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Posts de fevereiro 2010

Não mande flores para o inimigo

28 de fevereiro de 2010 10

Tamerlão tinha o hábito de derramar prata derretida na garganta dos seus inimigos. Nunca entendi isso. Por que prata? Água quente, por exemplo, também dói, e sai muito mais em conta. Mas, não. Era só prata, prata, prata.

Tamerlão não economizava, quando o assunto era execuções sádicas.

Tamerlão gostava de intitular-se “O Flagelo de Deus”, como Gengis Khan antes dele e, antes ainda, Átila, o Huno. Tamerlão, inclusive, se dizia parente distante de Gengis Khan. Não era, mas quem haveria de contestá-lo?

Tamerlão aterrorizou o mundo durante a segunda metade do século 14. Sua política era exatamente esta: a do terror. Quando atacava uma localidade qualquer, esperava rendição incondicional. Se houvesse resistência, vae victis, ai dos vencidos, como havia dito Breno em bom latim, ao saquear Roma. A vingança mongólica era crudelíssima. Uma vez, ao invadir certa cidade asiática, Tamerlão mandou que cada um de seus mongóis lhe trouxesse duas cabeças masculinas a fim de empilhá-las em pirâmide na praça principal, prática que, aliás, já havia sido muito empregada por Gengis Khan dois séculos atrás. Assim, os soldados saíram cortando pescoços. Decepa daqui, decepa dali, decepa acolá, acabou faltando cabeça de homem. O jeito foi pegar mulheres, raspar-lhes as cabeças e apresentá-las ao chefe como se fossem de homem.

Durante outra invasão, ao deparar com inimigos mais renitentes, Tamerlão ficou irritado com a teimosia dos adversários e, como punição, emparedou duas mil pessoas vivas em uma torre. Os gritos e os gemidos dos supliciados foram ouvidos por dias, nas imediações.

Os líderes de uma cidade assediada tentaram comover Tamerlão apelando para seus hipotéticos sentimentos paternos. Reuniram todas as crianças pequenas do lugar e as levaram para um monte, imaginando que a visão dos inocentes desprotegidos amolentaria o coração do bárbaro. Tamerlão ordenou que sua cavalaria pisoteasse os bebês até a morte.

Não era bacana ser inimigo de Tamerlão
.

Vivesse hoje e fosse dirigente de futebol, ele seria um Fernando Carvalho. Não que Fernando Carvalho seja cruel, mas ele também não manda flores para a cova do inimigo. Fernando Carvalho começou a reconstrução do Inter ao compreender que havia um único adversário a ser batido: o Grêmio. Sabia, Fernando Carvalho, que só derrotando o Grêmio, solapando-o, reduzindo seu prestígio, só assim o Inter cresceria. E foi o que Fernando Carvalho fez – para o que, é verdade, contou com o auxílio luxuoso de alguns dirigentes do Grêmio.

Mas, como todo conquistador, Fernando Carvalho sabe que, às vezes, ele tem de reprimir seu impulso belicoso para dar lugar ao bom senso e à cordialidade. É por isso que, urbanamente, sensatamente, ele estará no Estádio Olímpico neste domingo, para entregar a taça que leva o seu nome ao vencedor do turno, ainda que o vencedor seja o Grêmio.

Ponto para Fernando Carvalho.

Tamerlão também faria isso. Sua crueldade era mais estratégia do que traço de caráter. Cronistas medievais atestam que ele era um homem que valorizava a cultura. Antes de liberar a pilhagem, postava sentinelas às portas das casas de artistas, artesãos, escritores e historiadores, protegendo-os da rapacidade da soldadesca. Depois, os enviava para trabalhar em sua capital, Samarcanda, cidade que fica onde hoje é o Uzbequistão.

O lema de vida de Tamerlão, inclusive, poderia servir de dístico para qualquer intelectual moderno. Estava gravado em seu sinete de governo: “rasti rusti” – em turco, “a verdade é segurança”.

Certa feita, ao tomar a cidade de Chiraz, Tamerlão chamou à sua presença Hafiz, o maior poeta da Pérsia. Hafiz apresentou-se, cheio de temor. Tamerlão revelou que apreciava poesia, mas acrescentou estar deveras agastado com um verso escrito pelo poeta. O seguinte:

“Se aquela ingrata turca de Chiraz em suas mãos meu coração tomara,
Eu daria, pelo sinal do rosto dela, Samarcanda ou Bucara”.

Após declamar os versos, Tamerlão esbravejou:

– Então, gasto tempo, esforço e sangue para dar segurança a estas cidades, e você pretende trocá-las pela pinta do rosto de uma jovem?!?

