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Posts de julho 2010

A quarta mulher do rei

31 de julho de 2010 5

O rei Henrique VIII teve seis esposas. Hoje isso não chega a ser incomum. O Sérgio Jockymann, quando se casou com sua sexta mulher, me disse:

– A gente só acerta depois da quinta.

Vai ver é.


Henrique VIII, cada uma de suas mulheres protagonizou histórias ilustrativas. Vou tratar aqui da quarta delas. Chamava-se Ana de Cleves. Ana era alemã, vivia no continente, o rei não a conhecia. O primeiro-ministro inglês, Thomas Cromwell, insistia para que o casamento fosse realizado por razões políticas: seria uma aliança entre a Velha Álbion e os estados alemães protestantes.

Certo. Mas e se ela fosse um jaburu?

Henrique VIII queria saber que tal era a moça, mas, naquele tempo, meados do século 16, não existia Google Imagens, nem Facebook e, pior, nem fotografia.

E agora?

O rei não podia simplesmente atravessar o Canal da Mancha para ir cortejá-la, como um pretendente comum. Não era assim que funcionava, casamentos de reis aconteciam mediante contratos lavrados e selados. O jeito foi enviar emissários com a instrução de dar uma boa olhada em Ana e depois relatar tudo ao soberano, de preferência com crua honestidade. Missão delicada. Como dizer ao alemão que eles pretendiam examinar sua filha? Seria indispensável pedir a permissão do pai, porque naquela época as mulheres, sobretudo as fidalgas, não ficavam zanzando pelos bares da Padre Chagas, era preciso desencavá-las da discrição do lar.

Mas os diplomatas foram diplomáticos e o pai, meio a contragosto, concordou em apresentar Ana a eles. Os ingleses postaram-se no grande saguão do castelo a esperar, ansiosos. Um arauto surgiu. Anunciou a chegada de milady.

Ana apareceu, enfim.

E os ingleses se entreolharam.

Segundo o relatório que apresentaram depois ao rei, ela estava dentro de “vestidos horrendos”, que impediam a visão de seu corpo, e atrás de um espesso véu negro.

Os embaixadores reclamaram com o pai da moça. Que protestou, fulo:

– Vocês queriam vê-la nua???

In extremis, Henrique VIII mandou à Alemanha o pintor da corte, Holbein, o Moço, a fim de retratar a candidata a rainha da Inglaterra. Esse Holbein era um alemão que havia sido indicado por Erasmo de Roterdan para trabalhar como pintor da corte inglesa. Tratava-se de um grande mestre, um especialista em retratos. Tinha, portanto, toda a credibilidade para pintar a provável futura esposa do rei. Só que, antes de ele partir, o primeiro-ministro Cromwell o chamou e sugeriu que fosse generoso para com a aparência de Ana.

Cromwell não demoraria a se arrepender disso.

O retrato de Ana de Cleves está no Louvre.
Recomendo que você vá a Paris para vê-lo. Se não quiser vê-lo, vá a Paris assim mesmo.

No quadro, Ana está de frente. Quer dizer: é difícil avaliar o tamanho de seu nariz, mas ele parece um pouco bulboso. Ela tem uns olhos baços, talvez enfarados. Usa touca, não se lhe pode ver os cabelos. Henrique VIII aprovou o que viu. Contratou casamento. Ao sair da sua Alemanha natal, Ana o fez já na condição de noiva do rei. Henrique estava tão ansioso para encontrá-la que convocou seus cavaleiros, ordenou que vestissem capas coloridas e partiu a galope ao encontro dela. Alcançou-a em um castelo no interior da Ilha. Ana estava aboletada em um banco sob uma janela, derramando olhares de tédio para o lado de fora. Henrique apresentou-se não como rei, mas como um emissário do rei.

Ana olhou para ele, algo aborrecida. Ele olhou para ela. E ficou paralisado.

Era uma feia.

Alta, magra, um grande nariz grudado no meio do rosto marcado por acnes espremidas ou até por alguma velha varíola.

Dias depois, ao encontrar Cromwell, o rei rosnou:

– Não gosto dela!

Mas teve de se casar, o acordo já fora selado. Só que Ana era tão desagradável que Henrique não conseguiu consumar o casamento. Manteve-a virgem e intocada como uma bandeirante do CLJ. Depois de seis meses, não suportando mais dividir a  cama com aquela assombração, Henrique deu um jeito de anular o casamento. Ana foi “promovida” a irmã do rei, ganhou uma pensão vitalícia e um suntuoso castelo na Inglaterra, onde foi viver o resto de seus dias de feia.

Cromwell pagou caro por fazer o rei acordar durante seis meses ao lado daquela mulher de assustar criancinha: pouco tempo depois, ele foi levado para a Torre de Londres e de lá, como soía acontecer, arrastaram-no para o cadafalso, onde sua cabeça foi separada do corpo a golpes de machado.

Imagine agora o troço que devia ser essa Ana.

Tudo isso porque o rei não pôde vê-la em pessoa. Retratos pintados e testemunhos não bastaram. Era preciso VER. É o que digo do futebol. Na Copa, vi vários times em campo. Vi como se comportavam. O desenho tático de cada um.

