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Posts de março 2010

Não se esqueça dela no dia seguinte

31 de março de 2010 8

O recado do título é, na verdade, um pedido, da ouvinte Mariana. Ela disse ter tido uma “ótima noite” com um rapaz. Mas, desde então, ele não deu sinal de vida. E agora, será que o problema foi com ela?

A experiente bancada do PB deu conselhos a Mariana. Ouve aí:

Uma de dez e duas de cinco

31 de março de 2010 14

Eu tinha uma de dez e duas de cinco dobradas no bolso esquerdo da minha US Top. Uma de dez e duas de cinco, nada mais.

Estava duro, durango kid.

Então era todo dia pão com ovo ou pão com banana, e batata, muita batata. Aí, justamente nesse dia, ela chegou. Aquela loirinha. Era uma loirinha pequena, mas não baixinha. Magrinha, mas jeitosa. Curvas, manja?

Ela tinha curvas. Ela tinha um bracinho torneado, tinha um musculinho bem ali naquele bracinho, e ela tinha um jogo nos quadris e um olhar azul de gata vadia, ela era toda dourada, cabelo dourado, pele dourada, ela era dourada e azul, aquela loirinha.

Pois ela chegou naquele dia, bem naquele dia que eu andava na maior dureza, e ela parou na minha frente e deu uma quebrada na cintura de um jeito que ela sabia dar, e me olhou com aquele olhar de viés, e me disse algo que me fez tremer todo por dentro:

- Tu sempre me quis, não é?

Minha voz saiu rouca, do fundo do peito, arranhando a garganta:

- S-sempre…

Ela sorriu um sorriso dourado e branco:

- Vamos jantar hoje?

Respondi que sim, sim, sim, muito sim! Combinamos de ir ao restaurante mais caro da cidade, que ali estava uma mulher que merecia jantares suntuosos, com consomês e pratos em sequência e maítres solícitos e tudo mais. Só depois que ela se foi, gingando, derramando a primavera por onde passava, só depois lembrei da minha situação financeira. Precisava arranjar algum emprestado. Desesperadamente.

Saí atrás dos amigos. Descrevia a loirinha para eles. Gemia:

- Ela disse: “Tu sempre me quis, não é?”, ela me disse isso, meeen! Preciso de um troco!

Fui num, fui noutro, nada. Amigos descapitalizados. Maldição.

Fui para casa aflito. Faltava uma hora para o encontro, e eu não encontrava a solução. Enquanto tomava banho, pensava no que fazer. O quê? O quê??? Aparentemente, não havia saída. E se confessasse meu estado lastimável para ela? Ela me consideraria um muquirana (com toda a razão) e cairia fora (com toda a razão). Havia outros, muitos outros, enxameando em torno dela. O que fazer, Cristo? O que fazer???

Saí do banho com o coração confrangido. Faltavam 45 minutos. Sentei-me na borda da cama, finquei os cotovelos nos joelhos e pus a cabeça entre as mãos. Não possuía nada que pudesse vender. Pelo menos não assim, à última hora. Ninguém mais a quem apelar. E a loirinha me esperando, toda cheirosa e dourada.

Desgraça! Desgraça!!!

Suspirei. Levantei-me. Ia assim mesmo, depois veria o que fazer. Tirei minha melhor camisa do roupeiro. Vesti-a. Puxei a nota de dez e as duas de cinco da calça jeans. Olhei para elas como se olhasse um quadro de Renoir. Alisei-as. Deitei-as carinhosamente sobre o colchão. Suspirei de novo. Peguei outra calça do cabide, uma um pouco mais nova, que fazia tempo que não usava. Enfiei uma perna. A outra. Fechei a calça. Colhi a de dez e as duas de cinco da cama. Levei-as ao bolso. E aí…

… WOLFREMBAER!!!

Achei dinheiro no bolso da minha calça! Dinheiro, velhinho! Muito dinheiro! Ou, pelo menos, o suficiente para pagar a conta caríssima de um restaurante caríssimo. Olhei para o céu. Com lágrimas nos olhos, balbuciei:

- Obrigado, Senhor!

Esses jogadores que fazem gol e agradecem a Deus. Por favor! Um gol não é nada. Gols são marcados todos os dias, todas as horas, em todas as partes do mundo.

Achar um buquê esquecido de reais no bolso de uma calça jeans quando uma loirinha jeitosa, com um bracinho com musculinho, com curvas e negaças à mancheia, com um jeito todo dela de quebrar os quadris, achar dinheiro para pagar a conta do restaurante quando uma loirinha dessas espera por você, isso, rapaz, isso sim é ser abençoado pelo Todo-Poderoso, isso sim faz um homem sair por aí com uma camiseta apregoando: “Deus é fiel!”.

Como é.

Os embalos do primeiro beijo

30 de março de 2010 7

Você se lembra da música que embalou seu primeiro beijo?

Lá no Pretinho, cada um dos integrantes contou a sua história. Eu me lembro até hoje da trilha sonora do meu primeiro beijo.

Ouça esse trecho do PB e embarque na nostalgia:

Dos hunos brancos a Angelina Jolie

30 de março de 2010 27

A HISTÓRIA DO MUNDO E O SENTIDO DA VIDA – 4º CAPÍTULO

Sexo é coisa de homem. O que não significa que algumas mulheres não pratiquem o esporte por puro diletantismo. A História esfervilha de exemplos de fêmeas deste quilate. Catarina, “a Grande”, imperatriz de todas as Rússias, era uma. Dizia que precisava cometer sexo pelo menos seis vezes ao dia, senão ficava nervosa. Ninguém queria deixar a czarina nervosa, então os súditos a atendiam com fervor e faziam sexo com ela.

E faziam.

E faziam.

E faziam.

Talvez fosse por isso que a chamavam de “a Grande”.

Outro exemplo cintilante é a greco-egípcia Cleópatra VII, apelidada com carinho de “Cheilon”, que em grego significa “lábios grossos”. Tinha-os grossos e sabia como usá-los, donde o seu prestígio com os romanos poderosos, como Júlio César e Marco Antônio.

O curioso é que a relação não era bem conceituada na velha Roma dos saiotes para legionários. Do ponto de vista de quem praticava, ressalte-se. Quem recebia, gostava, como se constata pela paixão que Júlio e Marco devotaram à rainha, bem como outras centenas (centenas!) de romanos, egípcios, gregos e núbios altos, fortes e espadaúdos que tiveram a sorte de experimentar um pouco das artes labiais da nossa heroína.

A verdade é que práticas sexuais, como quase tudo na vida, mudam de acordo com a cultura. Isso do sexo oral. Os índios brasileiros não o conheciam. Não conheciam nem beijo na boca, e assim os portugueses, beijoqueiros dedicados, eles com seus sonetos melosos de amor é fogo que arde sem se ver e talicoisa, os portugueses fizeram vasto sucesso entre as nossas silvícolas com o cheiro do cravo e a cor da canela, quando aqui chegaram em suas caravelas.

Você sabe, mulher valoriza muito o beijo na boca, assim como valoriza os sapatos de um homem. Quando uma mulher vê um homem pela primeira vez, ela o avalia pelos sapatos que calça. Digamos numa balada: o homem chega e…

Mas estou tergiversando. Voltemos ao sexo oral.

No Brasil de meados do século, o homem que praticava sexo oral era malvisto pelos outros homens, embora seja provável que as mulheres não pensassem o mesmo. Os conhecidos apontavam-no na rua e diziam:

- Aquele lá é mineteiro.

