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Posts de julho 2010

Mano é um conciliador

24 de julho de 2010 9


Um repórter fazia uma introdução laudatória a uma pergunta para o técnico Mano Menezes, às 11h30min deste sábado. Dizia que estava feliz por ele, Mano, ter sido escolhido para ser o novo treinador da Seleção Brasileira. Que, mais ainda, estava muito feliz, um muito com muitos us. Desmanchava-se em rapapés, o repórter, quando foi interrompido por gritos: eram os jogadores do Corinthians, Ronaldo Nazário e Roberto Carlos à frente, que invadiam a sala de entrevistas do clube para festejar a promoção do técnico. Mano se levantou de seu posto, abraçou-os e, depois disso, a coletiva prosseguiu.

O divertido incidente serviu para mostrar que tipo de treinador a CBF escolheu para comandar a Seleção no projeto para a Copa de 2014. Mano é um conciliador, um ser racional, um homem de diálogo, avesso ao conflito. E, sobretudo, é um técnico que se preocupa com o ambiente que o cerca, e não apenas com o ramerrão do vestiário.

O comportamento sereno de Mano foi o que mais chamou a atenção do diretor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, em seu contato com ele, na noite de sexta-feira. Rodrigo participou de todas as tratativas da CBF para contratar o novo técnico, junto com o presidente da entidade, Ricardo Teixeira. Rodrigo Paiva e Ricardo Teixeira haviam acertado a contratação de Muricy na manhã de sexta, no Rio. O treinador dissera que precisava da dispensa do Fluminense, mas em nenhum momento advertira que o negócio poderia não ser concretizado. Os dirigentes da CBF saíram do encontro certos de que ele seria o novo treinador. Quando houve a recusa, no fim da tarde, Rodrigo Paiva e Ricardo Teixeira entraram em pânico. Era preciso agir. E rápido.

Quando Rodrigo falou com Mano ao telefone, na noite de sexta, falou com ansiedade. Mano, ao contrário, demonstrou tanta tranqüilidade que o apaziguou.

- Ele conseguiu fazer com que eu desacelerasse – contou Rodrigo. – Foi muito educado, muito sensato.

Assim, logo ao ser contratado, Mano mostrou que tipo de comportamento vai reger a Seleção a partir de segunda-feira, quando assumirá o cargo. Mano foi o primeiro técnico de grande clube do futebol brasileiro a se comunicar com os torcedores via twitter. Em uma semana, já acumulava 130 mil seguidores. Quando chegou ao Corinthians, há dois anos, enfrentou a temível Gaviões da Fiel, que havia desenvolvido o hábito de fazer cobranças aos jogadores durante os treinos. Mano chamou os líderes da Gaviões, pediu-lhes que não atrapalhassem o trabalho e, sustentado por bons resultados, conseguiu pacificar o clube.

Ao ser contratado pelo Grêmio, em 2005, Mano mal somava seis anos como profissional. Tem, portanto, pouco mais de uma década de experiência. Mas, neste razoavelmente limitado período de tempo, aprendeu que o futebol profissional é mais do que um jogo de bola. Constituiu uma assessoria de imprensa comandada por sua filha, que é jornalista. Com os dirigentes dos clubes, mantém uma relação séria e profissional. Prova-o a forma como saiu do Grêmio, não muito diferente da que saiu do Corinthians ontem pela manhã: num consenso, publicamente, anunciado em entrevista coletiva e elogiado pelos dirigentes.

Com os colegas de profissão Mano também tenta ser apaziguador. Ontem, um repórter perguntou se ele não se incomodava de ser chamado para o cargo depois de a CBF ter feito o primeiro convite para Muricy Ramalho. Mano respondeu que ficava orgulhoso de, num conjunto de 40 ou 50 técnicos, ser o segundo, ainda mais porque era o segundo de Muricy, a quem admira. Com Mano Menezes, a Seleção Brasileira terá uma nova face, a partir de agora: uma face ponderada, reflexiva, profissional e, não raro, sorridente.

No teatro

24 de julho de 2010 4

Essa turma do teatro resvolveu, por algum motivo, encenar uma peça baseada em alguns textos meus. Estreia dia 13 de agosto. Eu vou!

