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Posts de junho 2010

Velho encontro com Mandela

30 de junho de 2010 6

Conheci Nelson Mandela. Ou, antes, eu o vi em pessoa. Não é pouca coisa. Maria João, a moçambicana dona da pousada em que ficamos em Durban, Maria João disse que Mandela é um santo.

É mais do que isso.

Nenhum santo, provavelmente nenhum homem na história da civilização conseguiu alcançar a façanha de Mandela. Este homem, Mandela, esteve preso por 27 anos. O regime racista contra o qual lutava, e que o levou à prisão, durou de 1948 até a libertação dele, no começo dos anos 90. Quer dizer: durante mais de 40 anos, o racismo foi lei na África do Sul. Em 1994, finalmente foram realizadas eleições livres e Mandela elevou-se à presidência. Poderia ter se vingado, como muitos negros queriam, e ainda querem. Poderia ter partido para a revanche. Ao contrário: Mandela ensinou aos sul-africanos que todos eles, brancos, negros, mestiços e indianos, faziam parte do mesmo país, que eram irmãos e que tinham de conviver em harmonia.

No discurso tudo isso é muito bonito, só que, estando aqui, pode-se constatar que Mandela conseguiu atingir seu objetivo na prática. A todo momento ouço brancos e negros repetindo que o país mudou, que atitudes intolerantes não são mais aceitas, que é preciso olhar para frente. É evidente que ainda existem radicais de ambas as partes, mas a ideologia de paz de Mandela entranhou-se na alma dos sul-africanos. Racionalmente, Mandela conseguiu mudar os africanos sentimentalmente. Hoje ele é uma unanimidade, é amado e respeitado por todos. É mais do que um santo.

Pois estive frente a frente com esse homem. Foi em julho de 1991. Fazia pouco mais de um ano que Mandela havia sido libertado da prisão. Viajara ao Brasil para visitar Brizola, que governava o Rio de Janeiro.

Por coincidência, também fui ao Rio e também queria encontrar Brizola. Estava preparando uma alentada reportagem sobre os 30 anos da Campanha da Legalidade, já havia entrevistado praticamente todos os personagens envolvidos na história, menos um. O mais importante. Brizola.

TINHA de entrevistar Brizola para que minha matéria ficasse completa. Mas não conseguia… Ele se negava a falar sobre o assunto. Queria, como Mandela, olhar para frente, queria ser presidente da República e achava que remoer aquela velha história de rebeldia não lhe traria novos amigos.

Liguei mais de 80 vezes para o Rio, tentando falar com Brizola, a conta telefônica do jornal deve ter subido a Saturno. Tudo em vão. Ele estava decidido a não falar. In extremis, resolvi arriscar. Menti ao diretor do jornal que havia marcado a entrevista, porque só com a entrevista marcada ele me daria a viagem. Assim, embarquei para o Rio confiante em meu poder de persuasão. Supunha que, chegando lá, apresentando-me pessoalmente, convenceria Brizola a falar.

Como diria Chico Buarque, qual o quê! Brizola não me recebia de jeito nenhum. Acampei na sala de espera do gabinete dele. Passei lá dois dias e duas noites praticamente inteiros, os secretários de Estado estavam todos solidários com meu drama. Foi aí que um deles me assoprou: Brizola receberia Mandela no Copacabana Palace. A parte inicial do programa era fechadas aos jornalistas, mas os secretários, que àquela altura já eram meus amigos, ou ao menos tinham pena de mim, me colocariam no hotel e me poriam diante de Brizola. A partir daí, cabia a mim convencê-lo a dar a entrevista.

A etapa inicial do plano deu certo. Fui introduzido no hotel e posto em frente a Brizola e Nelson Mandela. Ficamos eu e os dois grandes políticos parados no saguão. Olhei para Mandela. Ele ainda não havia se transformado em santo. Sua grande obra se daria nos anos seguintes. Mesmo assim, era uma figura impressionante. Um homem alto, mais alto do que eu, que meço 1m82cm. Magro, muito ereto e elegante dentro do seu terno. Os cabelos grisalhos. A pele de um tom marrom-caramelo, se é que essa cor existe. Sorria com serenidade, um sorriso sem dissimulações, que convidava o interlocutor a sorrir também. Seria amigo deste homem, pensei.

Mas não lhe dei mais importância. Preocupava-me era com Brizola. Ele me daria a entrevista?

Não.

Essa foi sua resposta: não. Eu mentira ao diretor do jornal para conseguir a viagem, eu estava havia dois dias no Rio, eu falara com Brizola. Não podia voltar sem a entrevista.

No momento em que ele disse o não definitivo, os secretários me apartaram do lugar. Fiquei sentado nas escadarias do Copacabana Palace, com vontade de chorar. Brizola e Mandela conversaram por algum tempo, depois o local foi aberto aos demais jornalistas, que entrevistaram os dois em coletiva. Pouco me importava a coletiva. Fiquei esperando que terminasse. Quando Brizola e Mandela saíram, corri até eles.

- Governador! – Chamei. Brizola me olhou, enquanto descia a escadaria do hotel. – Governador, o senhor sempre fala nas crianças. As crianças, os jovens não conhecem a Legalidade. O senhor tem que contar essa história, governador! Pelos jovens! Pelas crianças!

Brizola parou. Mandela parou também. Mandela ainda sorria, observando-me, decerto considerando-me inconveniente, como, aliás, estava sendo. Brizola pensou por um momento. E sentenciou:

- Falamos mais tarde. Me procura no gabinete.

Horas depois, à meia-noite, ele me concedeu a entrevista no Palácio das Laranjeiras. Voltei para Porto Alegre com a matéria. E com uma lembrança de Mandela de brinde. Lembrança rala, talvez seja, mas ao menos tenho uma.


Villa faz a Espanha sonhar

30 de junho de 2010 2

A seleção de Portugal estava invicta há quase dois anos. Um total de 18 partidas, 12 delas com vitória. Mais: nos últimos 10 jogos dessa série, três deles na Copa do Mundo, um deles contra o Brasil, Portugal estava sem tomar gol. Sua compacta estrutura defensiva já era considerada intransponível em terras africanas. Furar a defesa de Portugal era como atravessar uma manada de búfalos negros da savana.

E então surgiu o toureiro espanhol para rasgar a estatística.

