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O velho ídolo

23 de março de 2010 16

Iúra era capaz de correr o campo inteiro e virar
Gre-Nais do avesso, mas não conseguiu desarmar o tempo


Um dia, o meu amigo Jorge Barnabé entrou nas arquibancadas de pedra do Olímpico levando o filho pela mão e, antes mesmo de se instalar, viu quem havia tempo queria ver. Deu um puxão no braço do menino:

- Filho, aquele lá é o Iúra! O Passarinho!

Importante para o Jorge mostrar ao filho quem era Iúra. Ele sempre falava do Iúra, o maior ídolo da sua adolescência, tempo em que se formam os ídolos. Por isso pediu:

- Vai lá falar com ele, filho. Pede um autógrafo.

O menino olhou para o senhor gordo sentado a uns 10 metros de distância e vacilou. O Jorge insistiu:

- Vai! É o Iúra. O Passarinho!

Era até curiosa tanta admiração. Porque Iúra nunca foi um esteta da bola. Bom jogador, mas longe ser um Rivellino, um Zico. Compensava a falta de virtuosismo com empenho. Corria o tempo inteiro, o campo inteiro. Perdia 3 quilos por jogo. Favorecia-o a compleição física. Tratava-se de um magro clássico: alto, pernas longas, ombros estreitos. Donde o apelido de Passarinho.

- É o maior gremista que já existiu! – disse o Jorge, já empurrando suavemente as costas do menino, que ainda hesitava.

De fato, o que fazia o Iúra entrar nas chuteiras a cada domingo era o amor pelo clube, manifestado, sobretudo, nos Gre-Nais. Era um tempo de Gre-Nais colorados. O Inter havia construído o maior time da sua história, com Falcão, Figueroa e outros torturadores de goleiros inimigos. Iúra lutava contra eles como se estivesse defendendo a pátria da invasão da Wehrmacht.

Em um Gre-Nal de meio de turno, Falcão enfiou-lhe a bola entre as pernas. Iúra não deixou que completasse a janelinha: aplicou uma voadora no volante do Inter. Falcão caiu, levantou e, irônico, colheu a bola do chão e a ofereceu a Iúra. A torcida do Inter uivou de prazer. Vinte minutos depois, Iúra driblou Falcão, que o derrubou. Foi um drible simples, não uma “caneta”. A falta também foi simples, nada parecida com uma voadora. Mas Iúra não perdeu a chance de devolver o sarcasmo: juntou a bola da grama e a estendeu a um Falcão arquejante. Foi a vez de a torcida do Grêmio bramir na arquibancada.

Era assim em todos os Gre-Nais, até que finalmente o Grêmio superou aquele grande Inter, em 1977. Neste ano de redenção, Iúra ingressou na posteridade: marcou o gol mais rápido da história centenária dos Gre-Nais, aos 14 segundos de jogo.

Nos anos 80, Iúra encaminhou o encerramento da carreira. Transferiu-se para o Criciúma, 400 Km ao norte do Olímpico. Foi lá que os dirigentes colorados o procuraram. Ofereceram-lhe uma pequena fortuna para jogar no Inter. Ele aceitou, não havia como não aceitar. Foi ao Beira-Rio. Fez exames médicos. Assinou contrato. Deram-lhe a camisa vermelha para apresentar-se à imprensa. Iúra respirou fundo. Tomou a camisa. Preparou-se para enfiá-la pela cabeça. E parou. O coração bateu fora de compasso. A garganta se lhe fechou. Iúra balbuciou:

- Não consigo botar esta camisa!

E afastou-a de si, e foi-se do Beira-Rio. Pouco tempo depois, abandonou o futebol. Tornou-se conselheiro do Grêmio e vive a dizer que seu sonho é ser presidente do clube.

O Jorge repetiu essa história dezenas de vezes para o filho, e agora ele estava lá: Iúra, o Passarinho. O menino olhou para aquele senhor obeso, sentado atrás do bigode, respirando com a dificuldade dos homens grandes demais. Mal cabia na cadeira, tão redondo estava.

- O Passarinho! – insistia o Jorge, e o menino obedeceu. Avançou em direção ao velho herói da infância do pai. A meio caminho, parou. Olhou por sobre o ombro. O Jorge sorria, incentivando-o com a cabeça: “Vai!”.

Ele foi. A metro e meio de Iúra, estacou, os braços ao longo do corpo. Iúra girou a cabeça, fazendo balançar a papada do pescoço. Sorriu para o menino. E o menino para ele:

- O senhor é que era o Iúra?

Não, o tempo não para nem para os titãs.

*Texto publicado na revista ESPN

Comentários (16)

  • Machiavel diz: 23 de março de 2010

    A velhice é o maior castigo que Deus impingiu ao homem. (Acho que a gordura também!)

