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Posts de maio 2010

Bate-Bola (30/05)

31 de maio de 2010 2

Pessoal, segue a íntegra do Bate-Bola, da TVCOM, exibido no domingo.

Ó:

Café TVCOM (29/05)

31 de maio de 2010 1

O Café TVCOM do último sábado foi gravado na Loja e Café Casa de La Madre, na rua Tobias da Silva, 139.

Comigo estiveram Tânia Carvalho, Tatata Pimentel, Cláudia Laitano e José Antonio Pinheiro Machado.

Ó a íntegra:

A história se repetirá com Felipão?

31 de maio de 2010 42


Em 1968, um jovem candidato a jogador viu-se diante de um gigante do futebol gaúcho. O rapaz, pretendente à vaga de lateral-direito dos juvenis do Aimoré, de São Leopoldo, tinha apenas 20 anos de idade, era egresso de Passo Fundo, torcia devotadamente pelo Grêmio, chamava-se Luiz Felipe e ainda não fora apelidado de Felipão.

O outro, que agora o observava, era um de seus ídolos. Jogara na meia-esquerda do supertime do Grêmio dos anos 30 e 40 e, depois, convertido em treinador, formara outro supertime para o mesmo Grêmio, conquistara uma fieira de campeonatos, inaugurara o estilo gaúcho de jogar futebol e já se tornara célebre por nome, sobrenome e apelido: Oswaldo Azzarini Rolla, o “Foguinho”.

Naquele momento, o grande Foguinho avaliava se Luiz Felipe devia ou não ser contratado pelo Aimoré. Luiz Felipe passou no teste e, naquele dia, assinou contrato. Passou a receber um salário mínimo por mês e a jogar nas duas laterais do clube de São Leopoldo.

Poucos meses depois, o jovem lateral veria Foguinho sair do Aimoré para fazer algo impensável: treinar o Inter. Foi um duro golpe para o gremistas, e provavelmente também o foi para o gremista Luiz Felipe.

Agora, 42 anos depois, Luiz Felipe, como Foguinho, é considerado um símbolo do Grêmio. Mais: é considerado um símbolo nacional daquele estilo de futebol que Oswaldo Rolla introduziu no Rio Grande do Sul. E, como Foguinho em 1968, ele, Luiz Felipe, está sendo cortejado pelo Inter.

Foguinho aceitou. Luiz Felipe aceitará?

A história se repete. Como sempre, na centenária saga da rivalidade Gre-Nal.

O ritmo do chumbo

30 de maio de 2010 1

Grêmio e Inter têm meias que são jogadores à frente do seu tempo. Porque o tempo deles são os anos 60, uma época de menos compromisso e mais alegria, pelo menos nos campos de futebol.

Um desses meias joga como o velho Pedro Rocha. Outro como o Ademir da Guia. João Cabral de Melo Neto escreveu um poema sobre Ademir, a quem chamavam de “Divino Mestre”. Dizia dele o poeta:
-

Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o

Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.

-

Bonito, não? Mas só funcionava nos anos 60.

A transformação das mulheres caras

30 de maio de 2010 61

Como uma mulher se transforma em uma mulher cara?

Trata-se de uma transformação, acredite. As mulheres não nascem dentro de calças Diesel ou sorvendo Veuve Clicquot em taças de cristal checo. Uma mulher pode muito bem atravessar a existência indo a rodízio de pizzas no sábado à noite, pode muito bem contentar-se com xis-galinha, com tomar chuva de pé para assistir a um show de música, com esperar meia hora na fila para entrar em um bar.

Pode.

Mas pode ser, também, que um homem entre na vida dessa mulher e passe a levá-la a restaurantes nos quais nenhuma conta sai por menos de 200 dólares, restaurantes onde ela degustará tintos franceses e trinchará entrecots argentinos. Pode ser que a leve para shows em teatros com poltronas de veludo italiano, que as férias deles se passem do outro lado do mar oceano, que ele a presenteie com gargantilhas do Antônio Bernardo, pode ser que esse homem a convide para um fondue que ele mesmo preparou e que lhe será servido em frente à lareira crepitante, sobre um tapete de palmo e meio de altura, onde as vaidades afundam e os desejos emergem.