Aos 17 minutos do segundo tempo da decisão da vaga para as quartas de final, ontem à noite, na Cidade do Cabo, David Villa marcou o único gol da Espanha no jogo e o único gol sofrido por Portugal na Copa. O necessário, porém, para classificar os espanhóis para o enfrentamento contra o Paraguai e mandar os portugueses de volta para seus 365 pratos diferentes de bacalhau na Península Ibérica.

O gol espanhol foi uma preciosidade de trama coletiva. Iniesta e Xavi trocaram passes na meia-lua portuguesa: Iniesta para Xavi, Xavi para Villa. De calcanhar. Villa não vacilou, chutou de canhota, ele que é destro. O ótimo goleiro Eduardo, o melhor em campo pela sua seleção, defendeu parcialmente. A bola voltou para o próprio David Villa, que desta vez colocou a bola de direita, por cima de Eduardo. Ela bateu no travessão e deslizou rede adentro.

David Villa, mais uma vez nesta Copa, foi o melhor jogador da partida. A forma como atua tem desconcertado os adversários. Porque Villa é um ponta-esquerda que joga com o pé direito, ao estilo do velho Joãozinho, ponta-esquerda do Cruzeiro que muito atrapalhou a vida do Inter nos anos 70. Como Joãozinho, a preferência de Villa é receber a bola no lado esquerdo da grande área e então cortar para dentro, preparando o chute a gol com o pé direito. Assim ele tem se tornado goleador por onde passa. Assim ele derrotou Portugal ontem à noite.

Verdade que o técnico de Portugal ajudou nessa tarefa. Seu time foi muito pouco ambicioso para quem pretende passar adiante numa Copa do Mundo. Como contra o Brasil, Queiroz armou sua seleção com quatro zagueiros sólidos na frente da área, um centromédio diante deles, mais quatro meio-campistas de contenção e só Cristiano Ronaldo lá na frente, todo exibido, abrindo bem as pernas antes de bater uma falta, fazendo beicinho para as câmeras de TV, que, bem sabe, estão sempre focadas nele.

Contra o Brasil deu certo; contra a Espanha, não. A Espanha encontrou frestas nessa fortaleza desde o começo do jogo. Com um minuto Fernando Torres já havia chutado com perigo, obrigando Eduardo a espalmar a escanteio. Depois disso foi uma sequência: Villa quase marcou aos 2 e de novo aos 6. Fernando Torres levou perigo ao gol português mais uma vez aos 12.

A partir do meio do primeiro tempo, Portugal melhorou e passou a atacar um pouco. Mas só um pouco. Até porque Cristiano Ronaldo, o craque do time, só parecia preocupado mesmo em se olhar no telão do estádio. Telões no estádio são como espelhos para um homem vaidoso como Cristiano Ronaldo.

No segundo tempo, o técnico de Portugal cometeu mais um erro: retirou o atacante Hugo Almeida, que era quem mais preocupava a defesa espanhola, e colocou Danny. Quatro minutos depois, Villa fez o gol, e aí Portugal já não tinha mais como reagir. Tanto que foi a Espanha quem teve mais chances de marcar, quase sempre com Villa, que já é um dos artilheiros da Copa, com quatro gols.

A Fúria espanhola segue em frente, fazendo jus ao apelido, sendo agressiva, insinuante, perigosa. Quem sabe não cruzará o caminho do Brasil mais adiante, de volta a Joanesburgo, em 11 de julho, o dia da final?

Outra conversa com Fátima Bernardes

30 de junho de 2010 72

Detrás de óculos escuros com lentes do tamanho de pires de cafezinho, porém muito elegantes, Fátima Bernardes avistou-me no treino do Brasil, antes do jogo com o Chile, e veio em minha direção. Veio sorrindo:

- Que encrenca você arranjou, hein?

Falava dos comentários dos leitores do meu blog abaixo de um texto que escrevi a respeito dela, mais precisamente a respeito dos boatos que circulavam na internet sobre ela.

Os boatos, talvez você não lembre, eram de que uma doença a obrigara a voltar ao Brasil e de que Dunga a expulsara da concentração, feroz como o Arcanjo Gabriel expulsando Adão e Eva do Paraíso, alegando que não daria entrevista exclusiva para ninguém, nem mesmo para ela, “primeira-dama do jornalismo brasileiro”, segundo os maliciosos relatos do mundo virtual.

Meu texto, derivado de uma conversa com Fátima, explicava que ela nunca nem sequer falou com Dunga, quanto mais pedir exclusiva. E que continuava firme e saudável em solo africano.

Fátima leu todos os comentários. Muitos foram agressivos e mal-educados, gêneros de comportamento que parecem ter se tornado habituais entre os brasileiros.

Ela achou alguns engraçados e outros tristes.

Achei, quase todos, tristes.

Como era domingo, dia de Fantástico, Fátima não trabalhou. Foi almoçar no Soweto, onde comeu galinha com molho picante. Gostou muito. Mas não teve ousadia suficiente para passar de uma única colherada de mielie pap, a polenta de milho branco típica da África do Sul, que, como sugere o nome, é uma papa branca, gosmenta, parecida com o grude que nossos avós usavam como cola. Não recomendo.

Fátima contou que, no dia da partida com Portugal, por coincidência, sentou-se ao lado de Kaká e Elano, que não jogaram. Eles foram muito simpáticos e acessíveis, conversaram com ela enquanto eram ovacionados pela torcida. Fátima não lhes pediu exclusiva.

Bielsa atacou, Dunga agradeceu

29 de junho de 2010 8

Nenhum time pode jogar contra a Seleção Brasileira da forma como jogou o Chile, ontem, sem ser duramente punido. Contra qualquer Seleção Brasileira, desde o seu jogo inaugural no Estádio das Laranjeiras, em 1914. O que dirá, então, de uma Seleção montada há quatro anos, entrosada e disputando uma Copa do Mundo? Os 3 a 0 que o Brasil aplicou nos chilenos, na fria noite de ontem no Ellis Park, em Joanesburgo, aconteceram naturalmente, como vem acontecendo nos últimos quatro anos: nesse período, o Brasil derrotou a seleção chilena cinco vezes. E, em cada vitória, contou com o auxílio luxuoso do técnico do Chile, Marcelo Bielsa.

