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As maçãs do rosto da morena

14 de julho de 2010 18

Você está lendo um livro. Nada desses caras que estão sempre analisando os próprios sentimentos, como o Philip Roth ou aquele sul-africano chatola, o Coetzee. Não. Pegue um autor que seja homem de verdade, que não fique se remoendo de autocomiseração. O James Ellroy, seco como o ar de Joburg. O Velho Buk. O jogador de sinuca João Antônio. Um desses. Em meio à trama, o que é que você encontra?

Uma frase bem torneada.

Note: ele não é um estiloso, não é um experimentalista, nem fica se masturbando mentalmente com seus fracassos sentimentais. Mas ele torneia uma frase. Sim, senhor.

Bom. Mas se você não quiser se ocupar de frases de trivela, pense nas maçãs do rosto da Renata Vasconcellos, aquela apresentadora que vez em quando reluz ao lado do William no JN. É um prazer sutil apreciar as maçãs do rosto da Renata Vasconcellos. No próximo Jornal Nacional, abra um tinto, refestele-se na poltrona e sorva cada momento, mesmo que ela esteja chamando uma matéria sobre o Piscinão de Ramos.

Você entende o que digo? É preciso alguma reflexão para ver como são belas as maçãs do rosto da Renata Vasconcellos, ou as delicadas curvas dos braços de certas mulheres, ou a maneira como um autor encaixa um verbo numa frase.


Mais: às vezes, a beleza tem 300 metros de altura e nem assim consegue-se enxergá-la, se não há reflexão. A prova está trançada em aço eterno: a Torre Eiffel. Quando o engenheiro Gustave Eiffel a ergueu para comemorar o centenário da Revolução Francesa, em 1889, os franceses mais ilustres a repeliram. Escritores como Guy de Maupassant, Émile Zola e Alexandre Dumas Filho a chamavam de monstruosa, escreveram teses luminosas para pô-la abaixo. Não conseguiram. Derrotado, Guy de Maupassant almoçava todos os dias em um restaurante da torre. Perguntaram-lhe por que fazia isso, se a odiava tanto. Maupassant suspirou:

– É porque este é o único lugar de Paris de onde não posso vê-la.

Gustave Eiffel não se abalava. Repetia:

– A torre revelará sua própria beleza.

Revelou. As pessoas aprenderam a olhá-la e ver nela muito da beleza de Paris.

Assim é o futebol da Espanha. Não é um futebol agudo, de linha de fundo, de bolor de grande área, de investida vertiginosa. Nada disso. É um futebol de intermediária. Um futebol sutil. A beleza do futebol espanhol não é o lançamento de 60 metros de um Roberto Rivellino; é o passe macio de Xavi, quatro ou cinco metros de bola precisa arrastando-se na grama feito uma naja nas areias do Saara.

Xavi.

Eis o nome da Espanha. Mais do que o goleiro romântico Casillas, mais do que o toureiro David Villa, mais do que o chutador Iniesta, Xavi é o homem. E nem é um grande homem. Mede metro e setenta, um Romário, não mais do que isso.

Xavi.

Seu futebol amadureceu. Aos 30 anos de idade, adquiriu a sabedoria dos pensadores, dos homens que conhecem o jogo, que dizem aos outros o que fazer.

Foi assim, com a beleza suave das maçãs do rosto de uma morena, ou da curva de braço de uma loira, ou de uma frase bem assestada, mas também com a imponência de uma torre de aço, foi assim que a Espanha se tornou uma campeã exemplar, dona de um futebol plástico e precioso. Mas que demanda certa reflexão para ser bem apreciado. E a reflexão histórica haverá de mostrar: são raros os campeões tão virtuosos quanto a Espanha.

Comentários (18)

  • jorge diz: 14 de julho de 2010

    O futebol arte é feito de lances bonitos, jogadas maravilhosas e muitos gols. A Espanha teve lances bonitos, muito toque de bola na intermediária, poucos gols e vitórias apertadas – 1x 0 -. Sem contar que o bom conjunto do meio campo deveu-se aos jogadores serem do Barcelona e estarem atuando juntos ha mais de dois anos. Ganhou a copa merecidamente porque antes de tudo ganhou suas partidas. No entanto, ficou uma pequena dúvida. Um time de craques não pode ganhar um jogo com gol de um zaqueirão, com muita pouca categoria. É um time que finaliza pouco e de maneira ruim. Além do que, craques não desperdiçam oportunidades. Craques fazem gols.

  • As graças da Fúria Estóica. diz: 14 de julho de 2010

    Meu caro David, permita-me uma emenda a essa análise das maçãs do rosto da Espanha.

