la: diziam que era justa; é profundamente injusta e desigual. Pior: é imoral.

A prova provada são os jogos que decidirão o precário campeonato deste ano:

São Paulo x Sport
Inter x Santo André
Flamengo x Grêmio

Sport e Santo André já rebaixados e Grêmio cristalizado no meio da tabela. Onde fica a igualdade desses confrontos? São Paulo, Inter e Flamengo enfrentam a pressão de uma decisão contra adversários que jogarão bocejando. Pode ser bom para o adversário, que não tem razão para nervosismo. Mas também existe a possibilidade de o adversário, por estar bocejando, distrair-se, levar gol e pouco se importar em virar o resultado.

Melhor seria uma fórmula mista, com pontos corridos e uma final com três jogos entre os dois melhores colocados, mas, se tivesse que escolher entre o sistema atual e o antigo, ficaria com o antigo, que exigia do campeão a prova definitiva de ter que passar por uma decisão, com todas as suas solicitações emocionais. Era mais lógico. E mais justo.

Postado por David

Velhas noites de sexta

25 de novembro de 2009 17

Havia um bar bem ao lado do Teatro Presidente, teatro que, aliás, também havia, não há mais, foi-se o teatro, foi-se o bar, muito se foi naquela região da cidade. Edelweiss chamava-se o bar, nome de uma flor e de uma música da Noviça Rebelde.

Bem.

Todas as sextas-feiras íamos ao Edelweiss. Não precisava marcar, era certo: sexta, a partir da última esquina das 11, Edelweiss. O pedido não variava: uma pizza à xadrez que o dono do bar, o Tio Beto, fazia na manteiga, ficava crocante e macia, e não grudava no fundo da forma, uma delícia. E cerveja, claro. Lembro que um dia cheguei por volta da meia-noite, cansado, sedento, precisando tirar a poeira da garganta, como diria o Tex Willer, e o Tio Beto fez aterrissar aquela garrafa branquinha de tão gelada na minha frente, declarando:

— Esta é melhor maneira de dizer boa noite a um amigo.

Lágrimas de emoção subiram-me aos olhos.

O Chico Trago levava o violão para o Edelweiss e cantávamos madrugada adentro. Mão, violão, canção, estrada e viola enluaradaaaaa…

O pessoal do Taranatiriça também ia tocar lá, e às vezes juntávamos as mesas.

Na hora de ir embora, abríamos a porta da rua e, Cristo!, a luz do sol nos cegava por instantes. Como a luz do sol é deprimente no fim da festa.

De qualquer maneira, era um belo bar, o Edelweiss, desses que não há mais na cidade.

Uma noite, cheguei antes da turma, sentei-me, eu com minha cerveja, e vi três moças que ainda não conhecia, na mesa ali adiante. Estavam entretidas numa conversa audível, não tive como não prestar atenção. Mas não lembro de nenhum dos assuntos que tratavam, lembro apenas de uma única frase dita pela mais magrinha, a mais sequinha, a mais murchinha, quando a mais exuberante delas levantou-se para ir ao banheiro. Tratava-se, a exuberante, de uma morena magra, porém curvilínea, de cabelo reluzente e olhos d’água. Deslizou cheia de graça para o extremo sul do bar, enquanto as duas amigas a observavam. Aí a tal magrinha, a sequinha, a murchinha falou para a outra, num suspiro:

— Queria saber como é ser bonita como ela…

Foi como se me tivessem sacudido na cadeira. A singeleza triste da observação me enterneceu. Ela dizia, a murchinha, que queria saber como é ser bonita. Ou seja: sabia que não era. Que nunca seria. Mas desejava experimentar a sensação de ser. Sua vida de feia de nascença decerto ensinara-lhe que, ao contrário do que a literatura e o cinema pregam com tanta generosidade, a beleza faz, sim, diferença. Mais: que alguns simplesmente vêm ao mundo privilegiados. São mais belos, mais inteligentes, mais ricos, têm mais sorte, e isso não significa que sejam menos bondosos, menos decentes, menos dignos.