Hafiz rebateu, sem vacilar:

– Essa minha generosidade excessiva vive me causando problemas…

Tamerlão riu à larga com a tirada e, depois de cumprimentar o poeta, despediu-o com presentes dignos de rei.

Grandes conquistadores têm senso de humor.

Fatos do fake

27 de fevereiro de 2010 4

Pela extinção da EPTC

26 de fevereiro de 2010 49

Nada pessoal. Penso que a EPTC deva ser extinta, mas não sou contra a empresa, nem desgosto dos azuizinhos, embora conheça gente com ganas de um dia transformar um azulzinho numa pasta de carne e sangue rojada ao meio-fio. Eu não. Sempre fui bem tratado por azuizinhos nos raros contatos que tive com eles. Até esbarrei em alguns tolerantes – a tolerância, você sabe, é a virtude dos sensatos, dos bem-humorados. Em outra palavra, dos inteligentes. Logo, os tolerantes azuizinhos com que deparei devem ser bem fornidos desses predicados, o que talvez até seja fruto de algum incentivo oficial da empresa, curso, recomendação, sei lá.

Ponto para a empresa.

Mas ela deveria ser extinta.

Ou muito reduzida.

Uma das razões é o fato de a EPTC ser uma experiência frustrada. Poderia ter dado certo, não deu. Porque o porto-alegrense não gosta da atuação da EPTC. Claro, haverá quem goste: os milhares de funcionários da empresa, seus amigos, seus parentes, talvez até um ou outro cidadão isento. Mas, pela minha avaliação empírica, epidérmica, subjetiva e eminentemente pessoal, a maioria da população não gosta. Ao menos não gostam as pessoas com quem falo, que nem são tão poucas.

Só que, como disse, trata-se de uma avaliação empírica, epidérmica, subjetiva e eminentemente pessoal. Nenhum desses adjetivos se aplica ao segundo motivo pelo qual a EPTC deve ser extinta como fosse o pássaro dodô. Um motivo relevante.

A segurança pública.

Antes de 1998, não havia EPTC. A fiscalização do trânsito cabia à Brigada Militar. Óbvio: a EPTC tem outras funções, mas elas podem ser exercidas por uma secretaria. Atenho-me à fiscalização. A Brigada Militar não queria exercer esse trabalho. Quando lhe foi suprimido, a Brigada festejou: em tese, restaria mais tempo e mais pessoal para as atividades de segurança pública propriamente ditas: a repressão, o combate ao crime.

Não foi o que aconteceu. Sem a exigência de controlar o trânsito, a presença da Brigada nas ruas tornou-se rarefeita. Sente ao volante do seu carro e saia pela cidade. Você vai cruzar por viaturas de azuizinhos em ruas vicinais e avenidas, vai se espantar com azuizinhos de campana atrás de árvores e debaixo dos viadutos, vai ver azuizinhos espreitando carros estacionados sem permissão na área azul. Todos esses azuizinhos você encontrará; não encontrará nenhum brigadiano.

Imagine agora que, em vez de mil azuizinhos, Porto Alegre dispusesse de mil brigadianos controlando o trânsito. Que, em vez das viaturas da EPTC, rodassem pela cidade viaturas da Brigada.

É a segurança ostensiva, tanto reivindicada pela população.

E que funciona, está provado.

Por que não repassar os recursos da EPTC à Brigada, num convênio entre a prefeitura e o Estado? Por que não treinar os brigadianos para o controle do trânsito? Sob o ponto de vista legal, é possível. Sob o ponto de vista da funcionalidade, factível. Sob o ponto de vista da sensatez, recomendável.

* Texto publicado hoje em Zero Hora

Neanderthal, um solteiro feliz

25 de fevereiro de 2010 37

A HISTÓRIA DO MUNDO – 1º CAPÍTULO

Mas como foi que derrotamos os neanderthais? Trata-se de profundo mistério. Eles tinham tudo para nos vencer. Nós, que digo, somos os sapiens sapiens, os “homens duplamente sábios”. Verdade que fomos nós mesmos que nos pespegamos esse nome, mas, enfim, talvez mereçamos. Afinal, só nós sobramos dentre todas as espécies de homos, os pitecos, os erectus, os habilis e tantos mais. Logo, se o critério for a evolução de resultados, somos mesmo duplamente sábios.

Só que bater os pitecos, os habilis e os erectus foi barbada. Alguns deles se erguiam a pouco mais de metro de altura, a maioria possuía uns cerebrinhos deste tamanho e, o principal, nenhum deles desenvolveu a mais eficiente de todas as ferramentas humanas: a linguagem.

