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Posts de agosto 2010

A bandeirinha

31 de agosto de 2010 10

No Bate Bola do último domingo, pedi que a produção separasse algumas cenas da bandeirinha Katiúscia, do Espírito Santo, que chamou a atenção no jogo entre Grêmio e Atlético-PR pela sua elogiável forma física.

É ou não é bandeirinha de Copa do Mundo? Confiram abaixo:

Direto da Venezuela

31 de agosto de 2010 23

As filas de venezuelanos diante do consulado de Espanha crescem depois de eleições ou de decisões radicais do Presidente Chávez

.

Yelitza Linares é uma jornalista venezuelana que conheci quando fui a Caracas. Tenho mantido contado com ela por email e pedi que me enviasse alguns textos sobre a situação de seu país. Com a ajuda de um amigo brasileiro, enviou-me um texto elegante, cheio de conteúdo, interessantíssimo. Leiam abaixo e sintam a consistência do texto de Yelitza.

Afetos fora da mala

Esta semana se vai do país minha amiga Teresa, companheira de sonhos na universidade e de decepções na vida adulta.

Tenho testemunhado, com dor, este desterro forçado. Nos últimos dias, levo-a para buscar caixas para embalar, ajudo-a a fazer malas e a acompanho no ritual das despedidas, com a sensação desconcertante de que não mais voltarei a vê-la.

Já alugou o apartamento, vendeu o carro e negociou quase tudo o que tinha.

Demitiu-se do trabalho de editora numa revista e retirou a filha da escola.

Quando comunicou ao colégio que desistiria da matrícula em razão de um mestrado em Alicante, na Espanha, soube que três pais haviam feito o mesmo. Uma se ia com a família ao Canadá, outro tinha como destino o Panamá e o último os Estados Unidos. A temporada de estudos de Teresa e de tantos outros, obviamente, é uma desculpa para garimpar opções de trabalho no exterior com um visto de estudante.

O desejo central é sair da Venezuela.

Minha amiga passará a engrossar as estatísticas de venezuelanos imigrantes, muitos fugitivos da insegurança pública e do desemprego, resultado das oportunidades econômicas que se fecham. Há dois anos se alojou em meu coração um verso de Joan Manuel Serrat, que diz: “Seria fantástico poder ir distraído, sem correr risco“.

Ouço isto reverberar em mim, desde então.

É estranho que não haja uma família venezuelana de classe média que não esteja subtraída, com parentes no exterior. Avós, resignados, se conformam em acompanhar o crescimento dos netos via Facebook ou Skype.

Teresa não é a única de meu entorno a ir embora. Por idêntico motivo, já migraram para a Europa e para os Estados Unidos quase metade dos amigos da educação básica e um terço da secundária. Somo a isto os repórteres do jornal onde trabalho, que se demitem às pencas com o mesmo pretexto de estudar no Exterior. O último que apague a luz, dizemos, numa angústia disfarçada de humor.

Venezuela nunca havia experimentado uma diáspora até duas décadas atrás.

Atualmente, porém, depois de eleições ou de decisões radicais do Presidente Chávez, formam-se filas quilométricas diante dos consulados. Tal fenômeno se agravou com os 20 mil empregados de PDVSA, a companhia petroleira nacional, que foram despedidos em 2003. Dezenas de profissionais com um talento de alto nível foram reforçar os quatros de empresas estrangeiras, fora daqui.

Não é esse o caso de Teresa. Ela tinha trabalho, apartamento e carro, mas, a cada dia que rompia, ficava espiritualmente mais longe de Caracas e perto de Alicante. Nestes dias que antecedem a partida, Teresa prefere não ver jornais.

Prefere a clausura no que restou de seu lar. “Não suporto ouvir a voz de Chávez”, agrega.

A meta na mente de minha amiga e de muitos venezuelanos está longe, como diz o verso do poeta venezuelano Eugenio Montejo, referindo-se ao amor: “Seu corpo está comigo, mas dentro dele não há ninguém”. Teresa já não está na Venezuela.

Chora vez por outra, pelo que deixa atrás deste salto ao vácuo que está dando.