Mineteiro vem de “mina”. A mina, no caso, é associada com o órgão sexual feminino. Não porque de lá sai ouro. Por causa das formas de uma e outra, entende? Bom. Não serei mais explícito.

Em Portugal essa palavra ainda é bastante empregada. Você já sabe como são esses portugueses… Não é à toa que as nossas índias… Mas estou fugindo do assunto novamente. O que importa, agora, são as mulheres da História que exerciam o sexo tão-somente pelo prazer e pela diversão. De todas, a minha preferida é Messalina.

Ah, Messalina, Messalina… Era uma loirinha magrinha e formosa. Posso imaginá-la, sim, senhor. Pequena, mas com pernas longas, ela toda longilínea. O cabelo dourado, a pele dourada, os lábios carnudos ansiando por serem beijados e mordiscados e para beijar e mordiscar. Mordisque-me, Messalina!

Messalina, sim, senhor.

Tinha tal ânsia por sexo, Messalininha, que, à noite, metia-se debaixo de uma peruca morena e esgueirava-se para a Suburra, o bairro do pecado de Roma. Lá, subia em um tamborete e oferecia-se aos transeuntes por poucos sestércios. Aceitava qualquer um por qualquer preço. Levava-o para um dos quartos infectos que os rufiões alugavam e, sobre um catre precário, conduzia-o ao Olimpo. Viveu apenas 22 anos, Messalina, o suficiente para transformar o marido, o imperador Claudius, no maior corno da História da Humanidade, com a provável exceção de um vizinho que tive, um dia ainda conto a história dele.

Transformou-se também, Messalina, em sinônimo de devassidão. Se alguém quer falar mal de uma senhora, classifica-a:

- É uma Messalina.

Todo mundo faz ó.

Já eu considero um elogio. Messalina sabia das coisas. Algumas mulheres sabem. Mas só algumas. Para a maioria, o sexo pode ser bom e tudo mais, mas é secundário. O mais importante para elas é o que há de mais importante na vida: a reprodução.

Isso torna difícil, para um homem, compreender o funcionamento da alma das mulheres.

Um homem passa a maior parte do tempo pensando em sexo.

O sexo é o eixo da sua existência. O que nos torna, a nós homens, uns iludidos. Porque o sexo é aventura, e nós acreditamos na aventura. Acreditamos que podemos sorver a glória da vida. As mulheres não acreditam em nada disso, porque elas sabem que não existe glória na vida.

Que tipo de animal é o homem? É um pavão tentando impressionar a fêmea. O que ele faz, se não dispõe de um penacho colorido na cauda? Ele ostenta a sua riqueza, ou o seu poder, ou a sua fama, ou a sua força física, ou os versos harmônicos de um soneto, aquela história do amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. Esses portugueses…

O homem passa a vida tentando conquistar a mulher. Ou as mulheres. Seu comportamento muda de acordo com a oferta de sexo. Agora mesmo assiste-se a um curioso debate no século 21: a respeito dos filhos que não saem da casa dos pais nem depois de adultos. Homens com 40 anos de idade ainda homiziados em seus quartos de menino. Analistas alegam tratar-se de uma consequência das mazelas econômicas do mundo moderno. A vida está mais difícil de ser ganha, o emprego mais escasso, então os homens preferem ficar no lar paterno a fim de gastar menos e bibibi.

Balela.

Eles não saem de casa por causa do sexo. Porque o sexo, agora, é mais fácil de ser obtido. Antes, um homem, para conseguir sexo, tinha necessariamente de levar sua própria vida, apartada dos pais. Tinha de morar no seu apartamento, de poder chegar em casa quando bem lhe aprouvesse, sem a vigilância de pai e mãe. Ou seja: ele tinha de sair da casa dos pais.

Hoje não é preciso mais nada disso. Hoje os filhos mandam em sua própria vida, mesmo que morem com a família. Hoje eles chegam em casa quando querem, saem quando querem e, sobretudo, levam quem quiserem para seus quartos. Um rapagão, hoje, chega ao apartamento do pai acompanhado de uma loira vestida com jeans justo e mascando chiclé, apresenta-a perfunctoriamente, “essa é a Lu, velho”, e a conduz pela mão para o seu quarto, onde eles passarão três horas jogando moinho ou escova. Dispondo desta alegre possibilidade, por que o nosso rapagão iria alugar um JK na Zona Norte? Ele não precisa. Na casa dos pais ele tem tudo o que quer, sem ter que pagar.

O sexo, pois, comanda as ações do macho. Da mulher não.

A mulher, o que a comanda é a reprodução da espécie. Não duvido que neste momento você se lembre da sua colega que vem trabalhar com aquelas roupinhas e que olha para os homens de um jeito blasé que parece urrar: “Eu quero sexo, garoto!”. Sim, eu sei que você vai se lembrar dela e vai argumentar: “Luaninha gosta de sexo como se fosse um homem”.

Mas você está enganado.

É tudo um truque de Luaninha. Em sua maioria, as mulheres usam a premência masculina pelo sexo para alcançar seus objetivos. Nem que os objetivos sejam, apenas, de medir a extensão de seu poder. É o caso da mulher que acena com promessas e depois recua. Ela queria, mas desistiu? Não. Ela nunca quis. Ela só pretendia constatar até onde poderia levá-lo, a você e a essa sua infantil agonia sexual.

Veja uma mulher jovem, fresca, tenra, linda e de minissaia e botas, como deveriam se vestir todas as mulheres jovens, frescas, tenras e lindas. Ela é como a flor colorida e cheirosa que atrai a abelha com o objetivo de ser polinizada. As mulheres são como plantas, também querem ser polinizadas. Querem se reproduzir. Vou dar dois exemplos separados em 1.500 anos para que você possa compreender melhor o que digo.

O primeiro: Teodora, a imperatriz de Bizâncio.

Antes de ser imperatriz, Teodora foi prostituta. Ao contrário de Messalina, que, antes de ser prostituta, foi imperatriz. Isso diz muito sobre uma e outra. Messalina prostituiu-se por gosto, Teodora por necessidade. Mesmo assim, Teodora era uma prostituta competente. Aprendeu alguns truques para agradar os homens (sim, garota, algumas mulheres conhecem certos truques), tornou-se célebre em Constantinopla e, numa noite feliz, acabou se instalando no leito do imperador Justiniano. Feliz para ela e feliz para Justiniano, bem entendido. Tanto que o imperador se apaixonou por ela, apartou-a da vida fácil, transformou-a em teúda e manteúda e, depois, em imperatriz.

Você pode achar que, empossada imperatriz, aí sim que Teodora se soltou e passou a cevar seus desejos mais recônditos. Se achou, achou errado. Teodora foi uma imperatriz concentrada quase que com exclusividade nas lides políticas. Fez de tudo para conservar e aumentar o seu poder. E fez bem: certa feita, salvou a coroa do marido durante a chamada Revolta Nika. Ou Revolta Nike, que, em grego, significa “vitória” e, em português, significa marca de calção de índio. Vou discorrer mais alentadamente sobre Teodora no capítulo apropriado, o da Alta Idade Média, um tempo aborrecido de se viver, mas divertido de se contar. Por ora, ressalto apenas o aspecto que queria ressaltar: que Teodora usou o sexo para atingir o seu objetivo político.

Muitas mulheres são assim.

Outras são como Angelina Jolie. Você se lembra da Angelina Jolie no começo da carreira? Ela exsudava sexo. Dizia que lhe apetecia refestelar-se com homens, mulheres e outros seres mais ou menos parecidos. Expunha aquelas tatuagens dela. Usava umas roupas que faziam a gente sentir uma dor bem aqui. No peito, digo.

