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Posts de dezembro 2009

O Urso - 4º capítulo

31 de dezembro de 2009 0

Ricardo Chaves, Reprodução Em São Paulo, o jornal Fanfulha, dirigido para os imigrantes italianos, trazia notícias sobre o futebol desde 1910. Não pequenas notas, como as registradas em outros jornais da capital paulista. Notícias de página inteira e até fichas dos jogos dos clubes da Velha Bota.

Em Porto Alegre, as primeiras linhas sobre futebol foram escritas em 1903. No feriado de 7 de setembro, o Sport Club Rio Grande fez uma apresentação na Capital. O Rio Grande, hoje o clube de futebol ainda em atividade mais antigo do país, havia sido fundado três anos antes, em 1900. Naquele dia da Independência, dois times do hoje chamado “Vovô” fizeram uma exibição do novo esporte para os porto-alegrenses. Deu tão certo que, oito dias depois, dois clubes foram fundados na cidade: o Fuss-Ball Club e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

Desde então, os jornais foram aumentando os espaços para a publicação de notícias sobre futebol em detrimento dos outros esportes da preferência dos gaúchos no século 19: o turfe, o remo, a bocha. Em 1909 surgiu o Inter e, com o Inter, a rivalidade Gre-Nal. Aos poucos, a cidade foi se dividindo e se eletrizando com esse duelo, embalada pela cobertura da imprensa dos jogos, sempre crescente. Em 1918, a principal notícia do início de agosto na Capital do Rio Grande do Sul não foi a Guerra na Europa, que matava 20 milhões, nem a Gripe Espanhola, que matava mais do que o dobro disso. Foi um Gre-Nal inacabado, teatro de uma confusão da qual emergiram cem feridos e um preso. Um dos jogadores do Inter, Ribas, foi esfaqueado na virilha por um torcedor e nunca mais pôde chutar uma bola.

Um ano depois, em 1919, ocorreu um evento que atirou o futebol para o alto das primeiras páginas dos jornais. O Rio de Janeiro sediou o Campeonato Sul-Americano de Seleções, precursor da atual Copa América. Sendo no Rio de Janeiro, muito apropriadamente chamado por Getúlio Vargas de “o tambor do Brasil”, o torneio se transformou em acontecimento nacional. O Estádio das Laranjeiras, do Fluminense, foi aumentado e reformado especialmente para os jogos. A capacidade passou de 10 mil para 18 mil pessoas. Para se ter noção do que significava esse número, basta ir aos jornais cariocas de apenas cinco anos antes, quando o Exeter City, time da terceira divisão da Inglaterra, visitou o Brasil.

Os diários contavam que os ingleses eram capazes de atravessar o campo com a bola nos pés sem que nenhum adversário a tomasse, que o chute de um jogador do Exeter era tão poderoso que poderia destroçar a trave de madeira dos arcos e que, na Inglaterra, o futebol mobilizava multidões impensáveis: “20 mil homens se aglomeram para assistir a um jogo”, espantava-se um dos periódicos. Para enfrentar esse inimigo terrível, a recém-fundada Confederação Brasileira de Sports (futura CBD, atual CBF) reuniu pela primeira vez no mesmo time jogadores do Rio e de São Paulo. Era a estreia da Seleção Brasileira. Com vitória: 10 mil pessoas se aglomeraram nas Laranjeiras para assistir ao Brasil fazer 2 a 0 nos ingleses. Com tão somente cinco anos, portanto, a Seleção Brasileira não era exatamente uma unanimidade.

Naquele mesmo 1919, em 13 de março, o Jornal do Brasil noticiou que alguns intelectuais estavam criando a “Liga Contra o Futebol”. O líder dessa curiosa associação era o escritor Lima Barreto. Mulato, boêmio, frequentador dos botecos da periferia do Rio, Lima Barreto acusava o futebol de ser elitista e racista. O que, aliás, era verdade — em 1921, o presidente da República, Epitácio Pessoa, chegou a pedir que os negros não fossem convocados para a Seleção Brasileira. Mas o futebol não estava desamparado entre a intelectualidade. Outro escritor famoso, Coelho Neto, não só defendia o esporte bretão como incentivou seus filhos a jogar bola. Eles seguiram o conselho do pai e se tornaram jogadores famosos: Mano e Preguinho, ambos do Fluminense. Preguinho marcou o primeiro gol da Seleção em Copas do Mundo, contra o Uruguai, em 1930. Coelho Neto, chamado pomposamente de “o último dos helenos”, batia-se contra Lima Barreto nas páginas dos jornais do Rio.

Lima Barreto desancando o futebol, Coelho Neto exaltando. Foi justamente em 1919 que Lima Barreto perdeu em definitivo a sua guerra particular contra o aristocrático esporte bretão. Porque, com a maciça cobertura da imprensa do Campeonato Sul-Americano, o esporte bretão não podia mais ser considerado aristocrático. O futebol passou a ser debatido tanto nas mesas de tampo de mármore da Confeitaria Colombo como nos botequins de Bangu. Seus ídolos tornaram-se ídolos de toda a gente.

O Sul-Americano explodia nas páginas de “O Imparcial”, de “A Rua”, do “Rio Jornal”, de “A Razão” e de “A Noite”. E, como um prêmio por toda essa atenção, o Brasil conquistou o título. O jogo decisivo foi descrito da seguinte forma na edição de “A Noite” de 29 de maio:

A concorrência, se não era colossal, como a de domingo, era seletíssima, notadamente pelo número de senhoras. A animação, extraordinária desde 11 horas, tornou-se como poucas vezes tem acontecido ao aproximar-se a hora do jogo. Um alarido unânime atroava e nos morros vizinhos a multidão agitava bandeiras nacionais por entre vivas (…) Brasileiros: Marcos; Píndaro e Bianco; Sergio, Amílcar e Fortes; Milton, Neco, Friedenreich, Heitor e Arnaldo. (…) Primeiro Half Time: Brasileiros o Goal Uruguaios O goal. Segundo Half Time: Brasileiros O goal Uruguaios O goal. Nova prorrogação: 1 goal brasileiro. Hurrah! Friedenreich! Hurrah! Brasil! (…) Com este resultado os brasileiros foram aclamados campeões da América do Sul”.