    Não esqueçamos do estoicismo igualmente exemplar desses espanhóis diante da brutalidade batava. Depois do jogo, Zenão de Cítio, em algum canto do universo, deve-se ter dito: “eu já sabia”. Seu “logos” divino, ou razão universal prevaleceu.

    Os estóicos espanhóis também já sabiam que os holandeses eram manipuladores, desonestos, brutais, calculistas e descomplexados. Deram uma lição de equilíbrio e objetividade. Foram indiferentes aos golpes dos rapazes do países-baixos. E por saberem que eram melhores, mas que nada se ganha sem esforço e inteligência, retiveram-se e deixaram os laranjas orfãos de glória.

    Chegamos a temer o pior durante segundos horripilantes quando Robeen escapou sozinho cara a cara com Casilhas. Porém o pé salvador do goleiro espanhol estava lá. Inapelável. Místico. Um pé materializando o inconsciente coletivo que não pode se impedir de torcer por aqueles que preferiram o caminho da virtude.

    Ah, se tivéssemos tido a mesma força de caráter da “fúria”… Me digo que pelo menos fomos vingados. Ficou a lição. Seleção é para cobra criada.

  • Gilmar diz: 14 de julho de 2010

    E por falar em Jornal Nacional, quero saber se depois que a Flávia Freire ou a Rosana Jatobá apresentam o quadro da meteorologia, algum barbado prestou atenção no que elas disseram sobre se vai chover ou fazer frio ou se vai ter sol em algum lugar do país no dia seguinte.

  • carlitos nietzshe diz: 14 de julho de 2010

    Você é muito comum no trato do futebol! Pinça um jogador, eleva-o a condição de semi-deus e simplesmente inverte a lógica do jogo. Ele deixa de ser coletivo para ser analisado individualmente…
    Fraquinho você…mas bem ao gosto dos torcedores comuns…

  • Camila diz: 14 de julho de 2010

    Muito engraçado, vc falava mal do futebol meia boca do Brasil e agora arruma justificativas para o futebol meia boca da Espanha (melhor que o do brasil, mas ainda meia boca) ,só pq ela ganhou??? Haha!!

    Ta bom, David, senta lá!

  • Julio diz: 14 de julho de 2010

    Realmente o futebol espanhol é um futebol que precisamos de tempo para ser assimilado e hoje é campeão mundial. Mas é um futebol que agrada somente aos espanhois e formadores de opinião. Se fosse o Brasil campeão mundial fazendo somente 8 gols, seriam 4 anos de massacre da mídia até o próximo mundial. O futebol da Espanha é um futebol que privelegia a posse de bola e o regulamento em baixo do braço. Fez 1 e acabou o jogo, o resto é com a defesa. Vide o mundial. Abraços, e relamente é uma bela morena.

  • As graças da Fúria Estóica. diz: 14 de julho de 2010

    Em defesa do David, contra esse Nietzshe de araque.

    Em primeiro lugar, cuidado com a ortografia meu caro Carlitos. Antes de tacar pedra no telhado dos outros convém considerar a robustez da tua Zatilit.

    Apesar de acompanhar bem lá de vez em quando o blog e de não estar de acordo com tudo que diz o David, creio que dizer que o rapaz é fraquinho seja um sinal alarmante de um provável processo degenerativo avançado do sistema nervoso. Como no caso do verdadeiro Nietzsche. Entre arianos sifilíticos e belicosos e o descontraído alegorismo do David a escolha é simples.

    Faz-se o que se pode quando usado o bom senso. Outras vezes não. Ciumeira barata, sem argumentação. Interpretação curta e despótica. Visão estreita.

    Eita pampa velho… Pra cavalho redomão, espora de prata na paleta, mas sem maldade. Educativamente.

    :-)

  • As graças da Fúria Estóica. diz: 14 de julho de 2010

    E tenho dito.

  • Jorjão diz: 14 de julho de 2010

    Concordo em gênero e grau com o leitor acima, mas se Santanas, Vianeys e Bragas dão certo, porque um David não pode palpitar também? Afinal, terceiro mundo tem disso.

  • Henrique-China diz: 14 de julho de 2010

    Grande David, concordo plenamente contigo, acho q o Xavi é o grande centralizador, comandante, lider técnico q faz a equipe toda jogar. Não entendo como não exaltaram a exuberancia técnica deste jogador? Evidentemente q seus companheiros d equipe se apresentam para o jogo, mas com sua maestria, faz(fez) com q a Espanha tivesse tanto tempo com a manutenção da posse d bola. Tbm ñ falaram dos dois zagueiros, Piquet e Pujol d tamanha competencia, d fazer(Dar, vender, empresta, etc) inveja. Teria muito mais p falar. Abração e estou contigo.