Bielsa é um ingênuo. Só pode ser. Ou um idealista cheio de certezas. Porque, sempre que enfrenta o Brasil, ele comete o mesmo erro: tenta jogar para frente, aberto, atacando.

Sempre perde.

Ontem não foi diferente. O Chile entrou no Ellis Park com três atacantes, nenhum deles grande coisa. Pela esquerda, bem adiantado, ainda juntava-se a eles Jean Beausejour, que teve uma rápida e infrutífera passagem pelo Grêmio em infausto passado.

Aí outro equívoco de Bielsa: Beausejour estava em campo e Valdívia no banco.

O resultado é que o time de Bielsa joga um futebol belo e fútil como certas dondocas da alta sociedade. Durante a primeira meia hora do jogo, o Chile deu a impressão de que jogava melhor, de que tocava mais a bola e com mais competência, já que o Brasil, novamente, errou passes como uma Seleção Brasileira não pode errar.

Mas era só impressão.

Na verdade, o Chile não dispunha de nenhum atacante ou meia com imaginação. Assim, os chilenos saíam da sua defesa trocando passes corretos, evoluindo de forma aparentemente alvissareira, mas, ao chegar nas imediações da grande área, perdiam a bola. Ou chutavam de forma bisonha, de longe, quase sempre torto.

O Brasil não fazia uma partida muito melhor, sobretudo por causa do seu meio-campo pouco inspirado. A diferença era que os jogadores brasileiros mostravam-se levemente mais insinuantes quando se aproximavam da área chilena. Não que tenham tramado alguma chance de gol de fato perigosa. O mais emocionante que ocorreu nesse tempo todo foi um chute forte e com efeito de Gilberto Silva, aos 8 minutos, obrigando o goleiro Bravo a fazer uma defesa complicada e espalmar a bola a escanteio.

O mérito do Brasil nesse período foi destacado depois por Dunga na entrevista coletiva: a paciência. Os jogadores brasileiros estavam esperando uma oportunidade sem se arriscar. Ela surgiu aos 33 minutos. Maicon cobrou escanteio da direita e Juan deu uma testada para o gol: 1 a 0.

Juan merece um parágrafo exclusivo nessa história. Não apenas pelo gol, mas por sua atuação irrepreensível. Juan não errou uma única vez sequer. Com seu olhar de Denzel Washington e seus movimentos suaves, é um zagueiro como raras vezes teve a Seleção Brasileira. É um craque da grande área, herdeiro legítimo de um Domingos da Guia, o “Divino Mestre”, de um Luisão Pereira, o “Chevrolet”. Juan foi o melhor em campo, não Robinho, que recebeu o prêmio da Fifa.

Juan.

Com sua cabeçada precisa, desferida de olhos bem abertos, Juan tornou possível a vitória do Brasil. Pois, a partir do primeiro gol, como ressaltou Dunga na entrevista, o jogo se abriu ainda mais. Era o jogo perfeito para a Seleção Brasileira.

Aos 36, Luís Fabiano fez uma jogada bizarra: tentou dar um passe de calcanhar e a bola bateu na sua outra perna, voltando para o adversário. Menos de um minuto depois ele estava driblando o goleiro para ampliar o marcador. Esse gol, é claro, deu-se num contra-ataque.

Um contra-ataque. Do jeito que o time de Dunga gosta.

No segundo tempo, Bielsa enfim colocou Valdívia no meio-campo do Chile. Melhorou um pouco, mas era tarde demais. Aos 14 minutos, Robinho marcou seu primeiro gol em Copas e liquidou a partida. Agora, bastava esperar para comemorar a classificação para as quartas de final. Destino: Port Elizabeth.

Adversário: Holanda, que, como o Chile, é um velho inimigo, conhecido das Copas de 74, 94 e 98. Mas que, ao contrário do Chile, protagonizou enfrentamentos mais sérios com a Seleção Brasileira. O Brasil já foi desclassificado pela Holanda. E já a desclassificou. É preciso tomar cuidado com ela, o que, é certo, será providenciado: o que de melhor faz o time de Dunga é tomar cuidado.

A moça que veio de Malawi

28 de junho de 2010 3

Miranda é de Malawi. Ela e as outras duas camareiras da pousada que nos hospeda em Joburg. Converso mais com Miranda por ser ela quem cuida do meu quarto. Mostrei-lhe uma foto do meu Pocolino, que está fazendo serelepices aí em Porto Alegre. Ela fez uó:

- Uóóó…

No mundo inteiro mulheres de todas as raças, cores e crenças apitam quando veem criancinhas.

Contou-me, Miranda, que tem uma filha de sete anos. Perguntei onde andava a menina. Miranda respondeu, e em meio à frase percebi um leve engasgo, que sua pequena ficara em Malawi com os avós. Foi o tal leve engasgo que me levou à pergunta seguinte:

- Há quanto tempo você não a vê?

Uma luz de tristeza dançou nos olhos negros de Miranda antes de ela sussurrar:

- Dois anos…

Não fiquei menos saudoso do meu filhinho. Fiquei mais compassivo por Miranda.

As crianças de Madonna

O Malawi de Miranda é um dos países mais pobres da África, o que significa dizer que é um dos países mais pobres do mundo.

Você já ouviu falar de Malawi: Madonna esteve lá para adotar duas crianças, lembra? O governo de Malawi não queria permitir as adoções por algum motivo, mas Madonna conseguiu vencer a burocracia estatal. Não há nada que Madonna não consiga.

O Japão da África

Malawi tem esse nome por causa de um grande lago à beira do qual se esparrama o país: o Lago (obviamente) Malawi. O doutor Livingstone foi o primeiro homem branco a pisar lá. Era o que o doutor Livingstone fazia na África: descobria lugares inóspitos, travava amizade com os nativos, plantava no chão duro uma capela e os convencia a adotar o cristianismo. Teve sucesso em Malawi, o doutor Livingstone.

A língua que se fala em Malawi é o chinyanja. Em chinyanja, “malawi” significa “nascer do sol”, porque é de seu vasto lago que o sol se ergue todos os dias.

O país do sol nascente, portanto. Malawi é o Japão da África.