A importância do futebol só fez aumentar, depois dessa primeira grande conquista da Seleção. Em 1927, o Vasco da Gama terminou a construção do seu estádio, o imponente São Januário, o maior do Brasil. O próprio presidente da República, Washington Luiz, compareceu à cerimônia de inauguração.

O profissionalismo só seria adotado em 1933, mas antes disso, em 1931, surgiu no Rio o primeiro jornal dedicado exclusivamente a coberturas esportivas, o Jornal dos Sports. Outros viriam. Mas ninguém foi tão fundamental para o jornalismo esportivo do que Mário Filho.

Quer saber mais sobre Mário Filho, “o” cara do jornalismo esportivo do Brasil? Isso só em 2010, ou amanhã, no penúltimo capítulo de O Urso!

O Passeio do Filósofo

31 de dezembro de 2009 7

Em 2010 queria conhecer Königsberg. Que nem é mais Königsberg, é Kaliningrado. Fica na Rússia, ficava na Alemanha, a guerra muda mapas.

Mal chegado a Königsberg, iria direto procurar certa rua da cidade, “O Passeio do Filósofo”. Chama-se assim em homenagem a Immanuel Kant, um dos maiores filósofos da História. Kant foi um Sócrates do século 18, seu sistema de pensamento pode ser usado até para saber como o brasileiro vai votar nas eleições deste novo ano.

Eu, quando passear pelo Passeio do Filósofo, o farei pontualmente às 15h30min, como Kant fazia todos os dias, todos, sem exceção. Era tão pontual em seu passeio, que as donas de casa acertavam os relógios ao vê-lo passar. Kant caminhava em silêncio, concentrado, respirando pelo nariz. Dizia que a respiração nasal evita resfriados – o homem era filósofo, não médico.

Em Königsberg, Kant nasceu, viveu sua longa vida e morreu. Nunca saiu de lá. Por duas vezes, quase se casou. Hesitou tanto, que ambas as pretendentes desistiram; uma se mudou da cidade e a outra arranjou um noivo mais determinado. O que foi uma sorte para a filosofia. Tivesse mulher e filhos, Kant não promoveria a revolução do pensamento que promoveu.

Sua obra-prima, Crítica da Razão Pura, ele só a lançou depois dos 50 anos de idade. É uma experiência densa ler este livro. Porque, no início, dói. O texto é intricado, cada sentença exige reflexão e Kant não facilita a vida do leitor com exemplos. Mas, após algum esforço, fiat lux!, tudo começa a se encaixar.

Só que continua a doer.

Numa redução tosca, grosseira e abusada de uma parte do pensamento de Kant, explico aqui que ele diz existirem duas formas de obter conhecimento: pela experiência, ou seja, a posteriori; e pela intuição, ou a priori.

O conhecimento intuitivo não é nenhum poder mágico ou sobre-humano. É uma das faculdades da inteligência. Vejo o meu filhinho de dois anos de idade usar esse poder todos os dias. Há coisas que ninguém disse para ele, que ele não viu na televisão, que lhe são inéditas, mas ele, simplesmente, “sabe”.

Os adultos também agem assim. Todos os dias. E é assim, mais com a intuição do que com a experiência, que tomam suas decisões na cabine indevassável. A reação do eleitor ao noticiário político é diversa da que espera o analista político. Donde as surpresas a cada apuração.

Por isso, duvido que o destino de Yeda já esteja traçado nas próximas eleições. Yeda vem sendo calcinada em seu governo, e de forma sistemática, e implacável, e incansável. Se construir para si uma imagem de vítima, incrustará uma cunha no nível intuitivo do eleitor. E aí entra no jogo o eleitor que não calcula, o eleitor silencioso, que tem vergonha de revelar como vota e que, ao votar, usa menos a reflexão e mais a intuição.

O eleitor kantiano, maioria entre os eleitores.

Terá Yeda a sensibilidade e a humildade suficientes para comover esse eleitor? Não adianta ler Kant para descobrir. Há que se esperar o que escreverá 2010.

Texto publicado na página 2 de Zero Hora de hoje

Todas as festas do Pretinho

30 de dezembro de 2009 2

Olhaí o pessoal do Pretinho Básico reunido no amigo secreto do fim do ano.

Já temos todas as festas planejadas para 2010.

O Urso - 3º capítulo

30 de dezembro de 2009 8

Ricardo Chaves, Reprodução

Se Laerte, o Urso, tivesse jogado no Rio ou em São Paulo, hoje haveria estátuas e avenidas em honra de seu nome por todo o país. Haveria estádios batizados de Laertão, haveria campeonatos premiados com a taça do Urso de Ouro. Mesmo que ele só jogasse bem no Rio ou em São Paulo.

Por quê? Por que essa diferença?

Por causa da imprensa. A imprensa de Rio e São Paulo transformaria Laerte, o Urso, em lenda. A imprensa poderosa, com suas redes nacionais de TV, com seus jornais com centenas de milhares de exemplares de tiragem, com suas revistas interestaduais, com suas rádios de cem quilos, a imprensa do eixo Rio-São Paulo faria retumbar o nome de Laerte, o Urso, e o inscreveria na História.

Porque é isso que a imprensa faz. Foi isso que a imprensa fez desde sempre. Fez do futebol brasileiro o que o futebol brasileiro é. Sublimou-o. Transformando seus personagens em heróis, transformou-o, de um mero esporte, em paixão de milhões. A imprensa criou mitos, elevou jogadores à condição de semideuses, inscreveu a fogo os nomes dos clubes nos corações dos torcedores. A imprensa construiu o futebol.

Quando começou esse fenômeno? Quase que simultaneamente à introdução do nobre esporte bretão no país, em fins do século XIX, começo do século passado. Naqueles tempos pioneiros, Graciliano Ramos achava que o futebol não vingaria no Brasil. Escreveu uma deliciosa crônica a respeito quando ainda vivia nas Alagoas, em 1921:

“Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a Maluqueira, a ideia fixa de muita gente.

(…) vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês. Pois quê! A cultura física é coisa que está entre nós inteiramente descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça estão abandonados pela débil mocidade de hoje.