Aí Angelina conquistou Brad. E o que aconteceu? Ela começou a ter filhos. Quantos, exatamente, não sei. Talvez nem Brad saiba. Mas são vários. Alguns o próprio Brad proporcionou. Um se chama Maddox, veja só. Outros ela adotou. Africanos, quase todos. O Brad dá uma saidinha para beber um chope cremoso com os amigos e, quando volta, tem um etiopezinho novo. Brabeza.

O fato é que Angelina mudou. Continua linda e continua com aquela boca, mas perdeu muito da sua ferocidade sexual. Por quê? Porque não precisa mais dela. Seu objetivo, que era ser mãe, demasiado mãe, já foi alcançado.

Assim se comporta a maioria das mulheres em relação ao sexo. Com pragmatismo. Elas encaram o sexo como um meio, não como um fim.

Elas conhecem a verdade da vida.

Bem cedo desenvolvem tal percepção, já na pré-adolescência. Graças à menstruação. Com 12 ou 13 anos de idade a menina compreende que a vida tem ciclos, que tudo germina, floresce e fenece, que tudo nasce, chega ao auge e morre. Este ciclo está dentro dela, ocorre todos os meses. A menina logo entende, portanto, que nós não somos imortais.

O homem, ao contrário. O homem passa a vida julgando-se imortal e acreditando que algo de extraordinário acontecerá logo adiante. Que vai alcançar a glória, a fortuna, o sucesso. É por isso que o homem se ilude trocando de mulheres, buscando vida nova.

As mulheres não se iludem. As mulheres são práticas, os homens são românticos.

Essa qualidade das mulheres fez com que elas aceitassem a monogamia que lhes foi imposta na alvorada da Civilização. Para elas era até bom. Porque, com a monogamia, o homem assumia compromissos até então inéditos para com ela e com os filhos. Com a monogamia, fundou-se a família. A mulher, agora, dispunha de ajuda na tarefa de criar os filhos. Dispunha de uma casa, não precisava mudar-se a todo o momento, o que era um incômodo para quem tinha de levar a criançada junto. Com a casa, a mulher passou a dispor de instrumentos, ferramentas, confortos impensáveis para quem leva a vida nômade.

A vida da mulher melhorou, pois, e por isso ela aceitou sua condição presumidamente inferior durante milênios, mesmo que, no passado, gozasse de grande prestígio devido ao seu papel na reprodução.

Gozava mesmo.

As divindades eram femininas. Os homens pediam proteção à Grande Mãe. As primeiras esculturas da Humanidade são, exatamente, de mulheres grávidas. É quase certo que serviam para algum tipo de culto ancestral. Ou seja: a mulher grávida era adorada como uma deusa.

Mesmo depois de descoberta a participação do homem na reprodução e de instaurada a Civilização, mesmo depois de erguidas as primeiras cidades, as deusas seguiram sendo veneradas. Vide Ishtar, dos babilônios, e Ísis, dos egípcios.

Não que as comunidades fossem matriarcais. Não eram. O mando manteve-se em poder do homem porque era o homem que fazia a guerra.

Eis um sarcasmo histórico que pode excitar as feministas mais arrebatadas: a mulher tinha prestígio por dar a vida, o homem por trazer a morte.

Com certa razão. Não é tarefa fácil matar pessoas em massa. É preciso organização e método. É preciso pla-ne-ja-men-to. Generais eram precisos. Esses generais da antiguidade montavam defesas, preparavam estratégias de ataque, mostravam a cada integrante da tribo o que fazer e, não raro, quando a luta terminava, continuavam com o poder enfeixado em suas mãos rubras de sangue humano. É assim que funciona.

Permita-me agora, paciente leitor, uma rápida digressão para ilustrar o tema e para falar de alguns dos personagens mais misteriosos da História do Mundo: os hunos brancos. Os hunos brancos, como talvez você já tenha deduzido, eram hunos e eram brancos. O que parece uma obviedade, devido ao nome deles, mas não é. Porque os hunos, hunos mesmo, os súditos do rei Átila, eram da raça mongólica. Isto é: eram pequenos e retacos, tinham a pele acobreada, os olhos amendoados, os cabelos negros e as pernas cambotas como as dos vaqueiros norte-americanos. Uns e outros, vaqueiros e hunos, as possuíam arqueadas pelo mesmo motivo: por montarem a cavalo desde a infância.

Já os hunos brancos, embora se assemelhassem com os hunos de Átila nos hábitos e na região de procedência, o Oriente Longínquo, tinham a pele branca como uma Charlize Theron e os olhos claros como uma Michelle Pfeiffer. Mas não deviam ser tão bonitinhos. Os hunos brancos eram guerreiros temíveis. Hábeis cavaleiros, disparavam flechas com farpas que dilaceravam a carne do inimigo ao serem arrancadas do corpo. Aterrorizaram parte da Índia, dizimaram povoados entre os séculos 4 e 6 e depois desapareceram. Mesclaram-se a outros povos? Foram massacrados por guerreiros ainda mais ferozes? Ninguém sabe, ninguém viu.

No entanto, não é sua trajetória fugaz e enigmática que torna a história dos hunos brancos interessante, e sim o fato de que eles adotavam a poliandria.

Hein? Explico.

Vem do grego: “poli”, muitos; “andros”, homem.

Muitos homens.

Entre os hunos brancos, raridade em todas as sociedades humanas, uma única mulher casava-se com vários homens. Isso ocorria provavelmente porque havia muito mais hunos brancos do que hunas brancas. É o mecanismo de compensação biológica da Natureza. Nem essa prerrogativa, porém, concedia às mulheres o domínio político na sociedade dos hunos brancos, mas é possível que algumas delas atuassem como sacerdotisas. Os hunos brancos adoravam o sol e a lua e tinham o hábito de beber sangue de um cavalo branco em seus rituais, o que os outros povos achavam muito nojento e eu também, eu não gostaria de beber sangue de um cavalo branco.

Mas o que a história dos hunos brancos e das hunas brancas demonstra é que não existem regras fixas que norteiem o comportamento de homens e mulheres. Existem padrões. Que mudam de acordo com a geografia, o clima e a política. O homem é o homem e suas circunstâncias, como disse Ortega Y Gasset.

A história da Humanidade, pois, é cambiante. Fomos nômades durante milhões de anos, e essa condição mudou devido à agricultura, à propriedade e à consciência da participação do homem na reprodução. A mudança modificou a condição da mulher, que foi perdendo espaço na sociedade devagar, até perder bruscamente, com o advento de uma religião masculina em todas as instâncias: o judaísmo.

Com o judaísmo, a Grande Mãe deixa de existir. Com o judaísmo, Deus é Pai. O judaísmo moldou as modernas sociedades humanas. É a mais antiga religião viva do mundo. Mas, antes dela, outras vicejaram, em um mundo que, se não existe mais, deixou suas marcas.

As quais veremos no próximo capítulo.

A idade de se usar óculos

29 de março de 2010 1

Disse-me um oftalmologista, certa vez: depois de uma certa idade, lá pelos 40, você vai precisar de óculos. É irreversível.

Isso me lembra uma história que vivi na Alemanha, na Copa de 2006.

Ouve aí:

Fossati de hoje é o Celso Roth de ontem

29 de março de 2010 27

O Inter de 2010, com Libertadores e Gauchão simultaneamente, está tendo as mesmas dificuldades que o Grêmio teve ano passado. Em 2009, Roth e direção alternavam suas ideias. Ora poupavam os titulares na competição estadual, ora enfrentavam o torneio com força máxima.