Mas com os neanderthais era diferente.

Com os neanderthais o arroz era mais solto.

Um neanderthal, imagine um vindo em sua direção: não muito alto, mas também não se podia dizer que fosse um Romário: 1m65cm, em média. Forte, retaco e compacto como um buldogue, uns 100 ou 120 quilos de músculos poderosos envolvendo ossos sólidos. Feito um Mike Tyson, só que mais largo e mais baixo. E de pele leitosa – peles claras absorvem melhor os raios de sol, providencial para quem vive em lugares frios como a Alemanha, onde foi descoberto o primeiro esqueleto neanderthal, mas um problema se você precisa viver a vida praiana sob uma canícula de 40°C em Cidreira e não tem sempre à mão o protetor solar fator 60.

Esse neanderthal que avança com resolução ameaçadora para você, ele talvez leve à mão um instrumento cortante, um machado de pedra ou uma lança de sua própria lavra – ele é engenhoso, ele constrói. E o mais relevante: alguns cientistas especulam que o neanderthal sabia falar.

No entanto, mesmo munido de todos esses equipamentos, o neanderthal sumiu. Por 70 ou 80 mil anos, conviveu conosco – os outros homos já haviam se evanescido na poeira dos milênios. Éramos nós e eles, ninguém mais.

Importante: o neanderthal não foi nosso antepassado. Ele era, simplesmente, diferente. Outro tipo de homem, que não foi absorvido, que não se mesclou ao homem moderno; que foi extinto.

Isso é de fato intrigante. O gênero humano existe há bem 3 milhões de anos, ou mais. Mas aqueles antigos hominídeos foram se extinguindo, como se extinguiram os dinossauros, os pterodáctilos e o pássaro dodô. O que me leva a concluir que a extinção de algumas espécies é um processo natural da evolução. Será que devemos tentar mesmo preservá-las? Não tenho certeza a respeito de todas. De algumas, sim. O bacalhau. Dizem que o bacalhau está desaparecendo das águas geladas do Mar do Norte, na branca Noruega. Não quero viver num mundo sem bacalhau. Não quero me contentar com filezinho de cação salgado ao invés do bacalhau à Gomes de Sá.

Seja como for, suponho que algumas espécies tinham mesmo de se retirar do planeta. Como seria o mundo hoje, se todos os tipos de homem tivessem sobrevivido? Como seria a nossa convivência com homúnculos de um metro de altura que mal conseguissem articular uma frase? Seriam por nós considerados humanos? Haveria possibilidade de nos cruzarmos com eles?

Com o neanderthal isso pode ter ocorrido. Alguns cientistas desconfiam que haja traços de neanderthal em certas pessoas do século 21. Quer dizer: pode ter havido relação amorosa entre um neanderthal e uma sapiens sapiens. O contrário, um sapiens sapiens pegar uma neanderthal, duvido que ocorresse. Um sapiens sapiens, delgado, algo quebradiço, não se agradaria de uma mulher tão mais vigorosa do que ele. E ela tampouco se sentiria atraída por aquele ser frágil, quem sabe até um antepassado de decorador. Mas um neanderthal encantar uma sapiens sapiens, isso é totalmente lógico. Conheço muitas mulheres que adorariam se repoltrear com um neanderthalão. Imagine o drama. Os pais da sapiens sapiens não aceitando a relação, dizendo que o neanderthal não era homem para ela. O filho desta união sendo discriminado na caverna. Realmente, acredito nessa possibilidade. Deve haver descendentes de neanderthais por aí. Suspeito de um antigo zagueiro do Guarany de Bagé e do pai de uma ex-namorada minha.

De qualquer maneira, direta ou indiretamente, seja pela guerra, seja pela consumpção de recursos vitais, nós, sapiens sapiens, exterminamos com os neanderthais. Há mais ou menos 280 ou 290 séculos que não se tem notícia do neanderthal, o que é um zapt-zupt em termos de tempo biológico.

Como conseguimos?

Se não foi a força física, se não foi a inteligência superior, se não foi a habilidade da fala, se nada disso nos auxiliou a derrotar os neanderthais, o que nos deu tal vantagem?

Direi.

As nossas fêmeas.

Os neanderthais eram muito mais masculinos do que nós. Um neanderthal, o que ele fazia era sair em bandos de machos para caçar, pescar, arrastar uma fêmea pelos cabelos, pegá-la no colo, jogá-la no solo e fazer dela mulher. O neanderthal não arava a terra, não acumulava e não constituía família. Um neanderthal aproveitava o dia, não se preocupava com o futuro, não meditava sobre a existência, não se angustiava ou ficava ansioso.