Como diria Zapata

A história de Miranda é a história de milhões. Não há emprego em tantos paupérrimos países do continente, então as pessoas emigram para onde pode haver. Esse lugar, há uns 15 ou 20 anos, era o Zimbábue, a antiga Rodésia do inglês Cecil Rhodes. Miranda, inclusive, orgulha-se de ter estudado no Zimbábue, onde havia educação não apenas gratuita, mas de excelência.

Ao ser empossado como presidente, em 1980, Robert Mugabe manteve os investimentos em educação, o país se desenvolveu, era uma pérola africana. Mas lentamente, ou talvez nem tão lentamente assim, Mugabe transformou-se em um tirano implacável. Destruiu o próprio país. Perguntei a um zimbabuano o que havia acontecido a Mugabe. Ele sorriu um sorriso triste e respondeu com uma única palavra:

- Poder…

Como disse um dia Emiliano Zapata, o poder corrompe.

Corrompido Mugabe, arrasado o Zimbábue, o polo de empregos abaixo do Saara, agora, é quase que só a África do Sul. Africanos de todos os cantos convergem todos os dias para o vértice do continente. O que cria alguns problemas para os sul-africanos, verdade, mas também traz possibilidades. A África do Sul está mudando, essa gente toda está se misturando, transformando esse país em algo novo no mundo. Algo parecido… com o Brasil.

No continente africano, um caldeirão de línguas e povos

No Brasil, as raças se fundiram na poeira dos séculos e continuam se fundindo. Mas no Brasil houve sempre uma única língua a facilitar esse processo. Na África do Sul, não. Na África do Sul as línguas são muitas, 11 oficiais, e mais outras tantas. O inglês é a quinta, mas como o país está se abrindo cada vez mais para o Exterior, logo ganhará mais importância.

Na África do Sul você quase pode ver (ou ouvir) as línguas se miscigenando. O próprio africâner, a língua dos colonizadores brancos, é uma mistura de holandês com alemão e inglês. O hino do país, o Nkosi Sikelele iAfrika, é cantado em quatro línguas. Volta e meia pergunto aos sul-africanos se eles entendem tudo o que é cantado no hino. Eles não entendem. Mas cantam. Sabem a letra toda.

No dia a dia, os sul-africanos vão fundindo as línguas. Vez em quando, um branco exclama:

- Aikona!

Quer dizer “de jeito nenhum”, e é em zulu.

Um branco também pode mandar:

- Hamba!

Que é “cai fora”.

E ele chama o amigo de “meu china”. Diz-se “tchaina”.

- Rélou, mai tchaina!

Nas minas já se fala uma língua que são todas juntas. É o “fanagalo”. O fanagalo não é apenas um cozido das línguas sul-africanas. Neste panelão estão várias outras línguas do continente, porque são muitos os estrangeiros que trabalham debaixo do solo sul-africano, tirando de lá o ouro, a prata, a platina, o carvão.

Essa mistura não vai parar jamais, porque a África é muito variada. Quer ver? Os tanzanianos, sabe quantas línguas eles falam? Cento e vinte. Há 10 mil povos diferentes na África. Dez mil! Dizem que os europeus dividiram a África em 50 países durante a famosa Conferência de Berlim, no século 19. Dividiram, sim, mas entre si. Na verdade, os brancos UNIRAM povos que, em muitos casos, queriam continuar separados. Querem ainda, na verdade. Há muita intolerância racial na África. Tanto quanto na Europa, na Ásia e na América do Norte. Mais do que na América do Sul. Muito mais do que no Brasil.

Um outro Dunga é possível

28 de junho de 2010 38

Algo aconteceu com Dunga. Algo de muito bom. Porque o Dunga que se apresentou para a entrevista na sala de conferências do Ellis Park, ontem à noite, em Joburg, era outro Dunga. Era um Dunga desarmado, brincalhão, leve, até alegre.

Foi uma surpresa.

Verdade que, na entrevista da véspera do jogo contra Portugal, em Durban, o treinador como que fez um pacto implícito com a imprensa: pediu desculpas por sua atitude na entrevista ocorrida depois da partida contra a Costa do Marfim, quando sussurrou palavrões na direção de alguns jornalistas, e disse que não queria falar mais no assunto.

Era como se anunciasse um recomeço. Mas mesmo naquela entrevista Dunga parecia pungentemente tenso. Entrou na sala falando sozinho, como se rezasse ou resmungasse para si próprio. Sentou-se diante dos microfones com o rosto transido, como se responder às perguntas lhe causasse dor. E, na última pergunta, fez um desabafo carregado de emoção, por pouco não indo às lágrimas.

Ontem, não. Ontem era outro homem. Dunga não foi lacônico, como às vezes tem sido; não se irritou em nenhum momento, como muitas vezes se irrita; e quase não usou da ironia, que sempre usa. Quando o fez, não foi uma ironia amarga, mas divertida. Como quando respondeu a uma questão de uma jornalista italiana. Falando em italiano fluente, Dunga brincou:

- Não adianta só vencermos. Temos que vencer e golear. Não adianta só golearmos. Temos que golear e dar espetáculo. E, quando fazemos tudo isso, dizem que o adversário é fraco. É duro…

Os jornalistas caíram na gargalhada.

Com diplomacia, Dunga evitou de todas as formas colocar o Brasil como favorito contra o Chile, hoje à noite, mesmo que sua seleção já tenha batido a chilena cinco vezes em quatro anos.

- Isso é só estatística, é passado.

Ao falar sobre a possibilidade de se usar a eletrônica e a informática para acabar com os erros de arbitragem no futebol, voltou a gracejar:

- Se acabasse a polêmica no futebol, muita gente ia perder emprego. Vocês não estariam aqui, e eu também não estaria aqui.

O ambiente estava tão ameno que o assessor da Fifa emendou sorrindo, em português arrevesado:

- Eu também não estaria aqui…

Ao levantar-se, Dunga não desafiou ninguém, como na entrevista após o jogo com a Costa do Marfim. Ao contrário: ficou conversando. Um dos quais disse saber que ele ia para a Fiorentina depois da Copa. Dunga riu:

- Quer apostar milzinho como não vou?

Milzinho. Era mesmo um novo Dunga, o Dunga da véspera da decisão contra o Chile.