Neste domingo vou ver os times de Roth e Silas. Espero não levar um susto, como o velho Henrique VIII. Que inclusive se traumatizou com o episódio.

A quinta mulher do rei, Catarina Howard, era linda. Porém, leviana. Traiu-o com ardor, boa parte da corte cevou-se nas suas carnes brancas de loira.

Como Cromwell e outras antes dela, terminou decapitada. Apenas Catarina Parr, a sexta mulher do rei, sobreviveu a ele.

Como ensinou o Jockymann, só se acerta depois da quinta.

A propaganda funciona

30 de julho de 2010 13

Ninguém gosta de quem não gosta de si mesmo. As pessoas pensam: “Se ele que é ele, que se conhece desde que nasceu, que convive com a pessoa dele todos os dias e o dia inteiro, que conhece o seu passado de memória, se ele não gosta dele, por que eu, que não disponho dessas informações, vou gostar?”

Mas também acontece o contrário: alguém que gosta muitíssimo de si mesmo influencia as outras pessoas a seu favor. Observe um respirante qualquer que seja muito confiante, que seja seguro de si. Um desses que estão sempre se elogiando. Os outros olham para ele e pensam: deve haver algum motivo para toda essa presunção. Não é possível alguém se amar tanto, se não tiver nada de especial. E, assim, os outros têm a tendência de gostar do exibido.

É o princípio da propaganda. A propaganda funciona. O que diz muito sobre a natureza do ser humano, sobre como o ser humano é intrinsecamente bom. Ou ingênuo, você escolhe. Afinal, pela lógica, as pessoas deveriam desconfiar da propaganda, já que a propaganda, na essência, é a autoexaltação e quem se autoexalta, bem, SE exalta.

O genial da coisa é que a propaganda não precisa de argumentação coerente, não precisa ser comprovada pela realidade; precisa apenas de repetição. É algo que se sabe bem antes de Goebbels ter dito que uma mentira repetida muitas vezes se transforma em verdade. Há mais ou menos 2.200 anos, Catão, o Grande, sempre encerrava seus discursos no senado romano com a mesma frase:

– Delenda est Carthago!

Ou: Cartago deve ser destruída.

Podia discursar sobre a tepidez das águas das termas do Palatino; podia falar das sacanagens na Suburra, que era o bairro do pecado; podia discorrer sobre o lendário Lúcius Cincinatus, que milênios mais tarde emprestaria o nome a uma cidade de Ohio; podia discursar a respeito de qualquer coisa, o Catão, que concluía assim:

– Além disso, acrescento: Cartago deve ser destruída!

Catão repetiu tanto essa frase, tanto, tanto, que os romanos começaram a cogitar se de fato ele tinha razão. Concluíram que sim, atravessaram o Mediterrâneo, irromperam no Norte da África, arrasaram Cartago pela raiz e salgaram-lhe o solo calcinado para que dele nada mais nascesse.

A propaganda funciona.

Tivesse eu a magnitude de um Catão, repetiria todos os dias: o importante para o Brasil é a educação básica.

São as crianças.

Diria mais: diria para esquecerem os adultos. Para que não construam mais presídios, para que não gastem mais em energia, para que esqueçam as comunicações, para que só pensem nas crianças. As crianças, as crianças, as crianças.

Salvem as crianças.

Salvarão o Brasil.

Susto

29 de julho de 2010 21

Já a Eduarda Burguez Machado, de 16 anos, enviou um alerta mais grave. Leiam com atenção o relato da moça:

Sábado levei o maior susto da minha vida. Fui à padaria para comprar ovos para fazer um bolo de côco. No caminho de volta, ia entrar no beco que dá passagem para a minha casa quando notei que um homem adulto, gordo, de jaqueta do Grêmio preta e uma sombrinha azul vinha do outro lado.

Eu estava com a sacola com os ovos numa mão e na outra levava a ração da nossa cadelinha.  Estava para entrar no beco, mas ele avançou, olhou bem nos meus olhos e veio para cima de mim. Tentou me enforcar, mas não sei de onde arranjei tanta força para segurar a mão dele e me livrar. Então eu gritei por socorro. A minha sorte é que os meus vizinhos estavam ali perto e me acudiram. O homem viu que eles se aproximavam e fugiu, mas antes ainda foi capaz de dizer o seguinte:

- Calma moça, eu não ia fazer nada contigo!

Ele saiu correndo, e eu fui correndo para o lado dos meus vizinhos, chorando, assustada. Quando entrei em casa chorando, desesperada, contei tudo para a minha irmã e o meu cunhado. Eles chamaram a polícia, que veio falar comigo. Ainda estou muito assustada e às vezes ainda choro. Esse cara anda atacando as meninas perto do Bourbon da Assis Brasil. Uma menina foi estuprada por um cara com as mesmas características do que me atacou. Cuidem-se, por favor.

