Em São Paulo, o jornal Fanfulha, dirigido para os imigrantes italianos, trazia notícias sobre o futebol desde 1910. Não pequenas notas, como as registradas em outros jornais da capital paulista. Notícias de página inteira e até fichas dos jogos dos clubes da Velha Bota.
Em Porto Alegre, as primeiras linhas sobre futebol foram escritas em 1903. No feriado de 7 de setembro, o Sport Club Rio Grande fez uma apresentação na Capital. O Rio Grande, hoje o clube de futebol ainda em atividade mais antigo do país, havia sido fundado três anos antes, em 1900. Naquele dia da Independência, dois times do hoje chamado "Vovô" fizeram uma exibição do novo esporte para os porto-alegrenses. Deu tão certo que, oito dias depois, dois clubes foram fundados na cidade: o Fuss-Ball Club e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.
Desde então, os jornais foram aumentando os espaços para a publicação de notícias sobre futebol em detrimento dos outros esportes da preferência dos gaúchos no século 19: o turfe, o remo, a bocha. Em 1909 surgiu o Inter e, com o Inter, a rivalidade Gre-Nal. Aos poucos, a cidade foi se dividindo e se eletrizando com esse duelo, embalada pela cobertura da imprensa dos jogos, sempre crescente. Em 1918, a principal notícia do início de agosto na Capital do Rio Grande do Sul não foi a Guerra na Europa, que matava 20 milhões, nem a Gripe Espanhola, que matava mais do que o dobro disso. Foi um Gre-Nal inacabado, teatro de uma confusão da qual emergiram cem feridos e um preso. Um dos jogadores do Inter, Ribas, foi esfaqueado na virilha por um torcedor e nunca mais pôde chutar uma bola. 
Um ano depois, em 1919, ocorreu um evento que atirou o futebol para o alto das primeiras páginas dos jornais. O Rio de Janeiro sediou o Campeonato Sul-Americano de Seleções, precursor da atual Copa América. Sendo no Rio de Janeiro, muito apropriadamente chamado por Getúlio Vargas de "o tambor do Brasil", o torneio se transformou em acontecimento nacional. O Estádio das Laranjeiras, do Fluminense, foi aumentado e reformado especialmente para os jogos. A capacidade passou de 10 mil para 18 mil pessoas. Para se ter noção do que significava esse número, basta ir aos jornais cariocas de apenas cinco anos antes, quando o Exeter City, time da terceira divisão da Inglaterra, visitou o Brasil.
Os diários contavam que os ingleses eram capazes de atravessar o campo com a bola nos pés sem que nenhum adversário a tomasse, que o chute de um jogador do Exeter era tão poderoso que poderia destroçar a trave de madeira dos arcos e que, na Inglaterra, o futebol mobilizava multidões impensáveis: "20 mil homens se aglomeram para assistir a um jogo", espantava-se um dos periódicos. Para enfrentar esse inimigo terrível, a recém-fundada Confederação Brasileira de Sports (futura CBD, atual CBF) reuniu pela primeira vez no mesmo time jogadores do Rio e de São Paulo. Era a estreia da Seleção Brasileira. Com vitória: 10 mil pessoas se aglomeraram nas Laranjeiras para assistir ao Brasil fazer 2 a 0 nos ingleses. Com tão somente cinco anos, portanto, a Seleção Brasileira não era exatamente uma unanimidade.
Naquele mesmo 1919, em 13 de março, o Jornal do Brasil noticiou que alguns intelectuais estavam criando a "Liga Contra o Futebol". O líder dessa curiosa associação era o escritor Lima Barreto. Mulato, boêmio, frequentador dos botecos da periferia do Rio, Lima Barreto acusava o futebol de ser elitista e racista. O que, aliás, era verdade — em 1921, o presidente da República, Epitácio Pessoa, chegou a pedir que os negros não fossem convocados para a Seleção Brasileira. Mas o futebol não estava desamparado entre a intelectualidade. Outro escritor famoso, Coelho Neto, não só defendia o esporte bretão como incentivou seus filhos a jogar bola. Eles seguiram o conselho do pai e se tornaram jogadores famosos: Mano e Preguinho, ambos do Fluminense. Preguinho marcou o primeiro gol da Seleção em Copas do Mundo, contra o Uruguai, em 1930. Coelho Neto, chamado pomposamente de "o último dos helenos", batia-se contra Lima Barreto nas páginas dos jornais do Rio.