  • Peixe diz: 14 de julho de 2010

    Bela comparação, mas uma Torre Eiffel sorve grande parte da sua glória do lugar onde está. Sem o Trocadero, o Sena, e a vista que se tem lá de cima, onde os pássaros sentem vertigem, a sua beleza seria inevitavelmente ofuscada até para os olhos do observador mais atento. Idem para as maçãs do rosto da morena, que não são adornos em qualquer morena, nem qualquer loira, nem qualquer ruiva, nem qualquer… bem, acho que me fiz entender. Não só Paris tem sua Torre Eiffel (ou, numa metáfora fácil demais, a Renata Vasconcellos tem suas maçãs do rosto), mas a Torre Eiffel tem sua Paris (e as maçãs do rosto têm a sua Renata Vasconcellos). Qual é a Paris do time da Espanha? Qual a Renata Vasconcellos que justificaria a individualidade de um Xavi, um Iniesta? Não é o seu futebol, conjuntamente falando. A comparação mais exata, no meu entender, é do texto em que se destaca uma frase torneada. Seu destino? Ser reduzido a essa frase, e esquecido no resto. Assim é o time da Espanha, e assim, acredito, ele será lembrado.

  • Marisa Oliveira diz: 14 de julho de 2010

    Acho que a Espanha era uma seleção que de maneira simples foi se impondo, foi toureando, enquanto outros estavam distraídos…e como dizem, comeu o mingau pelas beiras.

  • Gabriel diz: 14 de julho de 2010

    A virtude da espanha é a defesa, se defende com a bola no pé, este foi o segredo da espanha, não acho que seja um futebol bonito mas se mostrou eficiente. O Brasil apresentou um futebol mais bonito (que a espanha) na minha opinião, porém o ponto forte da seleção falhou, (defesa). Mereceu ganhar a copa.

  • Gabriel diz: 14 de julho de 2010

    e como diria David Coimbra, cuidado com a Alemanha.

  • Guilherme diz: 14 de julho de 2010

    A pseudo intelectualidade é divertida… mas nada relacionado ao caro David.

  • Domenica Scarlice diz: 15 de julho de 2010

    Guilherme, Guilherme…Depois de vc, ninguém mais… Verborragias estóicas são tão pernósticas, não? Mas, nada relacionado ao dono do blog. O espaço é dele, portanto…

  • maragato88@gmail.com diz: 28 de julho de 2010

    Resposta a Domenica Scarlice,

    Me pergunto, quem melhor que um pernostico para reconhecer outro? Pernostico e veborragia, palavras tão usuais, n’est pas ma très chère?

    Diriamos que a senhora resolveu, sem esquecer de acariciar -en passant- com lingua quente à bolsa gonadal de Guilheme Henri e do nosso bravo David, nomear-se sub-secretària da ciência infusa, preposta à censura.

    Se fosse verdade poderiamos responder com escàrnio, em caso de intempestividade colérica. Preferimos não fazê-lo. Uma moça da boa sociedade Rio-Grandense, ora vejam. Me diria que talvez a dita moça poderia estar procurando marido ou uma aventura com um bravo varão, o que explicaria o apreço pelo comentàrio cirurgico dessa verdadeira àguia dos pampas (el Guilherme, ou Carlitos Nieytzchez quem sabe), e me calaria. Pois finalmente nada disso valhe a pena, minha a alminha é tão pequena.

    Vos rogo, minha senhora, que receba minhas saudações mais distintas. Onde quiser. :-)

    Varredor nas pata e pelego a cara.

  • maragato88@gmail.com diz: 28 de julho de 2010

    Resposta para Guilherme com afeto,

    Aguia dos Pampas. O cara por cima de toda a carne seca. O dono da verdade. Capaz de tudo julgar. Reincarnação de Salmomão. Tenho receio apenas quando o senhor tiver que desenvolver uma idéia com mais um frase.

    Jà estremeço de pavor diante de uma resposta desse Socrates, com a humildade de uma Madre Tereza. Portanto, vos rogo piedade, pois não tive intenção de me elevar à altura de Vossa Senhoria o Ministro da Ciência Infusa.

    Escrevi, apenas, no intuito de fazer sorrir uma moça que porta a minha afeição. Prometo não repetir o equivoco.

    No entanto, ah como são bons esses momentos: “no entanto”. Ou melhor, entretanto, se o senhor me pegasse em momento de crispação… Diria, coisa que não o faço, para o senhor se entrever com a senhora sua mãe que encontra-se provavelmente no estàbulo ou pastando.

    No mais, recomenda-se uma infusão de mijo-de-gato. Diz que pra desser as bolas de guri novo é uma maravilha.

    Rogo que vossa senhoria receba minhas sinceras e distintas saudações là pela altura do rêgo.

    Acho que agora não tem confusão, assim deve estar mais a seu gosto.

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