O neanderthal era um homem como um homem deve ser.

Um neanderthal jamais iria ao analista “para se conhecer melhor”. Um neanderthal, se lesse Virginia Wolf, ficaria mareado. Um neanderthal não beberia clericot.

Nós, os sapiens sapiens, por que fazemos tudo isso? Por causa das mulheres sapiens sapiens. As neanderthais decerto adoravam sexo melequento e grupal, no lodo dos rios, no alto dos cômoros, na imensidão da savana. As sapiens sapiens é evidente que não. O que as sapiens sapiens queriam era criar os filhos. Para isso precisavam constituir famílias. Para isso precisavam domesticar os machos.

E elas o fizeram.

Enquanto os homens saíam para caçar, pescar e coletar, elas cuidavam das crianças. No recesso do lar ancestral, elas tiveram tempo para domesticar alguns animais que os homens haviam trazido para o abate e para observar como uma semente, rojada ao solo, cresce, transforma-se em planta adulta e dá frutos de comer. As mulheres, então, ensinaram aos homens as facilidades da criação dos animais em cativeiro, tornando prescindíveis as divertidas e perigosas caçadas. Inventaram a agricultura, tornando impossíveis os alegres deslocamentos por serras, praias e florestas. Fundaram a Civilização, enfim, e nos deram a política, a economia e os esportes para nos distrair.

Tudo isso elas planejaram, mas havia ainda um obstáculo a ser transposto: o neanderthal. A liberdade máscula de um neanderthal era um péssimo exemplo. Como se ele fosse uma espécie de solteiro das idades primevas. Você já notou como um homem solteiro, que gosta da vida de solteiro, perturba as mulheres casadas? O objetivo de todas as mulheres é casar todos os homens, é reduzi-los à mansa submissão dos domingos em frente à TV, dos jantares com casais, das festas de aniversário de crianças. Um homem solteiro, satisfeito com a solteirice, que se diverte e ri e bebe com os amigos e cativa outras mulheres e não reclama da solidão, esse homem é o fracasso das mulheres. Foi por isso que elas inventaram o amor romântico. Uma invenção recente, aliás. O amor romântico deve o seu prestígio à Idade Média, quando o cristianismo temperou o sexo com a culpa e elevou o espírito em detrimento da carne. O cristianismo tornou vulgar o prazer e sublime o sentimento. É a ideologia que embala as almas norte-americanas e rege o mundo do século 21.

Veja os filmes no cinema. Ouça as músicas no rádio. De quem falam uns e outras? Do amor romântico. Nunca, na história da humanidade, o amor romântico foi tão incensado. Transformou-se em uma das formas, senão a principal forma de dar sentido à vida humana neste Vale de Lágrimas.

Bem. Um neanderthal não precisava procurar o sentido da sua vida, porque o sentido da sua vida era viver. Ele comia, ele dormia, ele se divertia com os amigos, ele possuía as mulheres que desejava. Um neanderthal era um solteiro!

Para as sapiens sapiens, um neanderthal, como um solteiro, urgia ser eliminado. Assim, as sapiens sapiens incitaram os homens sapiens sapiens a se organizar para acabar com os neanderthais.

Então, volto à pergunta com a qual abri o texto:

Como nós, sapiens sapiens, conseguimos derrotar os mais robustos neanderthais?

Responderei no próximo capítulo!

Leia também:
- Ajude o blogueiro a contar a História do mundo

A História do mundo e o sentido da vida

25 de fevereiro de 2010 8

Decidi que o livro que vamos escrever juntos, eu e vocês, será ainda mais pretensioso. Não contará apenas a história do mundo: descobrirá também o sentido da vida. Assim, o título será precisamente esse:

“A História do Mundo e o Sentido da Vida”.

Dará certo.

Conseguiremos.

Prova? Antes mesmo de tecer o primeiro capítulo, a ideia já funcionou. Escrevi um texto sobre o neanderthal e os leitores forneceram preciosas contribuições. Por isso, resolvi aproveitar o texto escrito e publicado. Segui o princípio que sigo na cozinha, o aproveitamento de restos. Tenho apreço especial por cozinhar com sobras de refeições. O carreteiro feito com a picanha e o salsichão do churrasco do dia anterior. A massa de forno que já foi a carbonara do meio-dia.

Essas coisas.

Aproveitamento de sobras, sim senhor.

Então, tomo o texto já publicado e o refaço e o aumento e o burilo e tento dar-lhe novo lustro. Mais: valho-me dos comentários ilustrativos dos inteligentes leitores. Jorge, por exemplo, disse que o neanderthal extinguiu-se por si próprio. Talvez tenha sido assim. Talvez não. Os cientistas não têm certeza de como o neanderthal desapareceu de sob o sol. Logo, minha tese pode ser a correta. Modestamente.