Abaixo, algumas fotos e o serviço:


SOBRE SALTOS DE ESCARPIN

– Estreia 13 de agosto
– Teatro Renascença (Av. Erico Verissimo, 370)
– Temporada de 13/08 a 05/09 – Sextas, sábados às 21h e domingos às 20h
– Ingressos a R$ 20,00 – Desconto de 50% para classe artística, Clube do Assinante ZH, estudantes e idosos

Além da cor da pele

23 de julho de 2010 13

Depois de alguns dias de África, comecei a me sentir meio estranho. Algo me incomodava no lugar. Ou não exatamente no lugar. Tratava-se de algo… nas pessoas. Não havia lógica, os africanos são gentis, são educados, são boa gente. O que podia ser? Levei tempo para descobrir.

Descobri.

Era o racismo.

O racismo está impregnado na alma dos africanos. Não me refiro ao racismo óbvio, motivado pela cor da pele, brancos versus negros. Para este racismo estava preparado. O que me chocou foi como o fator racial é importante para os africanos, como está presente no dia a dia deles. Um africano sempre sabe qual é a tribo do outro africano. É uma informação basilar. A partir dela, ele constrói a imagem do outro.

Mesmo Mandela, um santo acima de quaisquer questionamentos, ninguém esquece que ele é um xhôsa.
Já seu sucessor, Thabo Mbeki, não era bem aceito pelos zulus exatamente por ser xhôsa. O atual presidente, Jacob Zuma, é um zulu. Os zulus ficam satisfeitos, mesmo que ele não faça uma grande administração. Os xhôsas nem tanto.

Os outros africanos que chegam à África do Sul também são identificados por suas tribos. Você não é só de Ruanda ou do Burundi. É um tútsi ou um hutu, e ser uma coisa ou outra faz toda a diferença.

Em pouco tempo, eu mesmo, ao conhecer alguém, perguntava qual era a sua tribo. Para quê? Que importância tinha aquilo para mim? Que importância tem isso para qualquer pessoa? O horror: eu também via distinções raciais.

Os africanos acreditam que isso é fundamental. Não é, claro que não é, e esse desvio ainda será a causa de muita dor no continente africano. Porém…

Existe um porém. E é fundamental.

Porém, na África do Sul veem-se negros atrás de volantes de carrões, veem-se negros em restaurantes internacionais, há uma classe média-alta de negros que moram em bairros elegantes, que dirigem empresas, que são astros de TV.

E isso também me intrigou. Como é que os negros estão ascendendo tão vertiginosamente naquele país em que o racismo era oficial há 15 anos e que ainda hoje pulsa, e pulsa mesmo entre eles, negros? E como é que aqui, no país mais miscigenado do mundo, os negros têm tanta dificuldade em escalar os degraus sociais?

A resposta está no Estado.

No Brasil, as fronteiras raciais são difusas. Mas, no Brasil, quando o Estado age para diminuir as diferenças não o faz na base. Não o faz na formação. Na África do Sul, a educação básica se tornou prioridade. A partir da educação básica, uma nova classe negra se formou.

Em meros 15 anos.

É a partir daí que se resolvem os problemas, mesmo os mais viscerais, como o racismo. A África do Sul, onde a raça ainda significa algo para as pessoas, onde a desigualdade está na alma do povo, a África do Sul planeja o futuro. Um futuro de um povo só. E o Brasil, onde todos somos brasileiros, até quando a igualdade será protagonizada pelo povo, só?

O Brutamontes - segunda parte

22 de julho de 2010 24

O instinto de sobrevivência injetou-me adrenalina nas veias. Meu corpo ficou retesado, pronto para empreender uma fuga magnífica bar afora. Tentei lembrar da geografia do local a fim de calcular as chances de escapar ileso: havia cadeiras, mesas e pessoas entre mim e a salvação da porta de saída. O grandalhão ao lado, o marido da Silvinha, ele era isso mesmo: um grandalhão. Seus braços e pernas não apenas eram musculosos, eram também compridos como os braços e as pernas da Lei. Alcançar-me-ia com alguma facilidade, como um guepardo alcança um gnu na savana.

Era precisamente como me sentia: como um gnu espreitado pelo bando de grandes felinos famintos. Foi um sorriso de gnu que enviei para o brutamontes. Resolvi fazer-me de desentendido — talvez houvesse uma possibilidade mínima de não ser comigo ou de ele desistir da briga antes que ela fosse consumada. Murmurei:

— Perdão? O senhor está falando comigo?