Olhem essa

29 de julho de 2010 10

O leitor Ronald Loma contou-me uma que aconteceu com ele indagorinha, dia 24 de julho, no Shopping Iguatemi. Vejam só:

Estava eu no Iguatemi com minha filha de 16 anos. Aparece uma tipa aparentando uns 30 anos com dois meninos por volta de 5 anos, com cara de choro. A tipa contou que estava com as crianças no Hospital Conceição e precisava de dinheiro para voltar para sua cidade, Três Passos, no interior.

Caí na armadilha e manifestei surpresa. Três Passos? Aí ela citou um cafundó qualquer lá daquelas bandas e ameaçou chorar. Havia uma moeda de 1 Real no meu bolso. Pra me ver livre do choro, puxei a moeda que fazia parte do acervo dos meus míseros trocados orçados para patrocinar um almoço para minha filha. Vazei.

Procurava um “orelhão”, o qual encontrei ao final do corredor. Já ao telefone, vi a tipa se aproximar. Pegou o fone ao meu lado e depois de fazer a ligação, berrou para alguém do outro lado da linha:

– Amoorrr … alô? Oh.. tô indo pra casa. Consegui 332 reais!

O brutamontes - final

29 de julho de 2010 9

Lá estava ele.

O grandão.

O monstro.

O assassino.

O celerado.

O lutador de jiu-jitsu.

O quebrador de ossos.

O brutamontes.

Continuava com seu corpanzil de peso pesado campeão dos três cinturões, continuava com sua cara homicida, continuava com o brilho do Mal faiscando nos olhos e continuava me fazendo aquela PUTZGRILLIBTMERDLOCASTROQUEPRIUZKREIDEVLOSKI daquela pergunta:

— O que você acha da minha mulher?

Olhei para ele, espantado. Olhei para Dona Zenaide, mais espantado ainda. Olhei em volta, procurando Silvinha pelo bar. Mas não havia Silvinha por ali. Não havia nada parecido com Silvinha e seus cabelos ensolarados e seus braços macios. Olhei de novo para Dona Zenaide. Balbuciei, sentindo os ossos se transformando em patê:

— S-s-s-sua mu-mulher?…

— É — repetiu ele, com certa impaciência. — O que você acha da minha mulher?

Uma bola de tênis de horror se formou em minha garganta e começou a rolar para cima, até a boca. Com alguma dificuldade, consegui balbuciar:

— Do… Do… Do… Dona Zenaide?

Então o maciste piscou. Atirou o olhar para trás do balcão. Fincou os olhos em Dona Zenaide.

E caiu na gargalhada.

Era um riso estrepitoso, bombardino, que rimbombava pelo bar. Embora aquela risada fosse algo como o som das mil hienas guardiãs da porta do inferno rindo em uníssono, serviu para me deixar um pouquinho mais relaxado. Parecia que ele ainda não ia me matar.

Ainda.

Esperei que parasse de rir. Parou enfim, enxugando uma lágrima que lhe corria pelas crateras do rosto.

— Não… — ele suspirou. — Não… Achei que você soubesse quem é a minha mulher. Achei que estivesse olhando para ela — e jogou a cabeça para o lado, indicando a ponta do balcão.

Então a reconheci. Ela. A mesma morena que estava no bar da Silvinha, ainda de vestido curto, ainda de cabelos longos, ainda na ponta do balcão, ainda sorrindo a observar a cena. Abri a boca.

— Sua mulher?…

— Minha mulher — o gigante sorria, divertindo-se com a minha confusão.

Olhei para ele e dele para ela e de novo para ele e outra vez para ela.

— Você quer saber o que eu acho… da sua… mulher?

Minha confusão aumentou. O que ele pretendia??? Será que achava que eu andava atrás da mulher dele de bar em bar? Puxa, a mulher dele não servia para feia, mas eu nem havia reparado nela! Estava pronto para dizer isso, quando ele se abaixou e aproximou a cabeçorra da minha. Falou baixinho no meu ouvido, o hálito quente batendo-me nos tímpanos, a malícia quente e pastosa escorrendo-me cérebro adentro:

— Você gostaria… de uma noite a três?

Rapidamente, imaginei a cena: eu pelado na cama com a morena e, de repente, aquele urso se achegando de algum lugar, querendo coisinhas comigo. A ideia me pareceu mais horrenda do que apanhar dele. Tamanho horror foi que me deu forças para tirar outra oncinha do bolso, fincá-la no balcão para pagar minha conta e dizer:

— Nem pensar!

Antes que ele respondesse, zuni para longe dali. Voltei correndo para o bar da Silvinha, a injustiçada. Que saudade, Silvinha. Desculpa, Silvinha.

Como ser um disciplinador

28 de julho de 2010 11

Às vezes tenho de ser mais duro com o meu Pocolino. Não, não sou favorável à “palmada educativa”. Alguém algum dia disse que o corpo é um templo sagrado blablablá. Não lembro exatamente da frase, não lembro exatamente quem a disse, mas concordo com o sentido: o corpo é intocável. É por isso que o relativismo cultural é uma bobiça antropológica: certas culturas que afrontam o corpo são abomináveis, como as que mutilam mulheres ou as obrigam a cobrir-se da cabeça aos pés com lençóis pretos.

