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Posts de janeiro 2010

O apanhador nos campos do Gauchão

31 de janeiro de 2010 3

A morte de Salinger fez-me lembrar de Otto Maria Carpeaux.

Carpeaux era austríaco. Até os 40 anos de idade não sabia falar português. Mas foi autor da mais importante obra sobre literatura já publicada no Brasil, entretecida por um texto tão escorreito, tão saboroso e tão consistente que rivaliza com os melhores autores analisados. Que aliás não foram poucos. Neste livro, “História da Literatura Ocidental”, Carpeaux examina a obra de nada menos do que oito mil escritores, dos antigos clássicos do teatro grego aos fundadores do novo jornalismo norte-americano. Tenho lá em casa uma edição primorosa, oito tomos encadernados em couro, o primeiro deles da espessura de um tijolo de seis furos, o último só com o índice remissivo. No penúltimo volume, Carpeaux fala de Salinger. Costura um parágrafo de três dedos de altura sobre o americano, incrusta-lhe elogios ao estilo, avança uma linha no parágrafo seguinte, e só.

Mais ou menos duas décadas depois de compor essa breve análise, lá pelos anos 70, Carpeaux escreveu novamente sobre Salinger. Foi para uma luminosa série da revista “O Cruzeiro” a respeito de grandes romances da literatura universal. Carpeaux faz a exegese de “O Apanhador no Campo de Centeio”.

E destrói o livro.

Considera-o infantil, quase irrelevante. Até o estilo, outrora incensado, merece-lhe considerações desairosas.

Entendi a crítica de Carpeaux. Porque sei quem ele foi. Imagine que esse homem aprendeu a escrever em português em um ano e, depois de ter aprendido, o fazia com a mestria de um Machado de Assis.

Carpeaux, pessimamente comparando, era o oposto de Manga, o ex-goleiro da dupla Gre-Nal. Manga saiu do Brasil para jogar no Nacional, de Montevidéu. Em solo uruguaio, ao entrar em contato com a língua de Cervantes e Penélope Cruz, ocorreu um fenômeno estranho com o goleiro: ele desaprendeu a falar o português e não aprendeu a falar o espanhol. Mesclou as línguas e passou a falar uma terceira, o manguês. Carpeaux, ao contrário, falava 11 línguas, cada qual com maior fluência, e essa capacidade o fez aprender a falar e escrever em português como se vestisse o fardão da Academia.

Um homem desse quilate não podia ter contato algum com o universo abordado por Salinger em “O Apanhador no Campo de Centeio”. Salinger escreve sobre a sociedade americana, em geral consumista, fútil e rasteira. Os dramas do protagonista de O Apanhador… não dizem nada a Carpeaux, um erudito de formação germânica, que contava ter sentado a dois metros de Kafka num café da vibrante Berlim do entreguerras, que tinha o ouvido apurado pelas sinfonias de Beethoven, que tinha o gosto literário cevado nos clássicos do Velho Mundo. Seria ilógico Carpeaux gostar do livro de Salinger.

Mas, e este mas é que importa, mas então por que Carpeaux não criticou Salinger em sua primeira análise, urdida no monumental “História da Literatura Ocidental”?

Tenho cá minha tese, reforçada pela postura de outros críticos, estes não tão instrumentados quanto Carpeaux: os críticos de futebol que desaprovaram a realização do Gre-Nal em Erechim. Durante a semana, ouvi gente reclamar que um Gre-Nal no Interior é menos seguro e mais caro do que um ocorrido na Capital.

Ora, o Gre-Nal do Interior é uma aragem de renovação que não acontecia no Campeonato Gaúcho há pelo menos 20 anos. Tirado de seu ambiente rançoso, o clássico se tornou de novo um jogo civilizado, de convivência amistosa de torcidas rivais.

Qual é, pois, o motivo da crítica? O mesmo pelo qual Carpeaux criticou “O Apanhador no Campo de Centeio”: por mau humor. Quando escreveu para O Cruzeiro, Carpeaux experimentava, no Brasil, os efeitos de uma ditadura. Justo ele, que, no fim dos anos 30, viera para o Brasil fugido de uma ditadura. Claro, o regime militar brasileiro não se comparou em rigor e crueldade ao nazismo, mas um e outro continuaram sendo… ditaduras. Um intelectual refinado como Carpeaux só pode se sentir mal em uma ditadura, só pode ficar amargo. Era como, suponho, ele se sentia, quando releu O Apanhador: sentia-se amargo. Mas o livro de Salinger, como o Gre-Nal de Erechim, não tem culpa da amargura de quem quer que seja. E um e outro, livro e jogo, seguirão suas trajetórias de sucesso. Por mais preparado que possa ser quem faz a crítica.