O que a murchinha certamente sabia é que o mundo não é justo. Às vezes é até cruel. Cabe ao ser humano atenuar essas injustiças, corrigir as distorções da Natureza e dar mais a quem tem menos. Se a vida é torta, o homem tem de lutar pela retidão. Portanto, nada deste injusto e desigual campeonato de pontos corridos. Em nome da justiça e da suspirante murchinha do Edelweiss, que o campeonato volte a ter uma final.

Postado por David

Apaixonada pelo namorado do pai

24 de novembro de 2009 11

Com um namorado antigo, a nutricionista Isabellah aprendeu uma lição: “Cada pessoa tem direito a amar alguém e a ter outro alguém ao mesmo tempo”. Agora, solteira, vive um caso muito complicado: ficou com o namorado do pai dela!!! Depois de se deliciarem em Angra dos Reis, o sujeito quer que os dois fujam juntos. O que ela deve fazer???

Para ouvir as dicas para a Isabellaaaaaaah, tem que clicar no play!

 

Postado por David

Café TVCOM

23 de novembro de 2009 1

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

Confere aí:

Postado por David

Como manter a cabeça sobre os ombros

21 de novembro de 2009 11

O Palácio de Versalhes tem 700 quartos e nenhum banheiro, o que mostra o apreço dos franceses pelo sono e o seu desapego à higiene pessoal. Passei um dia andando por aquelas vastidões e não vi tudo. Não vi a metade. Talvez não tenha visto nem um quinto do que deveria ver.

Vi a Galeria dos Espelhos, onde foi assinado o tratado de paz que encerrou a I Guerra Mundial e deu motivos para começar a II. E caminhei por aqueles compridos e gelados corredores imaginando em qual deles Luís XV foi esfaqueado por um serviçal chamado Damiens em meados do século 18. Damiens atingiu o rei no flanco, feriu-o de leve. Mas a pena a que a Justiça francesa o submeteu não foi leve. Os carrascos derramaram chumbo derretido em suas entranhas abertas e, depois, ele teve os membros amarrados a quatro cavalos, que os puxaram cada um para um lado. Para facilitar o esquartejamento e diminuir o trabalho dos cavalos, os verdugos cortaram-lhe as axilas e as virilhas.

Essa a França dos iluministas, dos enciclopedistas, de Voltaire. Da Razão. Mas era também a França da realeza sagrada. Donde a necessidade de aplicar uma punição exemplar a um regicida, ainda que fosse um regicida frustrado.

O sucessor de Luís XV, seu neto Luís XVI, tinha, igualmente, a noção do caráter sacro e intocável da monarquia, e igualmente vivia em meio à suntuosidade de Versalhes. Mas, ao contrário dos outros Luíses, não conseguia se fazer respeitar pela fidalguia que o cercava. Luís XVI era gordo, míope e sofria de fimose. Esse problema impedia que ele consumasse o casamento com Maria Antonieta. Um desperdício. Maria Antonieta era austríaca, loira, formosa e ardente. À noite, Luís esgueirava-se até os aposentos dela por túneis secretos, acolchoados e perenemente iluminados. Agia assim para que os mexeriqueiros do palácio não ficassem contando quantas vezes ele tentava possuir a rainha. Precaução inútil. Na manhã seguinte, até os diplomatas estrangeiros sabiam que tipo de marcas haviam sido deixadas nos lençóis reais. O embaixador espanhol chegou a escrever em um relatório para Madri:

“São encontrados nos lençóis dos príncipes manchas que revelam que o ato ocorreu, mas muitos atribuem a expulsões externas do delfim, que não teria conseguido concluir a penetração não por problemas de temperamento, mas devido a uma pequena dor em lugar delicado, que se acentua quando ele insiste”.

Um dia, na presença de príncipes e fidalgos, Maria Antonieta reclamou em voz alta:

– O senhor é meu homem. Quando será meu marido?

Hoje as mulheres talvez invertessem as frases, mas Maria Antonieta referia-se especificamente à consumpção do matrimônio.