No fim, não ganhou Libertadores nem Gauchão. Faltou convicção. Assim como falta ao Inter hoje.

Confira o meu comentário de hoje de manhã na Atlântida:

Aprenda com um dos mestres

29 de março de 2010 26

Morreu Armando Nogueira, um dos estetas do texto do jornalismo brasileiro. Não do tal “jornalismo esportivo”, que isso não existe. O jornalismo não pode ser esquartejado como se fosse um boi de açougue: o coxão de dentro do jornalismo, a alcatra do jornalismo, o filé. Jornalista é jornalista em todas as áreas. Armando Nogueira era um desses espécimes. Comandou o Jornal Nacional, e o fazia da economia a variedades.

Mas, é verdade, gostava mais de esporte. Quando escrevia sobre esporte, se soltava. Escrevia como um passarinho. Para homenageá-lo vou fazer com que ele próprio se homenageie. Tenho cá uma Revista Senhor de 1960 em que Armando Nogueira escreveu um perfil daquele que se tornaria um de seus personagens favoritos: Pelé. Vou reproduzir o trecho inicial da matéria de Armando para que você beba um pouco de sua arte, para que você, estudante de jornalismo, candidato a beletrista ou escrevinhador de e-mails, aprenda com quem sabia fazer:

“Tem 20 anos, entende de fotografia, chuta com os dois pés, namora (escondido da imprensa) uma garota de Santos, tem voz de barítono, pele negra acetinada, é sonso na área, enquanto a bola não vem, ganha cerca de 300 mil cruzeiros por mês, gasta 30 e manda o resto para a família, em Bauru. Nasceu em Três Corações, Minas Gerais, e tem tais afinidades com o futebol que certamente nasceria bola, se não tivesse nascido gente”.

Gol de placa (5)

29 de março de 2010 5

Chega ao fim a coleção de posts que reúne as reportagens da série  “Desemprego Futebol Clube, de Diogo Olivier, integrante do livro “11 Gols de Placa”, editora Record (reprodução ao lado).

Confira abaixo a última reportagem, quando um jogo de futebol não se encerra em 90 minutos e se prolonga até os tribunais. Ó:

Dos campos para os tribunais

DIOGO OLIVIER – 25/10/2001

Em pé: Dreher, Vanderson, Rafael, Athos, Luís, Da Silva, Jairo, Cristiano, Cézar Vargas e Miltinho (técnico). Agachados: Funé, Anderson, Di Marcelus, Rodrigo, André Corrêa, Éwerton e Clai. Não aparecem na foto mas estão no time do sindicato: Odair, Tigrão, Luciano e o goleiro Preto. Todos procuram um clube

Ainda falta um longo caminho para os jogadores brasileiros atingirem níveis de organização como o dos argentinos e, assim, construírem instrumentos capazes de enfrentar o desemprego. Mas a criação da Federação Nacional dos Atletas Profissionais e o renascimento do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul lançaram o Estado à frente de um lento e gradual processo de conscientização em todo o país. Aos poucos, está indo embora o medo de enfrentar dirigentes.

As duas entidades são presididas pelo gaúcho Ivo Amaral e têm coordenação jurídica de Décio Neuhaus, um estudioso da legislação daqueles capazes de citar artigo, inciso, alínea de tudo. Os números gritam. Só este ano, foram ajuizadas 200 reclamatórias trabalhistas contra clubes. Trinta jogadores conseguiram passe livre na Justiça, a maioria por falta de recolhimento de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) ou salários atrasados. A maior parte dos beneficiários ganham salários de fome.

Reaver nos tribunais o dinheiro não pago pelo trabalho executado é fundamental para garantir o sustento durante o período de desemprego. Os exemplos incluem jogadores famosos, de alguma notoriedade ou meros desconhecidos. A juíza da 58ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, Juliana Ribeiro, concedeu sentença em favor de Júnio Baiano, hoje no Shenshua, da China. Para conseguir o passe livre, o zagueiro da Copa de 1998 alegou que não recebia salários nem FGTS do Vasco há oito meses. O presidente do clube, Eurico Miranda, recorreu da decisão.

Antes dele, Juninho Pernambucano também conseguiu “alforria”, mas não sem dura batalha nos tribunais. O meia venceu em primeira instância. O Vasco deu o troco e cassou a decisão com mandado de segurança, mas o ministro Francisco Fausto, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), bateu o martelo em favor de Juninho. Livre, assinou contrato com o Lyon, da França.

O volante Rogério também se libertou do vínculo com o Palmeiras e, depois de um breve período desempregado, ganhou o direito de se transferir para onde bem entendesse: escolheu o Corinthians. O colombiano Aristizábal exerce sua profissão no América, de Cáli, através de mandado de segurança. Djair, ex-Grêmio, obteve passe livre graças à ação de Neuhaus, assim como Murilo, ex-Inter e desempregado.

Alguns aceitam receber passe livre em troca do FGTS. É o caso do zagueiro Márcio Tigrão, ex-Inter e ex-Sturmgraz (Áustria), hoje sem clube. Não é o ideal, mas houve tempo em que a relação jogador-dirigente era tão democrática como as liberdades das mulheres em alguns países islâmicos.

– Aos poucos, o pessoal vai percebendo que entrar na Justiça com o objetivo de defender seus direitos é o normal de qualquer trabalhador. Não é nada contra o clube, contra a torcida – ensina o zagueiro Scheidt, do Corinthians.

Scheidt se surpreendeu ao constatar que o FGTS nos tempos de Grêmio não fora recolhido. Entrou na Justiça. No Parque São Jorge, fiscaliza mês a mês os depósitos. Se no Brasil organizar uma greve de jogadores equivale a crer na paz entre judeus e palestinos a curto prazo, na Argentina é fato corriqueiro. Este ano, lá, o campeonato parou. As negociações terminaram por limitar a paralisação em dez dias, mas foram duas rodadas sem futebol aos domingos. Motivo: os 20 clubes da primeira divisão deviam US$ 60 milhões aos jogadores entre salários atrasados e premiações. O campeão era o River Plate: US$ 12 milhões, seguido pelos US$ 8 milhões do Boca Juniors. Somadas, as dívidas nas três divisões batiam em US$ 100 milhões.

Na Argentina, jogadores chegaram a fazer
greve de futebol duas vezes em dois anos

Numa segunda-feira à noite, em maio, os capitães de todos os times profissionais do país – nenhum deles faltou – se reuniram com o presidente da União dos Jogadores Argentinos, Sérgio Marchi, no centro de Buenos Aires.

– Os dirigentes acreditavam que a festa nunca iria acabar. Mas acabou – afirmou Marchi, ao deflagrar a greve.

O pagamento de 40% da dívida e a promessa de parcelamento do restante encerrou o levante. A mediadora do acordo foi ninguém menos do que a ministra do Trabalho, Patrícia Bullrich. Um ano antes, na terceira divisão, torcedores do Excursiones invadiram o campo e agrediram jogadores do Comunicaciones. Outra greve, desta vez por segurança nos estádios. O futebol no país só retornou depois de o presidente Fernando De La Rúa receber os líderes do movimento na Casa Rosada e declarar o assunto como “de Estado”.

– Há muito ainda por fazer. Mas nossa semente está plantada. E já colhemos alguns frutos – resume o presidente do Sindicato e da Federação dos Atletas, Ivo Amaral.

O incrível mercado do desemprego

O desemprego no futebol atingiu tal dimensão que começa a surgir uma espécie de mercado informal em torno do tema. Além do time do sindicato, que disputa jogos-treino com equipes profissionais e já conta com 70 nomes, há outras iniciativas.