Já Joubert comenta que o neanderthal só existiu na Europa. Não é verdade. Claro, o neanderthal foi encontrado na Europa. Por esse motivo ele se chama neanderthal, o vale onde foram desencavados os primeiros ossos conhecidos da espécie, no século de 19. Esse lugar, que por uma coincidência feliz significa “Vale do Homem Novo”, situa-se na fria Alemanha, onde hoje fica o estado da Renânia do Norte. O nosso amigo neanderthal viveu lá durante um dourado período que se estendeu mais ou menos de 300 mil anos Antes de Cristo a 30 mil anos Antes de Cristo. Bons tempos. Mas neanderthal não se restringiu àquela área. Espraiou-se por toda Europa, pela Ásia, pelo norte da Península Arábica e possivelmente vagou pela mãe África das savanas e dos Big Five.

Dê uma lida no primeiro capítulo do nosso livro. Repare nas semelhanças e nas diferenças entre os dois textos. O que foi aproveitado, o que foi rejeitado, o que se modificou. Constate como o aproveitamento de restos pode ser apetitoso. E corrija-me, se estiver errado.

Fatos do fake

24 de fevereiro de 2010 0

A primeira de todas as guerras

24 de fevereiro de 2010 38

Mas como foi que derrotamos os neanderthais? Profundo mistério. Eles tinham tudo para nos vencer. Nós, que digo, somos os sapiens sapiens, os “homens duplamente sábios”. Verdade que fomos nós mesmos que nos demos esse nome, mas, enfim, talvez mereçamos. Afinal, só nós sobramos dentre todas as espécies de homos, os pitecos, os erectus, os habilis e tantos mais. Logo, se o critério for a evolução de resultados, somos mesmo duplamente sábios.

Só que bater os pitecos, os habilis, os erectus e outros que tais foi barbada. Alguns se erguiam a pouco mais de metro de altura, a maioria possuía uns cerebrinhos deste tamanho e, o principal, nenhum deles desenvolveu a mais eficiente de todas as ferramentas humanas: a linguagem. Mas com os neanderthais era diferente.

Um neanderthal, imagine um vindo em sua direção: 1m65cm de altura, forte, retaco, compacto como um buldogue, uns 100 quilos de músculos poderosos e ossos sólidos. A pele leitosa – peles claras absorvem melhor os raios de sol, providencial para quem vive em lugares frios como a Alemanha, onde foi descoberto o primeiro esqueleto neanderthal, mas um problema se você precisa viver a vida praiana sob uma canícula de 40°C e não tem sempre à mão o protetor fator 60.

Esse neanderthal que avança com resolução ameaçadora para você, ele talvez leve à mão um instrumento cortante de sua lavra – ele é engenhoso, ele constrói. E o mais relevante: cientistas especulam que sabia falar.

No entanto, mesmo com todos esses equipamentos, o neanderthal sumiu. Por 70 mil anos, conviveu conosco – os outros homos já haviam se esvanescido na poeira dos milênios. Éramos nós e eles. Importante: o neanderthal não foi nosso antepassado. Era, simplesmente, diferente. Outro tipo de homem, que não foi absorvido; foi extinto.

Direta ou indiretamente, seja pela guerra, seja pela consumpção de recursos vitais, nós, sapiens sapiens, exterminamos os neanderthais. Há mais ou menos 280 ou 290 séculos que não se tem notícia do neanderthal, o que é um nada em termos de tempo biológico.

Como conseguimos?

Direi.

Foram as nossas fêmeas.

Os neanderthais eram muito mais masculinos do que nós. Um neanderthal, o que ele fazia era sair em bandos de machos para caçar, pescar, arrastar as fêmeas pelos cabelos, pegá-las no colo, jogá-las no solo e fazer delas mulher. O neanderthal não arava a terra, não acumulava e não constituía família. Um neanderthal aproveitava o dia, não se preocupava com o futuro, não meditava sobre a existência, não se angustiava.

O neanderthal era um homem como um homem deve ser.

Um neanderthal jamais iria ao analista “para se conhecer melhor”. Um neanderthal, se lesse Virginia Wolf, ficaria mareado. Um neanderthal não beberia clericot.

Nós, os sapiens sapiens, por que fazemos tudo isso? Por causa das mulheres sapiens sapiens. As neanderthais decerto adoravam sexo melequento e grupal, no lodo dos rios, no alto dos cômoros, na imensidão da savana. As sapiens sapiens é evidente que não. O que as sapiens sapiens queriam era criar os filhos. Para isso precisavam constituir famílias. Para isso precisavam domesticar os machos.