(…) Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável. A parte de nosso organismo que mais se desenvolve é a orelha, graças aos puxões maternos, mas não está provado que isto seja um desenvolvimento de utilidade. Para que serve ser a gente orelhuda? (…) Fisicamente falando, somos uma verdadeira miséria. Moles, bambos, murchos, tristes — uma lástima! Pálpebras caídas, beiços caídos, braços caídos, um caimento generalizado que faz de nós um ser desengonçado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase pulha que se tornou popular: “Me deixa…” (…). Para chegar ao soberbo resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o futebol. Mas por que o futebol? Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não.

(…) Ora, parece-nos que o futebol não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É roupa de empréstimo, que não nos serve. (…)já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído. (…) Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras? O futebol não pega, tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos. As grandes cidades estão no litoral; isto aqui é diferente, é sertão. As cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras raças.

(…) Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega. Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar. Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira. A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!

(…) Cultivem a rasteira, amigos! E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o é no momento oportuno. Muito útil, sim senhor.

Dediquem-se à rasteira, rapazes”.

Eis a prova de que Laerte, o Urso, só não virou lenda porque não vivia no que Graciliano Ramos chamava de as grandes cidades do litoral. Laerte, o Urso, vivia numa das “terras do espinho”, onde as lendas são importadas do Rio, de São Paulo, de Belo Horizonte, de Porto Alegre. Laerte, o Urso, vivia longe da imprensa construtora de mitos.

A distância das sedes da imprensa nacional é tão decisiva que o próprio Graciliano Ramos, homem inteligente e ilustrado, não desconfiava que nas grandes cidades do litoral o futebol já vicejava e pulsava, cevado pelos adjetivos e pelas manchetes dos jornais diários.

É aí que a Dupla Gre-Nal vai entrar na história. Mas só amanhã.

Aguardem o próximo capítulo!

O Urso - 2º capítulo

29 de dezembro de 2009 4

Rogério Reis, Reprodução Por que Laerte, o Urso, não foi para a Seleção? Por que não brilhou numa Copa? Por que não enfeitiçou o mundo com seu futebol de quilate superior? Essas as grandes perguntas. E o grande drama.

É que Laerte, o Urso, só jogava bem num lugar: na sua terra natal, Criciúma, a Chamada Capital do Carvão, cidade incrustada no Sul de Santa Catarina, antigo polo de extração de carvão mineral. Por algum motivo, quando Laerte, o Urso, cruzava os limites do município, seu futebol murchava como uma petúnia no inverno.

Assim, ele foi o artilheiro imbatível dos clubes da cidade, o Criciúma e o Próspera, mas jamais fez sucesso fora daquele pedaço de terra prenhe de carvão. Bem que tentou. Arriscou a sorte em outros clubes. Longe do lar, porém, batia-lhe uma melancolia, uma tristeza invencível, e Laerte, o Urso, entrava em campo cabisbaixo, abatido de antemão, e quando a bola vinha em sua direção não a recebia com alegria, não se concentrava nela, nada disso: recebia-a com um suspiro, não levantava a cabeça nem para chutar, perdia-a sempre, e não se importava com isso. Desta forma, Laerte, o Urso, fracassava em outros clubes inapelavelmente. E era devolvido ao seu clube de origem.

Sua dependência da terra natal foi se acentuando com o tempo. Logo, não jogava bem nem quando defendia um time de Criciúma que atuasse fora da cidade. Sua genialidade se restringia ao perímetro do município. E eram limites rígidos. Tanto que, nos anos 80, dois distritos importantes se emanciparam de Criciúma: Içara, ao Norte, e Farroupilhinha, ao Sul. Concluídas as emancipações, Laerte, o Urso, passou a jogar mal nos novos municípios. Mas, no coração de Criciúma, espantava a quem o visse em campo, sua média de gols era mais alta do que a de Friedenreich, seus dribles mais maliciosos do que os de Garrincha, sua objetividade mais precisa que a de Pelé. Laerte. O Urso. Que craque.

Se Laerte, o Urso, tivesse jogado no Rio ou em São Paulo, hoje haveria estátuas e avenidas em honra de seu nome por todo o país. Haveria estádios batizados de Laertão, haveria campeonatos premiados com a taça do Urso de Ouro. Mesmo que ele só jogasse bem no Rio ou em São Paulo.

Por quê? Por que essa diferença? Saiba amanhã, no próximo capítulo de… O Urso!

O Urso - 1º capítulo

28 de dezembro de 2009 3

Rogério Reis, Reprodução Meses atrás, o Peninha me convidou para ser coautor de um livro encomendado pelo Clube dos 13. “Futebol: a paixão do Brasil”, o título. Eu deveria escrever um texto sobre futebol e jornalismo, assim como o Jorge Furtado escreveu sobre futebol e cinema, o Ibsen Pinheiro sobre futebol e política, e assim por diante. Bem. Fi-lo. O livro ficou uma belezura. Vou publicar o texto que escrevi em capítulos para ver se os leitorinhos do blog gostam. Ah, e tem algumas fotos do livro, uma belezura também. Aí vai o primeiro capítulo de O Urso:

O melhor centroavante que já vi jogar foi Laerte. O Urso. Melhor do que Ronaldo, do que Romário, do que Reinaldo, do que Careca. Melhor de todos. Laerte. O Urso. Caminhava pela grande área em cima de pernas arqueadas, feito um vaqueiro do Texas. Eram menores do que o torso, o que lhe dava a aparência de, bem, um urso. Mas eram pernas poderosas, capazes de impulsioná-lo para cima, rumo ao firmamento azul, mais alto do que poderia alcançar qualquer zagueiro grandalhão, pois perto dele qualquer zagueiro era grandalhão, já que Laerte, o Urso, não se podia dizer dele que fosse um homem de grande estatura.

Não era.

Um metro e setenta e três. A altura dos craques.

Uma vez, durante uma Copa América no Paraguai, desci ao saguão do hotel da Seleção e fui até o bar para tomar um expresso quente e espumante, um expresso que me reconfortasse das agruras de um trabalho duro. Bem. No balcão estavam encostados Tostão e Roberto Rivellino, eles também bebericando cafés fumegantes. Fiquei conversando com aqueles dois superjogadores do passado. Sentia-me um craque por fazer parte daquela roda. De repente, olhei bem para eles e constatei:

— Puxa, vocês têm a mesma altura! Qual a altura de vocês?