É o caso do professor de educação física Renato Schmitt, 37 anos. Renato tem uma empresa que atua em várias frentes. O Inter contratou a Personal Soccer para fazer um trabalho menos cruel com as crianças que se submetem ao peneirão. Em vez do veredito baseado em alguns minutos de pelada, os futuros talentos passam uma semana sob supervisão de Renato, para qualificar os critérios de seleção.

Com 10 anos de futebol, tanto no Inter quanto no Grêmio, os desempregados correram para Renato. Desorientados, procuram um porto seguro ligado ao meio futebolístico para não afundar. Na prática, é uma ajuda sem contrapartida financeira alguma. Sem emprego, os jogadores prometem pagá-lo com o salário do próximo clube – se houver próximo clube. Renato não nega ajuda e nem cobra. O zagueiro Márcio Tigrão e os volantes Djair e Anderson são alguns dos que receberam o seu auxílio.

– Não pensei que a procura desta fatia da realidade do futebol seria tão grande. Eles ficam perdidos. A cabeça vira um porongo. Talvez o mais importante seja a parte psicológica até. Acabam querendo opinião de tudo. É uma pressão sobre mim – espanta-se Renato.

Cézar Vargas se especializou em empresariar os sem-clube

Outro exemplo é o empresário gaúcho Cézar Vargas. Iniciante na profissão, especializou-se em arrumar clubes para jogadores sem emprego. Terça-feira embarcou o volante André Vieira (ex-Grêmio) e o zagueiro Silvan (ex-Inter) para o Fortaleza, ambos do time do sindicato.

A promessa dos dirigentes é R$ 6,5 mil mensais. O primeiro esteve no Lugano, da Suíça. O segundo andou pela Coreia do Sul. Haverá pagamento? Impossível prever. Luciano Dreher desembarcou para jogar no Atlético-GO feliz da vida pelo salário de R$ 6 mil. Ao chegar em Goiás, ainda no aeroporto, ouviu de um dirigente que tratava-se, na verdade, de R$ 1 mil – nunca pagos, aliás.

– Já levei cada curva de empresário graúdo
aí que foi uma beleza. Mas tudo bem. É ótimo ajudar o pessoal que está sem emprego. Na Europa é mais complicado: eles pedem fita gravada com os melhores lances e outra com um jogo inteiro – explica Vargas, um dos personagens do incrível mercado dos desempregados do futebol.

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>>> Leia as reportagens anteriores da série:

O drama social do mundo da bola

O Felipão dos sem-trabalho

Jovem, líder do Brasil. Mas desempregado

Um campeão gaúcho corre na rua

Um aperitivo para A História do Mundo

28 de março de 2010 0

“A História do Mundo e o Sentido da Vida” volta com tudo nesta semana que começa. Neste domingão, vamos dar apenas um aperitivo do que será o quarto capítulo desta instigante saga. Ó:

A verdade é que práticas sexuais, como quase tudo na vida, mudam de acordo com a cultura. Isso do sexo oral. Os índios brasileiros não o conheciam. Não conheciam nem beijo na boca, e assim os portugueses, beijoqueiros dedicados, eles com seus sonetos melosos de amor é fogo que arde sem se ver e talicoisa, os portugueses fizeram vasto sucesso entre as nossas silvícolas com o cheiro do cravo e a cor da canela, quando aqui chegaram em suas caravelas.

Você sabe, mulher valoriza muito o beijo na boca, assim como valoriza os sapatos de um homem. Quando uma mulher vê um homem pela primeira vez, ela o avalia pelos sapatos que calça. Digamos numa balada: o homem chega e… Mas estou tergiversando. Voltemos ao sexo oral. No Brasil de meados do século, o homem que praticava sexo oral era malvisto pelos outros homens, embora seja provável que as mulheres não pensassem o mesmo. Os conhecidos apontavam-no na rua e diziam:

- Aquele lá é mineteiro.

Mineteiro vem de “mina”. A mina, no caso, é associada com o órgão sexual feminino. Não porque de lá sai ouro. Por causa das formas de uma e outra, entende? Bom. Não serei mais explícito.

Isso aí, sem ser mais explícito, mesmo. Aguardem o quarto capítulo, completo. AGUARDEM!

Gol de placa (4)

28 de março de 2010 5

Os gols de placa estão chegando ao final. Agora, no domingão, fiquem com a quarta, e penúltima, parte da reportagem “Desemprego Futebol Clube, de Diogo Olivier, integrante do livro “11 Gols de Placa”, editora Record (reprodução ao lado).

Nela, você vai recordar a história de Funé, integrante do eficiente banguzinho de Felipão, em 1995, que foi na conversa de certos empresários e acabou reforçando o time do Desemprego Futebol Clube. Ó:

Campeão gaúcho corre na rua

DIOGO OLIVIER – 24/10/2001

Em 1992, o Grêmio desembolsou por ele a pequena fortuna de US$ 30 mil ao América de Três Rios (RJ). Nada mal para um moleque de 16 anos. O nome de cartório é José Afonso da Silva, mas todos o conhecem pelo apelido que nasceu Cafuringa, evoluiu para Cafuné e, enfim, ganhou contornos definitivos: Funé.

Sempre foi titular nas divisões de base. O técnico Luiz Felipe o convocou, aos 19 anos, para disputar o Brasileirão e ser campeão gaúcho de 1995 com o Banguzinho. Seis anos depois, Funé amarga o sexto mês de desemprego no apartamento de 40 metros quadrados no Jardim Vila Nova, em Porto Alegre. Aos 25 anos, procura clube como 10 mil dos 22 mil jogadores brasileiros registrados na CBF.

Entre o começo promissor e o limbo atual, Funé protagonizou o enredo de como empresários de futebol têm poderes para determinar o sucesso de um jogador ou condená-lo ao desemprego, independentemente da questão técnica. Magro (66 quilos), altura de 1m75cm, ele próprio reconhece não ser assim nenhum Romário. Não haveria de ser por trucidar a bola que Felipão o pinçou dos juniores para o eficiente Banguzinho.

Como explicar, então, o desemprego? Funé ouviu o canto dos empresários. E se deu mal.

Nos tempos inesquecíveis de 1995 (foto), quando Felipão o escalou em sete jogos no espaço de cinco dias, empresários travestidos de benfeitores o aconselharam a pedir passe livre – aqui, um parênteses:

Em geral, empresários seguem à risca o estereóripo. Engravatados, armados de celulares minúsculos e caminhonetes incrementadas, grudam em talentos emergentes feito cola Superbonder. Aproveitam a cabeça cheia de sonhos de adolescentes ainda imberbes para lhes prometer o paraíso e, claro, lucrar muito com isso. Se der certo, restará algum para o jogador. Do contrário, crescem as chances de surgir um novo Funé – fecha parênteses.

Então, a direção do Grêmio atendeu ao pedido do lateral descoberto por Felipão e lhe deu passe livre.

– Diziam que eu ia ficar encostado, que não havia tempo a perder. Quando ganhei passe livre, sumiram todos e comecei a rodar por aí. Hoje, com outra cabeça, teria deixado meu passe preso ao clube. É o melhor para quem está começando – aconselha Funé.

Para alcançar o grupo principal da dupla Gre-Nal, o funil é estreito e cruel. Ficar vinculado ao clube pode ser a possibilidade de entrar em um negócio e tentar a sorte em outro lugar, no caso de não ser aproveitado no clube de origem. Tinga rodou pela segunda divisão japonesa, retornou ao Grêmio com atuações opacas, passou cinco meses no Botafogo-RJ sem receber salários e, até ser descoberto como volante, não passava de reserva em vias de dispensa.