Mas tergiverso. Voltando ao Pocolino, com quem às vezes tenho de ser mais duro: quando o repreendo ou o ponho de castigo, minha intenção não é apenas corrigir-lhe o erro eventual. O que pretendo é imprimir-lhe no escaninho mais recôndito do cérebro uma mensagem: que aquele cara ali, no caso o pai dele, vela por sua segurança, que lhe deseja o bem sem nenhuma condição e que, o mais importante, oferece-lhe um bom conselho. Ou seja: quando ele crescer, deixar de ser um Pocolino e eu não puder mais simplesmente enganchá-lo debaixo do braço e levá-lo para longe do perigo, quando ele próprio estiver pronto para escolher seu caminho pelo mundo, saberá que existe alguém que se importa com ele e que lhe dará sempre uma opinião na qual pode confiar.

Em suma, ele tem que saber que EU ESTOU CERTO.


O importante, para um pai, não é disciplinar o filho. É ter credibilidade. É deixar entranhada na alma do filho o sentimento de que a palavra do pai é a palavra da sabedoria. E assim torna-se fácil disciplinar.

O mesmo princípio se aplica a um chefe no trabalho ou a um técnico de futebol. Um chefe, um técnico ou um pai precisam de credibilidade. E eles só têm credibilidade quando as coisas funcionam. Se elas não funcionam, se um time perde e perde e continua perdendo, os jogadores não acreditam mais no técnico. Aí é o fim. O técnico tem de ser trocado. Essa é a vantagem de dirigentes e torcedores de clubes de futebol em relação aos filhos. Os filhos, como o Pocolino, não podem trocar de pai. Os clubes podem trocar de técnico.

Às vezes, devem.

-
Um nó no lençol

Um amigo de um amigo meu, ele tem uma filha. Mas ele é um homem que trabalha muito. Quando sai de casa, de manhã, a menina está dormindo; quando volta, à noite, ela está dormindo também. Incomodado com a situação, um dia ele a chamou e propôs-lhe um pacto. Disse-lhe assim:

– Filhinha, quero combinar uma coisa contigo: sempre que tu acordar e vir um nó no teu lençol é porque o papai te deu um beijo antes de sair de casa.

Desta forma tão singela, ele deixa registrado o seu afeto diário. O que, não tenho dúvida, educa mais do que qualquer palmada.

-
As mulheres de Paris

Logo depois que a Bastilha caiu, ergueram-se as mulheres de Paris em revolta contra a carestia do pão. Tomaram de um canhão desativado e saíram em marcha para Versalhes. Venceram 14 quilômetros de lama gritando palavras de ordem e cantando canções de guerra, os punhos erguidos em fúria, os corações pulsando de indignação. A intenção delas era arrastar a família real do nababesco palácio dos luíses a fim de mantê-la sob vigilância em Paris. A monarquia ainda não havia sido abolida, estava quase quase, e elas queriam dar-lhe o derradeiro empurrão.

Ao chegarem a Versalhes, promoveram tamanho alarido que, embora fosse alarido em francês, o que é muito elegante em questão de alaridos, incomodou Luís XVI, e ele cedeu: anunciou que receberia uma comissão das protestantes. As mulheres escolheram duas para representá-las. Eram jovens, uma mal aflorava os 17 anos. Entraram no palácio, nervosas, e nervosas avançaram pelas galerias rebrilhantes, olhando com timidez para as paredes cobertas de obras de arte. Quando viram o rei debaixo de sua peruca empoada, não resistiram: desmaiaram de emoção. Luís XVI as socorreu bondosamente, amparou-as e deu-lhes água de beber. Eram duas republicanas ferozes que tinham se desmanchado diante do monarca; foram duas monarquistas ferrenhas que saíram do palácio.

Por que isso?

Porque, historicamente, os reis conseguiram imprimir uma imagem na alma do povo. A imagem de que eram superiores, de que eram melhores, de que ESTAVAM CERTOS. Como um pai sempre tem de estar. Ou um bom técnico de futebol.

O Brutamontes - terceira parte

27 de julho de 2010 7

Olhei bem para o brutamontes. Olhei-o nos olhos. A caratonha dele era do tamanho de um forno de microondas. Luzia-lhe nos olhos o fogo da fúria. Olhos que decerto já viram rostos humanos se desmanchando pela ação de seus punhos. Olhos que já viram… a morte.

Engoli, gulp, em seco.

Abri a boca para falar, esforçando-me para não chamá-lo de “seu grandão”, que era o que tinha vontade de fazer. Sim, confesso, pejado: sentia ganas de me humilhar, de rastejar e pedir:

- Não me mate! Não me mate!!!

Mas não o fiz. Tentei me controlar. Consegui, a custo. Respirei fundo, desenhei uma expressão grave no rosto, levei a mão ao bolso esquerdo do jeans e de lá puxei uma nota de cinquenta. Fi-la aterrissar sobre o balcão, a oncinha olhando para mim. O grandão olhou para ela também.