  • VINICIUS diz: 23 de março de 2010

    Grande IURA com certeza um dos maiores gremistas que ja existiu. Parabéns pela coluna Davi, sempre perfeito.
    um abraço

  • JOSIAS diz: 23 de março de 2010

    FICA FOSSATI.

  • Gabriel Vieira diz: 23 de março de 2010

    Hoje o Grêmio tem Souza, Hugo, Adilson, Ferdinando… jogadores que não merecem vestir a camisa do Grêmio. Seja porque não tem qualidade, como os dois últimos, seja porque não tem caráter, como os dois primeiros.

  • charles hansen diz: 23 de março de 2010

    David, belissimo texto. Publicamos com devidos créditos no Grêmio Copero.
    Sempre que encontrarmos algo dessa natureza, que faça resgate histórico do tricolor, vamos divulgar. Novamente parabéns e admiração ao teu trabalho.

    http://www.gremiocopero.com/2010/03/23/iura-o-velho-idolo/

    Charles Hansen

  • ANDRÉ MARTINS diz: 23 de março de 2010

    David, parabéns pelo texto. Será que a RBS não tem em seu arquivo essas imagens que vc mencionou? Meu falecido pai me contou essa história da voadora do Iúra e sempre achei que ele aumentava um pouco, agora vi que não. Grande abraço, André

  • Karlo diz: 23 de março de 2010

    David, acho mesmo que o Iura merecia maior atenção dos historiadores. Quando eu era criança, lembro de tê-lo ouvido falar antes de um jogo, pela rádio, “Sou um privilegiado, pois sou um torcedor que pode entrar em campo.” ou algo assim. Não se fazem mais jogadores com amor à camisa. E quando um Jardel (ou mesmo Fernandão, “deles”) quer voltar, a diretoria não reconhece a necessidade de alimentar o ego da torcida: “Aquele jogador, aquele ídolo, aquele goleador torce para meu time!”

  • Silvio Fontoura diz: 23 de março de 2010

    Parabéns David pelo texto maravilhoso.Só aqueles que, assim como eu, estiveram presentes em algumas dezenas de jogos em que o Iúra participou, é que podem avaliar o que significou este jogador para a Nação Tricolor;

  • Silvio Fontoura diz: 23 de março de 2010

    Parabéns David pelo texto maravilhoso! Só aqueles que, assim como eu, aos meus 60 anos de idade, presenciaram algumas dezenas de jogos em que o Iúra participou, podem avaliar o que significou esse jogador para nós GREMISTAS DE CORAÇÃO.
    Um grande abraço e muito sucesso.

  • Matheus diz: 23 de março de 2010

    Acho que os colorados já te largaram de mão, seu publico deve ser só de gremistas, afinal vc só ecreve deles e pra eles, talvez seu objetivo maior seja realmente substituir o Sant’Anna, e neste sentido sou obrigado a concordar que caminhas em passos largos para que isso se efetive, alias, nada contra viu? Talvez eu que esteja escolhendo a leitura errada.

  • Imortal Torcedor • RJ diz: 23 de março de 2010

    Histórias como essas que nos fazem pensar:
    São esses caras que merecem dar autógrafos. Ídolos DE VERDADE, que expressam seu amor incondicional pelo nosso Imortal Tricolor, e não falsos ídolos como Trairúcho, C. Ronaldo e etc., mercenários que jamais demonstraram um gesto convincente de amor à camisa.
    Parabéns David, como sempre seus textos continuam vários pontos acima da média.

  • Adriano diz: 23 de março de 2010

    “Aplicou uma voadora”… bha!!! e ainda falam q o guinazu é carniceiro?!

  • Li diz: 23 de março de 2010

    Teu fake no twitter é tão genial que meu namorado tem ciúmes dele.

  • Vinicius diz: 24 de março de 2010

    Não deve ter sido do Jorge Barnabé, a camisa do gremio que dava sorte e foi queimada por aquela mulher devassa de uma crônica que li tempos atrás….

  • Jorge Barnabé diz: 28 de março de 2010

    A emoção de ver um idolo de perto é indescritivel. O IURA representa tudo o que eu acredito como FUTEBOL. A devoção e entrega deste jogador em campo era uma coisa contagiante. O GREMISMO do IURA é igual ao de qualquer torcedor do GRÊMIO, seja da Social ou da Geral. Que até aceita a derrota, mas não admite de jeito nenhum, que não exista luta e empenho até o ultimo segundo do jogo. Quando o IURA for o Presidente do GRÊMIO teremos este exemplo como meta. O GRÊMIO voltará a ser GRÊMIO.

  • andressa diz: 17 de julho de 2010

    Como é bom saber destas histórias, pena que hoje em dia só existe jogador MERCENÁRIO, mas belo texto e GRANDE IÚRA!

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