Pode ser que esse homem apareça na vida dessa mulher. Aí ela não será uma mulher de arquibancada de futebol. Mulheres de arquibancada ainda não encontraram o homem certo.

O bico e a naninha

29 de maio de 2010 6

O Bernardo tornou-se dependente emocionalmente da naninha. O Bernardo, sabe? O meu Pocolino. Não consegue viver sem aquela naninha.


É intrigante. Qual é o princípio da naninha?
O do bico eu entendo. O bico remete ao seio da mãe, às nossas necessidades mais primevas de alimento e segurança. Eu mesmo tenho vontade de chupar um bico, às vezes, quando vejo fotos da Megan Fox.

Mas a naninha? A naninha é um pedaço de pano.

O Charlie Brown anda sempre com uma, arrastando-a quadrinhos afora. No caso dele, acho que é uma fralda, mas existem naninhas mais elaboradas hoje em dia. Naninhas industriais. Meu filhinho tem três. Elas são de flanela, acho que aquilo é flanela, são bem macias, do tamanho de um guardanapo grande, e todas têm uma cabeça de cachorrinho numa das pontas. Tem o cachorrinho azul, o vermelho e o branco.

Antes do Gre-Nal do Beira-Rio, o Bernardo exigiu:

– Quero a naninha azul!

Não aceitou outra. Tinha de ser a azul. O Grêmio venceu por 2 a 0.

Antes do Gre-Nal do Olímpico, fui dar-lhe a naninha e ele:

– Quero a vermelha.

Inter 1 a 0.

Ultimamente ele tem pedido a branca. O Santos vai ser campeão da Copa do Brasil.

O fato é que meu filhinho só dorme se esfregar a naninha no nariz. Quando está quase pegando no sono, estende-a sobre os olhos e aí começa a ronronar.

Durante o dia, se é contrariado, tipo:

– Chega de ver Backyardigans, é hora do banho.

Se algo assim acontece, ele pede a naninha. Se ele está correndo atrás do gato da vizinha, o Flufi, e cai e esfola o joelho, pede a naninha. Se acabou a Bolacha Maria, pede a naninha.

A naninha é solução para tudo.

Tipo demitir treinador. Demitir o treinador sempre dá a impressão de que tudo vai ficar melhor. Às vezes realmente fica, mas, em geral, o efeito é como o da naninha: só psicológico.

Será que o Inter melhora de técnico novo?

Vou esperar para ver que naninha o Bernardo vai pedir nesse domingo.

Aprendendo a lavar o rosto

28 de maio de 2010 26

Sempre que lavo o rosto, sempre!, todas as manhãs e todas as noites da minha vida, sem exceção, lembro do meu pai.

Porque um dia, quando tinha lá uns cinco anos de idade, estava sentado à mesa do almoço, diante do prato fumegante de macarrão com molho vermelho que a minha mãe prepara como ninguém, e meu pai disse que eu estava com o rosto sujo. Mandou que o lavasse. Tentei distraí-lo com alguma brincadeira e não fui. Ele repetiu, agora irritado:

- Vai lavar o rosto!

Mais interessado na massa do que na higiene, fiz uma pequena negaça e fiquei onde estava.

Então ele se ergueu, empurrando a cadeira para longe e, com os olhos coruscando de fúria, avançou em minha direção. Estremeci de pavor, mas não me mexi, não tentei correr – não corria dos meus pais. Meu pai tomou-me o braço e arrastou-me para o banheiro. Lá, cingiu minha nuca entre o indicador e o polegar, forçou-me a cabeça sobre a pia, abriu a torneira e, em seguida, esfregou meu rosto com a água uma, duas, três, quatro vezes.