Nos últimos anos, os destinos de migrantes venezuelanos cresceram. Aos habituais Estados Unidos, Espanha, Canadá e Austrália, somamos os países do entorno:

Colômbia, Argentina, Chile e México. Os vizinhos são mais atrativos porque têm condições de vida segura, uma inflação domesticada e o mesmo idioma.  Também são países mais receptivos, com menos burocracia para a concessão do visto.

Nos derradeiros dias antes da partida, Teresa confessa: “Dizem que o mais difícil é obter visto, dólares em valor civilizado ou mudar de casa. Não é nada disto. O mais difícil é fazer as malas. Que deixo? O que levo?”

É verdade. Como guardar duas vidas em quatro malas? Pior que isso, ela não diz, é que ali não coube os afetos. (No próximo post vou explicar para vocês a principal razão por a qual muitos venezuelanos querem ir embora).”

A salvação no Olímpico

30 de agosto de 2010 218

O Grêmio já tem os jogadores de que precisa. São gremistas fanáticos, ganham pouco e estão treinando no Olímpico. São os meninos de ouro das categorias de base. Vou dar dois exemplos ilustres:

Zagueiro: Marcos Vinícius, 21 anos, 1m90cm de altura, técnico, imbatível na bola aérea, treina em separado. Já houve proposta de um milhão e meio de Euros para que ele fosse para o Exterior. É melhor do que qualquer um que está jogando hoje.

Meia: Jonas Pessali. Não falarei muito sobre ele, mostrarei o que ele faz. Assistam abaixo ao vídeo e digam se o rapaz não tinha de estar com a 10:

Muito antes dos dinossauros

28 de agosto de 2010 59

Há pouco menos de 14 bilhões de anos tudo no universo era praticamente nada. Um pontinho, só, e muito, muito menor do que este que ora pingarei: . Então, toda aquela energia concentrada, por algum motivo, CATABLOM!, explodiu. Era o Big Bang. As coisas estavam começando.

Passaram-se 9 bilhões de anos, um pouco mais. Aí foi a vez de uma supernova explodir na Via Láctea. Uma das lascas dessa supernova transformou-se em uma estrela de estatura mediana, o Sol. Isso aconteceu há quatro bilhões e 600 milhões de anos. Pelas estimativas dos cientistas, o Sol continuará ardendo por mais cinco bilhões e 400 milhões de anos. Depois, como todo o resto do Universo, esfriará. Quando o Sol se apagar, a vida por aqui ficará meio difícil, prepare-se, compre velas.

Após a criação do Sol, transcorreram alguns milhões de anos. Côsa pôca, como se diz no Alegrete. E a Terra surgiu de um daqueles pedaços de estrela que andavam pelo espaço. No princípio, não era um bom lugar para se morar. Não havia chão, nem água. O planeta todo era uma bola de fogo e lava borbulhante. Com todo aquele calor, a água não se condensava. Permanecia na atmosfera, em forma de nuvens de vapor. O tempo prosseguiu assim, horrível, por uns 500 milhões de anos. Aí piorou. Como a Terra esfriou um pouquinho, começou a chover. Quando chove um fim de semana, a gente se irrita, não é? Imagine que naquela época choveu durante MILHÕES de anos. Tempestades violentas, elétricas, paredes d’água desabando e formando, enfim, os oceanos. Ao mesmo tempo, as placas de terra recém-constituídas se moviam, liberando gases das entranhas do planeta de forma extremamente ruidosa, fenômeno que os cientistas, demonstrando todo o seu bom gosto, chamam de “O Grande Arroto”.

Enquanto isso tudo acontecia, a Terra foi esfriando e assim a crosta da superfície aos poucos se solidificou. As rochas mais antigas foram descobertas na Groenlândia. Elas têm 3,8 bilhões de anos de idade. Por essa época, raios duplos, raios triplos, mil vezes raios desabavam nos jovens oceanos. As descargas elétricas causaram uma reação inesperada naquela sopa química primeva: deram origem às primeiras formas de vida. Não faz muito, os cientistas identificaram um fóssil de bactéria com 3,5 bilhões de anos.