E elas o fizeram.

Impingiram-nos as facilidades da criação dos animais para o abate, dispensando assim as divertidas e perigosas caçadas; inventaram a agricultura, terminando com os alegres deslocamentos por serras, praias e florestas; fundaram a Civilização, e nos deram as cidades para nos distrair.

Tudo isso elas planejaram, mas havia ainda um obstáculo a ser transposto: o neanderthal. A liberdade máscula de um neanderthal era um péssimo exemplo, como se ele fosse uma espécie de solteiro das idades primevas. Um neanderthal, como um solteiro atual, urgia ser eliminado. Assim, as mulheres sapiens sapiens incitaram os homens sapiens sapiens a se organizar para acabar com os neanderthais. Bem armados, bem nutridos, unidos e articulados, os sapiens sapiens liquidaram com os neanderthais e a vida masculina sobre a Terra.

Hoje, o que nos resta?

O futebol.

O futebol é o nosso consolo, o nosso refúgio em um tempo em que os homens escrevem sobre os próprios sentimentos e matam por amor. No futebol, os homens agem como os velhos neanderthais, como se ainda saíssem pela floresta para a feliz caçada ao mamute, como se só precisassem coletar quando tivessem fome, como se ninguém fosse de ninguém. O futebol é uma representação da vida gregária, perigosa e leal dos tempos imemoriais.

O futebol é um dos nossos escassos momentos de fuga da Civilização feminina.

Por isso é suspeita a invasão de mulheres no ambiente do futebol. Árbitras, bandeirinhas ou presidentas, ainda que suas pernas sejam longas e reluzentes, elas são perigosas. O que elas pretendem é a vigilância solerte dos últimos resquícios de um mundo que não existe mais. O mundo livre dos neanderthais.

A História do Mundo

23 de fevereiro de 2010 18

Como este é um blog imodesto, decidi escrever a história do mundo. Bem, não todo o mundo. Apenas a história do homem sobre o mundo ou debaixo do sol, como gostava de dizer o Eclesiastes.

Não sozinho, porém.

Os leitores sábios, que são tantos, me ajudarão.

Em breve, publicarei o primeiro capítulo dessa já tão longa história, um que remonta há 100 mil anos. Se você, lindo leitor, tiver uma contribuição inteligente ou interessante, se tiver uma correção a fazer ou uma observação que valha a pena ser desenvolvida, eu o farei no capítulo seguinte.

E assim sucessivamente, do paleolítico a Barack Obama.

Talvez consiga terminar em um ou dois anos, talvez descubra o sentido da vida, talvez tão-somente me divirta, não sei, vamos ver.

Aguarde o próximo post.

Folhetim polêmico

22 de fevereiro de 2010 130

O folhetim “Apalparam as Costas de Bel” motivou protestos indignados de feministas e defensores da moral.

Um outro folhetim um pouco mais, digamos, vibrante de pulsões está prestes a ser publicado.

Mas será que devo?

Os leitores nao ficarão fulos?

O que você acha? A história da Bel foi mesmo pornográfica, como alguns acusam?

Dúvidas. Ajude-me a resolvê-las!

Fatos do Fake

19 de fevereiro de 2010 10

Apalparam as costas de Bel - Último capítulo

19 de fevereiro de 2010 33

Outra vontade que se derramava alma afora de um dos condenados do elevador enguiçado era a de Lili.

O que Lili queria?

Lili queria bater em quem lhe batera. Pois bateu. Atingiu o supervisor Noel com um soco bem no meio do nariz.

Ele se curvou gemendo e, no movimento, encostou-se em Rafael, que, no afã de acoplar-se em Lili, acoplou-se no supervisor. Encaixou-se em Noel como se fosse um cachorro possuindo uma cadela no cio, e ganiu:

— Acoplei! Gostosa! Acoplei! Gostosa! Acoplei! Acoplei! Acoplei!

Foi quando se romperam em definitivo todos os freios da civilização. Tudo contribuiu para que as normas de convívio social se diluíssem: o confinamento em espaço tão limitado, a proteção da escuridão e sobretudo aquele grito de me apalpa!, me apalpa!, um grito que anunciou o cruzamento do Rubicão da moral, um grito a dar a deixa de que todos ali podiam fazer o que ninguém pode fazer: o que tinham vontade de fazer.

