Depois de alguns dias de África, comecei a me sentir meio estranho. Algo me incomodava no lugar. Ou não exatamente no lugar. Tratava-se de algo... nas pessoas. Não havia lógica, os africanos são gentis, são educados, são boa gente. O que podia ser? Levei tempo para descobrir.
Descobri.
Era o racismo.
O racismo está impregnado na alma dos africanos. Não me refiro ao racismo óbvio, motivado pela cor da pele, brancos versus negros. Para este racismo estava preparado. O que me chocou foi como o fator racial é importante para os africanos, como está presente no dia a dia deles. Um africano sempre sabe qual é a tribo do outro africano. É uma informação basilar. A partir dela, ele constrói a imagem do outro.
Mesmo Mandela, um santo acima de quaisquer questionamentos, ninguém esquece que ele é um xhôsa. Já seu sucessor, Thabo Mbeki, não era bem aceito pelos zulus exatamente por ser xhôsa. O atual presidente, Jacob Zuma, é um zulu. Os zulus ficam satisfeitos, mesmo que ele não faça uma grande administração. Os xhôsas nem tanto.
Os outros africanos que chegam à África do Sul também são identificados por suas tribos. Você não é só de Ruanda ou do Burundi. É um tútsi ou um hutu, e ser uma coisa ou outra faz toda a diferença.
Em pouco tempo, eu mesmo, ao conhecer alguém, perguntava qual era a sua tribo. Para quê? Que importância tinha aquilo para mim? Que importância tem isso para qualquer pessoa? O horror: eu também via distinções raciais.
Os africanos acreditam que isso é fundamental. Não é, claro que não é, e esse desvio ainda será a causa de muita dor no continente africano. Porém...
Existe um porém. E é fundamental.
Porém, na África do Sul veem-se negros atrás de volantes de carrões, veem-se negros em restaurantes internacionais, há uma classe média-alta de negros que moram em bairros elegantes, que dirigem empresas, que são astros de TV.
E isso também me intrigou. Como é que os negros estão ascendendo tão vertiginosamente naquele país em que o racismo era oficial há 15 anos e que ainda hoje pulsa, e pulsa mesmo entre eles, negros? E como é que aqui, no país mais miscigenado do mundo, os negros têm tanta dificuldade em escalar os degraus sociais?
A resposta está no Estado.
No Brasil, as fronteiras raciais são difusas. Mas, no Brasil, quando o Estado age para diminuir as diferenças não o faz na base. Não o faz na formação. Na África do Sul, a educação básica se tornou prioridade. A partir da educação básica, uma nova classe negra se formou.
Em meros 15 anos.
É a partir daí que se resolvem os problemas, mesmo os mais viscerais, como o racismo. A África do Sul, onde a raça ainda significa algo para as pessoas, onde a desigualdade está na alma do povo, a África do Sul planeja o futuro. Um futuro de um povo só. E o Brasil, onde todos somos brasileiros, até quando a igualdade será protagonizada pelo povo, só?





Bom Dia David !
Adorei teu comentário, e por isso incluo mais um fator nessa diferença..
No Brasil o país mais miscigenado do mundo, o racismo também existe, mas " finge-se " não perceber.. Cresci ouvindo a célebre frase " Não existe racismo no Brasil.. " Mas quando me via sendo a única negra pegando o canudo em pleno salão de atos da UFRGS, cheguei a conclusão de que as coisas na realidade são muito diferentes.. Priorizar a educação em nível superior somente, é complicado, por que a maioria desiste E bem antes do vestibular.. ! Acho que a África do Sul deixa um exemplo para o Brasil - Não esconder as feridas e sim tratá-las .. Buscar uma solução agora, e desde a base..
Penso que nos preocupamos com o topo, mas em verdade não temos sequer o primeiro degrau da base construído !
Abraços e um Final de Semana "MARA"vilhoso !
Linea Coelho
Muito pertinente o post David. Sou um admirador de um homem que mudou o Rio Grande e o Rio de Janeiro balizado por um só objetivo. Leonel Brizola. Brizola e seu fiel escudeiro Darci Ribeiro tinham a visão que nenhum outro politico tem no Brasil, de mudar seu povo através da educação de Qualidade.
Sou um seguidor deste princípio. Mudar através e somente pelo educação!
Uma das melhores análises sobre o tema Racismo no Brasil já feita por um colunista do Rio Grande do Sul. Moro na Suiça e aqui é comum ver negros em posições privilegiadas. O racismo existe, mas de outra forma, talvez mais exteriorizado nas relações pessoais. Entretanto, profissionalmente, as oportunidades são iguais. Os estrangeiros pensam que não existe racismo no Brasil, mas faço questão de explicar que estão redondamente enganados: o racismo do Brasil é um dos piores do mundo, pois é resultado de uma herança deixada pelo regime escravista. Em um país como o Brasil, cuja maioria é mestiça ou negra, é vergonhoso o fato de ser raro encontrar negros em altas posições profissionais e sociais. A passividade com que tal problema é encarado é revoltante e constrangedora. Assim como um bom time começa por um bom goleiro, um país que quer ser desenvolvido deve começar pela educação.