Desde aquele episódio, quando vou lavar o rosto, lembro do meu pai e tenho de enxaguar-me quatro vezes. Não se passou um único dia, dos meus cinco anos de idade para cá, que não tenha lavado o rosto em quatro etapas. Se não passo a água no rosto quatro vezes, tenho a impressão de que estou sujo.

Por quê?

Porque acho que essa é a forma correta de lavar o rosto. Se meu pai o demonstrou com tanta ênfase, deve ser assim que se faz.

Não conto essa história para fazer alguma consideração emocional. O que me intriga é o resultado prático da coisa. Pois repare: não gostei da forma brutal como meu pai me tratou, fiquei assustado na época, mas, didaticamente falando, a atitude dele deu resultado. Não era sua intenção, mas aprendi, para a eternidade, que um rosto bem lavado lava-se quatro vezes.

Isso talvez sugerisse que a violência é eficaz como método pedagógico, o que vem ao encontro de um pulsante debate atual: a respeito da chamada “palmada educativa”.

Só que não é bem assim.

O importante, no caso que descrevi, não é a atitude do meu pai, mas minha reação a ela. Meu pai apenas se encolerizou com a desobediência do filho, ele não tinha a intenção de mostrar que o rosto se lava quatro vezes. O fato de ele ter lavado o meu rosto quatro vezes foi casual, poderia ter sido cinco, ou três, ou uma única vez. Quer dizer: ele não pretendia me ensinar, mas mesmo assim aprendi.

Eis o busílis: a criança quer que a ensinem. Quer que se importem com ela. Meu pai o fez com violência, e “aprendi” que o rosto deve ser lavado quatro vezes. Se o fizesse com firmeza, sem perder a ternura, aprenderia que o rosto deve estar limpo antes das refeições, e por que deve estar.

A “palmada educativa” do meu pai fez com que assimilasse a regra, e nada mais. Se tivesse educado sem palmada, eu teria compreendido a razão da regra. A palmada educativa é eficiente. Pena que não funciona.

Coré, coré!

27 de maio de 2010 6

Rendeu boas risadas a republicação da Crônica da Selvageria Ocidental, dias atrás.

Mas há muitas outras histórias a serem lembradas da Copa de 2002. Muitas mesmo.

Aí vão mais duas, na contagem regressiva para a África (faltam 15 dias). Ó:
-
-
Do aeroporto do Osaka, pegamos um ônibus para Kobe. Na chegada à cidade, o motorista desceu para tirar nossas malas do bagageiro. Nossas e de mais dúzias de jornalistas brasileiros. O motorista tirava uma mala, conferia o tíquete, tirava outra, tudo transcorria muito lentamente, como se fosse a cerimônia do chá.

De repente, uma japonesa apontou para a sua mala e avisou:

– Coré, coré!

Deu certo. O motorista se virou, apanhou a mala dela e ela se foi embora.

O Pedro Ernesto, esperto que é, concluiu:

– Ah, coré, quer dizer: aquela ali é a minha mala – e gritou para o motorista:

– Coré, coré!

Funcionou. O motorista olhou para o Pedro, voltou-se para o bagageiro e passou-lhe a mala. Foi como se um código tivesse se espalhado pelo ambiente. Todo mundo começou a berrar:

– Coré, coré! Coré, coré! Coré, coré!

Eu também pedia:

– Coré, coré!

Não havia quem não bradasse:

– Coré, coré! Coré, coréééééééé!

Rapaz, quase enlouquecemos o motorista  japonês.
-

Uma do Alves

Fomos trocar cheques de viagem. Um foi ao guichê. Depois foi outro. E outro. Aí foi o Roberto Alves, o famoso colunista de Santa Catarina.

Apresentou seus cheques e a atendente pediu que ele assinasse:

– Sign, please.

O Roberto:

– Hein?

Ela, apontando para o local onde ele devia assinar:

– Sign!

Ele:

– O que tu queres que eu escreva aí?

Ela:

– Sign!!!