E então a bunda de ferro de Bruna foi alisada, beliscada e, o impensável, mordida. Bruna, ao contrário de tirar a retaguarda do raio de ação do mordedor-beliscador-alisador, empinou-a mais, sorveu o prazer que aquelas mãos, aqueles dentes e aquela língua lhe davam, mas também golpeou com sua bolsa os flancos de alguém, não sabia quem, ela queria era fazer algo a respeito, e fazia: batia. Mas não no mordedor-beliscador-alisador, e sim no supervisor Noel, que naquele instante também apanhava de Lili e era agarrado por Rafael, o virgem, que o acolplara, e, em meio a tudo isso, alguém, ninguém soube quem, gemia:

— Me bate! Me bate!

Já o contador Ilson, ele conseguiu: afagou as costas de Bel, afagou-as com vontade e sofreguidão, prensando-a contra a porta do elevador, impedindo seus movimentos, quase que a possuindo à força, enquanto ela repetia:

— Me apalpa… Me apalpa…

Era demais: havia quatro mãos a apalpar as costas de Bel, quatro mãos que ora se roçavam, dedos sobre dedos; ora entravam em luta, uma tentando afastar a outra; mãos que a princípio disputaram aquelas costas, mas que logo entraram em um acordo implícito e mudo e concordaram em partilhá-la e aproveitaram cada centímetro daquelas costas, prensaram Bel, afofaram Bel, tomaram Bel, e Bel:

— Me apalpa…

Foi então que a energia voltou e, com a energia, a luz e, com a luz, a realidade insossa.

A porta do elevador se abriu. E as testemunhas do lado de fora viram uma cena dantesca: homens e mulheres comportando-se como se tivessem retornado a um tempo sem normas, sem leis, sem roupas e sem moral. Homens e mulheres que, por alguns segundos, deixaram-se possuir por seus desejos, realizaram-nos, fizeram apenas o que tinham vontade de fazer.

E foi horrível.

No momento em que a luz da Civilização incidiu sobre eles, eles compreenderam o que havia acontecido, no que tinham se transformado. Sentiram vergonha, deslizaram silenciosos para o mundo exterior, voltaram para as suas casas. E nunca mais falaram disso.

FIM

Apalparam as costas de Bel - Penúltimo capítulo

18 de fevereiro de 2010 10

E então, como todos ali uivavam e gemiam, Bel afrouxou a vigilância de esposa e colega de escritório, a vigilância de uma educação pequeno burguesa, cristã, bem-comportada, e falou o que tinha vontade de falar. Falou baixinho, num mínimo gemido:

— Me apalpa…

Um sussurro, só, mas audível naquele ambiente tão restrito. Todos ouviram, inclusive o supervisor Noel, que se ouriçou, os instintos de macho vibrando com o perigo. Rugiu, ameaçador, sem nem saber para quem rugia:

— Larga a minha mulher!

Minha mulher. Era fundamental frisar a posse, mesmo que não soubesse a quem se dirigia: MINHA mulher. Enquanto falava, Noel virou-se para tentar atacar o suposto rival, e seu movimento brusco fez com que os corpos novamente trocassem de posição no elevador.

— Larga a minha mulher! — repetiu, tentando desferir um tapa no bolinador desgranido, mas acertando em um ombro desconhecido, gerando um ai fino, um ai de moça. Noel se assustou, ao compreender que errara o alvo.

No mesmo instante, André, agora menos irritado e mais decidido a aproveitar-se da situação, tomou com a mão direita um braço, tentando tomar o de Bel. Não era o de Bel, era o de Joana. André sentiu-lhe o cheiro quente de mulher e, mais torcendo que fosse do que tendo certeza de que era Bel, puxou a fêmea para si e murmurou, entre dentes:

— Deliciosa…

E beijou-a na boca. Era mais uma vontade que se realizava.

CONTINUA…

Fatos do Fake

17 de fevereiro de 2010 5

Apalparam as costas de Bel - 8° capítulo

17 de fevereiro de 2010 3

André esticou o braço para tocar em Bel, mas naquele instante o ombro de Rafael o deslocou. Já bastante irritado por sua paixão frustrada, por estar apertado, por estar vivo, André gritou:

— Ei!

E reagiu.

Empurrou quem o empurrava. Ou, pelo menos, achou que estava empurrando quem o empurrava. Não estava. Empurrou Lili, que, inadvertidamente, empurrou Noel, que empurrou Bruna, que empurrou Noel de volta, que empurrou Joana, que empurrou Ilson, que empurrou André, que mais irritado ficou e vibrou novo golpe no ar, que no ar não parou, mas sim no queixo de Ilson, que grunhiu de dor e xingou Rafael, que nem ligou, estava concentrado em Lili, queria Lili e, como ninguém se via naquele lugar, e ninguém se entendia também, achou que podia enfim ter Lili, fazer com Lili o que sempre quis fazer, ou seja: tudo. Lili. Lili. Lililililililili. Só que Rafael não era o único a sentir os instintos protegidos pelo anonimato da escuridão.