– Meu senhor – comecei. – Está aqui – bati com a ponta do indicador no focinho da onça – a importância mais do que suficiente para pagar o meu drinque. O seu também está pago. Tome outro por conta.

Ele piscou, confuso. Prossegui, aproveitando-me da sua perplexidade:

- Não vim aqui atrás de mulheres ou aventuras, meu senhor. Não, senhor! Estou aqui para relaxar. Apenas isso. Depois de um dia de trabalho duro, depois de tantas preocupações, depois de tomar decisões importantes para a comunidade, depois de deliberar sobre o futuro de outras pessoas, preciso relaxar. Mulheres? Não! Não mesmo. Mulheres são apenas incomodação num momento como este, meu senhor! São apenas… o vazio dos prazer, entende? Prazeres fúteis. Por isso, vou me retirar, meu senhor. Como já disse, aqui está o dinheiro para os drinques – bati outra vez na oncinha. – Passe bem!

E dei meia-volta, e parti em passo acelerado para a rua. Imaginei que meu discurso ia deixá-lo sem ação por alguns segundos e eram esses segundos com que contava para escapulir rumo à salvação da calçada. Avancei resoluto por entre as mesas sem nem sequer olhar para os outros fregueses. Cheguei à porta, botei a mão no trinco e então ouvi o vozeirão dele:

– Ei!

E, em seguida, a voz caramelada de Silvinha:

– Ei!

Não respondi, não virei para trás. Saí. E, na rua, não me envergonho de contar: deitei o cabelo. Corri como um Usain, como o Filho do Vento, como o primo-irmão do Raio, tchau mesmo!

Salvei-me. Ou, pelo menos, mantive a integridade física, embora não possa dizer o mesmo da dignidade.

Não voltei àquele lugar maldito. Escolhi outro bar para meus répi-auers, não muito longe dali, mas com uma senhora vetusta atrás do balcão. Dona Zenaide. Tratava-se de uma gorda. Tinha três queixos, uma braço da espessura da minha coxa, pneus de gordura em volta da cintura e pelancas penduradas por toda parte. E tinha cavanhaque. Por Deus. Pêlos que lhe saíam como serpentes finíssimas da ponta do queixo em direção ao solo. Não era algo bom de se olhar, mas pelo menos estava seguro. Sentia saudades de Silvinha, claro que sentia. De seus braços torneados, do sol em seu cabelo, do seu olhar de gata vadia, do seu sorriso fácil, das suas insinuações suaves, suas quase promessas. Silvinha, Silvinha, Silvinha, como podia ela refocilar-se com aquele monstro?

Olhava para Dona Zenaide e suspirava. Por que tinha que me submeter àquilo, meu Deus? Por quê??? Por que não podia apenas OLHAR para a pequena e meiga Silvinha?

Uma noite, pensava nesse drama com meus cotovelos ásperos espetados no balcão, sorvendo um uísque caubói, observando com amargura Dona Zenaide a se movimentar como um hipopótamo para lá e para cá, suspirando e suspirando, quando ouvi:

- O que você acha da minha mulher?

Engoli o uísque e a respiração. Fiquei paralisado. O sangue me empedrou nas veias. Olhei para o lado. E quase gritei de horror.


O que aconteceu?
Saiba loguito, no próximo capítulo de… O Brutamontes!!!

LEIA AQUI: a primeira parte
LEIA AQUI: a segunda parte

A Seleção de Mano

26 de julho de 2010 36

Acabo assistir à convocação da Seleção pelo Mano.

Como esperava, uma lista inteligente. Dos titulares deste ano, chamou apenas um: Robinho. Deixou de fora os que passarão dos 30 anos em 2014, apostou nos jovens, não teve medo das novidades.

Vou arriscar um time:

Victor; Daniel Alves, David (nome de craque), Thiago Silva e Marcelo;

Sandro, Lucas, Hernanes e Ganso;

Robinho e Pato.

Que tal?

Bate Bola (25/07)

26 de julho de 2010 1

Perdeu algum lance do Bate Bola ou quer rever o programa? Então é só assistir ao vídeo abaixo. Ontem, os assuntos abordados foram a vitória do Inter por  1 a 0 sobre o Flamengo, o empate em 2 a 2 do Grêmio com o Cruzeiro e a confirmação de Mano Menezes como novo técnico da Seleção Brasileira.

Café TVCOM (24/07)

26 de julho de 2010 2

Pessoal, aí vai a edição completa do programa gravado diretamente da Barbarella Bakery, comigo, Tânia Carvalho e Thedy Corrêa.

Ó:

Do sucesso no comércio ao medo da morte

26 de julho de 2010 9

A HISTÓRIA DO MUNDO E O SENTIDO DA VIDA – 5º CAPÍTULO

Sabe qual foi a primeira visão que tive de Tóquio?
A primeira cena com que meus olhos redondos de perplexidade depararam quando desembarquei do trem-bala, sabe qual foi?

Japoneses.