Um príncipe entre os zulus

26 de junho de 2010 2


Diziam, os contemporâneos da espanhola Eugênia, que ela era a mulher mais linda da Europa. Seus longos cabelos maravilhavam toda a gente. Eram de uma cor exótica, conhecida como castanho-ticiano, um tom de castanho empregado pelo pintor Ticiano mais de 300 anos antes. Conheço uma mulher com cabelos castanho-ticiano. Ela tem pernas longas e… Mas estou tergiversando. Voltemos a Eugênia.

Foi educada em Paris. Frequentava a corte francesa. O imperador Napoleão III, sobrinho do Napoleão quente, enamorou-se dela. Uma noite, aproximou-se e lhe sussurrou com voz rouca ao lóbulo da orelha:

– Qual é o caminho mais curto para os seus aposentos?

E Eugênia, impávido colosso:

- Pela capela, meu senhor. Pela capela.

Deu certo. Casaram-se, ela se tornou imperatriz e deu-lhe um filho, o príncipe Eugênio.

Quando Napoleão III foi derrubado, o que os franceses fizeram muito bem, a família exilou-se na Inglaterra. Em 1879, estourou a guerra entre o império britânico e os zulus aqui desta região de Durban, onde o Brasil conquistou o primeiro lugar em seu grupo na Copa da África. O príncipe Eugênio, já em idade de servir o exército, foi mandado para o conflito. Os comandantes ingleses, porém, receberam instruções para não submetê-lo a riscos.

De nada adiantaram as orientações. Um dia, o príncipe foi autorizado a incorporar-se a uma coluna de vanguarda. Adiantou-se, ladeado por dois oficiais. E caiu numa emboscada. Os ferozes guerreiros zulus os cercaram, o cavalo do príncipe testavilhou, e ele caiu. Ao levantar-se para deter o cavalo, viu-se presa dos inimigos. Que não se deram o trabalho de capturá-lo. Mataram-no ali mesmo, junto com seus dois companheiros, como se fossem David Villa executando um goleiro.

A morte do filho único ensombreceu a vida da imperatriz. Eugênia, antes tão vivaz, caiu em tristeza profunda e passou a vestir-se unicamente de preto. Pediu à rainha Vitória permissão para viajar à África do Sul para resgatar o corpo do filho. Vitória concedeu-lhe esta mercê. Eugênia atravessou o oceano e foi até o local onde o filho havia sido abatido. Mas ninguém sabia dizer onde o corpo fora enterrado – o mato crescera e tomara conta do local. Os soldados procuravam e não conseguiam encontrar vestígios da cova. De repente, Eugênia os chamou. Voltaram-se para ela. Estava tesa.

– Estou sentindo cheiro de violetas – disse a imperatriz. – Violetas sempre foram as flores preferidas do meu filho. O cheiro vem de lá.

Eugênia encaminhou-se para o lugar de onde vinha o cheiro de violetas. Apontou-o. E, realmente, era lá que o filho estava sepultado. O sentimento de uma mãe faz milagres acontecerem.

Villa põe Chile na rota do Brasil

26 de junho de 2010 4


O gol mais bonito da Copa da África, até agora, foi marcado ontem por um jogador com nome de craque: David Villa, atacante espanhol, foi autor de uma obra de arte. Faria o orgulho de Picasso, Goya, Velázquez, Miró ou de qualquer um outro de seus conterrâneos célebres e talentosos.

Assim foi a pintura de David Villa, pincelada por pincelada: aos 23 minutos, o chileno Valdívia perdeu a bola no campo de ataque e ela foi lançada para Fernando Torres. O goleiro do Chile, Claudio Bravo, saiu correndo estabanado para interceptar a jogada, dividiu com Torres e ela foi parar na intermediária. Lá estava David, a exatos 45 metros da linha fatal. Para se ter ideia do que são 45 metros, lembre que o gramado do Olímpico tem 98 metros de extensão, de uma goleira a outra. Dessa distância, David Villa chutou de primeira, de canhota. A bola voou por cima da zaga e pingou dentro do gol. E David saiu correndo de braços abertos para comemorar, cavanhaque “de mosca” no queixo, sorriso nos lábios, parou na lateral do campo e fez um gesto largo com os braços, como se fosse um toureiro saudando a assistência.

Talvez seja por vaciladas como a do começo do lance que Felipão não queira mais Valdívia no Palmeiras.

Mas o que importa é que, desta forma, a Espanha abriu caminho para sua vitória. Que lhe tirou do caminho do Brasil. O adversário que a Seleção enfrentará segunda-feira, no Ellis Park, em Joanesburgo, será o combalido Chile. Combalido, sim, porque ontem, além de ser derrotado, perdeu um jogador, o zagueiro Marco Estrada, expulso de campo por ter feito falta sem bola em Fernando Torres.

Aos 36, David Villa fez outra grande jogada pela esquerda e passou para Iniesta ampliar. Rodrigo Millar descontou para o Chile aos três do segundo tempo. O empate daria ao Chile o primeiro lugar do grupo e o afastaria do Brasil. Não é pouca coisa fugir do Brasil, e demonstrou-o com eloquência a atitude do técnico chileno, Marcelo Bielsa, durante quase todo o segunto tempo: ele permaneceu sentado no reservado, em silêncio, casmurro. Sabia, Bielsa, que um gol, àquela altura, seria muito heroísmo. E não era uma noite de heroísmos. Era noite de arte. A arte espanhola de David Villa.

Cotação: como foram os brasileiros diante de Portugal

26 de junho de 2010 5


Júlio César – Além de ser marido da Suzana Werner, é um goleiro técnico e corajoso. Quando tudo parece perdido, ele surge voando, como o Superman, e resolve. Resolveu ontem em pelo menos duas vezes. Nota 8

Maicon –
Seus dias de Josimar parece que foram um só, o da estreia. Foi um pouco menos do que discreto. Nota 5

Lúcio – Dunga queria que ele fosse escolhido o melhor em campo. Talvez não tenha sido o melhor em campo, mas, com sua energia, foi o melhor do Brasil. Nota 8

Juan –
Errou duas vezes nessa partida. Para um Juan, que jamais erra, foi demais. Nota 6

Michel Bastos –
Lembrou seus sombrios momentos de Grêmio. Nota 4

Felipe Melo – Parecia ansioso para ser expulso. Dunga disse que o tirou de campo porque ele sofreu uma torção. Neste caso, foi uma torção que veio a calhar. Nota 4