Luís levou sete anos de humilhações até conseguir satisfazer sua fogosa austríaca. Nesse meio tempo, há suspeitas de que ela tenha se consolado com um oficial sueco espadaúdo, o que transformaria o triste Luís em corno manso, porque o rei sabia de tudo o que ocorria no seu entorno. O chamado “Gabinete Negro”, uma espécie de serviço de inteligência palaciana, o informava de qualquer movimentação em Versalhes. As cartas dos embaixadores, inclusive, eram copiadas pelos espiões e enviadas a Luís. Ele leu, por exemplo, o que o embaixador da Áustria escreveu a seu respeito numa correspondência para o irmão de Maria Antonieta, o imperador José:

“A natureza parece ter-lhe recusado tudo. O príncipe, em sua atitude e em suas palavras, anuncia uma inteligência muito limitada, uma enorme falta de graça e nenhuma sensibilidade”.

Também ficou ciente da opinião do embaixador de Nápoles:

“Ele parece ter sido criado no mato”.

Esses e outros relatos desairosos dos contemporâneos de Luís XVI sobre o rei você poderá encontrar no saboroso livro que Max Gallo escreveu sobre a Revolução Francesa, lançado recentemente pela L&PM. Trata-se de um livro alentado, mas de estilo tão escorreito que você o lerá, glub, glub, em dois goles.

Segundo Max Gallo, Luís XVI tomava conhecimento do que os outros achavam dele e se deprimia. Teria sido melhor que fizesse como Mário Sérgio, Abel e outros técnicos, que dizem que não leem jornal para não saber o que os jornalistas pensam deles. Porque, envenenado pela rude opinião alheia, Luís XVI acabou se tornando paranoico, afastou-se das pessoas, inclusive dos seus bons conselheiros e ministros mais competentes. Isolado, Luís acreditou que o tal caráter sagrado da realeza seria suficiente para resolver todos os graves problemas da França. Não era. A crise francesa se acentuou, gerou a Revolução e Luís XVI e sua bela rainha perderam as reais cabeças na guilhotina.

Portanto, treinadores do Brasil, lembrem-se do velho rei Luís XVI: não tenham mania de perseguição, ouçam os bons conselhos. E, assim, preservem suas cabeças acima do pescoço.

 

*Publicado em Zero Hora dominical

Postado por David

O louco ao lado

20 de novembro de 2009 23

Na primeira vez em que trabalhei na Zero Hora, havia por aqui um velho jornalista, um subeditor, que, vou contar, ele era um tipo intrigante. Homiziava-se em certo escaninho da Editoria de Economia, ou talvez fosse nas entranhas úmidas da Geral, não sei, vai ver ajudava a montar algum caderno escuso, alguma seção sombria, devia ser responsável por uma esquina de página de leitura rarefeita. Jamais escreveu no jornal, e jamais ouvi o som de sua voz. Andava com seu passo cansado pela ala oeste da Redação, escorria pastoso por entre as mesas, e suspirava.

Lembro que suspirava muito.

Nem notei quando saiu do jornal. Pediu demissão, ou foi demitido, duvido que alguém saiba o que aconteceu. Despercebida e lentamente, esgueirou-se para fora da Redação, ele que havia sido sempre lento e despercebido.

Sumiu, enfim.

Fui saber do seu paradeiro muitos anos depois: emigrou para outro emprego, uma assessoria qualquer, e foi na assessoria que se deu: uma tarde, sem motivo aparente, ele saltou da cadeira que ocupava, emitiu um grito primevo, quebrou tudo o que havia na sala e foi embora, no rumo definitivo do esquecimento.

Houve quem dissesse dele: enlouqueceu. É o que se diz de gente como a enfermeira que administrava sedativos aos nenês do berçário de Canoas ou o major-psiquiatra que dizimou à bala metade do seu pelotão nos Estados Unidos. Não é verdade. Eles não ficaram loucos. Sempre foram. Mas o restante da humanidade só viu isso depois que passaram por surtos.