– Nada é pior do que ficar sem emprego. Nada mesmo. A Lei Pelé é benéfica para Edmundo, Romário, para quem é craque e tem mercado garantido. Para nós, não mudou quase nada – revela o lateral.

“Me dá um troço quando vejo gente como
eu jogando bola na TV”, desabafa Funé

Desde quando recebeu o passe livre do Grêmio, Funé morou com a sogra, de favor. Parte do dinheiro que ganhava ia para a mãe comprar uma casinha no Rio. Há três meses, deu entrada de R$ 3 mil no apartamento onde mora com a noiva Rosimeri, funcionária do Grêmio. Os restantes R$ 22 mil serão repartidos em 36 vezes. O desemprego acendeu o sinal de alerta. Vendeu por R$ 8 mil um carro Pointer usado que valia R$ 12 mil. Os compradores perceberam a situação crítica e barganharam.

Se teve a carreira desviada prematuramente do curso normal pela sanha dos empresários, o círculo vicioso do futebol aponta os algozes de ontem como única solução para retomada dos trilhos. Nos descaminhos do mundo da bola, contrata-se mais pelo status do empresário do que pela capacidade de marcar, driblar
e fazer gols do jogador em questão.

– Sem empresário influente é impossível. Ligo a TV e vejo gente enchendo o bolso sem jogar mais do que muitos desempregados por aí. Às vezes dá um troço por dentro e até desligo a TV – emociona-se.

Enquanto o emprego não chega, só resta a Funé manter a forma correndo no asfalto duro das ruas da Zona Sul, desviando dos carros, ouvindo motoristas neuróticos buzinarem e correndo o risco de tropeçar em algum buraco. Correr e esperar que ainda seja possível retomar o caminho desviado em 1995 pela realidade do Desemprego Futebol Clube.

Na última parte, os jogadores que tentam se organizar para enfrentar o desemprego.
AGUARDEM…

>>> Confira as outras reportagens:

O drama social do mundo da bola

O Felipão dos sem-trabalho

Jovem, líder do Brasil. Mas desempregado

Augusto sabia dar chutão

27 de março de 2010 5

Há quem seja zagueiro na vida. Se Júlio César era o camisa 10 da Roma Antiga, o zagueirão foi seu sucessor, Otávio Augusto.

Como bom zagueiro, Augusto era um homem prudente. Ressalte-se: um zagueiro não teme o perigo, até porque amiúde o enfrenta. Mas um zagueiro jamais é temerário.

Um zagueiro não se arrisca.

Augusto, as guerras que travou foram calculadas para redundar em sucesso. Ele jamais empreenderia uma campanha contra os partos, por exemplo. Esses partos, eles nunca foram conquistados pelos romanos. Eram guerreiros ferocíssimos. Em combate, empreendiam a famosa “carga parta”: investiam com a cavalaria a todo galope contra as formações retangulares dos romanos. Quando os legionários se punham ao alcance de uma flechada, avançavam mais alguns metros e davam meia-volta com seus cavalos. Durante esse movimento semicircular, giravam o corpo em cima da sela e, fazendo pontaria por sobre o ombro, disparavam suas flechas, perfurando as armaduras e os escudos dos romanos, dizimando as legiões.

Foi assim que o general Crasso se transformou em adjetivo. Crasso tinha tudo na vida: dividia o poder máximo do império com Júlio César e Pompeu, havia sufocado a revolta dos escravos comandada por Spartacus, era um astro. Mas decidiu atacar os partos.

Tsc tsc.

Vinte mil de seus homens morreram em combate, outros 10 mil foram aprisionados e o próprio Crasso acabou tendo a cabeça separada do corpo por um golpe de espada, o que é bem ruim para a carreira de um general.

O fracasso de Crasso (rimou!) virou símbolo de erro estratégico. Donde o “erro crasso”. Imagine o seu nome tornar-se sinônimo de erro monumental.

– Você cometeu um erro wianey carlet,
por isso será demitido.

Erros que tais, Augusto não cometia. Tratava-se de um meticuloso. Um ser racional. Não se deixava embalar pelas paixões carnais, fraqueza de tantos próceres do império. Cleópatra se ofereceu a ele, como havia se oferecido a César e Marco Antônio e, ao contrário de César e Marco Antônio, ele a rechaçou.

Os escândalos da família ficavam por conta da filha Júlia, que, segundo os cálculos de certos historiadores, repoltreou-se com 80 mil homens, o que deve ser algum recorde. Não sei se acredito neste número. Porque, pense bem: Júlia viveu 54 anos, dos quais digamos que 30 tenham sido sexualmente ativos. Para alcançar a façanha de somar 80 mil amantes, teria de interagir com 2.666,666 amantes por ano, o que dá uma média de 7,3 amantes por dia. Sete homens grandes e um pequenininho, talvez. Sem repetir um só. Sem faltar nem nos feriados e dias santos.

Convenhamos, é muito homem.

De qualquer forma, é certo que Júlia se dedicava com afã à atividade, porque o próprio pai, o nosso zagueirão Augusto, a baniu de Roma sob a acusação de adultério. Quer dizer: Augusto não vacilava nem quando a família estava envolvida. Se tivesse que dar chutão, dava.

Mário Fernandes
, que está a caminho de ser o camisa 3 da Seleção, precisa desenvolver essas tão preciosas virtudes do comedimento e da prudência. Contra o Novo Hamburgo, cometeu um erro que, por pouco, não foi crasso: deixou de mandar pela lateral uma bola disputada entre ele e um atacante inimigo, quando não havia ninguém mais até o gol de Victor. Mário quis sair jogando, perdeu a bola, teve de fazer a falta e levou cartão amarelo.

Zagueirões não têm medo de dar chutão para a lateral. Zagueirões não têm vergonha de fazer tratado com a Pártia, como fez Augusto. Zagueirões evitam o erro, não se expõem a ele.

Gol de placa (3)

27 de março de 2010 3

Nesta manhã de sábado, fiquem com a terceira parte da reportagem “Desemprego Futebol Clube, de Diogo Olivier, integrante do livro “11 Gols de Placa”, editora Record (reprodução ao lado).

Nela, você vai conhecer o volante Odair, que brilhou nos juniores do Inter, foi capitão em seleções de base e figurou no grupo principal no Beira-Rio. Mas a promissora carreira de Odair foi tristemente transformada, depois de ouvir que não servia mais.

Jovem, líder do Brasil. Mas desempregado

DIOGO OLIVIER – 23/10/2001


“Tu não serve mais”. A frase reverbera na cabeça do volante Odair desde uma certa sexta-feira de julho, final de tarde que tinha tudo para ser como tantos outros não fosse o fatídico telefonema do então supervisor do Inter, Édson Prates. Era antevéspera da reapresentação para o segundo semestre de 2000.

De lá para cá, conta-se pouco mais de um ano. O suficiente para desmoronar sua vida. Vendeu carro e objetos pessoais para enfrentar o desemprego. Está sem clube desde julho. Deixou o orgulho de lado e aceitou dinheiro de amigos e familiares. Faltam R$ 5 para estourar o limite da conta no banco.

O drama social que atinge 10 mil dos 22 mil jogadores profissionais com registro na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deixou de ser uma realidade vinculada exclusivamente ao circuito do Interior.