A partir desse ponto, as bactérias tomaram conta da Terra. Não havia um milímetro quadrado que não estivesse completamente coberto de bactérias pegajosas, um nojo. Mas foram essas bactérias que fixaram no ar elementos indispensáveis a outras formas de vida. Por outros bilhões de anos elas fermentaram e se reproduziram, até que, deste processo, surgiram as plantas pioneiras. O mundo vegetal é jovem: tem 460 milhões de anos.

Agora, tudo foi mais rápido. Há 250 milhões de anos, o mundo inteiro estava coberto de samambaias gigantes, maiores do que árvores, impossíveis de se acomodar em um vaso na sala. Mais ou menos por esse tempo, os animais marinhos deram um jeito de subir à terra firme. O primeiro deles, o número 1, foi o querido… tatuzinho! Olhe para um deles na areia na próxima vez que você for a Pinhal. Era assim o seu tataratataratataratataratataratataratataratataratataravô.

Os peixes eram os donos da Terra, portanto. Você já viu um peixe transando? É assim: a peixa nada para algum lugar e deposita ali os seus óvulos, um monte deles. Aí o peixo nada até lá, deita o esperma em cima dos óvulos e vai embora. Pronto. Fim. Consummatum est. É por isso que não existe nenhum canal de sacanagem de peixe na TV a cabo.

Quando os anfíbios evoluíram e se tornaram répteis é que os machos resolveram depositar o esperma dentro da fêmea, e não fora. Graças aos répteis, pois, a Humanidade criou calcinhas de rendinha, o conjunto minissaias & botas, toda a teoria psicanalítica de Freud e as tatuagens da Megan Fox.

Os répteis evoluíram tanto, aqueles serelepes, que se transformaram nos dinossauros e tomaram conta do mundo. Mas há 65 milhões de anos um meteoro de 200 quilômetros de largura caiu no México, tirou a Terra do eixo e os dinos se extinguiram. A essa altura, Pangeia, que era o único bloco de terra do planeta, já havia se rompido. Os continentes estavam separados irremediavelmente e nós fomos condenados a ir para a Europa de avião.

O primeiro hominídeo foi dar as caras no planeta há 4,5 milhões de anos. O homo erectus há 1,8 milhões de anos. E a nossa atual forma humana, o homo sapiens, há 150 mil anos. Destes, 140 mil anos foram de caça, coleta e nomadismo. A Civilização existe há 10 mil anos, nada mais. O Brasil há 510. Porto Alegre há menos de 300. O Campeonato Brasileiro começou em 1971. O sistema de pontos corridos desde 2003.

Pense nisso tudo. Pense nessa grande história. Pense em perspectiva. Que importância tem se um time for rebaixado em 2010?

Pai desesperado

28 de agosto de 2010 2

A filhinha do Cláudio já perdeu dois quilos desde o infausto ocorrido que ele relata neste email. Será que alguém pode ajudá-lo?

Caro David, venho a lhe escrever esse e-mail por puro desespero de um pai. No fim de semana do dia dos pais, fui passar em Tramandaí eu, minha namorada e minha filha e seus dois poodles micro-toys, o Dinho e a Dóris.

Os cachorros não podem ver a porta do carro se abrindo que pulam para dentro. Ao ir à uma farmá-
ia, constatei que o Dinho permanecia deitado no banco de trás, e, esse é fujão, assim fiquei tranquilo, pois a Dóris geralmente deita no chão do carro atrás do banco. Mas para meu desespero, a cadelinha não estava no carro ao retornar em casa.

Desde então, minha filha, que tem sete anos, e desde os dois tem essa cachorrinha, não pára de
chorar, não vai a aula, perdeu dois kg e está em depressão profunda (ela tem problemas mentais e, essa cachorrinha fazia parte de seu tratamento). Dei outra cadelinha, levei-a à uma psicóloga infantil, mas não adiantou.