As portas automáticas do Shinkansen se abriram, avancei dois passos estação ferroviária adentro e, diante de mim, surgiram milhares de japoneses. Milhares! Japoneses, japoneses, japoneses todos eles. Nenhum ocidental, nenhum negro, nenhuma loira. Só japoneses. Eram eles e eu. Eles japoneses, eu um não-japonês.

Foi uma sensação estranha. Foi como se estivesse em outro planeta. Lembro de ter pensado:

“Mas por que tanto japonês junto?”

Eis o busílis. Eis algo fundamental a se perguntar. Por que razão milhões de japoneses vivem tão próximos uns dos outros? Mas não só os japoneses. Nós todos, chineses que já se amontoam em bilhão e meio, indianos que são um  bilhão e tanto, europeus, americanos, africanos às catadupas por que nos reunimos preferencialmente em cidades? Por que vivermos tão próximos uns dos outros, às vezes em cubos de concreto contíguos, às vezes havendo um vizinho a sapatear dois metros acima, outro a ouvir pagode dois metros abaixo, mais uns quantos assistindo Faustão à esquerda e outros vendo Noroeste de Bauru versus São Caetano à direita, por quê???

Aí está!

Nem sempre foi assim. Nos albores da Civilização, as comunidades eram rurais. As pessoas viviam em núcleos agrícolas, cultivavam a terra, produziam seus próprios alimentos, criavam os animais que lhes serviriam de subsistência e, desta maneira, a vida se arrastava placidamente, como pingos de chuva no telhado.

Até que um dia alguém fez algo diferente. Provavelmente foi um rapaz, um filho de agricultor. Ele descobriu que havia sido agraciado por vocação especial. Digamos que soubesse fabricar enxadas como ninguém. Enxadas perfeitas, que abriam na terra feridas simétricas como se fossem desenhadas a régua. O rapaz passou a fabricar enxadas para toda a família. Logo, os vizinhos estavam pedindo-lhe enxadas. Sua fama espalhou-se pelas redondezas. Então, ele percebeu que poderia ganhar algo com isso. Poderia produzir enxadas em troca de alimentos. Não precisaria mais enfrentar a dura lida do campo, que é de fato dura, duríssima.

Resolveu estabelecer-se, levantou uma casa fora da área rural, só que mais ou menos próxima das propriedades circunvizinhas. Desta forma, seria facilmente alcançado por todos os clientes em potencial. Mas é claro que, para bem viver, esse rapaz precisava de um poço artesiano do qual tirasse água de beber, de algumas roupas para se proteger do frio, de apetrechos de cama e cozinha. Como confeccionar tudo isso sem roubar o tempo de fabricar as enxadas que lhe encomendavam? Ele teve uma ideia, era um homem de ideias: conhecia outro rapaz, filho de outro agricultor, que sabia cavar poços com destreza ímpar. Chamou-o e propôs-lhe trocar o trabalho de abertura do poço por enxadas para toda a sua família. O outro topou. E percebeu que poderia imitá-lo. Estabeleceu-se nas cercanias como especialista em escavação de poços. Cavoucava poços, e por eles ganhava mantimentos, roupas e, bem, enxadas.

Aos poucos, mais especialistas foram se acercando daquele local tão propício. Um levantava casas, um cosia roupas, havia quem montasse mesas e cadeiras. Necessitavam do trabalho um do outro, cada um vivia de acordo com suas habilidades e, desta maneira, todos se ajudavam. Logo, concluíram que seria indispensável rasgar caminhos entre a casa do ferreiro e a do pedreiro, entre as fazendas e a padaria, entre o sapateiro e a costureira. E se reuniram para tocar esse empreendimento em comum. E escolheram um deles que fizesse o trabalho por todos. Era o primeiro funcionário público da humanidade.

Um dia, uma jovem esposa enviuvou. Seus pais já estavam mortos, ela se viu sozinha no mundo, sem terra, sem trabalho e com fome. Mas possuía um corpo rijo e bem formado, cobiçado pelos homens da vizinhança, e compreendeu que poderia sobreviver concedendo favores sexuais por uma coisa à toa, uma noitada boa ou um corte de cetim. Foi a primeira mulher-dama, a primeira meretriz, a primeira cortesã, a primeira alcouceira, a primeira marafona, a primeira rameira, a primeira madama, a primeira mariposa, a primeira mulher pública do mundo, donde se vê que a prostituição é uma das mais antigas, mas não a mais antiga profissão da História.

Você consegue ver a nossa cidadezinha original já formada? Suas casinhas dispostas lado a lado em ruas precárias? As pessoas se movimentando para lá e para cá na busca da solução para suas necessidades diárias? O pão matinal, o conserto da goteira do telhado, a túnica de lã para vestir no inverno, o balde para puxar a água do poço, você consegue vê-las se deslocando como formiguinhas atarefadas atrás disso tudo? Comprando e vendendo? Ou, naqueles tempos primevos, trocando? Se você conseguiu imaginar compreendeu que a cidade é produto do comércio. Quando o homem começou a comerciar, fundou a cidade.