Ele:

– Tá bom.

Então apanhou o papel, a caneta e rabiscou: “Sain”.

Pobres japoneses.

Eu sei o que aconteceu naquele verão

26 de maio de 2010 5

Estava em Weggis. Sei o que aconteceu naquele verão europeu.

Weggis, talvez você não lembre, é um pequeno enclave dos Alpes Suíços, tão tranquilo que todos os dias parecem manhãs de domingo. As lustrosas vacas suíças pastam bovinamente nos montes do entorno de Weggis. Eu olhava para aquelas vacas, para seus úberes intumescidos, e pensava que dali sairia o chocolate que comia todas as manhãs num café em frente ao nosso hotel, que saudade do chocolate de Weggis.

Em Weggis há patos. Patos, patos, patos. Gordos patos suíços que, depois de nadar no Lago Lucerna, abanam com pachorrenta alegria seus rabos suíços pelas ruas imaculadas da cidadezinha. Duvido que alguém, algum dia, deva ter sido atropelado em Weggis, mas ainda assim as pessoas atravessam a rua na faixa de segurança. Você não vai acreditar, mas até os patos atravessam a rua na faixa de segurança. É irritante.

Weggis foi chamada pelo escritor Mark Twain de o mais belo lugar do planeta, e talvez seja mesmo. É um lugar para se olhar, para se passear, e deu. Weggisdorme às dez da noite e acorda ao nascer do sol pálido da Suíça. O evento mais emocionante da história da cidade talvez tenha sido a pré-temporada que a Seleção lá realizou, às vésperas da Copa de 2006.

Jornalistas do mundo inteiro mudaram-se para Weggis, e brasileiros de toda a Europa convergiram para a cidade a fim de ver os Ronaldos em ação. Viram. Qualquer um podia assistir aos treinos, desde que pagasse ingresso.

Agora releia o que escrevi aí em cima, depois da última vírgula: “Desde que pagasse ingresso”. Essa foi a tal “farra de Weggis”, tão temida por Dunga. Uma farra comercial, protagonizada pela própria CBF.

A Seleção estava em Weggis a negócio. Então, as pessoas iam aos treinos e aplaudiam os jogadores, gritavam em coro os nomes de alguns, e só. Ah! Um dia, uma moça meio gordinha conseguiu burlar a segurança, entrou correndo no gramado e pespegou um beijo no rosto sorridente de Ronaldinho. Eis a “Farra de Weggis”.

A imprensa? Nenhum jornalista tinha acesso livre aos jogadores. Eles ficavam confinados em um hotel de luxo, teclando seus laptops, e vez em quando apareciam para as coletivas. Exatamente como ocorre agora, na preparação para a Copa da África.

A reclamação dos jornalistas, aliás, era de que a Seleção se tornara inacessível. Ao contrário da Copa anterior, a do Japão, quando Luiz Felipe permitia que os jogadores circulassem sem restrições pelo hotel em que estavam hospedados. Dizia, Luiz Felipe, que era bom para os jogadores sentir a pressão que vinha do Brasil, que eles deviam saber o que se esperava deles.

O Brasil ganhou aquela Copa. Não deve ter sido graças a isso. A Copa seguinte o Brasil perdeu. Não deve ter sido por causa disso.

-
O Bordel das Virgens

Lembra do Bordel das Prostitutas Virgens? Escrevi sobre. Era uma boate de Ulsan, na Coreia do Sul, sede do Brasil na primeira fase da Copa de 2002. Seven, chamava-se o lugar. Estava cheio de lindas russas e ucranianas. Elas tinham pernas longas mal-cobertas por minissaias curtas, elas sorriam e pediam drinques para os clientes. O lugar parecia um bordel, e elas pareciam mulheres que amavam a soldo.

Mas não.

Na Coreia, uma estrangeira que cobra por sexo pode ser expulsa do país. Então, as russas e ucranianas do Seven faziam quase tudo, menos o principal.