Sem dúvida alguma o sr deve apenas escrever historietas burlescas, para leitores de jornal...Este seu texto é de uma imbecilidade além da cor da pele...Como um racista reprimido, o sr surtou lá na África do Sul. Um porto-alegrense típico, achando muito estranho ver um negro próspero, ver cidades pujantes e belas palpitantes de negros bem sucedidos. Esperava ver uma África do Sul composta de muitos brancos,todos ricos e uma multidão de negros, todos pobres. Como sociólogo, o sr. é uma afronta, um desastre, um dejeto! Como "negros" estão ascendendo tão vertiginosamente num país onde o racismo era oficial há 15 anos atrás? O Estado é o responsável? O investimento na educação de base é a resposta? Não seja rasteiro! Acha o sr que o problema social dos negros seja a ignorância , a burrice? A África do Sul é africana, berço dos negróides. Lá eles estão no que é deles, percebe? A honra, a genética, a justiça, todos os valores humanos mais poderosos agem para que tal fato- a ascensão de um povo que se deixou oprimir por tanto tempo- se torne tão vitoriosa, tão presente, tão óbvia. Por aqui, a coisa fica muito mais difícil...O negro é visto por gente como o sr. e se vê como um ex-escravo, um subalterno em terra estranha. Percebeu? Todas as nações que colonizaram a África por tantos séculos deveriam ter agido como os espanhóis e portugueses aqui na América Latina...Matado, dizimado, trucidado todos os americanos natos, os índios- como os europeus os chamavam - deixando apenas vivo o rebotalho que poderia ser usado por eles, os conquistadores. Veja o resultado deste genocídio indo ao Parque Farroupilha aos domingos, cidadão! Se tivessem agido desta forma, hoje a África seria branquinha...Bem a seu gosto!
O que vale para o racismo vale para o machismo caro jornalista. E ambos aprende-se desde qdo. se nasce, desde aqueles comentários brincalhões, dentro e fora do ambiente familiar. Aí está o "x" da questão. A cultura multiplicalista. Depois de enraizado, não temos mais o que fazer, passamos a ser "caronas" desses sentimentos. Conclusão, somos todos responsáveis pela perpetuação dessas mazelas sociais.
Quando comecei a apreciar seu texto David, diga-se de passagem um belo texto, imaginava que teria repercussões negativas de afro-descendentes que se dizem contra o racismo, mas não conseguem nem compreender o intuito e objetivo do assunto acima retratado, como o Sr. "Bob Milhazes" acima.
Pessoas que colocam a palavra negro entre aspas, assumem explicitamente que não gostam de serem intiulados como tal, assumindo também sua própria conotação de racista.
Vejo isto diariamente. Hoje para um negro é uma afronta ser chamado assim.
Ora, burrice é não perceber que o relato acima descrito é puramente condizente com nossa realidade. Os negros no Brasil não conseguem ascender financeiramente, face a precária educação a que estão impostos.
Isto é a realidade meu caro, e ao invés de adotarmos um pulso firme e lutarmos contra esta situação, há quem intitule o blogueiro de racista. I-NA-CRE-DI-TÁ-VEL, ou como diria o professor Ruy: "Reprovável"!!
Com certeza a causa da miséria e desigualdade social e racial no Brasil está na forma com o CONHECIMENTO (a maior riqueza do mundo) é compatilhado com a população. Somente com a qualificação da educação pública básica conseguiremos superar essas dificuldades da sociedade.
Ainda bem a África do Sul está entendendo essa lição.
No Brasil remamos contra a maré; ainda buscamos soluções alternativas e se apegamos a projetos assistencialistas, idéias revolucinários e lideranças radiais. Mas não é com a luta de classes, como muitos idiotas pregam, que resolveremos essa questão social. Devemos exigir que aja a multiplicação da cultura, do conhecimento e da educação, para que naturalmente tenhamos menos concentração da renda e melhor divisão do capital.
Acho que no fundo, se conseguirmos deixar de lado aquele racismo hereditário que nossos avós cultivaram, e olharmos as pessoas com neutralidade caímos em outra banalidade. A mais pura expressão de seleção natural humana. Seja branco, preto ou verde, sempre buscamos estar perto de pessoas bonitas, bem sucedidas, importantes.. Existem também verdadeiros heróis pretos aclamados e seguidos por milhões de pessoas de todas as cores e cultura, atletas, rappers, Obamas.. Também existem pretos fracassados que usam o racismo como desculpa. Brancos também fracassam feio, mas chamam menos atenção.
O que é uma sorte para vc, ñ fernandinho?