Um metro e setenta e três, foi o que me responderam. Aí o Riva acrescentou:

— O Zico também tem um metro e setenta e três.

Ao que o Tostão ajuntou:

— O Pelé também.

Cara, como eu queria ter um metro e setenta e três. Laerte, o Urso, tinha. Mas não era craque por isso. Era craque porque não havia goleador como Laerte, o Urso. Como já disse, ele saltava mais alto do que qualquer jogador de basquete. Lá em cima, flutuando no ar, desferia na bolsa um testaço de ferro, uma martelada. A bola saía que era uma bala de bazuca, invariavelmente para baixo, invariavelmente na direção do gol. Era gol de Laerte. O Urso. Com os pés, tornava-se ainda mais fatal para as defesas adversárias. Laerte, o Urso, era ambidestro. Chutava com a direita ou com a esquerda com a mesma violência e precisão. E driblava, como driblava. E corria como um Usain Bolt. Orlando Brito, Reprodução Um dia, Laerte, o Urso, estava jogando um clássico. Estádio cheio, torcida ansiosa. O time dele vinha sendo pressionado fazia já uns 15 minutos. Todo mundo na defesa, esperando a bola, bufando, resfolgando. Só ele, Laerte, o Urso, parado no meio do campo, braços largados ao longo do corpo, esperando. Esperando… Como o técnico adversário sabia-o perigosíssimo, designou não um, nem dois, mas três zagueiros para vigiá-lo o tempo inteiro, sem trégua. E lá estava Laerte, o Urso, rodeado de becões, um à direita, outro à esquerda, o terceiro às suas costas, o menor deles com um metro e noventa de altura.

Eis que, no rebote de um escanteio, a bola sobe, propulsionada por um chutão de zagueiro, e vem pingar entre Laerte, o Urso, e seus três atentos e ferozes marcadores. Pois bem. Antes que o couro da bola tocasse a carne da grama, o pé direito tamanho 37 de Laerte, o Urso, a dominou. Fez uma embaixada macia. Quando o primeiro zagueiro o acossou, rugindo como um guerreiro viking, Laerte, o Urso, lhe aplicou um balãozinho. A bola ainda não havia tocado no solo e o segundo zagueiro saltou sobre Laerte, o Urso, berrando:

— WOLFREMABAEEEEERRRRR!!!

Laerte, o Urso, não esperou que a bola caísse. Levantou-a de ladinho, com o tornozelo, e deu outro balãozinho. Os dois primeiros zagueiros se chocaram, perplexos, e quase desabaram. Então, o terceiro marcador atrasou. Era o maior deles. E era mau. Um zagueiro com travas de navalha na chuteira e brilho assassino no olhar. Dentes rilhados, chispas de fogo relampeando das pupilas, ele veio. E veio vindo e veio vindo e veio mesmo e veio que veio. E Laerte, o Urso, o humilhou com um terceiro balãozinho, deixando-o rojado ao chão como uma margarida despetalada.

E foi-se com a bola dominada, mas dominada no alto, sem permitir que ela lambesse a grama, e jogou-a do pé para o peito, do peito para a cabeça, da cabeça para o ombro, do ombro para a cabeça de novo, da cabeça para o pé, e chegou à meia-lua da grande área com ela ainda equilibrada no ar, brincando como se estivesse no picadeiro do Circo de Soleil, a torcida muda e paralisada na arquibancada, os outros jogadores atarraxados de espanto no gramado, e de lá, da meia-lua, Laerte, o Urso, viu o goleiro aflito que saía do gol com os braços abertos, os olhos arregalados, o coração comprimido, e aí ele, Laerte, o Urso, atirou a bola para cima com a suavidade de um beijo de mãe, encobriu o goleiro, e meteu-a no gol.

Gol.

Gol de Laerte.

O Urso.

Por que Laerte, o Urso, não foi para a Seleção? Por que não brilhou numa Copa? Por que não enfeitiçou o mundo com seu futebol de quilate superior? Essas as grandes perguntas.

Saiba por que amanhã, no próximo capítulo de… O Urso!

O Sarão errado

27 de dezembro de 2009 6

Domingo passado escrevi a história do encontro de dois amigos (leia aqui), velhos companheiros dos desvãos do IAPI. Entre tantos assuntos do passado glorioso que não voltará, eles comentam sobre o zagueiro Sarão, que militava nas agruras da várzea, era valente, era forte, era um herculoide da grande área, mas que se transformou em travesti, e agora atendia por Sara, e usava minissaia, e cinta-liga.

E não é que existiu
mesmo um Sarão jogador de bola no IAPI???

Mais: foi jogador consagrado, atuou no América do Rio com Tadeu Ricci, Tarciso e Edu Coimbra, o irmão do Zico (a família Coimbra joga muito). Só que este Sarão, o real, era ponta-esquerda, o meu, de mentira, era zagueiro. Contou-me o Sarão de carne, osso e velhas chuteiras de couro e travas de metal, que recebeu telefonemas de todo o Brasil perguntando se era ele o meu personagem.

Não era. Não é.

O Sarão de verdade é pai de família, mora na Azenha e não aguenta mais a gozação da turma.

*Texto publicado na página 35 de Zero Hora dominical

Postado por David

Malditos pelintras, sacripantas e beleguins!

26 de dezembro de 2009 16


Você, que é um combatente, você vai lá e entabula uma conversinha gingada com aquela morena de pele clara, e ela é toda macia, a fala macia, os gestos macios, o olhar macio, você pensa que a pele dela também deve ser todinha macia, e você se amolenta só de olhá-la, mas lembre-se: você é um combatente, você não desiste, você se esforça.

E consegue.

Ela o acompanha até a alcova. Lá estão vocês dois sozinhos sobre os lençóis, e você tira a roupa dela, peça por peça, até a derradeira, a última cidadela a cair, a calcinha cheirosa. E o corpo dela inteiro fica nu, resplandecentemente nu, e você tem vontade de chorar, e põe-se nu o mais rápido possível, e a possui.

A vida é boa.