Neste lugarejo original havia riquezas e mulheres belas. Havia o que aflorasse a rapacidade de homens ambiciosos. Volta e meia, um grupo armado o invadia e tomava o que bem entendia, arrastava pelos cabelos as filhas formosas dos artesãos e as possuía, levava embora roupas, ferramentas e animais, comia e bebia o que fora estocado com tanto sacrifício e labor. Para se proteger desses bandoleiros, os cidadãos se reuniram mais uma vez e designaram um dentre eles para preparar suas defesas. Era o primeiro estrategista militar. O primeiro general. Que formaria o primeiro exército. E, de posse do mando, esse homem sentiria os eflúvios inebriantes do poder, sentiria o prazer incomparável de pisar no pescoço de outros homens e não quereria mais deixar de ser tão grande. Transformar-se-ia no primeiro ditador, o primeiro déspota, pai de todos os reis e presidentes.

Até do Sarney.

Mas assaltantes e tiranos não eram os únicos males a afligir a nascente Civilização. Porque, com a proximidade, além de serviços, amores e pavores, os homens passaram a compartilhar vírus, bactérias, fungos e protozoários. E então havia, e há, câncer, alzheimer, hipereclepsia, parkinson, enxaqueca, psoríase, glaucoma, amnésia, urticária, sinusite, gagueira, hipersudorese, anemia, síndrome de Williams-Beuren, apneia, labirintite, lúpus, osteopoiquilose, apendicite, vitiligo, gripe, asma, bócio, bruxismo, conjuntivite, criptorquidia, gastrite, sinusite, prurido, alergias, osteoporose, síndrome de down, trombose e dor de dente.

O homem sofria de males variados. E deles, não raro, morria.

Agora nós chegamos ao evento mais importante da vida: a morte.

O homem via os seus entes queridos, e até alguns não tão queridos, desaparecerem para sempre. Assustava-se: ele também desapareceria para sempre? Todos os seus sentimentos, sonhos e realizações se esfumariam? Não era possível. Não havia lógica. Para que começar, se um dia tudo vai terminar?

É esse o grande drama da existência. Uma gargalhante ironia: a angústia da morte rege a vida. O homem atravessa seus dias neste Vale de Lágrimas tentando se imortalizar. Em resumo: passa a vida pensando no que lhe vai ocorrer depois da morte.

Como vencer a morte? A maioria tem filhos, espalha sua descendência pelo planeta. Mas não basta. Em duas ou três gerações o dono dos genes é esquecido. Alguns tentam realizar obras, escrever livros, compor músicas, pintar quadros. Também é pouco. As realizações realmente importantes são para raros, usualmente tudo o que um homem produz em vida é consumido durante a sua vida.

Como, então, ser imortal? Como fazer com que a vida tenha sentido?

São perguntas que a religião tenta responder. Nem sempre com sucesso, uma vez que as promessas das religiões, de todas as religiões, só se cumprem depois da morte.

Mas o que importa aqui é o papel da morte na vida.

Somos assombrados pela morte desde sempre.
A ideia aflitiva da morte moldou as civilizações. E um povo, mais do que todos, conseguiu se imortalizar graças à morte: os egípcios. É sobre eles o próximo capítulo de “A História do Mundo”.

A Magrela

24 de julho de 2010 2

Terça agora, dia 27, minha amiga Mariana Bertolucci vai lançar o livro que colige as crônicas que ela tem publicado em seu blog. “Bailarina sem breu” é o título. Breu é aquele pó preto que as bailarinas passam nas mãos, eu não sabia… São textos leves e muito sinceros, como é a Mariana. Será na praça de eventos do Barra Shopping, a partir das 20h.

* Texto publicado na página 34 de Zero Hora dominical

Os inventores do dinheiro

24 de julho de 2010 6

O dinheiro foi inventado na Lídia. Não duvido que tenha sido por isso que Tom Jobim compôs uma música homenageando o nome daquela antiga e já extinta nação. A Lídia ficava mais ou menos onde fica hoje a Turquia. Algum de seus administradores teve a ideia de cunhar moedas lá pelo século 6 antes de Cristo. É evidente que outras formas de dinheiro eram empregadas antes. O sal, por exemplo, tinha tanto valor que havia sido utilizado para pagamento dos soldados romanos, donde a palavra “salário”. Mas a moeda, moeda mesmo, foi coisa dos lídios. Eles fundiam amêndoas de metal com os valores inscritos em baixo-relevo, capazes de serem identificados até por analfabetos, que, claro, eram a maioria da população.

Assim, o comércio foi facilitado e a Lídia enriqueceu. Seus reis tornaram-se notórios pela fortuna que possuíam. Um mais do que todos: Creso. Em meados dos anos 500 a.C., Creso era o homem mais rico do mundo.

Uma vez, o famoso legislador grego Sólon visitou a Lídia e Creso o recebeu em pessoa. Disposto a impressioná-lo, começou a mostrar-lhe seus palácios suntuosos, seus tesouros cintilantes, suas mulheres de pernas de gazela e seios de mamão-papaia.

– Você não acha que sou o homem mais feliz do mundo? – exibia-se Creso. – Não acha, Sólon? Não acha? Hein?