Verdade... conhecimento é a maior riqueza que
se pode obter, e quem tem acesso a ele sempre
progride. Não considerei esse comentário como racis-
ta, entendi apenas como uma comparação entre as
atitudes dos povo brasileiro e africano; o racismo velado
de nosso país que freia o desenvolvimento equitativo
de todas as raças que aqui vivem, e o racismo que era
exercido legalmente e foi superado por quem enfrentava
vicissitudes decorrentes dele lá do outro lado do oceano.
E entendi a assombro do David em relação ao tempo
em que isso aconteceu justamente porque com nossa
lei anti-racismo datada de vinte anos atrás (Lei 7716, de
05.01.1089) não chegamos perto de obter os resultados
que eles mostraram em quinze anos, ou seja, o progresso
deles é muito mais rápido justamente porque eles tomaram
a atitude certa de promover a educação, que é um ponto
sempre lembrado pelo colunista...
Senão, por favor David, corrija-me; na minha humildade
providenciarei urgentemente aulas de interpretação de texto.
Como educador, acredito que é necessário prevenir, e não remediar as situações.
Mas o que se esperar do Brasil?
Claro que não investimos o suficiente na área da Educação (investimento em todos os sentidos), mas é preciso lembrar que educação não se faz só na escola, a família e a comunidade em que se está inserido tem um papel tão fundamental quanto o da escola no quesito educação.
Não precisamos ir muito longe para constatar o descaso com isso tudo. Aqui mesmo, no RS, uma vez por semana, a torcida do gremio nos congratula com uma imensa falta de respeito e, acima de tudo, educação. Entoando musicas racistas para definir os torcedores do INTER CAMPEÃO DE TUDO, brigando entre sua própria torcida por não admitir faixas de jogadores negros e até matando por conta dessa mentalidade (veja o caso do menino morto no pátio do olímpico). Sem contar as reverências nazistas nojentas entre esses torcedores.
Com certeza, se isso acontecesse em um país de 1º mundo, medidas seriam tomadas e o clube seria severamente punido, como já aconteceu em alguns casos na Europa com rebaixamentos como punição além da punição financeira e cadeia para os elemento envolvidos.
Então David, como podes ver, não limpamos nem nosso umbigo, que dirá o resto.
Gostaria de ler um texto seu sobre as influências racistas e neonazistas da torcida do gremio na sociedade do RS. Primeiro a nossa casa, depois a Africa ou qualquer outro canto distante.
... daí você encontra um loiro alto na europa falando um inglês com um sotaque não britânico. Você conclui e pergunta: - você é alemão? Ele responde: - Não, sou austríaco...
Eu digo isso porque não entendi bem a relação do racismo com as tribos.
Uma vez eu conversei com um Basco e falei: "- Ah!!! Então tu é espanhol..."
... pois é... eu tinha uns 14 anos de idade e ele deve ter relevado pela minha imaturidade, mas ficou brabo... não gostou de ser chamado de espanhol!!!
Outra coisa é a questão dos Balcãs, que ainda não acabou... a parte Européia do antigo império Bizantino, donde vieram os sérvos (sérvios) e escravos (salavos) romanos... Todos bem branquinhos...
Daí vem a questão das tribos... pois eu não sei o que pensar sobre essa "particularidade" da África...
Olha o quanto é importante a educação, ela faz falta até para quem a teve. O que posso ver é que muitos não souberam interpretar o texto e assim não entenderam a colocação do autor. Eu entendi bem e gostei do texto, aproveitando o gancho, gostaria de fazer uma explanação. Nunca fale de um assunto que você não tenha conhecimento. Vejo pessoas falando de preconceito racial, saindo em defesa como se tivesse alguma culpa no cartório. A falta de conhecimento acaba gerando comentários como o do colega acima, que escreve negros entre aspas e também faz este comentário (Acha o Sr. que o problema social dos negros seja a ignorância , a burrice? A África do Sul é africana, berço dos negróides.). Certamente posso afirmar que o problema social, a ignorância, a burrice é de toda a sociedade que não entende a dor que dá no peito de um negro quando ele tem: uma esposa bonita branca e as pessoas olham surpresas,quando um negro entra em um restaurante fino, sempre fica a dúvida, quem ele é, deve ser alguém importante, na entrada do banco é uma tortura, movimentos não muito bruscos para não assustar o guarda, olhar a agenda da sua faculdade onde tem fotos de 30 pessoas de várias etnias representando os cursos, mas entre as 30 nenhum negro. As pessoas antes de falar em preconceito racial, encher a boca para falar como se soubessem de tudo, tem que entender o que é preconceito e o que ele causa, e pode ter certeza que de tantas coisas ruins a dor é a pior dela. Antigamente a dor era sentida nas costas pelas chibatadas, hoje em dia a chibatada não machuca mais as costas, ela atinge o coração direto. O texto do David é muito importante, as pessoas sabem pouco sobre a África, e aprendendo, discutindo e colocando as suas idéias que vão perdendo o preconceito.
PS: Senhor Bob Já faz muito tempo que o negro deixou de se ver como um ex-escravo, um subalterno em terra estranha. Por favor!