Agora pense: houve todo aquele empenho da sua parte e, da parte dela, houve doação. Entrega, foi o que houve. Ela disse que seria sua, e foi. É possível haver maior intimidade entre dois seres humanos do que esta que você teve com a bela mulher que enfim seduziu? Ela se abriu gentilmente, como uma gentil petúnia, às suas investidas, e vocês ficaram nus, os corpos expostos, e tocaram-se e afagaram-se e trançaram as línguas, trocaram salivas, mesclaram fluidos. Mais: você esteve DENTRO dela.

Repito a pergunta: é possível haver maior intimidade?

Decerto que não.

Tamanha intimidade sugere alguma cumplicidade, supõe-se. E a cumplicidade deveria gerar um pouco, pelo menos um pouco, de lealdade.

Certo. Então, como é que se explica isso que está sendo feito com o pobre Tiger Woods? Este infeliz homem foi traído por TODOS. Em primeiro lugar, foi abjetamente traído por suas amantes. Contaram-se 10 delas, entre as mulheres a soldo e as que se deram a ele por simpatia. Destas, está claro que as amantes pagas foram as mais traiçoeiras. Porque, além de apreço pelo homem a quem emprestaram o corpo, faltou-lhes ética profissional. Mas terão punição. Ah, terão! Afinal, que cliente confiará nelas depois deste triste caso?

As não pagas, essas são simplesmente pérfidas insensíveis. Permitiram que Tiger se refestelasse nelas, que se refocilasse, espadanasse e chafurdasse no pecado com elas, que fizesse delas o que bem quis. E agora o acusam de infidelidade. Infiéis são elas! Elas é que são malditas desleais! Porque, para elas, aqueles momentos de intimidade não representaram nem sequer um pouco de estima, nem uma gota de consideração, senão pelo amante, pelo ser humano.

Outra mulher que traiu Tiger foi sua própria esposa. Não satisfeita em fazê-lo abandonar o golfe, que tanto ama, ainda quer lhe extorquir 300 milhões de dólares. Ora, quem ganhou esse dinheiro foi ele! Ela poderia compreender essa verdade e se contentar com uma pensão robusta. Mas não. Ela quer dinheiro, dinheiro, dinheiro. Os anos de felicidade, a convivência, o compartilhamento de sentimentos, nada disso importa para ela. O que importa é o dinheiro.

Mas a maior traição, a mais vil, abjeta, repugnante, desprezível, ignóbil e imunda é a traição cometida pelos homens. Das mulheres espera-se deslealdade, elas pertencem a outro gênero. Mas de um homem??? Um homem de verdade tem de respeitar o nobilíssimo sentimento de solidariedade masculina. Só que foram homens que deram publicidade aos casos de Tiger, foram homens que pagaram mulheres para denunciá-lo. Traidores, todos eles. Pelintras. É assim: o dinheiro em abundância faz aparecer a falta de caráter.

*Texto publicado na página 35 de Zero Hora de hoje

Postado por David

Eles não têm amor

24 de dezembro de 2009 21

Meu pai não foi um bom pai. Eu acho que sou. Ou pelo menos me empenho para ser. Dia desses estava contando uma história do meu pai para alguns amigos. Eu era bem pequeno, uns cinco ou seis anos de idade, e brincava com meu amigo Míti, nós dois armados de bisnaguinhas d’água. Lembro que caminhamos rindo até a calçada da frente e vimos que o vizinho adubava as plantas no jardim dele. Olhamos para aquele monte de esterco, apertamos as bisnaguinhas e lançamos ali uns três ou quatro jatos d’água, tudo muito inocente. Mas o vizinho não gostou. Virou-se e ralhou:

— Se atirarem água de novo, vou jogar esterco em vocês!

Corremos para o pátio, assustados. Meu pai percebeu que havia algo errado e me segurou pelos ombros:

— O que foi, David?

Contei. Ele se enfureceu. Tomou-me pela mão e me levou até a frente da casa, até o jardim do vizinho. Estacou sobre a grama.

— Tu disse que ia jogar esterco no meu filho? — gritou para o homem, que apoiou no chão a pá com que trabalhava e ficou olhando para ele, mudo.

— Tu disse que ia jogar esterco no meu filho? — repetiu meu pai, desafiador.

O homem não respondeu.

— Pois quero que tu jogue agora! — falou meu pai entre dentes, apontando para mim. — Joga! Joga, que eu quero ver se tu é homem de jogar esterco no meu filho!

O vizinho largou a pá no chão, deu-nos as costas e deslizou para dentro de casa, acuado.

Foi uma atitude de valentia física do meu pai, obviamente, mas não posso dizer que tenha sido algo que me agradou, nem me deixou orgulhoso à época. Criança não aprecia violência.

Terminei essa história, e um dos meus amigos disse:

— Pelo menos o teu pai se importava contigo. O meu nem isso.

Foi então que me dei conta de que muitos dos meus amigos não tiveram bons pais, mas que eles, agora, são bons pais. Como tenho a pretensão de ser. O que mudou entre uma geração e outra?

Sei o que foi. E para falar a respeito me valho de outra lembrança, da qual o protagonista é o homem que, de certa forma, ocupou o lugar do meu pai na minha criação: o meu avô. Quando se referia a pessoas que considerava de má índole, meu avô sempre usava a mesma frase para defini-las:

— Elas não têm amor.

Sempre dizia isso. Um dia perguntei a ele se não queria dizer que aquelas pessoas não “sentiam” amor. Ele balançou a cabeça:

— Não, David. Eles não têm. Porque nunca receberam.

Então compreendi. Elas até poderiam sentir amor, mas não tinham para dar. Os bons pais de hoje, que não tiveram pais tão bons assim, eles certamente receberam amor de outras pessoas. Já os pais que cometem selvagerias com as crianças, essas coisas grotescas que temos lido nos últimos dias, gente que suplicia nenês com agulhas ou joga-os de janelas, esses sei bem o que há com eles.

Eles não têm amor.