Certo. Agora me diga: e se os surtos não tivessem ocorrido? Eles continuariam sendo loucos, continuariam contaminando seus semelhantes com seus desajustes ad eternum. Só que um subeditor perturbado pode, no máximo, tecer um intertítulo quebrado ou uma legenda ilógica, pode chatear o colega ao lado ou a esposa, se tiver uma. Mas o major-psiquiatra, antes de cometer os assassinatos, que gênero de conselhos dava a quem o procurava suplicando por ajuda? Quantas vidas não arruinou com sua mente doentia? E a enfermeira da maternidade? Que tratamento dispensava aos nenês que tinha sob seus cuidados?

Os ataques que tiveram os denunciaram. Seria tão fácil se todos os atormentados, paranoicos, esquizofrênicos e neurastênicos que nos cercam fossem acometidos por surtos. Porque eles estão aí, por toda parte, e ninguém pode fazer nada a respeito, apenas porque a loucura deles não explode em público. O seu chefe. Será que ele é bem certo? Será que não sente prazer em oprimir os subordinados? Em jogar com a vida deles? O porteiro mal-humorado, o motorista do ônibus escolar do seu filho, o seu vizinho irritante. Você garante pela sanidade mental deles? Pior: e os eleitos pelo voto? O governador, o prefeito, o presidente, quem pode assegurar que não sejam malucos?

Há muita gente doente influenciando o seu destino, acredite. Olhe para o lado. Preste atenção. Cuidado com eles.

*Publicado na página 2 de Zero Hora de hoje

Postado por David

Do caderno do Fraga

19 de novembro de 2009 1

Vejam, leitorinhos, os esboços que o Fraga fez para ilustrar as aventuras de Jô, e embeveçam-se.

 

Postado por David

É duro ter que aprender o Nica

18 de novembro de 2009 30

Agora, aqui na Zero Hora, a gente tem que aprender um programa chamado Nica. Programa, que digo, é de computador. Ou pelo menos acho que aquilo se chama programa. De computador. Já aprendi muitos desses programas ou coisa que o valha. Por algum motivo, os jornais estão sempre mudando de programa. Evoluindo, suponho. Programa, programa, programa. Será que é mesmo programa?

Mas o Nica esse. Tenho que aprender a manejá-lo. Isso me irrita um pouco. Porque já aprendi tantos programas. Uma vez li um livro sobre Basic e Cobol. São programas também, Basic e Cobol. Acho. O livro era um livro bem grande. Umas 400 páginas. Li tudo, por Deus. Diziam-me que era importantíssimo saber sobre Basic e Cobol, que o futuro das pessoas dependia disso. Então li. Sabe o que aprendi sobre Basic e Cobol lendo todas aquelas 400 páginas por dias inteiros? Vou dizer agora exatamente o que aprendi: nem uma única lhufa, foi isso que aprendi. Abria uma página do livro de Basic e Cobol e ia consumindo as letras melancolicamente, as palavras iam se formando, iam se tornando frases, mas o sentido das frases a minha mente dispersiva deixava que se evolasse pelo ar do quarto, não se passou um parágrafo daquelas 400 páginas frementes de Basic e Cobol sem que eu me distraísse e me pusesse a pensar, sei lá, nas três vizinhas da frente, Débora, Lisi e Kelly, que adejavam por detrás da grande janela do apartamento delas, uma vestindo um shortinho de verão, a outra de minissaia, a terceira em um vestidinho diáfano. Débora, Lisi e Kelly. Elas lá, eu aqui. Elas frescas e tenras, eu tendo que ler sobre Basic e Cobol por causa do futuro. O futuro, o futuro, dane-se o futuro, eu pensava, que me banhe o presente com as três irmãs ali tão próximas, que eu atire longe esse cartapácio incompreensível de Basic e Cobol e pule sobre Débora com suas vogais explosivas, e lhe lamba as pernas de alabastro, e lhe mordisque os seios de marfim!