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

Fatos do Fake

29 de janeiro de 2010 3

Formas de crueldade

29 de janeiro de 2010 25

Dois brasileiros assaltaram um homem, dias atrás, e ele não tinha dinheiro para lhes dar, então eles o manietaram e atearam fogo em suas mãos. Isso ocorreu ainda esta semana, no interior do Estado.

Também no Interior, mais exatamente em Erechim, outros brasileiros pegaram outro homem e, por algum motivo, deceparam-lhe os dois braços e as duas pernas e o deixaram largado em um bueiro. Isso foi na semana passada.

Se lesse em um livro de história que algo desse quilate havia sido cometido na Antiguidade ou na Idade Média, suspiraria pelos tempos de trevas que já foram atravessados pela Humanidade. Mas essas barbaridades foram perpetradas agora, sob as luzes do século 21, bem aqui no Rio Grande do Sul, e os autores desses atos são brasileiros, como a maioria das pessoas que conheço.

Suponho que as vítimas desses brasileiros devam ter sofrido atrozmente, mas nem demos muita importância a elas. Mereceram citações pálidas na imprensa e no dia seguinte já estavam esquecidas. Não sei de ninguém que se comoveu pelo que passaram, ninguém que chorou por sua dor.

Há algo errado conosco.

-

Uma vez, Noé tomou um porre. Já não estava mais confinado na Arca, a havia deixado encalhada no alto do Monte Ararat, na distante Turquia. Desceu à terra, cultivou-a, plantou a vinha e fermentou o vinho. Exagerou ao experimentar sua própria produção, o venerando patriarca, e aí sabe como é: saiu dizendo para todo mundo te considero pra caramba, fez um strip e desmaiou de bêbado, peladão.

Um de seus filhos, Cam, flagrou a fiasqueira do velho, achou a maior graça e correu para contar a Sem e Jafé, seus irmãos. Sem e Jafé, porém, ficaram com pena de papai, tomaram um manto e com ele cobriram pudicamente Noé, tendo o cuidado de entrar de costas na tenda em que ele roncava, para não vê-lo nu.

Ao acordar, Noé ficou sabendo do comportamento de seus filhos. Enfureceu-se com Cam. Talvez até além da conta, suponho que por causa da ressaca de vinho, que, como se sabe, é a pior das ressacas. Esbravejou:

– Que seu filho seja escravo dos escravos de seus irmãos!

Os hebreus diziam que esse filho de Cam chamava-se Canaã, de quem descenderam os cananeus. Já os árabes dos séculos 8 e 9 garantiam que o neto amaldiçoado de Noé chamava-se Cush, que, em hebreu, quer dizer “preto”. A partir de Cush foi fundada a nação Cuxe, que era a Núbia, mais ou menos onde hoje fica o Sudão.

Essa suposta descendência forneceu aos árabes muçulmanos uma engenhosa justificativa para escravizar os negros africanos durante a Idade Média, já que os árabes, bem como os hebreus, se originaram de Sem, enquanto os indo-europeus vieram de Jafé. Logo, os negros africanos tinham mesmo de ser escravizados pelos semitas e pelos europeus – de acordo com os semitas e os europeus, claro.

Mas o que interessa agora não é a lógica escravagista, e sim a maldição de Noé. Ele a lançou sobre o filho que o expôs. Noé não tinha feito mal a ninguém, apenas havia bebido demais. Cam, no entanto, o ridicularizou e deu publicidade à humilhação do pai. Esses que filmam e fotografam com celular e expõem as pessoas na internet, esses não fazem hoje como fez o desgraçado Cam? Não merecem eles também uma maldição?

* Texto publicado hoje na página 2 de Zero Hora.

Fatos do fake

29 de janeiro de 2010 5

Fatos do fake

29 de janeiro de 2010 0

Fatos do fake

29 de janeiro de 2010 1

Fatos do Fake

28 de janeiro de 2010 1

Fatos do Fake

27 de janeiro de 2010 6

O nome do homem

27 de janeiro de 2010 7

Lembro de uma tarde de sol, estava em aula no primeiro, ou talvez segundo, no máximo terceiro ano primário. A professora virou-se de costas para nós e escreveu um nome no quadro negro, na verdade quadro verde. Guardo recordação nítida até do desenho da letra da professora. Ela escreveu o seguinte:

“EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICI”.