*Texto publicado na página 2 de Zero Hora de hoje

Postado por David

Presente de Natal para os leitorinhos

24 de dezembro de 2009 6


-

Postado por David

Eles sabem matar

23 de dezembro de 2009 39

Os americanos sabem matar gente. Orgulham-se disso com justa razão. O que não é uma característica exclusivamente americana, todos os povos do mundo se gabam de ter competência na eliminação do próximo. Vide os hinos nacionais: as letras dos hinos invariavelmente evocam guerras. Nunca ninguém escreveu um hino festejando:

Nosso povo é o melhor em matemática
Nosso povo que criou a Nega Maluca
Nosso povo faz um bom café com cuca
Nosso povo é o galo em informática

Ninguém faz hino assim. Os povos só comemoram seus supostos feitos guerreiros. Quem aí é capaz de definir a natureza das façanhas dos gaúchos que, juram os gaúchos, servem de modelo a nada menos do que o planeta Terra inteiro, de Viamão a Kuala Lumpur? Obviamente, são as presumidas habilidades gauchescas no extermínio de seus semelhantes. Ou de feri-los de alguma forma. Se o hino fosse mais explícito, cantaria que os gaúchos, alegremente, sabem cortar gargantas, amputar membros e desfigurar rostos como ninguém.

Mas não é verdade. Os gaúchos não são tão bons quanto pensam em machucar as pessoas. Prova: a mais sangrenta guerra gaúcha, a Revolução de 1893, produziu 10 mil mortos. Trinta anos antes, na Guerra Civil americana, 10 mil eram os que morriam numa única batalha, e nem se podia dizer que fosse das mais renhidas.

Os americanos amam a estatística. Tiveram o cuidado de contar direitinho todos os que morreram em sua guerra particular. Ao final de um combate apresentavam números precisos dos abatidos de cada lado. Tipo: 8.528 da Confederação, 7.346 da União. Assim, os americanos puderam apregoar ao mundo que 600 mil pessoas perderam a vida em sua Guerra de Secessão, um número estrepitoso, considerando-se que se referiam um conflito intestino.

Portanto, repito: os americanos são muito bons nisso de matar gente. Nós, gaúchos, perto deles somos freirinhas. Se o futebol dependesse realmente de qualidades “guerreiras”, tão ressaltadas por tantos dos profissionais da bola de hoje, os americanos seriam imbatíveis. Não são. São canhestros. Americano bom de bola é americana. As mulheres de lá é que são craques. Prova de que, no futebol, o decantado “espírito guerreiro” é uma qualidade secundária. O talento conta muito mais. É o que um bom dirigente deve priorizar, quando contrata um jogador. Qualidade. Técnica. Guerreiros são para o futebol americano, para o hóquei sobre o gelo, para o boxe, esportes que, não por acaso, são amados pelos nossos belicosos irmãos da América do Norte.

*Texto publicado na página 74 de Zero Hora de hoje

Postado por David

Os bons equivocados

23 de dezembro de 2009 12

Nestes últimos cem anos, houve dois momentos em que o Inter esteve na iminência de fechar. O primeiro deles ocorreu bem no início. Depois de perder seu jogo de estreia por 10 a 0 para o Grêmio, alguns colorados pioneiros desistiram não só do clube, mas também do futebol.

Um homem soube reanimar os desanimados e estimular os hesitantes: Antenor Lemos. Com sua energia de rinoceronte, sua voz de trovoada e seu ódio ao Grêmio, Lemos manteve a chama do Inter acesa. Porque havia uma meta: derrotar o Grêmio. O Inter finalmente a alcançou em 1915, após seis anos de tentativas.

O segundo momento crítico ocorreu entre o fim dos anos 20 e começo dos anos 30. O clube ia mal, e alguns sócios sugeriam que o time se licenciasse do campeonato. Outros, visionários, indicavam o caminho oposto: queriam que o Inter construísse um estádio para rivalizar com o do Grêmio, a Baixada.

Antenor Lemos nunca pensou em licença, mas não aceitava a ideia de erguer um estádio. “O Inter deve viver exclusivamente de suas glórias esportivas”, pregava.

Estava errado. Para sorte do Inter, um outro grande colorado se opôs a Lemos: Ildo Meneghetti. A energia de Meneghetti levantou os Eucaliptos e conduziu o Inter ao futuro. Se a tese de Lemos fosse vencedora, o Inter jamais passaria de um time arrabaldino.

Os bons gremistas que hoje se opõem à Arena continuarão sendo bons gremistas, assim como Lemos jamais deixou de ser um bom colorado. Só que esses gremistas de hoje, como aquele colorado de outrora, estão equivocados.

Esses gremistas que não querem a Arena e amorosamente abraçam o Olímpico, se vivessem nos anos 50 abraçariam a Baixada. É bonito valorizar o passado. Mas é melancólico viver no passado. Se o Grêmio não construir sua Arena, em breve estará de volta aos tempos da Baixada.

*Texto publicado na página 74 de Zero Hora de hoje

Postado por David

Então é Natal

22 de dezembro de 2009 11

Leitorinhos, em breve o blog vai dar um presente de Natal para vocês.

O que será???

Aguardem!