Gilberto Silva –
Errou mais passes do que poderia errar um centromédio tosco. Ele não é um centromédio tosco, mas ontem foi. Nota 4

Daniel Alves – Perdeu uma boa chance de ser, para Kaká, o que foi Mazinho para Raí em 1994. Não demonstrou a menor criatividade. Nota 5

Júlio Baptista –
Outro que fez crescer o nome de quem não estava jogando. Daniel Alves pelo menos chutou a gol, ele nem isso. Nota 4

Luís Fabiano
Não conseguiu usar os pés e os braços como na partida contra Costa do Marfim. Nota 5

Nilmar – Usou sua lendária velocidade no primeiro tempo e, no segundo, ela foi apenas lendária. Nota 6

Ramires – Jogou pouco, 14 minutos, mas o fez como se estivesse no seu velho Guarani de Palhoça, como se fosse o dono do time. Nota 7

Josué –
Entrou no fim do primeiro tempo em lugar de Felipe Melo. Não foi tão violento quanto, mas foi tão inoperante quanto. Nota 5

Grafite – Entrou aos 40 do segundo tempo e quase não tocou na bola. Sem Nota

De jogo de sonho a jogo de sono

26 de junho de 2010 1


Um gaiato da estirpe de um Barão de Itararé diria que brasileiros e portugueses falaram a mesma língua no empate em 0 a 0 das seleções dos dois países, ontem à tarde, no belo, moderno, funcional e estalando de novo Estádio de Durban. O jogo só não pareceu um amistoso do começo ao fim porque, no primeiro tempo, houve alguma rispidez de parte a parte, sem, no entanto, maiores consequências. De resto, o resultado satisfez o Brasil, porque o time ficou em primeiro no grupo, e satisfez Portugal, que se classificou.

Dunga disse que não. Disse que não ficou feliz com o empate. Que a Seleção sempre joga para vencer. Que o Brasil tentou a vitória até o final.

Não foi bem assim.

No segundo tempo, o jogo a não jogar das duas equipes chegou a irritar os 62.712 torcedores nas arquibancadas. Apenas no primeiro tempo Brasil e Portugal atenderam parte das expectativas de um jornal local, que distribuiu pela cidade cartazes promocionais anunciando:

“Hoje, jogo de sonho”.

No início, o Brasil parecia que ia cumprir essa exigência, fato admitido até pelo treinador de Portugal, Carlos Queiroz, para quem o domínio da Seleção Brasileira durou 10 minutos.

– Depois disso equilibramos o jogo – afirmou.

Também não foi bem assim.

O Brasil pressionou muito mais. Teve 61% de posse de bola. Portugal jogou quase como uma Coreia do Norte: Queiroz alinhou quatro zagueiros na risca da grande área, à frente deles enraizou um centromédio ortodoxo, Pepe, e à frente de Pepe mais quatro meio-campistas que tinham por função marcar os laterais e os meias do Brasil. No ataque, só Cristiano Ronaldo, o astro inconteste da tarde.


Era Cristiano Ronaldo que as câmeras de TV focavam, e ele sabia disso. Volta e meia, erguia a cabeça, olhava para um dos telões do estádio e conferia se estava tudo em ordem com o penteado arrepiado. Nas faltas, apoiava o corpo em pernas bem abertas, fazendo ganir a torcida feminina. Aos dois minutos, ele tocou na bola pela primeira vez e os torcedores uivaram. Aos quatro, mais um toque na bola de Ronaldo e mais um gemido de prazer das arquibancadas.

No final, a Fifa deu a ele o prêmio de melhor em campo. Dunga não gostou. Perguntado sobre se a distinção não devia ter sido conferida ao zagueiro Lúcio, Dunga respondeu que sim, que Lúcio foi muito melhor, que ele não deixou Cristiano Ronaldo jogar.

Não foi exatamente assim. Foi quase.

Cristiano Ronaldo fez muito mise en scène, é verdade, mas ninguém foi mais perigoso do que ele na tarde primaveril de Durban. Chutou sete vezes a gol (Portugal inteiro chutou 13, o Brasil 19) e, sozinho, enfrentou com galhardia toda a defesa brasileira, às vezes obtendo vantagem.

No lado brasileiro, quem mais chutou foi Daniel Alves: cinco vezes, quatro tortas como a rota das caravelas de Cabral, só uma no gol, mas sem perigo. Daniel Alves, aliás, perdeu uma oportunidade valiosa de ganhar a posição. Ele e os outros dois reservas escalados por Dunga: Júlio Baptista e Nilmar. Ao cabo deste 0 a 0, os ausentes Elano, Kaká e Robinho se transformaram nos jogadores mais importantes da Seleção Brasileira. Aos demais faltou imaginação, faltou talento e, às vezes, até um pouco de arroubo. De todos, Nilmar foi quem se saiu menos mal. Aos 29 minutos, empregou sua velocidade de guepardo africano, chegou antes em uma bola quase perdida e, da pequena área, bateu para o gol. O bom goleiro Eduardo espalmou a escanteio.

Quando o primeiro tempo já escorria para o fim, Felipe Melo deu algumas de suas características entradas “viris”, o que é um bom eufemismo para “violentas”, e passou a se desentender com os portugueses. Gilberto Silva o repreendeu:

– Tu vai ser expulso!

Dunga agiu rápido: sacou-o do time aos 43 minutos. Na coletiva, porém, o treinador garantiu que não o fez por questões disciplinares.

– Ele sentiu uma torção – disse o treinador. – Não é bom manter um jogador com lesão no time.

Dobrado o Cabo da Boa Esperança do intervalo, os dois times como que se acomodaram. Portugal voltou feito um pastel de Santa Clara, todo empacotadinho na defesa. O Brasil voltou feito um vilão de Pedro Malasarte, sem nenhuma inspiração. Nos primeiros cinco minutos, os salários em euros da Seleção Brasileira erraram três passes, Gilberto Silva dois deles.

Aos seis, a torcida pediu:

– Robinho! Robinho!

Mas Dunga revelaria depois que Robinho havia sentido dores, e que tinha de ser poupado. Aos 14, Gilberto Silva errou outro passe, a bola caiu nos pés de Cristiano Ronaldo e ele arremeteu feito um búfalo contra a defesa brasileira. Foi driblando, foi trombando, foi passando, foi entrando na área. Entrou. Mas Lúcio esticou a perna e afastou a bola. Só que ela rolou pelas entranhas da área e sobrou para Raul Meireles, e era Meireles e a bola e Julio César e o gol.