Odair, 24 anos, é prova irrefutável disso. Seu caso faria Salvador Dalí, o mestre do surrealismo, ficar de queixo caído. De capitão de juniores do Inter e da Seleção Brasileira no Mundial da Malásia, caiu direto no poço do desemprego, sem escalas.

– Depois de ouvir aquele “não te apresenta, tu não serve mais”, me dei conta que se colocar anúncio no jornal convocando jogador desempregado, aparece 200 só no centro de Porto Alegre – alerta Odair.

Aconteceu assim com o garoto de Salete (SC), após 14 anos de Beira-Rio:

Cena 1 –
lá estava Odair viajando com a Seleção Brasileira sub-20 para todos os cantos do mundo. Jogava nos melhores estádios do planeta. Com a braçadeira verde-amarela, ganhou o Sul-Americano e o Mundialito vergando uma certa Argentina de Pablo Aimar, Javier Saviola e Juan Riquelme. No Mundial da Malásia, os argentinos deram o troco. Voltou ao Inter e integrou o grupo campeão gaúcho de 1997 (foto ao lado). Em 1998, ainda em idade júnior, liderou a campanha do tetra na Taça São Paulo.

Corta.

Cena 2 – depois de um empréstimo ao Fluminense, onde venceu a Série C com Carlos Alberto Parreira de técnico, retornou. Aí, o telefonema fatídico: o Inter o dispensara. Foram três meses sem ser aproveitado, com o passe preso ao clube e o salário rebaixado de R$ 5 mil para R$ 3 mil – até o empresário Luciano Cavalheiro comprá-lo por apenas R$ 54 mil. Zanzou pelo Veranópolis de Tite e América-RN buscando tão somente dinheiro para sustentar mulher, um filho e um enteado. Vendeu carro e objetos pessoais para sobreviver. O dinheiro dos atrasados parcelados do Fluminense, fonte única de sustento, secou.

– Cara, é muito difícil acordar de manhã e ter de correr sozinho para manter a forma. Os conhecidos me encontram e perguntam: “onde tu tá, no Inter, no Fluminense?”. E eu não estou em lugar nenhum. É horrível. O dinheiro acabou, não dá mais – desabafa Odair, com as mãos no rosto.

A explicação poderia estar no joelho esquerdo, lesão contraída no fim do empréstimo ao Flumiense. Um estiramento nos ligamentos o obrigou a engessar a perna. Mas nem foi preciso operar. Quando foi dispensado do Inter participava de recreativos normalmente. Hoje, corre de segunda a quarta-feira no Parque Marinha do Brasil e, na quinta e na sexta, disputa até duas partidas de pelada por dia, indo de um lugar ao outro com o carro do sogro.

Tanto assim que foi dele, por ironia, o primeiro gol, de falta, na vitória por 2 a 0 do time do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul sobre o Inter de Martinez, Juca, Jackson, Fábio Pinto, Eros Pérez e Leandro Machado, dia 10 de setembro, pouco mais de um ano depois do telefonema. Só desempregados jogam no time treinado por Milton Pedroso da Silva, o Miltinho, o Felipão dos sem-trabalho.

Apesar da melancolia e da depressão, Odair promete não se entregar. Mas para quem comandou a Seleção Brasileira ao redor do mundo, é difícil participar de jogos de sem-camisa versus com-camisa, como faz durante a semana. É quase inevitável uma ponta de melancolia ou mesmo depressão.

Não virar um amargurado “jogador free-lancer”, como são chamados nos bastidores do mundo da bola os que não param em clube algum, é uma meta de Odair:

– Não vou me entregar. Não quero pensar no Miranda e no Medina (Fernando Miranda e João Paulo Medina, presidente e coordenador técnico do Inter). Quero esquecer que me esqueceram depois de 14 anos de clube.

Ao tentar driblar a mágoa, Odair aprendeu com o desemprego. Aprendeu que, além dos problemas de sempre – calendário, recessão econômica, dirigentes autoritários, coronelismo político – o futebol brasileiro enfrenta um agravante necessário e justo. As investigações das CPIs no Congresso amedrontaram os investidores. Assim, o desemprego não para de crescer e tornou-se perversamente democrático: afeta jogadores da Capital e Interior, com ou sem currículo.

– Pelo menos, esta situação está me ensinando muita coisa. Em um ano, aprendi mais que em uma vida inteira – suspira Odair Hellmann, o volante que, em um ano, saiu da capitania da seleção de juniores para a angústia de não ter trabalho.

—-
Na parte 4, o lateral descoberto por Luiz Felipe no Grêmio que passou a correr no meio da rua para manter a forma física.
AGUARDEM…

Porto Alegre das antigas

26 de março de 2010 6

O 238º aniversário de Porto Alegre não podia passar batido aqui no blog.

Selecionamos belas fotos dos primórdios da Capital, retiradas do livro Porto Alegre Antigo. As reproduções você pode conferir abaixo.

Viaje no tempo aí:

Porto-alegrenses exibem sua elegância em exposição no ano de 1901:

Na “Praia do Riacho”, como se chamava o Arroio Dilúvio, era comum encontrar lavadeiras e pescadores:

Este era o bonde de dois andares, que teve vida curta nas ruas da Capital. Era chamado de “chope duplo”:

O chalé da Praça XV, no início do século XX:

Abaixo, o avião que pela primeira vez sobrevoou Porto Alegre, em 1911:

Em 1915, a cidade parou no cortejo fúnebre do senador Pinheiro Machado:

Já na foto abaixo, o cortejo fúnebre é para Júlio de Castilhos. A multidão desce a lomba da João Pessoa:

Claro, não poderia faltar o registro do primeiro Gre-Nal da história, em 1909:

Gol de placa (2)

26 de março de 2010 3

Como prometido, abaixo segue a segunda parte da reportagem “Desemprego Futebol Clube, de Diogo Olivier, integrante do livro “11 Gols de Placa”, editora Record (reprodução ao lado).

Nela, você vai conhecer o técnico Miltinho, 45 anos. Sua agenda soma 70 jogadores profissionais desempregados à espera de uma chance na equipe comandada por ele.

O Felipão dos sem-trabalho

DIOGO OLIVIER – 22/10/2010

Ele precisa escolher 11 entre 70 jogadores, não ganha nada para isso e ainda suporta a pressão dos que ficam de fora. Se Luiz Felipe enfrentasse metade da realidade de Milton Pedroso da Silva, talvez encucasse menos com a celeuma nacional criada em torno da expressão “do tempo em que se amarrava cachorro em linguiça”, cunhada numa entrevista sobre o futebol do passado. Aos 45 anos, Miltinho – é esse o seu apelido – lidera uma iniciativa pioneira no Brasil.

É treinador de um time formado só por jogadores desempregados. A história da seleção dos sem-clube dá a dimensão exata do tamanho do problema. Formado apenas por alguns gaúchos no início, em março, hoje há jogadores de todos os Estados pedindo uma chance a Miltinho, ex-jogador que pintou com luzes cintilantes nos juvenis do Inter campeão gaúcho em 1975 (no detalhe), mas seguiu carreira no Interior.

Para um grupo sem preparação adequada, os resultados surpreendem. O time do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul (Siapergs) venceu o misto do Inter por 2 a 0 e empatou com os do Grêmio em 0 a 0. Com substancial dose de incentivo de Luiz Carlos Winck, técnico do São José, que franqueou o Estádio Passo D’Areia para as reuniões iniciais, o projeto deu os primeiros passos. Em 12 jogos, os desempregados perderam só quatro vezes – justamente as quatro primeiras partidas, quando a experiência era ainda mais improvisada e aparentemente condenada a não sair do papel.