Agora sentia-me um covarde perfeito. Um pusilânime. Será que as outras pessoas estavam acompanhando aquele espetáculo deplorável? Olhei rapidamente em torno. Na ponta direita do balcão, uma morena magra, de uns 30 anos de idade, cabelos longos e vestido curto, acompanhava a cena e se divertia. Sorria sem pejo, decerto aguardando pelo meu massacre. Seria uma morena que talvez me interessasse, em circunstâncias mais favoráveis. Não queria que pensasse de mim o que, obviamente, estava pensando.

Enrubesci.

Na ponta esquerda, um casal ao menos dissimulava. Riam, e eu tinha quase certeza de que riam de mim, mas riam à socapa, baixinho, disfarçando o olhar de ironia. Fiquei ainda mais envergonhado de mim mesmo. Deveria reagir com galhardia, deveria mostrar que sou um homem, não um verme. Mas o medo era maior do que a dignidade. Sobretudo porque o monstro voltara a falar com seu vozeirão de quem gosta de esmagar ossos humanos com as próprias mãos:

— É com você mesmo. A pergunta foi: “O que você acha da minha mulher?”

Bem. Agora não havia mais dúvida nenhuma. O assassino perito em artes marciais claramente estava demarcando território. Na certa queria se exibir para Silvinha, mostrar como ele era capaz de reduzir a uma pasta de carne e sangue qualquer rival que se aproximasse dela.

Silvinha.

Tão frágil, tão formosa, tão linda e delicada, perdia-se todas as noites nos braços de aço daquele bruto.

Braços de aço…

Engoli em seco. Precisava ganhar tempo para pensar. Ri um riso que devia ser de descontração, despreoucupação e leveza, mas foi sem graça:

— Su-sua mulher?…

— É — confirmou ele, já sem muita paciência. — O que você acha da minha mulher?

Comecei a suar.

— Você quer que eu responda isso? O que acho da sua mulher?

— Quero. O que você acha da minha mulher?

Jesus Cristo amado! Como ele repetia aquela pergunta! Que situação.

Se dissesse que acho Silvinha uma delícia, que queria passar todos os dias acariciando-a e mordiscando-a, que tinha certeza de que poderia fazê-la feliz, que a intensidade do meu desejo por ela seria capaz de pôr o bar em chamas, quer dizer, se dissesse a verdade, ele transformaria minha cara em um xisbacon com ovo. E se dissesse que Silvinha é um jaburu, que não gosto de mulheres tísicas, que ela deve ter mau hálito, quer dizer, se mentisse, ele transformaria minha cara em um xisbacon sem ovo.

E agora?
O que deveria fazer???
Responda enquanto aguarda o novo capítulo de O Brutamontes!!!

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LEIA AQUI: a primeira parte de O Brutamontes

O egípcio

21 de julho de 2010 42

Os antigos egípcios, mas os antigos mesmo, egípcios que se extinguiram há 20 séculos, eles diziam que comemos quatro vezes mais do que necessitamos.

E que os 75% excedentes são a causa de todas as doenças.

Por conta disso, passavam o dia ingerindo beberagens, fazendo jejum e empregando vomitórios.

Profilaxia, pois.

Se a prevenção não funcionasse, apelavam para intervenções mais sérias. Faziam até trepanações.

Tempos atrás li um romance de um escritor finlandês chamado Mika Waltari. O protagonista da história era um médico do Egito de 1.300 antes de Cristo. O personagem descrevia os tratamentos que ministrava, as poções que preparava, as cirurgias que realizava. É um livro alentado, meio palmo de espessura. Faz mais de 20 anos que o li. Na época considerei-o supimpa, para usar um adjetivo tão vetusto quanto os egípcios. Mas a gente muda com o tempo e os livros mudam junto. As Agatha Christie e os Morris West que sorvia com sofreguidão na adolescência hoje me enfaram. Não sei se recomendaria o livro do Waltari agora, mas eu dos anos 80 o recomendo.

O fato é que a medicina egípcia funcionava no tratamento de grande parte dos males que têm solução. Para os que não têm solução, como o resfriado, os egípcios apelavam para as fórmulas mágicas, nas quais, aliás, eram especialistas. Quando a coriza começava, eles recitavam:

“Retira-te, resfriado, filho dum frio, tu que quebras os ossos, destrois o crânio, transtornas as sete aberturas da cabeça! Sai, fedor, fedor, fedor!”

Num inverno brutal desses, não custa tentar. Mas, por precaução, faça também a vacina contra a gripe.