E ele falhou.

Quase chorou, esse Meireles, e talvez devesse ter chorado mesmo.

Aos 29 minutos, os torcedores começaram a fazer a ola para se distrair. Aos 30, Josué errou outro passe e Dunga saltou e esbravejou e socou o ar na área técnica. O melhor lance do Brasil ocorreu aos 46 minutos, quando Ramires chutou de fora da área, a bola bateu num zagueiro e o goleiro Eduardo teve de espalmar a escanteio. Os dois times saíram de campo vaiados. Mas classificados. Pode-se concluir que, para o futebol pragmático da Copa da África, é o que importa. Ou como diria o Barão de Itararé: de onde menos se espera, daí é que não sai nada.

Estádio espetacular

25 de junho de 2010 2

O Estádio de Durban é mais do que um estádio: é um ponto de entretenimento. A rampa que circunda o estádio é mais ampla do que o piso de um shopping center. O lugar todo é limpo, arejado, alegre, bonito. Poderia ficar enumerando adjetivos aqui, para descrevê-lo, mas daqui a pouco o Brasil entra em campo com Nilmar no ataque.

O dobermann de 94

25 de junho de 2010 1

Mauro Silva concorda comigo. Em quase tudo. Encontrei-o indagorinha, 13h30min, horário sul-africano, no flamante Estádio de Durban. Mauro Silva, para quem é jovem demais e não é dado a leituras pretéritas, foi o colega de Dunga na frente da área do Brasil em 1994. No Alegrete do velho Gaudêncio Coimbra diriam que um matava e o outro enterrava. Mauro Silva era um dobermann feroz nas cercanias da meia-lua. Como hoje é Gilberto Silva. A família Silva, como se vê, é poderosa na arte defensiva da volância.

Mauro Silva está muito bem. Magro como nos tempos em que jogava. Falante, acessível, simpático, sorridente. Parte da nossa conversa foi essa (rimou!):

- Você acha que o Dunga se inspirou na vitoriosa seleção de vocês em 94 para montar essa da Copa da África?

- Em parte, sim. Mas acho também que ele não tinha muitas opções. Se tivesse um meia de habilidade jogando bem, como o Ronaldinho, ele jogaria com ele. Ele jogaria com o Ronaldinho.

- Mas a estrutura do meio-campo defensivo, os dois volantes, Gilberto Silva e Felipe Mello não são a réplica de vocês, Dunga e Mauro Silva?

- Ah, isso sim. Ele se baseou em nós. Até porque deu certo. Se deu certo daquela vez, pode dar certo agora.

- Até porque é um torneio, não é? É preciso ser mais cauteloso.

- Isso. Se fosse um campeonato longo, de pontos corridos, talvez essa não fosse a melhor fórmula, mas num torneio curto, em que uma partida pode fazer você voltar pra casa, é melhor ser mais cauteloso, se guardar mais.

- A seleção da Argentina corre esse risco?

- Corre. Me assusta muito a defesa da Argentina. Pode ser que esteja enganado, mas parece um time muito bom do meio pra frente e muito fraco do meio pra trás. Eles correm muitos riscos.

- Essa é a ideia do Dunga, então? Montar um time tão sólido quanto aquele de 94?

- Isso. Nisso o Dunga está copiando aquela seleção. Os laterais, os zagueiros, os volantes, os meias, os atacantes, o sistema de jogo, tudo. Mas ainda acho que, se ele tivesse um meia que fosse diferente dos outros, ele traria.

Tubarões amigos em Durban

25 de junho de 2010 0


Maria João. Eis um sonoro nome português de mulher. A dona desse nome é também dona da bucólica pousada à beira-mar onde estamos hospedados em Durban. Ontem pela manhã, céu azul da cor da desclassificada Itália, temperatura amena como amenos são os dias na classificada Argentina, ontem Maria João levou-nos para um passeio pela cidade.

Assim que ela se acomodou no banco do carro, olhei através da janela, vi o verde translúcido das águas do Índico e suspirei:

— Pena os tubarões…

Mais de dez espécies de tubarões nadam nesse mar e dele tiram o alimento. A administração da cidade protege as áreas de banho com redes, mas é impossível fixar rede em toda a orla. Vez em quando, um tubarão rebelde passa por trás de uma rede, invade a área de banhistas ou a de surfistas e almoça um pernil humano.

Os tubarões são tantos que bem perto do hotel em que está a Seleção Brasileira, no Centro, há um instituto de pesquisa que estuda os bichos. Se você quiser, pode ir lá que eles rasgam a barriga do tubarão bem na sua frente e tiram lá de dentro tudo o que ele comeu. É franqueado ao público. Evite ir antes das refeições.

As águas de Durban são de tal maneira frequentadas pelos tubarões que os moradores da cidade se acostumaram com eles. O time de rúgbi da cidade chama-se Sharks, tubarão em inglês. O estádio dos Sharks fica ao lado do estádio estalando de novo no qual o Brasil jogará. Na fachada está escrito: “A casa dos tubarões”.

Maria João tem dois filhos adultos nascidos na África do Sul (ela é moçambicana). Os rapazes gostam de nadar no meio dos tubarões.

— Eles dizem que os tubarões só atacam se sentem medo — disse Maria João. Mas ela não se arrisca a fazer o mesmo que os rebentos. Só nada em águas frequentadas por tubarões se também são frequentadas por golfinhos. Os golfinhos, de alguma forma, surram os tubarões. Fiquei muito admirado dessa valentia dos golfinhos.


Falamos tanto de tubarões e golfinhos que Maria João nos levou à praia. Rodamos por avenidas amplas e bem asfaltadas, margeadas por prédios modernos, mas não muito altos, até chegarmos à orla do Índico (foto). Não é tão bonita quanto a de Floripa, mas é muito bem aparelhada. Um calçadão onde as pessoas patinam, andam de bicicleta, correm e brincam. Quiosques. Parquinhos de diversões. Tudo muito limpo. E, se projetando mar adentro, plataformas de concreto de onde os surfistas se atiram para pegar onde depois da arrebentação.