Sólon nada respondia. Até que o rei se irritou:

– Mas por que catzo você não diz que sou o homem mais sortudo do mundo, ô, Sólon???

– Porque sua vida ainda não terminou – ponderou o grego. – Só posso dizer se um homem foi realmente feliz depois de ter conhecido o desfecho de sua existência.

A resposta de Sólon é considerada universalmente um diamante de sabedoria. Não acho. Acho que ser feliz em meio à trajetória já basta para definir se uma pessoa é feliz. Você não precisa ser campeão para tornar sua torcida satisfeita. A torcida do Inter nos últimos cinco anos, por exemplo, é uma torcida razoavelmente realizada, mesmo que o clube não tenha vencido a maioria dos títulos que disputou. Mas um clube como o Grêmio, que tortura o seu torcedor durante a maioria dos campeonatos, esse é um clube de danação. É fácil reconhecer um infeliz quando se vê um.

* Texto publicado na página 34 de Zero Hora dominical

Como acabar com a dor

24 de julho de 2010 3

Nesse momento, o que recomendo é Schopenhauer.

Dizia muitas coisas sábias, o velho mestre de Frankfurt. Dizia, por exemplo, que a estupidez de um homem está diretamente relacionada à sua tolerância ao barulho: quanto mais tolerante, mais estúpido. Saindo agora de estádios em que 50 mil pessoas sopravam 50 mil malditas cornetas de plástico, entendo o que ele queria dizer.

Mas dizia também, Schopenhauer, e era o que mais dizia, que tudo na vida está relacionado à vontade. O ser humano existe para satisfazer suas vontades. O drama é que, paradoxalmente, a satisfação das vontades não satisfaz o homem. Pois, uma vez satisfeita a vontade, o homem se desinteressa por ela. Aquilo não lhe dá mais prazer. O homem, então, procura outra vontade, outro objetivo a ser atingido, e o persegue, angustiado, e luta para cumpri-lo. Até que consegue. E o vazio retorna à sua alma, e ele percebe que precisa preencher um vazio que antes não havia ali, e assim segue infeliz por toda a sua miserável existência.

Não é por outra razão que a grande paixão é a paixão que não se completou, o grande amor é o irrealizado, o maior desejo é o não plenamente satisfeito.

A Humanidade, portanto, está destinada ao sofrimento. E só há uma solução para que cesse a dor: a extinção paulatina da raça humana. Não através da morte matada, mas da interrupção da reprodução. As pessoas deveriam simplesmente parar de ter filhos. Desta forma indolor, lenta e segura, aos poucos a Humanidade iria diminuindo, estiolando devagar, até apagar-se com o fim do último homem respirante sobre a face da Terra.

Essa é a solução. É nisso que devem pensar os gremistas nessa hora. Schopenhauer. Filosofia. Sublimação. Ou, tão-somente, dor. Dor, dor, dor.

* Texto publicado na página 34 de Zero Hora dominical

Mano Menezes: "A estrutura tem de ser mudada"

24 de julho de 2010 19

Poucos minutos depois de anunciar que aceitava o convite para ser técnico da Seleção Brasileira, Mano Menezes concedeu uma entrevista exclusiva à Zero Hora, no fim da manhã deste sábado. Confira os principais trechos da conversa por telefone:

- Você já sabe o que vai fazer a partir de agora?

- Agora o importante é ter um pouquinho de calma, é planejar as coisas. Mas já tenho tarefas urgentes pela frente. Tenho que pensar na comissão técnica e na convocação dos jogadores estrangeiros, que tem de ser feita na segunda-feira.

- Você está por dentro da situação da Seleção Brasileira no momento?

- Tenho muitas informações de como as coisas estão, e sei que elas estão defasadas, estão num ponto muito abaixo do ideal. Os procedimentos são atrasados. A estrutura tem de ser mudada.

- Isso, de certa forma, é bom, não é? Porque você pode começar o trabalho do zero.

- É bom, sim. Porque, neste momento do futebol brasileiro, as pessoas vão ouvir muito mais do que antes. Elas vão ter consciência das coisas. Elas estão dispostas a ouvir.

- Vamos ver se eu entendi: você está dizendo que o futebol, hoje, é algo além do jogo de campo, do treinamento. É isso?

- Exatamente. Muito, muitíssimo além. O que se faz fora de campo de treinamento influencia muito mais no futebol do que a atividade de jogo, propriamente dita. O produto final do futebol é influenciado por muitos outros aspectos fora de campo. O futebol é mais do que o campo, é mais do que o vestiário. É uma atividade complexa, que envolve a sociedade e nós temos que compreender isso.

- Você já tem ideia da comissão técnica?

- Isso eu vou ver a partir de segunda-feira.

- Mas a convocação já tem de ser feita neste fim de semana, não?

- Vou fazer uma pré-lista e esperar a rodada. É preciso esperar, porque pode haver problemas de lesão, por exemplo.

- Serão jogadores preferencialmente jovens?

- Isso eu vou pensar ainda. Tenho algum tempo para pensar.