Espalhei cartazes por Tramandaí inteira, coloquei anúncio em um jornal local e informaram-me que a viram
vagando por lá. Ela estava com uma roupinha rosa, uns lacinhos laranja nas orelhas e uma coleira com guia roxos no dia que a perdi, informaram-me que apenas a coleira permanecia com ela.

David, por favor, ajude-me. Não paro de chorar em ver minha filha neste estado e saber que o animalzinho está perdido. O presente do dia dos pais está lá, sem ao menos ser aberto. Pode um dia dos pais ser mais infeliz para uma filha com tamanha frustração?

Obrigado, e que Deus nos abençoe.

Att. Claudio Cunha – claudiocopoa@uol.com.br

A capital da muquiranagem

27 de agosto de 2010 42

Eu mesmo quase nunca penso no Piauí. Ontem à noite, partilhava chopes cremosos e dourados e gelados com amigos. Cinco horas de charla e libação. E ninguém citou o Piauí. Nem nos jornais, nem na rádio, na TV, nada. Zero. Traço. Jamais tenho notícias do Piauí. Não recordo de William ou Fátima algum dia terem pronunciado a palavra Piauí antes da novela. Não devem ocorrer tragédias por lá, suponho. O que será que acontece nas profundezas do Piauí?

Garanto que nossos gaúchos que tão bem sabem entoar o hino rio-grandense, que se ufanam de suas tradições pampianas e que se exibem dizendo que este é o Estado mais politizado e alfabetizado e bibibi, garanto que esses gaúchos fazem pouco do Piauí. Pois lhes darei uma notícia: sabiam que há sete escolas de Teresina, capital do Piauí, mais bem classificadas no Enem do que qualquer escola de Porto Alegre, capital de todos os gaúchos? Eu disse SETE.

Mais: no país, há 184 escolas mais bem classificadas do que a primeira de Porto Alegre, o Colégio Israelita. Entre essas, escolas da Juazeiro do Norte, do Padim Ciço; do pequeno Cachoeiro, do Rei Roberto; de Ilhéus, de Jorge Amado; além de Conselheiro Lafaiete, Itatiba, Valinhos, Avaré, Alfenas, Ipirá, Simões Filho, Três Marias e tantas e tantas.

Surpreso? Eu não. Pelo seguinte: porque sei que, no Rio Grande do Sul, os partidos políticos são contra a meritocracia no ensino. Porque sei que Porto Alegre, que já foi a terceira cidade do Brasil, hoje é a 12ª. Porque ando pela cidade pichada, depredada e malcuidada. Aponte uma rua de Porto Alegre que não tem buraco e, como prêmio, você poderá ver o pôr do sol no Guaíba inteiramente de graça.

Com que se preocupam os administradores de Porto Alegre quando vão realizar uma obra? Em primeiríssimo lugar, com o preço. É a muquiranagem cidadã.

Um exemplo prosaico: as obras no Arroio Dilúvio. As pedras de grés que revestem os taludes do riacho estão sendo retiradas e, no lugar, a prefeitura coloca placas de concreto. As pedras de grés estavam ali por um motivo: porque se harmonizavam com o conjunto do riacho, com seus canteiros, suas pontes históricas. O concreto desfigura a obra. Mas quem se importa? Concreto é mais barato. Além disso, o Arroio Dilúvio nem riacho é considerado, mas valão. Contraditório para uma população que diz cultivar suas tradições.

Mas não estou aqui a culpar só a prefeitura. A prefeitura não picha, não mutila monumentos e telefones públicos, nem joga lixo na rua. As culpas são várias. E levantá-las nem é importante, talvez seja ruim. Prova-o a situação da Educação. Você pergunta por que a Educação do Rio Grande do Sul é pior do que a do Piauí e o Cpers responderá que a culpa é do governo e o governo responderá que a culpa é do Cpers. Todos apontam culpas, ninguém indica soluções.

Porto Alegre tem solução. Não a Porto Alegre da muquiranagem pública ou da falta de educação do público. Tem solução a Porto Alegre que, ainda esta semana, lotou um auditório de 3 mil lugares para ouvir e aplaudir Daniel Cohn-Bendit no incomparável Fronteiras do Pensamento. Tem solução a Porto Alegre da Feira do Livro. Do Em Cena. Dos museus do Centro. Tem solução a Porto Alegre da boa vontade. Não tem a da rançosa oposição.