De qualquer forma, o que queria dizer é que os egípcios já haviam desenvolvido boa medicina nos primórdios da Civilização. E não apenas a medicina. A geometria egípcia calculou o pi em 3,16. Quatro mil anos depois, nós ocidentais concluímos que é 3,1416.

Já eu aqui, apesar de ter todos esses milênios de cultura ocidental a me anteceder, apesar das aulas de matemática da professora Íria, apesar de tudo o que estudei para passar no vestibular, ainda não sei o que é mesmo o pi.

O que é mesmo o pi?

Os egípcios sabiam. Os egípcios sabiam de muitas coisas, mas o que os imortalizou de verdade, o que os transformou em uma das civilizações mais admiradas da História, o que foi?

Foi a arquitetura.

As pirâmides imortais, sim, e também as suas colunatas, os seus templos, os seus palácios. Porque eram grandiosos e arrojados. Porque eram erguidos para a posteridade. Mais até: para a eternidade.

A arquitetura, escreveu Goethe, é a música congelada. Há que ter harmonia. Há que ter ritmo. E, às vezes, há que ter imponência.

Um estádio de futebol precisa ser imponente. Precisa impressionar. Até pôr medo no adversário que nele ingressa. Mas também tem de ser belo.

Conheci estádios belos e imponentes em todo o mundo. O que mais me tocou a alma foi o Olímpico de Berlim. Pelo peso da sua história, é claro, mas igualmente por sua arquitetura. Você sente que fatos importantes aconteceram e vão acontecer naquele palco de pedra.

Agora, na África do Sul, trabalhei no mais lindo e aconchegante estádio em que já pisei. O Estádio de Durban. Além de ser um lugar agradável de se estar, é espaçoso, é grande: nele cabem 70 mil pessoas com suas malditas cornetas africanas. Ao sair do Estádio de Durban, terminado o modorrento Brasil versus Portugal, um dos colegas observou, entre suspiros:

– Será que algum dia teremos um estádio assim?

Aí é que está: a resposta é não.

O Beira-Rio será reformado, o Grêmio vai erguer um estádio novinho, e não vejo, nos planos de um e outro, nada que seja realmente grandioso, realmente belo, realmente diferente, capaz de encantar o visitante e oprimir o inimigo. Não vejo, nos projetos da Dupla, nada que não vá ser coberto pelo pó da história. E uma história breve, nada dos cinco milênios dos egípcios, nada que em 30 ou 40 anos não tenha de ser refeito, posto abaixo e esquecido. Triste e rapidamente esquecido.

Uma homenagem de filho para pai

20 de julho de 2010 29

O leitor Rafael Rodrigues Brack da Silva, 20 anos de idade, perdeu o pai recentemente e escreveu um texto a respeito. Gostei do relato do Rafael, e o publico aqui como homenagem ao amor entre pai e filho.

“Me lembro quando acordava aos domingos de inverno, com minha mãe dizendo:

- Te agasalha que tá frio. Ah, e tá chovendo também!

Já ficava chateado, pois tinha que chover justamente em dia de jogo no Beira-Rio. Levantava, tomava banho e ia com o meu pai buscar almoço. Na mesa do almoço meu pai repetitivamente perguntava a minha mãe se ela não se importava em ficar sozinha em casa. Ela respondia que não, mas ficava preocupada em nos molharmos. Ela sempre dizia, que com aquela chuva, ia deitar e não sairia de casa por nada. Ahhh, ela não se importava!!!! Meu pai pegava todas as coisas dele e levava para o meu quarto, para nos arrumarmos juntos. Era um moletom, outro moletom, mais um moletom e por fim, as nossas velhas camisetas coloradas. Boné, bandeira nas costas, pegávamos as nossas carteirinhas…

La íamos nós, debaixo do mesmo guarda chuva. Caminhávamos pela Avenida Ipiranga, entravamos na Getúlio Vargas, depois a José de Alencar e enfim a gloriosa Padre Cacique. Nesse trajeto, falava ao meu velho amigo das novidades que aconteciam comigo. Dos amigos que conhecia, das gurias que ‘ficava’, das boas notas e dificuldades da escola e ele sempre muito orgulhoso, vibrava com qualquer notícia que eu dava. Ele dizia também da alegria de ter os amigos que tinha, das saudades que sentia, da importância da minha mãe na vida dele e o quanto fazia bem o nosso companheirismo. Ah, e era um baita companheirismo. Íamos de braços dados até o estádio.