Lima Barreto desancando o futebol, Coelho Neto exaltando. Foi justamente em 1919 que Lima Barreto perdeu em definitivo a sua guerra particular contra o aristocrático esporte bretão. Porque, com a maciça cobertura da imprensa do Campeonato Sul-Americano, o esporte bretão não podia mais ser considerado aristocrático. O futebol passou a ser debatido tanto nas mesas de tampo de mármore da Confeitaria Colombo como nos botequins de Bangu. Seus ídolos tornaram-se ídolos de toda a gente.
O Sul-Americano explodia nas páginas de "O Imparcial", de "A Rua", do "Rio Jornal", de "A Razão" e de "A Noite". E, como um prêmio por toda essa atenção, o Brasil conquistou o título. O jogo decisivo foi descrito da seguinte forma na edição de "A Noite" de 29 de maio: "
A concorrência, se não era colossal, como a de domingo, era seletíssima, notadamente pelo número de senhoras. A animação, extraordinária desde 11 horas, tornou-se como poucas vezes tem acontecido ao aproximar-se a hora do jogo. Um alarido unânime atroava e nos morros vizinhos a multidão agitava bandeiras nacionais por entre vivas (...) Brasileiros: Marcos; Píndaro e Bianco; Sergio, Amílcar e Fortes; Milton, Neco, Friedenreich, Heitor e Arnaldo. (...) Primeiro Half Time: Brasileiros o Goal Uruguaios O goal. Segundo Half Time: Brasileiros O goal Uruguaios O goal. Nova prorrogação: 1 goal brasileiro. Hurrah! Friedenreich! Hurrah! Brasil! (...) Com este resultado os brasileiros foram aclamados campeões da América do Sul".
A importância do futebol só fez aumentar, depois dessa primeira grande conquista da Seleção. Em 1927, o Vasco da Gama terminou a construção do seu estádio, o imponente São Januário, o maior do Brasil. O próprio presidente da República, Washington Luiz, compareceu à cerimônia de inauguração.
O profissionalismo só seria adotado em 1933, mas antes disso, em 1931, surgiu no Rio o primeiro jornal dedicado exclusivamente a coberturas esportivas, o Jornal dos Sports. Outros viriam. Mas ninguém foi tão fundamental para o jornalismo esportivo do que Mário Filho.
Quer saber mais sobre Mário Filho, "o" cara do jornalismo esportivo do Brasil? Isso só em 2010, ou amanhã, no penúltimo capítulo de O Urso!


Por que Laerte, o Urso, não foi para a Seleção? Por que não brilhou numa Copa? Por que não enfeitiçou o mundo com seu futebol de quilate superior? Essas as grandes perguntas. E o grande drama.
Meses atrás, o Peninha me convidou para ser coautor de um livro encomendado pelo Clube dos 13. "Futebol: a paixão do Brasil", o título. Eu deveria escrever um texto sobre futebol e jornalismo, assim como o Jorge Furtado escreveu sobre futebol e cinema, o Ibsen Pinheiro sobre futebol e política, e assim por diante. Bem. Fi-lo. O livro ficou uma belezura. Vou publicar o texto que escrevi em capítulos para ver se os leitorinhos do blog gostam. Ah, e tem algumas fotos do livro, uma belezura também. Aí vai o primeiro capítulo de O Urso:
Um dia, Laerte, o Urso, estava jogando um clássico. Estádio cheio, torcida ansiosa. O time dele vinha sendo pressionado fazia já uns 15 minutos. Todo mundo na defesa, esperando a bola, bufando, resfolgando. Só ele, Laerte, o Urso, parado no meio do campo, braços largados ao longo do corpo, esperando. Esperando... Como o técnico adversário sabia-o perigosíssimo, designou não um, nem dois, mas três zagueiros para vigiá-lo o tempo inteiro, sem trégua. E lá estava Laerte, o Urso, rodeado de becões, um à direita, outro à esquerda, o terceiro às suas costas, o menor deles com um metro e noventa de altura.







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