Um repórter carioca apaixonou-se por uma delas. Era uma loira sinuosa que lhe beijava a boca e sentava-se em seu colo e chamava-o de darling, só não concordava em ir mais adiante, se é que você me entende. O repórter oferecia-lhe tudo o que tinha, as diárias, o laptop, tudo. Ela repetia no, beibe. Ele não aguentava mais de tanta ansiedade.

Bem.

Uma manhã, nós entrávamos no hotel da Seleção e quem vimos saindo? Elas! As russas! As ucranianas! Saíam contando os dólares, rindo e comentando sobre o desempenho dos jogadores fora de campo. Entre elas, a namorada do repórter carioca. Foi um duro golpe, coitado – havia sido trocado por um boleiro cheio de Euros.

A partir daquele dia, a Copa, para ele, virou a Copa da amargura. Nós, colegas solidários, noticiamos a visita das moças à concentração. Luiz Felipe não se importou. Ninguém se importou.

Mas, se o Brasil não tivesse saído campeão, decerto falaríamos hoje da Farra de Ulsan e do perigoso Bordel das Prostitutas Virgens.

Ao leitor

25 de maio de 2010 22

Claudio Eduardo Jaeger Nicotti,

eu aqui NUNCA, JAMAIS, EM TEMPO ALGUM disse que minha obrigação é com o meu empregador e não com a verdade. Isso, desculpa, é um absurdo. Cada um interpreta o que a gente diz e escreve como bem entende, mas vou explicar mais uma vez.

Eu disse que não tenho nenhum compromisso com Grêmio, Inter, Seleção Brasileira, partidos políticos ou empresas. Meu compromisso é com o meu trabalho (e aí se inclui a verdade), com meus colegas e com a empresa para a qual eu trabalho. Por isso, pouco me importa se a notícia vai fazer bem ou mal ao clube, ao político ou à entidade que for a eventual protagonista da notícia.

O que me importa, ao contrário do que tu entendeste, Cláudio, é, exatamente, a verdade. Boa ou má.

Um clube ou político ou entidade pelo qual eu tenha simpatia jamais, JAMAIS!!!, será mais importante do que o meu trabalho.

Crônica da selvageria ocidental

25 de maio de 2010 17

Seguindo o Túnel do Tempo das Copas do Mundo, hoje abrimos a terça-feira com um texto da Copa de 2002, disputada na Coreia do Sul e no Japão.

Confira abaixo a história do dia em que, tal qual um terremoto, assustamos alguns japoneses. Ó:

-

Não sei se terei verbo em quantidade e potência suficiente para descrever os fatos que vou contar a seguir. Mas farei uma tentativa esforçada.

Trata-se da crônica da selvageria ocidental.

Para relatá-la, preciso explicar que estamos nos deslocando de trem, aqui no Japão. Trem-bala. Primeira classe. Um luxo. O problema é que os trens não possuem bagageiro, como ônibus e aviões. As bagagens de mão até podem ser acondicionadas nos compartimentos acima dos bancos, mas, e as malas grandonas, pesadas, aquelas que são, realmente, umas malas? O jeito é empilhá-las, por conta do próprio passageiro, no fundo do vagão, entre uma combinação e outra. Foi o que decidimos fazer.

Só que havia um segundo probleminha, esse um complicador: o trem fica na estação apenas dois improrrogáveis minutos japoneses. A única vez que o Shinkansen atrasou foi quando a Seleção Brasileira embarcou de Osaka para Kobe – atraso de dois minutos, um escândalo. Verdade, nós, da equipe da RBS, não temos tanta gente quanto a Seleção, somos 12. Mas cada um carrega lá suas malas, grandes, pequenas e médias, além do pesado equipamento de foto, de rádio, de TV.

Como enfiar tudo isso dentro do trem em 120 segundos? Teríamos de ser rápidos, sim, teríamos de ser decididos.