Entravamos no pátio do Gigante da Beira-Rio e nos sentíamos em casa. Passávamos pela roleta do Portão 8 e daí era só festa. Sempre aplaudíamos a entrada do INTER, nos irritávamos e discutíamos diversas vezes com os lances do jogo, mas comemorávamos com muita euforia os gols do Colorado. Ele sempre dizia que não teve nada igual ao Inter de 70 e da saudade que tinha de Manga, Valdomiro, Falcão, Flávio Minuano e Dário. Ríamos, brincávamos um com o outro, cantávamos (ele sabia todas as cantigas), mandávamos o juiz longe e por aí vai.

Saíamos do Gigante e voltávamos pelo mesmo trajeto. Abraçados, unidos, amigos, companheiros e ele sempre com a mesma frase:

- Meu filho, pode brigar comigo, mas enquanto eu estiver vivo, eu vou estar sempre do teu lado, te protegendo!
-

Porto Alegre, 18 de julho de 2010

Foi um domingo chuvoso na capital gaúcha. Acordei gripado e com um pouco de asma.

Minha mãe preparava o almoço e pedia que eu não fosse ao jogo do Inter à tarde (o primeiro jogo do Internacional no Beira-Rio, depois que perdi o meu maior, melhor e mais fiel amigo: meu pai). Almocei, fui ao meu quarto, abri o armário e não resisti. Coloquei dois moletons, a camiseta do colorado que meu pai me deu quando eu fiz 18 anos, touca, manta, casaco, carteirinha e fui caminhando pelas ruas em direção ao Estádio Beira-Rio. Devo admitir que foi um pouco diferente fazer todo este trajeto sem aquela figura adorável ao meu lado. Fui eu, caminhando e lembrando-me de todos os momentos naquele caminho percorrido.

Cheguei ao Gigante da Beira-Rio e fui direto à bilheteria. Pedi somente um ingresso (antes eu pedia dois). Quando estava caminhando rumo ao Portão 8, estava chegando a delegação colorada. Cheguei pertinho e vi todos os jogadores descendo do ônibus. Ah, quando desceu o zagueiro Índio. Fechei os olhos e me lembrei daquela noite de 16 de agosto de 2006, aqueles minutos finais, eu, meu pai, meus tios Kiko e Leco, meus primos Junior e Lucas, enlouquecemos com a nossa primeira conquista da América. Passado este momento, me dirigi ao portão e passei pela catraca. Esse momento foi o mais saudoso, parecia que estava vendo meu pai levantando os braços para a revista dos brigadianos.

O Inter entrou em campo…(lágrimas)…

O jogo começa e logo o juiz marca um pênalti para o colorado. Alecsandro vai para a cobrança. Pensei comigo, que seria o primeiro gol no Gigante sem o meu pai, como seria essa comemoração? Quando ele partiu para a cobrança, vi Claudiomiro, Figueroa, Célio Silva, Christian, Fernandão e Nilmar juntos partindo e…..GGOOOOOOOOLLL…

Vi meu pai sorrindo. Sim, ele estava feliz. E fica a certeza da última frase que disse a ele: Tu vais estar sempre no GIGANTE comigo. Tá, papai? Eu te amo!”

Grêmio da Segunda era melhor do que o de hoje

20 de julho de 2010 36

Ontem, na redação da Zero, chegamos a uma estarrecedora conclusão: o time do Grêmio da Segunda Divisão era melhor do que o de hoje.

Quer ver?

Compare o time do Silas e o time poderia ser escalado em 2005:

Victor ou Galatto:
o Victor é melhor, o Galatto tem mais estrela.
Edmilson ou Patrício: Patrício. Mas poderia ser o reserva do Patrício, Alessandro.
Rodrigo e Rafael Marques ou Pereirão e Domingos: ficaria com Rodrigo e Pereirão.
Fábio Santos ou Escalona: tem que escolher?

Como se vê, as defesas se equivalem. Mas a grande vantagem do time de Mano Menezes está no principal setor de uma equipe: o meio-de-campo. Mano escalou diversas formações de meio-campo, mas poderia ficar com Jeovânio, Sandro Goiano, Lucas e Anderson, todos eles melhores, muito melhores do que Rochemback, Adilson, Leandro e Douglas ou Hugo.

