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Gol de placa (2)

26 de março de 2010 3

Como prometido, abaixo segue a segunda parte da reportagem “Desemprego Futebol Clube, de Diogo Olivier, integrante do livro “11 Gols de Placa”, editora Record (reprodução ao lado).

Nela, você vai conhecer o técnico Miltinho, 45 anos. Sua agenda soma 70 jogadores profissionais desempregados à espera de uma chance na equipe comandada por ele.

O Felipão dos sem-trabalho

DIOGO OLIVIER – 22/10/2010

Ele precisa escolher 11 entre 70 jogadores, não ganha nada para isso e ainda suporta a pressão dos que ficam de fora. Se Luiz Felipe enfrentasse metade da realidade de Milton Pedroso da Silva, talvez encucasse menos com a celeuma nacional criada em torno da expressão “do tempo em que se amarrava cachorro em linguiça”, cunhada numa entrevista sobre o futebol do passado. Aos 45 anos, Miltinho – é esse o seu apelido – lidera uma iniciativa pioneira no Brasil.

É treinador de um time formado só por jogadores desempregados. A história da seleção dos sem-clube dá a dimensão exata do tamanho do problema. Formado apenas por alguns gaúchos no início, em março, hoje há jogadores de todos os Estados pedindo uma chance a Miltinho, ex-jogador que pintou com luzes cintilantes nos juvenis do Inter campeão gaúcho em 1975 (no detalhe), mas seguiu carreira no Interior.

Para um grupo sem preparação adequada, os resultados surpreendem. O time do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul (Siapergs) venceu o misto do Inter por 2 a 0 e empatou com os do Grêmio em 0 a 0. Com substancial dose de incentivo de Luiz Carlos Winck, técnico do São José, que franqueou o Estádio Passo D’Areia para as reuniões iniciais, o projeto deu os primeiros passos. Em 12 jogos, os desempregados perderam só quatro vezes – justamente as quatro primeiras partidas, quando a experiência era ainda mais improvisada e aparentemente condenada a não sair do papel.

A vitória do dia 10 de setembro sobre o Inter de Martinez, Juca, Jackson, Fábio Pinto, Eros Perez e Leandro Machado motivou um diálogo inusitado entre Miltinho e Carlos Alberto Parreira:

– Parabéns! Onde vocês treinam? – perguntou o cortês Parreira, cumprindo a tradição segundo a qual vencedores e vencidos se cumprimentam ao fim do confronto.

– Não treinamos – respondeu Miltinho.

– Como assim? – insistiu Parreira, espantado.

– Não treinamos. Ligo para o pessoal um dia antes e pronto – repetiu Miltinho, acrescentando detalhes que deixaram Parreira ainda mais estupefato.

Funciona assim.

Na véspera das partidas, geralmente jogos-treino contra equipes profissionais, Miltinho deixa de lado a sua casa lotérica na Avenida Assis Brasil e convoca os jogadores por telefone. Numa agenda vermelha, tem exatos 70 números de goleiros, zagueiros, volantes, meias e laterais. Ao lado de cada nome, rabisca informações adicionais, como ex-clubes e habilidades específicas. Se o jogo é em Porto Alegre, o deslocamento fica por conta do convocado. Se é no Interior, o clube adversário banca hospedagem e transporte.

A palestra ocorre dentro do campo, no aquecimento. Há regras rígidas. Quem for contratado abre vaga para um companheiro desafortunado. Paulo Henrique, ex-Inter e Grêmio, era seu atacante. Um olheiro assistiu ao time do sindicato e o levou para o Olaria-RJ. O ponteiro Almir perdeu lugar na equipe ao acertar-se com o São Caetano.

– Sofro muita pressão. Mas não dá para todo mundo jogar. Fiquei surpreso com a procura. Primeiro, achei que só o pessoal do Interior ia ligar, mas não: o desemprego está afetando jogadores com passagem por times grandes – revela Miltinho.

O próximo passo é fechar convênio com a Academia de Polícia Militar para uso do complexo esportivo da entidade. Se for possível patrocínio – aqui, fala-se de camisetas, chuteiras – tanto melhor.

– Se não, tudo bem. O certo é que vamos continuar – avisa Miltinho, o Felipão dos desempregados.

A lenta agonia do futebol no Interior

Não é difícil compreender as razões que levam Milton Pedroso da Silva ser obrigado a escolher entre 70 desempregados para escalar o time do sindicato. O futebol gaúcho está morrendo. Em 1999, 16 clubes disputaram a terceira divisão – batizada de “Segundona” pelos dirigentes.

Este ano, restaram apenas sete. Os outros fecharam as portas. Em dois anos, portanto, o mercado do futebol gaúcho encolheu 47,3%. Levando-se em conta 11 titulares e cinco reservas por time, são 144 vagas a menos. O público médio da Série B deste ano foi de 1,2 mil pessoas, aí incluída a fase final.

Na “Segundona”, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) sequer teve como aferir o público, virtualmente inexistente. O Riograndense-SM, já sem chances no quadrangular final, cumpriu a última rodada, diante do Juventus, com 15 jogadores. Nem ônibus havia para levar o time até Santa Rosa. A saída foi enfiar todos numa van arrumada às pressas.

Mesmo os times vencedores não têm o que comemorar. O São Gabriel sagrou-se vice campeão da Série B e retornou ao pelotão de elite após duas décadas. Houve até desfile em carro de bombeiro na cidade. Encerrada a Série B, só parte do time arrumou emprego na terceira divisão, cujo torneio ainda estava em andamento.

– Já recebi quatro telefonemas de jogadores nossos pedindo ajuda. Faço o que posso, dou um dinheirinho. É brabo deixar o pessoal sem pagar luz e aluguel – lamenta o presidente do São Gabriel, Roque Oscar Hermes.


Na parte 3, o calvário do volante de 24 anos que passou de capitão da seleção brasileira sub-20 ao desemprego.

AGUARDEM!

Comentários (3)

  • Artur diz: 26 de março de 2010

    E a boleiragem que passa pão de ló e leite de pera reclamando que tem de ir pra Europa fazer pé de meia…

  • JOSIAS diz: 26 de março de 2010

    FICA FOSSATI.

  • David Coimbra » Blog Archive » Gol de placa (3) diz: 27 de março de 2010

    [...] Tanto assim que foi dele, por ironia, o primeiro gol, de falta, na vitória por 2 a 0 do time do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul sobre o Inter de Martinez, Juca, Jackson, Fábio Pinto, Eros Pérez e Leandro Machado, dia 10 de setembro, pouco mais de um ano depois do telefonema. Só desempregados jogam no time treinado por Milton Pedroso da Silva, o Miltinho, o Felipão dos sem-trabalho. [...]

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