A solução para o Grêmio

26 de agosto de 2010 112

Os gremistas têm me enviado emails. Alguns desesperados, outros furiosos, todos buscando culpados para a situação do time. Há muitos culpados, bem sei. Mas quais são as soluções?

Diga aqui o que você faria se fosse o presidente do Grêmio.

Loira versus morena - o epílogo

26 de agosto de 2010 29

Depois dar e levar estocadas, Gabi decidiu encerrar o duelo. Leiam o texto abaixo, que ela enviou há pouco. A história toda me deu ideias. Estou pensando em fazer o concurso Miss Leitorinha. O que vocês acham, meninas?

“Quando nos imaginam melhores ou piores do que somos são duas situações ruins, porque nenhuma é verdadeira. Esse blog merece muito mais que uma competição de carnes. Não vou ficar tentando ser a Hanna Montana ou dar pra vocês um final Hollyoodiano de quinta categoria, louras líderes de torcida versus morena atrevida. Está se tornando cada vez mais difícil brincar nesse mundo, fazer travessuras…”

Querem saber o que o David tem de melhor, além de todos os títulos? É a capacidade de ter bom humor, “afrouxar os nós” nesse mundo cheio de paranóias, “conspirações” e sem satisfação. Como cantou Roling Stones: “I can guet now, satisfaction”. Pois é, as pessoas não conseguem encontrar a satisfação facilmente e isso também parece tornar mais difícil entender o espírito de uma brincadeira, provocando reações estranhíssimas. O David e alguns leitores se divertiram com tudo, porque entenderam. Estou fora dessa peleia, quem quiser se habilite a exibir suas carnes, para mim o espetáculo foi ter uma das minhas histórias contadas por David Coimbra! Encerro aqui oficialmente a “rivalidade”.

Quando falei de reação da Pimenta era só para apimentar mesmo, e percebi que acabei fomentando uma competição. A foto que causou tanta polêmica é fruto de uma brincadeira com minhas amigas em uma festa, a intenção da foto não era participar de um concurso de miss! Tenho fotos bem melhores.
Não, não haverá fotos. Quem sabe um dia, sem peleia! As fotos da Le estão lindas. Apreciem sem moderação.

A culpa é das mulheres

25 de agosto de 2010 34

A Bíblia prova o que digo. Ao menos o trecho sobre Adão & Eva, o Jardim do Éden e talicoisa.


Você sabe o que digo: a Civilização é obra feminina. Estamos aqui, vivendo em cidades, bebendo água em copos de plástico, usando cuecas, comendo cheesecake, por causa das mulheres. ELAS nos convenceram de que ia ser bom. Fosse por nós, homens, continuaríamos com a doce vida nômade, a vida caçadora e coletora. Continuaríamos selvagens, como ainda somos nos escaninhos mais remotos dos nossos corações. Continuaríamos felizes.

Felizes, sim. Em primeiríssimo lugar, porque não havia trabalho. Caçadas não podiam ser consideradas trabalho. Eram diversão. Os homens saíam em bandos, cercavam um mamute lanudo, abatiam-no a pedradas e golpes de tacape, e depois ficavam churrasqueando e contando vantagem. Quando voltavam para a clareira onde haviam deixado as mulheres e os filhos, elas, as mulheres, os esperavam com muitos frutos e raízes na panela e pouca roupa no corpo rijo de fêmeas habituadas a longas caminhadas. Os homens se sentavam em torno da fogueira, narravam suas aventuras, agora com detalhes aumentados de façanhas e heroísmos, e depois era aquela festa. Ninguém era de ninguém. Não existia monogamia, não existia casamento, não existia fidelidade, não existia isso de mulher ficar fuçando no celular do homem para descobrir quem ligou na noite anterior.