Na frente, Mano variou com Ricardinho, Paulo Ramos, Pedro Junior, Lipatin, Marcel, Marcelo Costa, Somália e o próprio Anderson. Jonas e Borges, em boa fase, são melhores, supõe-se. Mas em boa fase, não jogando desse jeito pastoso de agora.

Qual a conclusão?

Preparem-se, gremistas: o céu está cinzento no horizonte.

Charles Miller, o primeiro craque

20 de julho de 2010 3

Sabe a jogada de charles, também chamada de “chaleira”? Tem esse nome porque quem primeiro a executou nesse patropi foi Charles Miller, o introdutor do futebol no Brasil. Isso é que é interessante, a respeito de Charles Miller: todos os indícios apontam para sua craqueza.

Testemunhos e números atestam que ele foi um grande jogador.
Na época em que jogava na Inglaterra (cruzou o Atlântico com 10 anos de idade, para estudar), chegou a ser convocado para o selecionado de Hampshire. Era goleador. Marcou 41 gols em 25 partidas que disputou por seu colégio, na Velha Álbion.

Ao desembarcar em São Paulo, em 1895, espantou-se: ninguém nem conhecia o futebol por aqui. O principal esporte praticado pela gente-bem de São Paulo era o críquete, uma chatice. O curioso é que Miller não teve dificuldades para convencer os paulistas a abandonar o críquete, enquanto o homem que levou o futebol para o Rio, Oscar Cox, não conseguiu igual sucesso. Os cariocas adoravam o críquete e só a muito custo Cox mostrou para eles que futebol é beeem melhor.

Alguém pode se perguntar por que, afinal, Miller e Cox insistiam tanto para que seus amigos aprendessem a jogar futebol. Simples: porque ELES, Miller e Cox, queriam jogar futebol, que, para ser praticado, não prescinde de companhia.

O primeiro jogo de futebol no Brasil foi disputado em São Paulo, em 14 ou 15 de abril de 1895, entre os funcionários da Cia de Gás e os da Cia Ferroviária. Quase todos eram ingleses. E sexta passada, dia 21, fez 104 anos que aconteceu a primeira partida interestadual do país: as seleções do Rio e de São Paulo se enfrentaram na capital paulista. Empate em 1 a 1. Nesse jogo estavam algumas figuras ilustres: o próprio Charles Miller, Oscar Cox, que no ano seguinte fundaria o Fluminense, e Belfort Duarte, todos com seus frondosos bigodes engomados nas pontas, uma elegância só.

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* Texto publicado no dia 23 de outubro de 2005 em Zero Hora
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Mas, antes mesmo de Miller, havia quem organizasse as precursoras peladas. Quem? Daqui a pouco conto.
z

Pequenas histórias do futebol

20 de julho de 2010 2

Pessoal, esta terça-feira é para atender leitorinhos.

A Angela Maria me pediu textos de uma série que integrou minha coluna no Esporte de ZH há alguns anos.

Ó o pedido:

“Querido David! Desculpe a intimidade, mas fazer o quê rido?
Fiquei meio assustada com a quantidade de pedidos (780) mas com muita alegria percebi que tenho uma chance pois quase todos querem saber do tal Tcheco.

Se os textos não se referem apenas aos publicados aqui no blog, queria pedir o retorno das ‘pequenas histórias do futebol’, publicadas a algum tempo atrás no ZH. Eu só consegui colecionar 3 ou 4, queria ver se reunia todas.”

Então tá, hoje é dia de Pequena história do futebol brasileiro.

Aguardem, daqui a pouco pinga uma por aqui.

Bate Bola (18/07)

19 de julho de 2010 0

Na última edição do Bate Bola, lancei a polêmica sobre o porte dos jogadores. Confira a íntegra do programa:

Café TVCOM (17/07)

19 de julho de 2010 2

O Café TVCOM do último sábado foi gravado na Tortaria Café Brasserie, na rua Fernando Gomes 144, esquina com a Padre Chagas.

Comigo estiveram Tatata Pimentel, Tânia Carvalho e Thedy Corrêa. Dá uma olhada na íntegra:

Provocação

19 de julho de 2010 129

Uma questão para o leitorinho gremista opinar e o colorado se divertir nesta segunda-feira de chuva, frio e vento.

Gremista, responda rápido abaixo:

Você trocaria o Silas pelo Celso Roth?

A gente vai levando

17 de julho de 2010 14

Nós vivemos no gerúndio. Nós brasileiros. Estamos sempre fazendo, sempre chegando, estamos quase lá, espere um pouquinho, já vai.