Ninguém via nada, ninguém saberia quem era o autor de qualquer ato.

Estavam todos juntos, eles e suas histórias em comum, certos de que experimentavam um momento único de impunidade garantida, como se fossem todos deputados e vivessem em Brasília. Este sentimento se acentuou com o intenso deslocamento de corpos no elevador, fazendo com que os seres humanos mais se amontoassem, muitos protestassem, alguns até gritassem.

Bel foi atirada para outro quadrante do elevador. Ainda não se reequilibrara por completo, ainda não firmara bem o peso do corpo sobre suas duas pernas macias quando sentiu outra vez aquele toque. O mesmo toque. Indisfarçável. Gentil, mas profundo. Um toque de quem realmente queria tocar.

Que toque…

Que toque…

CONTINUA…

Apalparam as costas de Bel - 7° capítulo

16 de fevereiro de 2010 3

Rafael tentou passar pelo obstáculo. Movia-se repetindo mentalmente: “Vou me acoplar nela, vou me acoplar nela, é hoje que me acoplo!”

O obstáculo chamava-se André, o advogado que teve a vida arruinada por Bel. André, naquele centésimo de segundo, experimentava o ápice da irritação, não apenas porque o movimento brusco de Rafael agastou a todos no elevador, deslocando-os e espremendo-os uns contra os outros, mas também porque ele, André, vivia uma situação especial: André era um homem apaixonado, e poucos males corroem tão profundamente a alma de um homem quanto a paixão. Um homem apaixonado é um homem doente. André era um homem doente, contaminado por Bel. Ela o havia humilhado, ela o havia transformado em um verme, e o que isso fizera a André?

Fizera-o ainda mais apaixonado.

Sua história era uma história de dor. Uma história que devia ser contada com violinos plangentes ao fundo.

Um dia, André teve uma jovem mulher e duas formosas filhas
. Teve também um apartamento de cobertura com piscina no terraço e uma caminhonete importada com TV no painel, teve prestígio por ser executivo da firma, teve subalternos solícitos, teve agentes de viagens agradecidos.

Mas ele perdeu tudo isso.

Por causa de Bel.

Aconteceu que durante semanas André promoveu um assédio furtivo a Bel nos corredores do escritório. Bel não o repudiou. Ao contrário, intumesceu-o de esperanças. Isso pôs André maluco. Uma mulher linda daquelas, casada, seria sua? Era bom demais para crer. Melhor ainda: ela era casada com aquela besta do supervisor Noel, sujeito a quem André desprezava e com quem, de certa forma, rivalizava. André era mais importante do que Noel na empresa, ganhava mais do que ele, tinha um cargo superior, mas Noel trabalhava há mais tempo lá e ocupava um cargo estratégico. Volta e meia, Noel punha-se em seu caminho, atrapalhando, se metendo, falando demais. André o detestava. Conquistar-lhe a mulher teria um sabor especial.

Então, André dedicou-se a Bel, cercou-a, teceu planos para conquistá-la e, em meio a essa campanha, se apaixonou. Decidiu que seria capaz de fazer tudo para tê-la. Dizia isso para Bel, e ela sorria:

— Você é casado… Se não fosse…

E suspirava. Sim, ela exalava suspiros cheios de reticências… Foram esses suspiros que roubaram a sensatez de André. Porque lhe pareceram promessas…

Um dia, desesperado de amor, ele desabafou com sua mulher, confessou que amava outra, pediu a separação. Achava que a mulher ia chorar e se descabelar. Que nada. Ela apenas disse:

— Tá bem.

E acionou um advogado feroz, e tirou-lhe metade do que tinha, e levou-lhe os filhos, e ele sofreu, como sofreu, mas pensava: pelo menos terei o amor da minha vida. Terei Bel. Procurou Bel.

— Estou livre! — anunciou, esfregando as mãos. — Agora podemos viver o nosso amor!

E Bel:

— Ficou louco??? Que amor???

André argumentou que ela havia feito promessas. Bel:

— Que promessas??? Sou uma mulher casada! Me deixa!

Foi como se a vida de André tivesse acabado. Agora, no breu do elevador, André só pensava em Bel. Como, aliás, fazia durante todas as horas e minutos e segundos do seu dia, desde que ela o havia rechaçado. Pensou, André, que a queda de energia era um sinal do Senhor, quase uma ordem celeste para que agisse.

E ele agiu.

CONTINUA…