Depois, voltou-se para nós e disse, o toco do giz entre o polegar e o indicador:

– Este é o nome do nosso presidente!

O orgulho escorria da voz da professora e esparramava-se pelo parquê. Fiquei pensando naquele nome. Emílio Garrastazu Médici. Nosso presidente. Homem importante.

A professora começou, então, a enumerar as façanhas do Brasil regido pelo presidente Médici. As grandes obras. O desenvolvimento frenético. Aquele era um país que ia para frente.

Lembro também do nosso desfile no 7 de setembro daquele ano. Nós, que digo, éramos os alunos. Usávamos tênis Conga. Diziam que Conga dava chulé, não sei se era verdade. Talvez fosse, porque quem tinha um Conga tinha só um Conga, nenhum outro tênis. Tênis era um artigo caro, e também não havia muitas marcas à disposição: o mais barato era o Conga, depois vinha o Bamba e no alto da cadeia alimentar dos tênis reinava o Ki-Chute. Então, num colégio público como o nosso, que aliás também levava nome de presidente do regime militar, Costa e Silva, hoje chamado mimosamente de “Costinha”, não sei se o sisudo general-ditador aprovaria, então, como ia dizendo, num colégio público como o nosso todo mundo usava Conga, e o mau cheiro, se sobreviesse, era combatido com talco.

Enfim.

Não queria falar dos tênis, mas de outra parte do uniforme, o blusão de mangas compridas no qual se lia no peito, impresso em dourado sobre fundo azul:

“Estudantes do Brasil”.

Bonito aquilo, estudantes do Brasil. Sentíamos estar participando de algo grandioso. O Brasil dava a impressão de ser algo grandioso. Ou prestes a se transformar em algo grandioso.

Não se transformou.

Nada do que sentíamos correspondia à realidade. Todos os agudos males econômicos que afligiram o país nos anos 80 e foram mais ou menos corrigidos pelo Plano Real, todas as profundas misérias morais dos anos 2000, que parecem não ter correção, tudo estava sendo cevado nos anos 70. A dívida pública fermentava a inflação galopante, assim como a redução dos investimentos na educação e a lógica canalha do funcionamento da ditadura fermentavam a decadência do caráter do brasileiro. Claro, só soubemos disso mais tarde, quando não estávamos mais vivendo a época, olhando de longe, dos píncaros da perspectiva histórica.

É sempre assim, é difícil analisar o tempo em que se vive. Eric Hobsbawn já disse que o historiador não pode nunca escrever sobre sua própria época, sob pena de ser ridicularizado pela posteridade. Verdade que disse isso como uma desculpa por escrever sobre o “Breve Século 20”, o século dele, mas, ainda assim, tinha razão.

Reduzindo ao ambiente do futebol, e reduzindo ainda mais ao ambiente do futebol gaúcho, vê-se que até nesse caso faz falta a perspectiva histórica. Porque a cada começo de ano festeja-se supostos craques e imaginários supertimes. Bastam meia dúzia de jogos do Brasileirão para que se descubra que uns eram realmente supostos e outros de fato imaginários.

O Gauchão serve para que se identifique o que vai dar errado. Como o Grêmio de agora. Se o Grêmio não se fortalecer rapidamente em movimentação, em marcação, em empenho e em alma, a primeira crise do ano já tem até hora para começar: 21h30min de domingo, logo após o Gre-Nal.

*Texto publicado hoje em Zero Hora

Café TVCOM - 23/01

26 de janeiro de 2010 1

Confiram o Café TVCOM exibido neste sábado:

Não Diga Não

26 de janeiro de 2010 2

Sayão Lobato é um histórico radialista de Porto Alegre. Ele fazia um programa chamado “Não Diga Não”, em que o ouvinte tinha de conversar durante dois minutos com ele sem dizer a palavra “não”. Se conseguisse, ganhava um prêmio. No Pretinho Básico desta terça-feira nós ligamos para ele e fizemos a brincadeira com a Neila e o Doodoo. Ouça o resultado.

