A morte de Salinger fez-me lembrar de Otto Maria Carpeaux.
Carpeaux era austríaco. Até os 40 anos de idade não sabia falar português. Mas foi autor da mais importante obra sobre literatura já publicada no Brasil, entretecida por um texto tão escorreito, tão saboroso e tão consistente que rivaliza com os melhores autores analisados. Que aliás não foram poucos. Neste livro, “História da Literatura Ocidental”, Carpeaux examina a obra de nada menos do que oito mil escritores, dos antigos clássicos do teatro grego aos fundadores do novo jornalismo norte-americano. Tenho lá em casa uma edição primorosa, oito tomos encadernados em couro, o primeiro deles da espessura de um tijolo de seis furos, o último só com o índice remissivo. No penúltimo volume, Carpeaux fala de Salinger. Costura um parágrafo de três dedos de altura sobre o americano, incrusta-lhe elogios ao estilo, avança uma linha no parágrafo seguinte, e só.
Mais ou menos duas décadas depois de compor essa breve análise, lá pelos anos 70, Carpeaux escreveu novamente sobre Salinger. Foi para uma luminosa série da revista “O Cruzeiro” a respeito de grandes romances da literatura universal. Carpeaux faz a exegese de “O Apanhador no Campo de Centeio”.
E destrói o livro.
Considera-o infantil, quase irrelevante. Até o estilo, outrora incensado, merece-lhe considerações desairosas.
Entendi a crítica de Carpeaux. Porque sei quem ele foi. Imagine que esse homem aprendeu a escrever em português em um ano e, depois de ter aprendido, o fazia com a mestria de um Machado de Assis.
Carpeaux, pessimamente comparando, era o oposto de Manga, o ex-goleiro da dupla Gre-Nal. Manga saiu do Brasil para jogar no Nacional, de Montevidéu. Em solo uruguaio, ao entrar em contato com a língua de Cervantes e Penélope Cruz, ocorreu um fenômeno estranho com o goleiro: ele desaprendeu a falar o português e não aprendeu a falar o espanhol. Mesclou as línguas e passou a falar uma terceira, o manguês. Carpeaux, ao contrário, falava 11 línguas, cada qual com maior fluência, e essa capacidade o fez aprender a falar e escrever em português como se vestisse o fardão da Academia.
Um homem desse quilate não podia ter contato algum com o universo abordado por Salinger em “O Apanhador no Campo de Centeio”. Salinger escreve sobre a sociedade americana, em geral consumista, fútil e rasteira. Os dramas do protagonista de O Apanhador... não dizem nada a Carpeaux, um erudito de formação germânica, que contava ter sentado a dois metros de Kafka num café da vibrante Berlim do entreguerras, que tinha o ouvido apurado pelas sinfonias de Beethoven, que tinha o gosto literário cevado nos clássicos do Velho Mundo. Seria ilógico Carpeaux gostar do livro de Salinger.
Mas, e este mas é que importa, mas então por que Carpeaux não criticou Salinger em sua primeira análise, urdida no monumental “História da Literatura Ocidental”?
Tenho cá minha tese, reforçada pela postura de outros críticos, estes não tão instrumentados quanto Carpeaux: os críticos de futebol que desaprovaram a realização do Gre-Nal em Erechim. Durante a semana, ouvi gente reclamar que um Gre-Nal no Interior é menos seguro e mais caro do que um ocorrido na Capital.
Ora, o Gre-Nal do Interior é uma aragem de renovação que não acontecia no Campeonato Gaúcho há pelo menos 20 anos. Tirado de seu ambiente rançoso, o clássico se tornou de novo um jogo civilizado, de convivência amistosa de torcidas rivais.
Qual é, pois, o motivo da crítica? O mesmo pelo qual Carpeaux criticou “O Apanhador no Campo de Centeio”: por mau humor. Quando escreveu para O Cruzeiro, Carpeaux experimentava, no Brasil, os efeitos de uma ditadura. Justo ele, que, no fim dos anos 30, viera para o Brasil fugido de uma ditadura. Claro, o regime militar brasileiro não se comparou em rigor e crueldade ao nazismo, mas um e outro continuaram sendo... ditaduras. Um intelectual refinado como Carpeaux só pode se sentir mal em uma ditadura, só pode ficar amargo. Era como, suponho, ele se sentia, quando releu O Apanhador: sentia-se amargo. Mas o livro de Salinger, como o Gre-Nal de Erechim, não tem culpa da amargura de quem quer que seja. E um e outro, livro e jogo, seguirão suas trajetórias de sucesso. Por mais preparado que possa ser quem faz a crítica.
* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.












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