Esse era o Paraíso. Não sou eu quem o afirma; é a Bíblia. Adão e Eva eram caçadores e coletores. Eram nômades a vagar alegremente pela vasta área do Jardim do Éden. Eram, como já disse, felizes.

O que aconteceu para que tudo se transformasse?

Aconteceu que a mulher fez o homem mudar.

A história está toda lá, nas entrelinhas da lenda do Gênesis. Quer ver?

Prova número 1: o que significa a maçã do conhecimento que Eva oferece a Adão?

Resposta: significa a Civilização.

Eva, a mulher original representando todas as mulheres originais, convence Adão, o homem original representando todos os homens originais, a se civilizar. O que, então, tem de fazer Adão? Tem de trabalhar, o que, além de ser um apanágio da Civilização, é um castigo divino. Deus, claramente, desgosta da Civilização. Queria o homem no Paraíso, nu, desocupado e feliz.

Mas Adão deixou-se levar por Eva e já seus filhos são civilizadíssimos: Caim é agricultor; Abel, pastor. São tão civilizados que um mata o outro por inveja, uma das mais marcantes características da Civilização.

Prova número 2:
ao se civilizarem, Adão e Eva sentem vergonha de andar nus e cobrem as partes pudendas com folhas de parreira. A imagem é óbvia: com a Civilização, o sexo, antes livre e sem culpa, torna-se tabu. Agora, o sexo não é mais diversão. É pecado.

Tudo por causa da mulher.

Nós homens, nós fomos domesticados. A centelha de liberdade selvagem que ainda subsiste no fundo de nossa alma, essa centelha só reluz em momentos especiais. Um deles é o esporte. Sobretudo o futebol, uma reprodução da vida gregária dos tempos do nomadismo, quando os homens saíam em bandos para encontrar alimento, sim, mas principalmente para se divertir. O futebol serve para esse extravasamento da alma masculina. Serve para a diversão. Para que voltemos às origens.

Vendo as cenas do Maracanã lotado com Vasco versus Fluminense, os cariocas rindo e brincando, vi ali a essência do futebol. Vi ali a diversão pura. E a invejei. O belicismo amargo de gremistas e colorados não tem nada a ver com diversão, não tem nada a ver com nosso espírito ancestral de camaradagem e lealdade masculina. Não. Essa disputa tensa e cansativa é típica da Civilização inaugurada com o homicídio de Abel por Caim. É maniqueísta. É tola. E, pior, não é nada divertida.

A Calçada da Fama

24 de agosto de 2010 3

Aquele T de luzes coruscantes, risadas cascateantes e minissaias estonteantes formado pela Padre Chagas e a Fernando Gomes, aquilo era um ermo. Havia casas, é verdade, e árvores, e nada mais. A vida, ali, só pulsava durante o dia. À noite tudo era desolação e sombras. Então, há 15 anos, nós fomos para lá. Nós: o degas aqui; a Magrela, hoje promovida à dona do RS VIP; o Ricardo Carle e o livro que leria inteiro naquela noite; a Cris Lac; o Professor Juninho; o Degô.

Lembro da primeira noite que fomos ao bar, o Jazz Café. A Fernando Gomes estava imersa na escuridão. Havia muito lugar para estacionar. Éramos nós no bar e mais ninguém. Na Padre Chagas, as corujas piavam. Havia apenas o Café do Porto, mas o Café do Porto é café, não bar. Aqueles chopes primevos foram os primeiros de muitos. Depois, o Lilliput instalou-se ao lado e foi uma revolução. Cada chope passava por duas chopeiras, recebia pressão extra e era servido, cremoso e dourado, em copos de cristal. A tecnologia a serviço do homem.

Em pouco tempo, o lugar já era chamado de A Calçada da Fama.

Hoje, tudo mudou. Semanas atrás, meu amigo Cuca Lima vendeu o Lilliput para a Parrilla del Sur. Agora, nesta semana, meu não menos amigo Atílio Romor vendeu o Jazz Café para o mesmo comprador. Não posso dizer que não lamento. Vi casamentos se desfazendo, naquela quadra, mas também vi paixões incandescendo, vi flertes e rejeições históricas, vi cruzadas de pernas que mereceram ovação, vi sorrisos de luz, ombros rebrilhantes, coxas de seda, tudo isso vi. Mas a vida vem em ondas, como diria Lulu. Ciclos. Tudo são ciclos. Vamos para outros, agora. Quem sabe um entrecot com cerveja uruguaia?