Postado por David, bebendo um expresso na Redação

O encontro

19 de dezembro de 2009 18


- Chulé!
- An?… Não! Não acredito!
- Há quanto tempo, rapá!
- Nem me fala… Que bom te encontrar! Nunca mais vi ninguém da turma. Do nosso time. Era bom o nosso time. Turma boa. Tudo boa gente… Tem visto o pessoal?
- Sempre. Não saí da vila, né.
- Não sabia… Faz tanto tempo… Como é que está a turma? Turma boa…Tem visto o Sarão, meu companheiro de zaga?
- Não sabe o que aconteceu com o Sarão?
- Não… O que foi?
- Aveadou-se.
- O quê? O Sarão???
- O próprio. Um dia ele passava de carro pela Farrapos…
- Não vai dizer que era com aquele Chevettão dele?
- O próprio. Vinha dirigindo o Chevettão dele e viu aquele travesti loiro de minissaia. Diz o Sarão que era a coisa mais linda. Olho azul e tudo mais. E perna comprida, que perna de homem é comprida, e uma bunda bem redonda, mas bem, bem, bem redonda, o Sarão fazia assim com a mão pra mostrar como era a bunda dela… dele… e uns peitos do tamanho de um mamão-papaia.
- Tu viu o travesti?
- Não, mas o Sarão vivia contando como ela… ele era.
- E o Sarão pegou o travesti?
- Pegou. E gostou. Começou a pegar travesti todas as noites.
- Se apaixonou pelo traveco.
- Não. Não era sempre o mesmo travesti. Pegava tudo que era travesti. Todas as noites.
- Não me diz! O Sarão! Não tinha cara mais macho do que o Sarão. Entrava em campo e falava bem alto: “Hoje acordei com vontade de quebrar uma cara…” Quando começava o jogo, a primeira coisa que ele fazia era dar um soco no centroavante deles. Esperava que a bola fosse para o nosso ataque e mandava uma bomba bem no meio da fuça do coitado do centroavante, que nunca mais entrava na nossa área.
- Eu me lembro. Uma vez quebrou os dois dentes da frente de um loirinho lá da Floresta.
- Um crespinho, né? Cabelo de foguinho?
- Este. Saiu de campo com a cara virada num cheesburguer. Mas a história do Sarão não parou por aí. A coisa foi ficando pior.
- Pior? O que é que pode ser pior?
- Com o tempo, o Sarão foi se amulherando.
- Amu… lherando?
- Virou travesti!
- Não! O Sarão?!?
- O próprio. Uma vez fui ver se via o Sarão na Farrapos. Passei de carro por ele. Cara… Ele estava numa esquina escura, de calcinha, cinta-liga e salto alto. Vou te dizer uma coisa: o Sarão até que estava gostosa. Se não fosse aquela cara de homem, aquele gogó, aquele pé, até passava por mulher…
- Um baita dum negão daqueles, brabo daquele jeito…
- Pois é… Se quiser encontrar com ele, passa na Farrapos de noite, lá perto da São Pedro. Agora ele se chama Sara.
- Sara… Meu Deus… E o Piupiu? Grande Piupiu! Pontinha-esquerda ciscador…
- Não sabe?
- O quê?
- Está preso.
- O Piupiu?!?
- O próprio. Lembra da Verinha?
- Aquela que lavava roupa só de calcinha na área de serviço da casa da mãe dela?
- A própria. A gente ia ver a Verinha lavar roupa de calcinha, lembra?
- Claro. Ficávamos na casa do Cueca, olhando pelas frestas da persiana. Que gostosa, aquela Verinha. Que bundinha empinada. Acho que ela sabia que a gente estava espiando.
- Claro que sabia, cachorra.
- Cadela.
- Vaca.
- Potra.
- Cavala, cavala… De todos, o Piupiu era o que ficava mais empolgado com a Verinha de calcinha, lembra?
- Lembro. Uma vez tirou o tico pra fora. Demos uns cascudos nele.
- Pois ele acabou se apaixonado por ela. Mas se apaixonou mesmo! Amor, manja?
- Pela Verinha? Mas ela era tão… tão…
- Vagabunda. Baita vagabunda. O Piupiu começou a namorar com ela, noivou com ela, ia casar com ela, aí descobriu que ela estava tendo um caso com o Fanta Uva.
- Fanta Uva, o nosso meia-esquerda?
- O próprio.
- Jogava muito, o Fanta Uva… Camisa 10. Técnico. Nunca errou uma falta da meia-lua. Colocava a bola no que o Zúqui chamava de cângulo, mistura de canto com ângulo. Craque, o Fanta Uva. Podia jogar no Grêmio, no Inter…
- Lembra de um gol que ele fez uma vez naquele campinho da Lomba do Pinheiro?
- Aquele campo inclinado?
- Esse. O time que jogava de cima pra baixo sempre ganhava.
- Era melhor jogar lomba abaixo no segundo tempo.
- É. Lembra daquele gol do Fanta? Deu três janelinhas antes de marcar.
- Golaço, golaço…
- Craque. O problema foi que o Fanta Uva começou a pegar a Verinha na casa da tia dele. Lembra daquela gostosa da tia dele, a dona Júlia?
- Uh! Lembro. Que pernas. Que bunda. Tem uma coisa que não me esqueço da dona Júlia…
- Sei o que é…
- Sabe, né? Todo mundo sabia, acho.
- Todo mundo. O Cenoura espalhou a coisa.
- Que maravilha aquilo.
- Nem me fala.
- E o Cenoura conseguiu.
- Conseguiu…
- Alguém mais conseguiu?
- Acho que não. Acho que só o Cenoura conseguiu… Transou com a dona Júlia e contou pra todo mundo que ela adorava sexo anal. Uma mulher com aquela bunda.
- Loucura, loucura…
- Que bundão…
- Quando olhava pra dona Júlia, eu não conseguia pensar em outra coisa, só: “Ela gosta de sexo anal, ela gosta de sexo anal”. Via a dona Júlia atravessando a Plínio e pensava: “Ela gosta de sexo anal, ela gosta de sexo anal”. Via a dona Júlia na janela do apê dela e me vinha na cabeça: “Ela gosta de sexo anal, ela gosta de sexo anal”. Via a dona Júlia saindo da igreja São José e: “Ela gosta de sexo anal, ela gosta de sexo anal”. Alguém me falava da dona Júlia e eu: “Ela gosta de sexo anal, ela gosta de sexo anal”. E agora, pensando nela, lembro: “Ela gosta de sexo anal, ela gosta de sexo anal”. Tomara que goste ainda.
- Deve gostar. Com aquele rabo… Pois o Fanta Uva levava a Verinha pra casa da dona Júlia. Mas um dia alguém contou pro Piupiu, acho que foi o Cueca.
- Baita fofoqueiro, o Cueca…
- Uma mala. Aí o Piupiu foi até a casa da dona Júlia e nem bateu, foi entrando. A porta estava aberta, ele invadiu o apê berrando pela Verinha. O Fanta Uva ouviu, pulou da cama peladão e tentou segurar o Piupiu, mas o Piupiu foi mais rápido.
- O Piupiu sempre foi rápido. Voava pra o fundo e de lá cruzava de canhota. Nunca vi ninguém correr mais do que o Piupiu.
- Desta vez o Piupiu também foi rápido. Pegou um quadro de Jesus Cristo que a dona Júlia tinha na parede da sala e jogou na cabeça do Fanta Uva pelado.
- Aquele quadro do Jesus Cristo com o peito aberto, mostrando o coração?
- O próprio. Acertou bem na testa do Fanta Uva, que caiu duro e preto.
- Morto?
- Mortinho. O Piupiu foi preso. Tá no Central.
- Meu Deus… E a Verinha?
- Acabou casando com o Moléstia.
- O nosso lateral pereba?
- O próprio. Agora ele é conhecido como o maior corno da história da vila de todos os tempos.
- Não me diz. Mas ele sabe?
- Claro que sabe. Dizem que ele gosta de ver. Que se esconde no armário quando ela leva os homens pra casa. Fica lá dentro, vendo, fazendo sabe-se lá o quê.
- O Moléstia, coitado… Também, não jogava nada. Fraco no apoio, fraco na marcação… Melhor era o irmão dele, o Cinquenta e Um. Que centromédio. Um buldogue na frente da área. Tinha um pezão 48 cano longo, lembra? Dava um chutão que atravessava o campo, Jesus! Um dia o Cinquenta e Um deu um balão tão forte que a bola sumiu pra lá da Industriários. Cruzcredo, que força tinha o Cinquenta e Um. Como é que está o Cinquenta e Um?
- Não sabe o que aconteceu com o Cinquenta e Um?
- Não. O que foi agora?
- Tá abobado.
- O Cinquenta e Um?
- O próprio. Sabe aquele quadro do coração de Jesus? Pois o Piupiu, quando viu que tinha matado o Fanta Uva, atirou o quatro pela janela do apê, decerto pra se livrar das provas. O Cinquenta e Um vinha passando lá embaixo e o quadro pegou bem no alto do côco dele.
- Aí ele ficou abobado?
- Não na hora. Primeiro, um lado da cara dele preteou.
- Preteou?
- Preteou. Só um lado. O direito. Ficou primeiro azul, depois roxo, depois preto. Ele ia em médico, ele ia em macumbeiro, ele tentava de tudo e não conseguia despretear. Um dia, acordou despreteado. Só que começou perguntar cadê o Perna Gorda.
- O nosso técnico?
- O próprio. O Cinquenta e Um, agora, a única coisa que ele faz é perguntar, de um jeito meio distraído: “Cadê o Perna Gorda? Cadê o Perna Gorda?”
- O dia todo?
- O dia todo, sem parar.
- Mas nunca levaram o Perna Gorda até ele?
- É que o Perna Gorda morreu.
- O Perna Gorda???
- O próprio. De AIDS. Pegou do Sarão.
- Mas o Sarão está com AIDS???
- Não te disse? Está, coitado. Mas está controlada. Toma aqueles remédios. Aquele coquetel.
- Nossa… Bom… E de resto? Tudo bem com a turma?
- De resto, tudo bem…
- Bom… Ainda bem. Grande turma, a nossa… Tudo boa gente… Boa turma, muito boa… Hmmm… tenho que ir…
- Eu também vou indo. Vou voltar lá pra vila. Vê se aparece lá.
- Vou sim. Te ligo.
- Tá bem, então. Tchau, Chulé.
- Tchau, Próprio.