Minutos antes de o trem-bala chegar, já estávamos reunidos diante do ponto em que o vagão pararia, concentrados, ansiosos como um puro-sangue no partidor (foto acima). Claiton Selistre, o coordenador da equipe, distribuía orientações.

– Maurício e Júlio, vocês são os primeiros a entrar! Posicionem-se de modo a receber as bagagens, o Maurício a leste, o Júlio a oeste. Macedo, Benfica, Ewaldo e Mauro, atirem as bagagens para eles sem clemência! Não é hora para hesitações.

Essas coisas.

Então o trem veio chegando. Veio chegando… Chegou.

A porta do vagão se abriu. E o Maurício Saraiva, incontinenti, se jogou para dentro do trem. Se jogou MESMO, um quarto-zagueiro de rúgbi.

Agora, imagine a visão dantesca que tiveram os passageiros que tentavam desembarcar: um ocidental de 1m90cm de altura, boné, óculos espelhados e pochetinha, pula para cima deles sem clemência ou aviso prévio. Medonho, sim, senhor. Com prudência oriental, eles correram para outros vagões.

Mas um ficou. Um japonês que estava de cócoras, no fundo do espaço entre os vagões. Devia ter viajado o tempo todo ali, quietinho, decerto pagou a passagem mais barata, sei lá. Só sei que o japonês não esperava o que lhe aconteceu, não podia esperar. O Maurício saltou por cima das malas, espalhou japoneses, caiu sobre o japonês acocorado, que acocorado ficou, perplexo. O Maurício se levantou, mas foi atirado paraalgum outro lado do trem pelas malas que o pessoal arremessava.

Sumiu, o Maurício. Nossa primeira baixa. O Júlio gritou, aflito:

– Maurício! Maurício!

O Maurício não respondeu. Enquanto isso, o Mauro já tinha pulado para dentro da combinação e berrava em português de Viamão para o japonês acocorado:

– Sai daí! Sai daí!

O japonês não saía, não falava, não se mexia, nem piscava. As malas continuavam sendo jogadas para o trem, caindo sobre o japonês, soterrando-o aos poucos.

– Sai daí! – gritava o Mauro.

– Maurício! – chamava o Júlio.

– Rápido, rápido! – ordenava o Claiton.

– Lastimável – comentava o Professor.

Todos jogávamos malas para o vagão, não havia mais espaço, o tempo escorria, os japoneses assistiam a tudo atônitos.

– Não vai dar tempo! Não vai dar tempo! – avisava o Ewaldo.

– Maurício! Maurício! – chamava o Pedro Ernesto.

– Perdi minha credencial! Meu Deus, perdi minha credencial! – urrava o Mauro.

– Maurício!!! – clamava o Sok.

– Tirem esse japonês daqui! – pedia o Macedo.

– Cadê o Maurício? – perguntava o Benfica.

– Reprovável – ponderava o Professor.

Os alto-falantes do trem apitavam o aviso de que ele já ia partir, quando as últimas malas foram atiradas para dentro do vagão, cobrindo completamente o japonês. O trem começou a andar. Sentamos nos nossos lugares, discorrendo sobre o sucesso da operação. Os japoneses das proximidades nos olhavam em silêncio horrorizado, certamente com saudade dos taifuns e dos tremores de terra.

O Claiton veio lá detrás, cumprimentando um a um pela ação bem-sucedida. Parou no último de nós. Olhou para os lados. Perguntou:

– Alguém aí viu o Maurício?

Bate-Bola (23/05)

24 de maio de 2010 0

Para os leitorinhos-torcedores do blog, eis o Bate-Bola, da TVCOM, do domingo.

Ó a íntegra abaixo:

Café TVCOM (22/05)

24 de maio de 2010 2

O Café TVCOM do último sábado foi gravado no restaurante Lorita, na Rua Castro Alves, 678, em Porto Alegre.

Lá estiveram Tulio Milman, Tânia Carvalho, Tatata Pimentel e José Antonio Pinheiro Machado.