Mas não fiz nada disso. Fiquei lá, com meu livro de Basic e Cobol. Dias desperdiçados. Como desperdiçados foram os dias que consumi aprendendo sobre todos os programas utilizados por todos os jornais nos quais trabalhei.

Basic e Cobol. Nica. Este tempo todo em que me debrucei sobre programas de computador, poderia usufruí-lo lendo os clássicos. Há tantos clássicos que ainda não li. Filmes que ainda não vi. Quantas horas, dias, meses da minha vida investi em programas de computador? Mas não só programas de computador. Já passei tempo tirando carteira de identidade e perfilando-me em fila de banco. E dia desses fui a uma loja de telefone celular. Você já foi a uma loja de telefone celular? Vá. É uma experiência transcendental. Porque o tempo para, numa loja de telefone celular, e você deixa de existir. Você só fica lá sentado, esperando, esperando, transformando-se, aos poucos, em nada. É um exercício de humildade, tentar ser atendido em uma loja de telefone celular. Eu mesmo saí daquela loja sem que ninguém falasse comigo, saí com meu velho celular e com meus velhos problemas celulares, mas com um sentimento renovado de que somos realmente insignificantes, nós seres humanos, diante da grandeza do universo, da onipotência do Senhor e do poder da loja de telefone celular.

Aquele tempo em que fiquei lá dentro, daquela loja de telefone celular, somou-se ao tempo que dediquei ao aprendizado dos programas de computador Basic, Cobol, vários outros e agora o Nica, às filas todas em que entrei, aos pastosos minutos em que estive sentado em cadeiras de salas de espera e às horas que despendi assistindo aos amistosos da Seleção Brasileira. Quanto tempo perdido, meu Deus!

Desse jeito, nunca vou conseguir ler todos os clássicos.

*Texto publicado na página 51 de Zero Hora.

Postado por David

Café TVCOM

16 de novembro de 2009 7

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

Confere aí:

Postado por David

A cara do Grêmio

16 de novembro de 2009 75

Maxi López tem a cara do Grêmio/Vipcomm, Divulgação
Eis aí a cara do Grêmio. Um campeonato inteiro discutindo-se se ela existia ou não, e ela se põe à mostra na última curva da competição.

Jogando num estádio que lhe é tradicionalmente inóspito, contra o adversário mais encanzinado com que já deparou em sua história, começando a partida sem cinco titulares e terminando com dois expulsos, o Grêmio conseguiu empatar com o Cruzeiro aos 46 minutos do segundo tempo.

Não por acaso, depois que seu racional, bem educado e frio técnico Paulo Autuori se despediu. Quer dizer que o Grêmio é irracional, mal-educado e quente? Não. Marcelo Rospide é igualmente racional, é igualmente bem educado. Não é frio.

O Grêmio não é frio.

Não pode ser.

Nunca foi.

Também não por acaso, o destaque da partida, o autor da jogada do gol de Herrera, foi o argentino Maxi López. Um jogador de boa técnica, sim; um finalizador, sim; a melhor contratação do ano, certamente; mas, sobretudo, um jogador de temperamento quente. Um jogador indômito, que não desiste nunca.

*Publicado na página 2 do Caderno de Esportes de Zero Hora

Postado por David

O feijão mexido es-pe-ta-cu-lar

14 de novembro de 2009 13

Alguém algum dia descobriu um feijão mexido es-pe-ta-cu-lar num bar ali na Floresta. Delicioso feijão mexido, sim, mas o importante nem era isso. O importante é que era barato. Formávamos uma turma de duros. Um ganhava um salário mínimo, o outro um e meio, o terceiro dois. E deu. No máximo, dois.

Aquele feijão mexido era o seguinte: custava em dinheiro de hoje uns três reais. Três reais, cara! Então, quando tudo parecia perdido e a fome estrangulava nossos estomaguinhos, íamos passear na Floresta. O feijão mexido aterrissava fumegante na mesa, bem temperado com nacos de linguicinhas de porco da espessura de um minguinho, e aí a gente espargia um fio de azeite de oliva em cima e salpicava de molho de pimenta, ah…

Mas o melhor de tudo era o ovo. Preciso muito falar sobre aquele ovo. Um ovo assim:

O ovo perfeito.