A vitória do dia 10 de setembro sobre o Inter de Martinez, Juca, Jackson, Fábio Pinto, Eros Perez e Leandro Machado motivou um diálogo inusitado entre Miltinho e Carlos Alberto Parreira:

– Parabéns! Onde vocês treinam? – perguntou o cortês Parreira, cumprindo a tradição segundo a qual vencedores e vencidos se cumprimentam ao fim do confronto.

– Não treinamos – respondeu Miltinho.

– Como assim? – insistiu Parreira, espantado.

– Não treinamos. Ligo para o pessoal um dia antes e pronto – repetiu Miltinho, acrescentando detalhes que deixaram Parreira ainda mais estupefato.

Funciona assim.

Na véspera das partidas, geralmente jogos-treino contra equipes profissionais, Miltinho deixa de lado a sua casa lotérica na Avenida Assis Brasil e convoca os jogadores por telefone. Numa agenda vermelha, tem exatos 70 números de goleiros, zagueiros, volantes, meias e laterais. Ao lado de cada nome, rabisca informações adicionais, como ex-clubes e habilidades específicas. Se o jogo é em Porto Alegre, o deslocamento fica por conta do convocado. Se é no Interior, o clube adversário banca hospedagem e transporte.

A palestra ocorre dentro do campo, no aquecimento. Há regras rígidas. Quem for contratado abre vaga para um companheiro desafortunado. Paulo Henrique, ex-Inter e Grêmio, era seu atacante. Um olheiro assistiu ao time do sindicato e o levou para o Olaria-RJ. O ponteiro Almir perdeu lugar na equipe ao acertar-se com o São Caetano.

– Sofro muita pressão. Mas não dá para todo mundo jogar. Fiquei surpreso com a procura. Primeiro, achei que só o pessoal do Interior ia ligar, mas não: o desemprego está afetando jogadores com passagem por times grandes – revela Miltinho.

O próximo passo é fechar convênio com a Academia de Polícia Militar para uso do complexo esportivo da entidade. Se for possível patrocínio – aqui, fala-se de camisetas, chuteiras – tanto melhor.

– Se não, tudo bem. O certo é que vamos continuar – avisa Miltinho, o Felipão dos desempregados.

A lenta agonia do futebol no Interior

Não é difícil compreender as razões que levam Milton Pedroso da Silva ser obrigado a escolher entre 70 desempregados para escalar o time do sindicato. O futebol gaúcho está morrendo. Em 1999, 16 clubes disputaram a terceira divisão – batizada de “Segundona” pelos dirigentes.

Este ano, restaram apenas sete. Os outros fecharam as portas. Em dois anos, portanto, o mercado do futebol gaúcho encolheu 47,3%. Levando-se em conta 11 titulares e cinco reservas por time, são 144 vagas a menos. O público médio da Série B deste ano foi de 1,2 mil pessoas, aí incluída a fase final.

Na “Segundona”, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) sequer teve como aferir o público, virtualmente inexistente. O Riograndense-SM, já sem chances no quadrangular final, cumpriu a última rodada, diante do Juventus, com 15 jogadores. Nem ônibus havia para levar o time até Santa Rosa. A saída foi enfiar todos numa van arrumada às pressas.

Mesmo os times vencedores não têm o que comemorar. O São Gabriel sagrou-se vice campeão da Série B e retornou ao pelotão de elite após duas décadas. Houve até desfile em carro de bombeiro na cidade. Encerrada a Série B, só parte do time arrumou emprego na terceira divisão, cujo torneio ainda estava em andamento.

– Já recebi quatro telefonemas de jogadores nossos pedindo ajuda. Faço o que posso, dou um dinheirinho. É brabo deixar o pessoal sem pagar luz e aluguel – lamenta o presidente do São Gabriel, Roque Oscar Hermes.


Na parte 3, o calvário do volante de 24 anos que passou de capitão da seleção brasileira sub-20 ao desemprego.

AGUARDEM!

Como nasceu a cidade

26 de março de 2010 7

Vou contar como tudo começou. No princípio, nada era como hoje é. Ao amanhecer da Civilização, as pessoas viviam em comunidades agrícolas auto-suficientes. Plantavam o que comiam, cosiam as roupas de vestir, levantavam elas mesmas as paredes das casas em que iam se abrigar, fabricavam as ferramentas com as quais trabalhavam. Todas mourejavam nas lides do campo, com exceção das mães, que ficavam em casa, velando pelos filhos.

Mas, certo dia, um dos filhos de um agricultor demonstrou habilidade especial em fabricar… enxadas, talvez. Ninguém fazia uma enxada como ele. A família toda pedia-lhe enxadas, e ele as produzia com gosto. Logo sua fama espalhou-se pela região e os vizinhos também passaram a fazer encomendas. Trocavam uma enxada por uma saca de cereal, ou por um manto de lã que o aquecesse no inverno, quem sabe por um barril de dourada cerveja de trigo. Eram tantos os pedidos que o rapaz foi apartado do trabalho na terra. Sua função, agora, era fabricar enxadas.

Quando ele enfim conheceu uma beldade do neolítico e decidiu casar-se, saiu da casa dos pais. Mas não procurou terra para plantar. Montou uma casinha mais ou menos próxima das comunidades agrícolas do entorno e anunciou que viveria do fabrico de enxadas. Quem quisesse revolver a terra com a melhor enxada das cercanias, que o procurasse e oferecesse algum produto em troca. Era bom para ele, que assim sustentava sua família, e era bom para os agricultores, que tinham mais tempo para arar e colher, sem precisar produzir eles mesmos suas enxadas.

O filho de outro agricultor, admirando o sucesso do fabricante de enxadas, resolveu imitá-lo. Mas não para concorrer com ele: esse outro rapaz era um ótimo construtor de casas, e foi assim que se estabeleceu em uma propriedade contígua à do fabricante de enxadas – afinal, aquele lugar era estratégico, dava fácil acesso aos agricultores da área. Em algum tempo, outros especialistas foram se instalando naquele local: um velocíssimo cavador de poços, um ferreiro incomparável, um hábil construtor de carroças populares. E, depois deles, uma jovem viúva, que não tinha mais nem terra para cultivar nem marido que a provesse, passou a ceder o corpo tenro à volúpia masculina, aceitando como paga qualquer coisa à toa, uma noitada boa ou um corte de cetim. A prostituição, como se vê, não é a mais antiga profissão do mundo.

Para facilitar o comércio entre si, os profissionais pioneiros abriram caminhos que ligavam uma casa a outra, e suas casas às propriedades dos agricultores. À noite, reuniam-se no mesmo lugar para cultuar seus deuses primitivos. Um deles comandava os ritos, organizava as liturgias, e por este serviço também passou a pedir produtos de que necessitava para viver. Assim foram rasgadas as primeiras ruas e estradas, assim surgiram os primeiros sacerdotes.

Assim nasceu a cidade.

A natureza da cidade, portanto, é dupla: ela surgiu da reunião de muitas pessoas em um só lugar, sim, mas antes disso surgiu da especialização de tarefas. Da diferença entre os talentos dos homens.

E, à medida que uma cidade vai se sofisticando, as atividades vão se tornando mais especializadas. Uma cidade moderna tem de um tudo, é capaz de suprir as necessidades mais específicas. Em uma cidade pessoas ganham a vida trabalhando como terapeutas ocupacionais, engenheiros de alimentos, designers de doces. E como consultores de RH, que sobrevivem impingindo a adultos atividades de recreação de jardim da infância.

Chegamos a esse ponto, nas cidades. Tudo culpa daquele fazedor de enxadas.