Dá uma olhada na íntegra:

Aprenda a ser comentarista

22 de maio de 2010 39

Aquela foi uma noite estranha. Vagávamos como espíritos condenados, nós quatro, sem saber aonde ir ou o que fazer. O Brasil acabara de ser eliminado da Copa da Alemanha pela categoria daquele jogador de um único toque na bola, mas toque macio, toque desconcertante, aquele Zidane, e nós, eu, a Fernandinha Zaffari, o André Feltes e o Mário Marcos, nós nos descobrimos na periferia de Frankfurt, um lugar de evidente vocação industrial, mas ermo de vida noturna. Era como se fosse o interior de Sapucaia sem Trensurb às duas da madrugada.

Todos os outros da equipe da RBS haviam retornado ao hotel, nós não. Nós terminamos de mandar o nosso material muito depois do encerramento da jornada da rádio, muito depois da conclusão do trabalho de todos os demais, e agora queríamos achar um lugar em que pudéssemos comer algo e, principalmente, beber
umas Paulaners geladas e cremosas. Mas onde? Onde no interior profundo da Sapucaia alemã?

Errando de lá para cá, catando táxis no asfalto, acabamos no saguão do gigantesco aeroporto de Frankfurt, um dos maiores do mundo e, àquela altura, um dos mais desolados. Caminhávamos vergados pelo peso das mochilas que continham os nossos laptops e pela sensação vazia de fim de festa. A derrota do Brasil nos abatia nem tanto pelo fracasso esportivo, mas pela consciência de que nossa aventura europeia, de certa forma, chegava ao fim.

Nossos amigos iriam embora e poucos de nós restaríamos no Velho Mundo. Foi então, quando estávamos em silêncio compungido havia já uns 10 minutos, que a Fernandinha Zaffari falou:

– O Brasil perdeu porque não povoou o meio-campo e porque deixou o adversário gostar do jogo.

Paramos. Olhamos para ela. Hein?

Nos minutos seguintes, Fernandinha relatou-nos que, durante a Copa, havia assimilado alguns dos princípios básicos do comentário esportivo. Entre eles os dois enunciados fundamentais que ela professara:
-

1a Quando a partida começar é hora da profilaxia. Diga, em tom de séria advertência, que o time não pode deixar o adversário gostar do jogo.

2a Em meio à partida, se o time estiver mal, é hora da terapêutica. Lamente que seu aviso não tenha sido acatado, reforce que, como você havia predito, o adversário “gostou do jogo”, e receite: “É preciso povoar o meio-campo”.
-

Perfeito. Agindo assim, você não erra. Agora, quatro anos depois daquela noite que começou melancólica e terminou instrutiva, às vésperas de outra Copa do Mundo, inspiro-me na sabedoria da Fernandinha para pôr em prática uma ideia que havia muito corroía-me o cérebro: vou implantar uma oficina de comentarista de futebol.

Você quer ser um Professor Ruy, um Wianey, um Maurício Saraiva?
Quer ganhar a vida assistindo a jogos de futebol e ainda ser considerado inteligente? Frequente a Oficina. Para provar a eficiência de nosso curso, reproduzo abaixo algumas lições. Quando você estiver atrás do microfone ou em frente às câmeras diga o seguinte:
-

1b “É preciso adiantar a marcação”. Essa observação é preciosa, porque você pode fazê-la em qualquer circunstância. A marcação já está adiantada? Pouco importa. A marcação sempre pode estar MAIS adiantada.