Postado por David Coimbra

Lula não é Evo

18 de dezembro de 2009 58

A revolução de Lula é o palavrão. É único. É genial. Lula poderia ser um Evo Morales. Ambos são egressos do povo mais subalterno de seus países. Lula, ex-operário, ex-retirante do Nordeste paupérrimo; Evo Morales, camponês e índio num país de índios e camponeses.

Quando Lula assumiu a presidência, as lideranças do Ocidente desenvolvido e das classes empresariais do Brasil desconfiaram dele. Temiam que fosse o que Evo Morales foi mais tarde. Mas não. Eleito, Lula fez o que faria qualquer líder do Norte nababo. Fez um governo capitalista comportado, cumpridor de regras, social-democrata.

A diferença de Lula para os governantes dos países ricos é que ele volta e meia tece uma imagem grosseira em seus discursos, ou joga bola com seus ministros, ou veste chapéus esquisitos. Ou fala palavrão. Está sempre lembrando ao mundo de que ele é “do povo”, é “autêntico”. Funciona. Quando Lula comete uma bizarrice pública, os líderes dos países ricos balançam a cabeça, sorrindo, e comentam:

— Esse Lula…

Eles o aceitam como ele é, e até o festejam. Afinal, embora ele seja “do povo”, também é um deles. É inofensivo, não é um Evo Morales, que, índio empossado na presidência da Bolívia, tenta dar a Bolívia aos índios, que são mais de 90% de seus cidadãos. Lula, ao contrário, manteve tudo como estava, e assim construiu seu prestígio internacional. Porque sua figura é imensamente sedutora: trata-se de um ser exótico, um personagem que oscila entre a rudeza brejeira e a esperteza divertida, de quem se pode esperar tudo, até o palavrão proferido em público, mas nunca algo que contrarie as regras ditadas pelos economistas mais moderados.

Lula é o sonho realizado
da intelectualidade ocidental. Na política externa, o general Geisel foi mais contestador, mais duro e mais rebelde do que o operário Lula. Na administração interna, Lula consolidou seu governo tendo a sagacidade e o bom senso de não mexer na economia, tendo a sensibilidade de incrementar uma medida humanitária de aumento de benefícios sociais, e tendo a temeridade de imitar Médici e Juscelino ao inchar a máquina pública e ao lançar um projeto desenvolvimentista.

Quando Lula deixar a presidência, o Brasil estará um pouco diferente. Ao eliminar a fome sistemática, ele deu dignidade a muitos brasileiros, ainda que isso tenha sido feito com a mera doação de dinheiro. É uma evolução. Mas os gastos de seu governo serão uma conta cara, que alguém terá de pagar. E será um retrocesso.

São mudanças, portanto. Mas poucas. Nada que assuste. Nada que um Evo Morales faria. Nada com que, imagino, sonharia um petista histórico, um Olívio, um Pont, um Koutzii, velhos companheiros do antigo Lula, que não existe mais. Claro que talvez a melhor mudança não seja mesmo a de Evo, ou a que, suponho, seria de Olívio, Pont e Koutzii. Mas Lula poderia promover uma mudança mais profunda. Na segurança pública, na previdência, na educação fundamental. Na estrutura do país, enfim. Poderia promover algo parecido com uma revolução. Lula não quis. Lula preferiu revolucionar falando palavrão.

*Texto publicado na página 2 de Zero Hora de hoje

Postado por David