Fazia 20°C ontem, e a praia estava lotada. Havia até mulheres de biquíni, se bem que não muitas, e algumas tristemente fora de forma. Outras até trajavam vestes muçulmanas, pisavam na areia cobertas da cabeça aos pés — há cerca de um milhão de indianos em Durban, considerada a maior cidade indiana fora da Índia. O Serginho Boaz se empolgou e tirou a camisa, anunciando:

— Vou dourar a pele…

Durban faz isso com as pessoas: deixa-as mais leves. Efeito do mar, da descontração característica de toda praia. Influenciará também os jogadores do Brasil? A resposta eles darão hoje, sobre o gramado machucado do Moses Mabhida.

Tudo vale a pena, se a alma não é pequena

25 de junho de 2010 4


O último suspiro de Fernando Pessoa, as palavras que escreveu para morrer logo depois de lhes pingar o ponto final, contrastam, dramaticamente, com o lema da sua vida. Porque um dia o poeta declarou, como uma profissão de fé:

“Minha pátria é a língua portuguesa”.

Mas a derradeira mensagem deixada pelo maior poeta da língua portuguesa depois de Camões, a frase que lhe brotou do leito de morte foi escrita na língua de Shakespeare.

Por causa de Durban.

Isso mesmo: esta cidade onde as seleções de Portugal e Brasil se enfrentam hoje, no novíssimo Estádio Moses Mabhida, teve grande influência na vida de Fernando Pessoa. Aqui ele viveu durante parte da infância e da adolescência. Aqui ele estudou, fez o segundo grau na Durban High School, escola pública de alto nível que visitei ontem pela manhã.

A escola estava fechada, os alunos estão em férias, mas os administradores concordaram em abri-la em nome da informação jornalística.

Nota-se, por sua estrutura, que a escola é de alto nível: prédios limpos, amplos e bem cuidados. Um campo oficial de futebol e um de rúgbi, ambos prontos para sediar jogos da primeira divisão. Piscina olímpica. No pátio há um busto de Fernando Pessoa feito em 2005. O poeta está sem óculos na escultura. Não parece com ele.

Quase não há registros da passagem de Fernando Pessoa pela escola, mas os sul-africanos reconhecem que um grande poeta estrangeiro viveu entre eles no começo do século 20. No centro de Durban existe outro busto de Pessoa, este com óculos e chapéu, correspondente à imagem que a posteridade tem dele. Na placa de identificação, além do nome do homenageado, estão impressos, em inglês, alguns de seus mais famosos versos, colhidos do imortal poema “Mar Português”:

“Oh, mar salgado
Quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal?”

Por essa poesia, bem como por tantas outras, nota-se a força do sentimento lusitano de Fernando Pessoa. Mas será que torceria para Portugal, se estivesse vivo e assistisse à partida de hoje? Afinal, ele disse que sua pátria era a língua, e o Brasil é o maior país de língua portuguesa do mundo.

Mas talvez o poeta não estivesse sendo completamente sincero. É possível. Foi ele mesmo quem um dia escreveu:

“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente”.

Há lógica nesta hipótese, porque Fernando Pessoa alfabetizou-se em inglês e até escreveu poesias em inglês. Como:

“A kiss is more than a touch of lips -
it is a touch of two hearts,
of two souls,
of two glowing portions of the life spirit”.

Na tosca tradução de minha lavra:

“Um beijo é mais que um encontro de lábios -
É um encontro de dois corações
De duas almas
De duas luminosas porções de espírito da vida”.


Fernando Pessoa, portanto, sabia amar em inglês.
Mais do que isso: soube morrer em inglês. Precisamente às 20h30min de 30 de novembro de 1935, aos 47 anos de idade, o poeta deve ter pressentido que não resistiria aos efeitos da cirrose hepática que o afligia. Pediu os óculos redondos e, pouco antes de expirar, escreveu:

“I know not what tomorrow will bring”.

“Eu não sei o que o amanhã trará”.

Dunga também não.

Antes de Portugal, a emoção de Dunga

25 de junho de 2010 30


As entrevistas coletivas de Dunga estão se transformando em atração nesta Copa do Mundo.

Ontem, a sala de conferências do Estádio Moses Mabhida estava lotada de jornalistas para acompanhar a coletiva obrigatória que o treinador tem de conceder antes das partidas.

Ninguém se decepcionou. Houve um contrito pedido de desculpas e até um momento emotivo em que o treinador por pouco não foi às lágrimas.

Dunga deu inclusive informações: disse que Júlio Baptista vai jogar no lugar de Kaká, suspenso por ter sido expulso diante da Costa do Marfim, e que Elano provavelmente será poupado. Em lugar de Elano deverá jogar Daniel Alves.

O pedido de desculpas se referiu à última coletiva do treinador, depois do jogo contra a Costa do Marfim, quando ele ofendeu jornalistas com palavrões sussurrados aos microfones da sala de conferências. Os palavrões vazaram e foram divulgados pela imprensa de todo o mundo. Dunga não pediu desculpas aos ofendidos. Pediu aos torcedores brasileiros.

— O torcedor não tem nada a ver com meus problemas pessoais — observou.

No final da entrevista, a repórter Marluce Martins, de O Dia, perguntou como o treinador se sentia estando longe do Brasil, devido ao estado de saúde de seu pai, que sofre do Mal de Alzheimer. Dunga lembrou que esse é um problema que vem desde a época em que ele assumiu a Seleção, e disse que isso lhe daria mais motivação para mostrar ao seu pai que aprendeu tudo o que lhe foi ensinado.

— Homem para ser homem tem que ter coerência
— falou, olhando nos olhos de Marluce. — Tem que ter dignidade, tem que ter transparência… E saber pedir desculpas quando erra.

Em seguida, Dunga lembrou da mãe e, ainda sem desviar os olhos dos olhos de Marluce, arrematou:

— Mais do que sofrer ao lado do meu pai, ela me deu o maior exemplo de que o que estão fazendo com o filho dela não se faz com ser humano nenhum. Ela me ensinou a não largar nunca nada, levar tudo até o final. Fizeram chacota de mim quando falei que ela é professora de história e a história já demonstrou que temos que ter amor ao país, temos que ser patriotas.

Dito isso, a entrevista foi encerrada. Dezessete perguntas respondidas em meia hora de contida emoção.