-
2b
“O time tem que atacar pelos lados do campo”. Atenção: não vá falar “pelas pontas”. Pelas pontas é antigo, é do tempo do Cafuringa. “Lados do campo” é bonito e impressiona. Se você por acaso achar que jogar pelos lados do campo contradiz a orientação, 2a é porque você não entende lhufas de comentário esportivo. O comentarista tem de dizer o que fazer, não como fazer. Portanto, diga apenas que o time tem de povoar o meio-campo e, ao mesmo tempo, jogar pelos lados, e o time que se vire.
-
3b
A partir do meio do segundo tempo, se um jogador estiver jogando mal, diga que ele cansou. Quem poderá afirmar que não?
--
4b
Em qualquer oportunidade, antes, durante ou depois do jogo, diga que o time tem de tirar os espaços do adversário. Se o time perdeu é porque não tirou. Se ganhou, tirou.
--
5b Na hora de escolher o melhor em campo, tente sempre escolher um volante. Um atacante goleador é muito óbvio. O verdadeiro comentarista é aquele que vê coisas que os outros não veem. O mundo acha que aquele volante não joga nada. Você acha. O técnico o escala. Logo, você e o técnico veem coisas que ninguém vê.
-

Vocês são sábios. O mundo, burro.

Eis aí alguns dos ensinamentos da nossa oficina. Há muitos outros, mas só os revelarei durante o curso.

Em breve abriremos as inscrições!

Em quem vou votar para presidente

21 de maio de 2010 50

O Jesus Cristo ideal é o filósofo, não o Cristo.

A psicanálise verdadeiramente revolucionária de Freud é a do pensamento, não a terapêutica.

O budismo de Buda não é religião. Nem crença. Nem seita. É filosofia, e filosofia ateia.

Os homens se apropriam das grandes ideias e as deformam
de acordo com seus interesses. Jesus, Freud e Buda estremeceriam ante o uso que se faz do cristianismo, da psicanálise e do budismo.

O centro ideológico da filosofia de Jesus foi expresso no Sermão da Montanha. É um manifesto genial e, depois de 21 séculos, ainda avançado. Num trecho essencial, Jesus diz que as pessoas julgam os outros com sua própria medida. E adverte:

– Com a medida que julgares, serás julgado.

Não se trata de maldição, nem de previsão mística: é conclusão lógica. Ninguém é totalmente bom ou totalmente ruim. Você pode ver coisas boas ou más em cada pessoa, depende de você. Se dentro de você reside a maldade, você verá maldade em tudo que olhar. Você interpreta o mundo e as outras pessoas de acordo com seus próprios parâmetros.

Assim, numa cultura em que o dinheiro é o principal valor, como a brasileira, as pessoas sempre raciocinam a partir do seguinte questionamento:

“O que ele quer ganhar com isso?”

Os outros nunca fazem nada por acreditar no que estão dizendo. Os outros sempre têm interesses escusos. Interesses, evidentemente, monetários.

O candidato a qualquer cargo público, no Brasil, vive sob essa desconfiança permanente.

O brasileiro supõe, a priori, que o candidato faz promessas para se eleger, a fim de, eleito, se locupletar. É uma visão ao mesmo tempo maliciosa e pueril. Porque a maioria dos homens públicos é homem público por outras razões, que transitam à margem do acúmulo rasteiro do vil metal.

Às vezes o é pelo poder, às vezes pelo prestígio. E às vezes por achar que ele pode, de fato, fazer algo pelas outras pessoas. Ou seja: às vezes o candidato está bem-intencionado.

É o caso dos três principais candidatos à Presidência da República, Dilma, Serra e Marina. Tive a oportunidade de conhecê-los mais de perto ao entrevistá-los nas edições do Painel RBS. São pessoas honradas, que querem fazer o bem, cada qual com suas características.

Serra é um gerente paulista com a eficiência e a competência típicas de um gerente paulista, mas também com o cartesianismo arraigado de todo gerente paulista. Dilma é uma desenvolvimentista aparafusada na realidade brasileira, uma estudiosa que sabe o que quer, uma especialista em governo que tem o governo todo dentro da cabeça. Marina é uma pessoa sensível e corajosa, com uma ideia de mundo menos materialista e mais humana do que os outros dois, uma mulher que tem no olhar uma sombra de tristeza inerente da condição feminina e uma luz de sabedoria inerente da condição de mãe.

O Brasil estará razoavelmente bem servido com qualquer dos três candidatos que escolher.

Eu já escolhi o meu.