Nunca estamos prontos.

O Brasil nunca fica pronto.

É por isso que usamos tanto o gerúndio ao falar e ao escrever. Agimos como falamos; falamos como pensamos.

Os portugueses se espantam com o nosso abuso do gerúndio.
É curioso: empregamos a mesma língua, a última flor do Lácio inculta e bela, como diria Olavo Bilac. Mas não a empregamos da mesma forma. Exageramos no gerúndio e no diminutivo, e não é por acaso. Porque precisamos do diminutivo para amolentar as expectativas dos outros. Não queremos que os outros esperem e exijam tanto de nós. Afinal, vivemos no gerúndio. Estamos fazendo, estamos nos preparando, estamos indo. Calminha, queridinho.

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O gerúndio invencível

Quando você liga para uma operadora de celular, por exemplo. A moça promete com aquela voz de alcachofra:

– Nós vamos estar disponibilizando.

Ela aparafusou dois verbos antes do gerúndio. O que significa isso? Significa que ela está com as orelhas entre fones de ouvido, lixando as unhas, vendo as fotos da Caras. Ela está fazendo tudo isso enquanto FINGE ouvir as suas reclamações.

Um gerúndio protegido por dois verbos é intransponível. Jamais deixará de ser gerúndio.

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O gerúndio da vitória

Um amigo meu enfrenta com galhardia o gerúndio. É o seguinte: faz meses que ele cerca uma mulher casada. Trata-se de um amigo que tem preferências por assediar casadas. Diz ele que uma casada, quando se entrega, faz com que o sedutor se sinta um macho selvagem, um campeão do sexo, um príncipe das atividades interlençóis. Porque, por ser casada, ela não está mais acostumada a noitadas tórridas, tudo para ela é tépido, tudo é cinzento e baço feito um jogo do Grêmio. Então, o meu amigo toma uma casada nos braços e faz TUDO com ela. E ela diz:

– Que homem! Não existe homem como você!

Esqueceu-se, a casada infiel, que o próprio marido dela, um dia, antes de ser vitimado pela modorra do matrimônio, também foi fogoso, também foi selvagem, também foi um campeão.

Enfim.

O fato é que meu amigo está assediando há meses essa morena, alta, de pernas longas, nádegas sólidas como a defesa da Alemanha, seios agudos como um contra-ataque de Robben e, bem, você sabe que tipo de mulher. Ele tenta e tenta, e nada. Aí dia desses ele me procurou uivando de felicidade. Perguntei-lhe a razão. Ele respondeu:

– Ela disse que ESTÁ PENSANDO nas minhas propostas.

Ri:

– Pô, mas então você está no gerúndio…

Ele rebateu:

– Não: o casamento dela é que está no gerúndio.

Sábio, o meu amigo que adora casadas.

-
O gerúndio de pedra

Faça o seguinte: desça a Taquari, em direção à Zona Sul. Se você olhar para o seu lado direito, verá o Cristal. Com sorte, verá também alguns cavalos de garbo e porte, cauda empinada, cabeça erguida. Mas não pare, continue. Vá como quem vai para o Barra Shopping. Você terá que dobrar à direita no fim da rua. Neste cruzamento, vai deparar com umas obras da prefeitura. Estão sinalizadas por uns cones, um troço improvisado.

Sabe desde quando existe aquela improvisação?

Desde antes da inauguração do Barra Shopping. Há uns dois anos, portanto. Um relaxamento. Uma falta de capricho. Um gerúndio de plástico e concreto. Aquilo ali está sendo feito, está quase pronto, está saindo já, já.

Há gerúndios por todos os bairros de Porto Alegre.
Aquela calçada ali precisa de reforma, a rua não tem placa que lhe indique o nome, o asfalto está esburacado, uns tijolos e uns paralelepípedos rolam pelo meio-fio. Mas não fique nervoso, a solução está sendo providenciada. Vamos estar resolvendo, garantiu a prefeitura. Fique tranquilinho aí, amiguinho.

Esse é o nosso problema para sediar a Copa do Mundo. Vamos ter que sair do gerúndio. Vamos ter que ficar prontos. Em três anos!

Não será fácil. Não é fácil mudar velhos hábitos. Não é fácil sair do gerúndio.

Não dê opinião

16 de julho de 2010 47

Dar opinião faz mal. Não falo sobre TER opinião, e sim de emiti-la. Alguém aí vai dizer: olha quem falando, justo ele, que a todo momento dá opinião.