Fatos do Fake

26 de janeiro de 2010 3

Apresento-lhes meu fake

25 de janeiro de 2010 5

Especialmente para aqueles que não acreditavam que meu Twitter era falso, eis o verdadeiro @ddcoimbra:

O pior Grêmio do século

25 de janeiro de 2010 45

Está bem, nem é para tanto. Incrustei esse título no post para provocar o Wianey Carlet que, açodadamente, sugeriu que o time do Grêmio que começa 2010 poderia ser o melhor dos que começaram os anos do século 21, que aliás são apenas 10. Não, talvez esse time não seja o pior da década, mas é eivado de defeitos graves que me fazem afirmar peremptoriamente: Não vai dar certo. Prestou atenção? Vou repetir: Este time do Grêmio não vai dar certo. E a culpa nem é dos jogadores com menor capacidade técnica, como Ferdinando, Fábio Santos e Túlio. A culpa é dos melhores. Souza e Hugo não podem ser centro técnico de um time como o Grêmio. No máximo jogam de coadjuvantes, um pela direita, Souza, outro pela esquerda, Hugo. Se o Silas não corrigir logo esse defeito, vai iniciar sua queda ainda em seu primeiro mês de trabalho, domingo que vem, depois do Gre-Nal.

Como funciona uma clínica de cura do sexo

23 de janeiro de 2010 15

Como funcionará uma dessas clínicas que livram as pessoas do terrível vício do sexo, como aquela em que está internado o Tiger Woods, lá no Grande Irmão do Norte? Deve ser um serviço muito especializado, muito sofisticado. Porque, obviamente, é bem mais difícil convencer uma pessoa a largar o sexo do que as drogas e o álcool, por exemplo. Afinal, a maioria das pessoas não usa drogas, muitos não consomem álcool, mas sexo…

Pense nesse mundo de meu Deus. Há guerras, há terremotos, há desabamentos, há todo gênero de intempéries homicidas e mais acidentes, assassinatos, um milheiro de doenças, cofres que caem na cabeça das pessoas, balas perdidas, insetos venenosos, leões e tigres devoradores de gente. As pessoas morrem a todo instante e das mais criativas formas. E ainda assim a população do mundo continua aumentando… Por quê? Por causa da popularidade do sexo. Agora mesmo, no exato momento em que você leu o mo do mesmo ou, depois, o mo do momento, neste preciso instante alguém está chafurdando no sexo, alguma mulher está ganindo e se retorcendo de intenso e profundo prazer, algum homem está pensando: “Tenho que contar isso pros caras…”

As pessoas fazem sexo a toda hora. A verdade é que o sexo tem enorme prestígio e vasto número de adeptos, apesar dos esforços em contrário da igreja católica e das feministas. Logo, trata-se de uma tarefa titânica convencer uma pessoa de que sexo é ruim. Como eles fazem isso, os caras dessas clínicas? Como eles conseguem fazer com que alguém não tenha mais vontade de experimentar um sexinho? Suponho que a comida que eles servem lá seja miúdos. Bem sei que mulheres se tornam frígidas em churrascarias, mas nós homens, não. Então, é preciso ser uma comida radicalmente desmotivante. Miúdos. Alguém que come miúdos não sente vontade de fazer sexo por vários dias.

A arquitetura do lugar também é importante. Não pode ser inspiradora. Agora, se for você o arquiteto, lembre-se que não poucas mulheres apreciam cometer sexo em locais insólitos. Ambientes aparentemente desestimulantes são, ao contrário, estimulantes para elas, como cemitérios, elevadores, confessionários, púlpitos, guidons de bicicleta, guichês de banco, oficinas de conserto de controle remoto e faixas de segurança. O ideal é que a clínica seja parecida com um lugar no qual ninguém, absolutamente ninguém, se sinta excitado. Qual? Sei lá, um clube de mães, um aniversário de criança, uma reunião de maçons, uma palestra de consultor de empresas, um curso de excel, uma aula de contabilidade. É fundamental que as funcionárias da clínica usem tênis e aquelas calças de fundilhos frouxos que as mulheres vestem ultimamente, perfeitas para alguém enojar-se de sexo. Ou calça jeans com saia por cima e chinelos de dedo. Ou rasteirinha. E coque, claro. O som ambiente da clínica é Simone.

A mulher pronuncia FÉlicidade e SÉra, quem vai se excitar ouvindo isso? Nas TVs, TV Câmara. Filme: qualquer comédia romântica americana. Ressalte-se: adicto, depois de curado, não está curado. O Mal ainda está nele. É como o viciado em álcool, que, em abstinência, não pode nem comer um bombom com licor, ou voltará a beber. Assim, Tiger, o viciado em sexo, não pode afagar um joelho, não pode passar pela Plataforma de Atlântida, não pode ver Malhação. Resistirá, o maior golfista do mundo? Um homem com tamanha fama e tamanha conta bancária é capaz de resistir às tentações? Espero que sim. Estou aqui, torcendo por sua cura, para que Tiger, finalmente, se livre do monstro do sexo e mantenha-se limpo e intocado para todo, todo, todo o sempre.

*Texto publicado na página 35 da Zero Hora dominical.