Tamerlão tinha o hábito de derramar prata derretida na garganta dos seus inimigos. Nunca entendi isso. Por que prata? Água quente, por exemplo, também dói, e sai muito mais em conta. Mas, não. Era só prata, prata, prata.
Tamerlão não economizava, quando o assunto era execuções sádicas.
Tamerlão gostava de intitular-se “O Flagelo de Deus”, como Gengis Khan antes dele e, antes ainda, Átila, o Huno. Tamerlão, inclusive, se dizia parente distante de Gengis Khan. Não era, mas quem haveria de contestá-lo?
Tamerlão aterrorizou o mundo durante a segunda metade do século 14. Sua política era exatamente esta: a do terror. Quando atacava uma localidade qualquer, esperava rendição incondicional. Se houvesse resistência, vae victis, ai dos vencidos, como havia dito Breno em bom latim, ao saquear Roma. A vingança mongólica era crudelíssima. Uma vez, ao invadir certa cidade asiática, Tamerlão mandou que cada um de seus mongóis lhe trouxesse duas cabeças masculinas a fim de empilhá-las em pirâmide na praça principal, prática que, aliás, já havia sido muito empregada por Gengis Khan dois séculos atrás. Assim, os soldados saíram cortando pescoços. Decepa daqui, decepa dali, decepa acolá, acabou faltando cabeça de homem. O jeito foi pegar mulheres, raspar-lhes as cabeças e apresentá-las ao chefe como se fossem de homem.
Durante outra invasão, ao deparar com inimigos mais renitentes, Tamerlão ficou irritado com a teimosia dos adversários e, como punição, emparedou duas mil pessoas vivas em uma torre. Os gritos e os gemidos dos supliciados foram ouvidos por dias, nas imediações.
Os líderes de uma cidade assediada tentaram comover Tamerlão apelando para seus hipotéticos sentimentos paternos. Reuniram todas as crianças pequenas do lugar e as levaram para um monte, imaginando que a visão dos inocentes desprotegidos amolentaria o coração do bárbaro. Tamerlão ordenou que sua cavalaria pisoteasse os bebês até a morte.
Não era bacana ser inimigo de Tamerlão.
Vivesse hoje e fosse dirigente de futebol, ele seria um Fernando Carvalho. Não que Fernando Carvalho seja cruel, mas ele também não manda flores para a cova do inimigo. Fernando Carvalho começou a reconstrução do Inter ao compreender que havia um único adversário a ser batido: o Grêmio. Sabia, Fernando Carvalho, que só derrotando o Grêmio, solapando-o, reduzindo seu prestígio, só assim o Inter cresceria. E foi o que Fernando Carvalho fez – para o que, é verdade, contou com o auxílio luxuoso de alguns dirigentes do Grêmio.
Mas, como todo conquistador, Fernando Carvalho sabe que, às vezes, ele tem de reprimir seu impulso belicoso para dar lugar ao bom senso e à cordialidade. É por isso que, urbanamente, sensatamente, ele estará no Estádio Olímpico neste domingo, para entregar a taça que leva o seu nome ao vencedor do turno, ainda que o vencedor seja o Grêmio.
Ponto para Fernando Carvalho.
Tamerlão também faria isso. Sua crueldade era mais estratégia do que traço de caráter. Cronistas medievais atestam que ele era um homem que valorizava a cultura. Antes de liberar a pilhagem, postava sentinelas às portas das casas de artistas, artesãos, escritores e historiadores, protegendo-os da rapacidade da soldadesca. Depois, os enviava para trabalhar em sua capital, Samarcanda, cidade que fica onde hoje é o Uzbequistão.
O lema de vida de Tamerlão, inclusive, poderia servir de dístico para qualquer intelectual moderno. Estava gravado em seu sinete de governo: “rasti rusti” – em turco, “a verdade é segurança”.
Certa feita, ao tomar a cidade de Chiraz, Tamerlão chamou à sua presença Hafiz, o maior poeta da Pérsia. Hafiz apresentou-se, cheio de temor. Tamerlão revelou que apreciava poesia, mas acrescentou estar deveras agastado com um verso escrito pelo poeta. O seguinte:
“Se aquela ingrata turca de Chiraz em suas mãos meu coração tomara,
Eu daria, pelo sinal do rosto dela, Samarcanda ou Bucara”.
Após declamar os versos, Tamerlão esbravejou:
– Então, gasto tempo, esforço e sangue para dar segurança a estas cidades, e você pretende trocá-las pela pinta do rosto de uma jovem?!?
Hafiz rebateu, sem vacilar:
– Essa minha generosidade excessiva vive me causando problemas...
Tamerlão riu à larga com a tirada e, depois de cumprimentar o poeta, despediu-o com presentes dignos de rei.
Grandes conquistadores têm senso de humor.
















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