Não é verdade.

Escrevo muito acerca de muitas coisas, mas nem dou tanta opinião assim. E, se dou, importa-me menos a minha opinião e mais a forma como a expresso. Prefiro que alguém diga:

– Não concordo uma única lhufa contigo, mas o texto eu a-mei!

Do que:

– Concordo todas as lhufas contigo, mas o texto achei troncho.

Além disso, estou me esforçando bravamente para dar menos opiniões. É difícil. A todo momento solicitam minha opinião sobre algo. Sei que com você também é assim. Você é obrigado a votar, você é interrogado em pesquisas, você participa de interativas. Você lê um texto em um blog e ali em cima está escrito: “Comentários”. Quer dizer: estão instando-o a comentar o que leu. E, se você não comenta, você lê o que os outros comentaram. Aí fica com vontade de comentar também. De dar opinião. E isso faz mal.

Por quê?

Porque, ao expressar sua opinião, você a torna pública. As outras pessoas tomam conhecimento dela. Logo, você assume um compromisso com a sua opinião.

Você tomou partido.

Assim, os outros, que têm outras opiniões, diferentes da sua, não são contra a sua opinião: são contra você. E você é contra eles.

É isso que faz mal: atrelar-se à própria opinião como se fosse um dogma. Como se a sua opinião fizesse parte de você. Como se não fosse algo que você pudesse mudar quando bem entendesse. Você é uma vítima da coerência. Um subalterno da sua própria opinião. Alguém não concorda com ela e você fica fulo. Não debate a outra opinião, ataca a outra pessoa:

“Só uma besta ruminante como você para dizer isso!”

Ao que o dono da outra opinião também se enfurece. Com certa razão – ele foi chamado de burro. Ele reage. Chama-o de pústula, sacripanta, galfarro e beleguim.

Pronto. A amargura da discórdia envenenará seu sangue, se espalhará pelo seu corpo, contaminará sua alma.

Sua opinião lhe fez mal.

Você se expressa, se expressa, sente necessidade de se expressar, de desfraldar sua opinião para que o mundo a veja. Você quer ser crítico, você critica. Então, desenvolve o hábito de, como crítico, ver o mundo e as outras pessoas pelo lado ruim. Porque um crítico, na sua concepção, é alguém que procura os defeitos nas coisas e os expõe.

Como dar a sua opinião e aceitar a dos outros serenamente, quem sabe até ponderar a respeito? Como não ficar dependente da própria opinião? Como não se tornar uma pessoa azeda, que em tudo coloca uma vírgula e depois da vírgula um mas?

Não faço ideia. Você faz?

Dê aí a sua opinião.

O brutamontes

15 de julho de 2010 35

Silvinha era uma loirinha macia e dourada.

Bom, pelo menos eu achava que ela era macia. Dourada dava para ver que era. Como era.

Queria muito aquela loirinha. Ela atendia no balcão do bar, sempre atrás de um sorriso, sempre debaixo de seus cabelos de ouro derretido. Magrinha. Jeitosinha. Uns olhos de promessas.

Ia ao bar só por causa dela. Sentava-me ao balcão e ficava jogando conversa para o lado de lá. Ela sorria das minhas gracinhas, me chamava de bobo:

– Como você é bobo…

Adorava quando ela me chamava de bobo.

Uma noite estava lá, sentadão, tranquilão. Pedi um chope, ela se virou para ir buscar e fiquei olhando ela ir-se. Era bonito de se ver.

Aí aquele cara sentou-se ao meu lado.

Era um cara grande. Usava camiseta apertada. Beibe-lúqui. Acho que era uma camiseta de lutador de jiu-jitsu. Ele tinha umas bolotas de músculo no braço e no peito. Ele tinha um pescoço da largura de um pneu. Ele ficou me olhando. Não olhei para ele, mas senti que me olhava. Aquilo me chateou. Por que que um desgranido de um lutador de jiu-jitsu de um metro e noventa e cheio de músculos me olhava?

Chato.

Por via das dúvidas, não olhei para ele. Continuei atento aos movimentos da Silvinha.

Então ele perguntou:

O que você acha da minha mulher?

Estremeci. Antes de me voltar para ele, já sabia de quem estava falando: Silvinha. O brutamontes era o marido da Silvinha!
-

E agora?

O que aconteceu?

Diga. Me ajude!