Frito, evidentemente. Mas não qualquer ovo frito. O ovo frito perfeito.

Acho engraçado quando as pessoas se referem a alguém que não sabe cozinhar como alguém que não sabe sequer fritar um ovo. Fritar um ovo não é para amadores. Em primeiro lugar, há que se desenvolver a ciência de quebrar a casca do ovo sem lesionar a gema. Faz-se necessário um golpe seco, determinado, mas nunca violento. A casca deve se romper em definitivo, sem rachaduras, mas a membrana da gema, essa película tão meiga, não pode ser atingida. Tente fazer isso em casa, e verá como é difícil.

Antes, porém, de a casca ser fraturada, o óleo ou a manteiga devem estar fervendo na frigideira. Eis outra sutileza de ourives: o óleo tem de estar fervendo, sim, mas não queimando. Preste atenção: não pode queimar!

O passo seguinte é deitar languidamente o ovo na frigideira quente, com a gema para cima. Mais uma vez, o cozinheiro há de ser duro sem perder a ternura. O ovo despido da casca, fragilizado, exposto, ele e sua instável clara, ele e sua suscetível gema, esse ovo deve ser tratado como uma mulher que o amante já beijou na boca, já acariciou-lhe todo o corpo tenro, já ergueu-a nos braços e a conduziu, feito uma noiva, em direção ao leito do amor. Essa mulher e esse ovo esperam ser estendidos docemente em seu destino, ela sobre os lençóis macios, ele sobre o chão cálido da frigideira, e, se este gesto for feito com desenvoltura, ambos se abrirão para o seu dono, para o seu conquistador, para o seu cozinheiro, a mulher ainda arfante na expectativa do pecado, a gema ainda intacta à espera do calor da fritura.

Encerrado o trabalho?

Nada disso!

O tempo de fritura exige precisão de física nuclear. Porque a gema, necessita-se dela mole como a defesa do Inter, e a clara sólida, mas não seca. As bordas, por outro lado… ah, eis a arte!, as bordas hão de ficar crocantes e douradas, só que nunca, nunca!, torradas.

Por fim, que haja critério com a pitada de sal. Sal em demasia pode arruinar um ovo frito. Tenha comedimento, tenha parcimônia. Mas não ouse economizar, ou o ovo restará insosso como uma segunda-feira na rodoviária de Araranguá.

Aquele ovo frito que reinava sobre o cômoro de feijão mexido no restaurante da Floresta era um ovo perfeito, e mais do que isso: um ovo infalivelmente perfeito. Sempre saía como tinha de sair, com suas bordas douradas, sua clara sólida, sua gema mole, com o sal na medida exata. Como o cozinheiro sempre conseguia? Como é que ele jamais errava? Nem um único ovo frito que saía de sua cozinha falhava. Como isso? Um mistério.

Bem.

Um dia, conhecemos o cozinheiro. Por algum motivo, ele saiu da cozinha e o garçom o apontou para nós:

– É ele!

Não resistimos. Chamamos o homem. Era um sujeito de altura mediana, careca, meio gordinho, de passo lento e olhar enfarado. Aproximou-se relutante, vestido com avental branco e tênis Motoca. Perguntei, ansioso:

– Por favor, me diz: como é que se faz aquele ovo frito perfeito? Como???

Ele atirou um sorriso desanimado na toalha da mesa e deu uma resposta que foi uma resposta de um Adriano Imperador, de um Fred, de um Gordo Ronaldo, de um Nilmar, de um desses centroavantes que, como autênticos centroavantes, estão decidindo o campeonato com sua presença ou com sua ausência. Disse assim:

– Eu sei fazer.

E girou dentro daqueles tênis Motoca. E arrastou seu desalento de volta para o recôndito da cozinha.

*Texto publicado na página 43 de Zero Hora dominical.

Postado por David Coimbra