Loira versus morena

24 de agosto de 2010 56

Vocês estão acompanhando o duelo entre Le e Gabi?

O duelo imortal entre loiras e morenas estampado no blog.

Eu ia escrever um post, mas não posso, diante da imensidão dessa disputa.

Leiam e usufruam.

Bate-Bola (22/08)

23 de agosto de 2010 5

Pessoal, a seguir o Bate-Bola deste fim de semana:

Café TVCOM (21/08)

23 de agosto de 2010 0

Abaixo, o Café TVCOM do último sábado, gravado diretamente Letras&Cia, com José Antonio Pinheiro Machado, Tatata Pimentel, Cláudia Laitano e David Coimbra:

Gabriela sobe o telhado

22 de agosto de 2010 16


Gabriela, escreveu Jorge Amado, tinha o cheiro do cravo e a cor da canela. Todo mundo sabe como é Gabriela: é Sônia Braga no auge da morenice cabocla aos 25 anos de idade, ela e suas coxas de chocolate mais expostas do que cobertas por um vestidinho diáfano, escalando o telhado para apanhar uma pipa ou pandorga ou papagaio e paralisando a pequena e nada pacata Ilhéus.

Ilhéus. Jorge Amado escrevia sobre Ilhéus e, escrevendo sobre Ilhéus, conquistou o mundo, foi traduzido em mais de 60 línguas, vendia como ninguém jamais vendeu no Brasil.

Certa feita, Jorge Amado esteve em Porto Alegre para lançar um de seus últimos romances, “Tocaia Grande”, que, contou, escreveu “de déu em déu”, entre São Luís do Maranhão e Estoril. Eu trabalhava na Sulina e tive a sorte de conversar com ele algumas vezes. Numa dessas, ele revelou, divertido e surpreso, que havia se deparado com um de seus livros traduzido em ucraniano. Ou seria checo? Alguma língua do leste europeu.

Enfim, Jorge Amado era universal sem deixar de ser regional. Porque sabia interpretar o seu universo particular, sabia que os sentimentos de um homem de Ilhéus são os mesmos de um homem de Paris, Nova York, Tóquio, Porto Alegre ou Alegrete. Todos se emocionariam com a visão das coxas fortes, macias, rijas e nuas de Gabriela-Sônia Braga. Que tinha o cheiro do cravo. E a cor da canela.

Eis uma diferença entre Grêmio e Inter.

O Inter se mira no Grêmio. Quer, em primeiro lugar, bater o Grêmio. Isso, ao contrário do que se possa pensar, é uma grandeza, não uma diminuição. O contrário, sim, é pouco inteligente.

Pois o Grêmio faz o contrário. O Grêmio teima em desconhecer o Inter. É uma arrogância sem apoio na realidade, como quase sempre são as arrogâncias. Mais até: é uma tolice.

O Inter, quando olha para o Grêmio, torna-se maior. Quando não olhou, se perdeu. Durante 25 anos, o Inter buscou conquistas nacionais e internacionais. Em vão. Até que Fernando Carvalho assumiu e pregou:

– Primeiro, temos que derrotar o Grêmio.

Foi assim que o Inter se fortaleceu e cresceu, e agora se igualou em títulos ao Grêmio, e agora é o maior do Brasil. Como Jorge Amado, o Inter, ao cultivar a sua realidade regional, conquistou o mundo.

Um monstro sem cabeça

22 de agosto de 2010 41

Cometeu alguns erros, a atual direção do Grêmio. Nenhum deles por má índole ou má intenção. Erros de quem queria sinceramente acertar. Mas ainda assim erros.

Um deles foi a já citada histórica arrogância de não olhar para o Inter.

O maior de todos, o de afastar-se da torcida da Geral.

Meu amigão Potter, insuspeito colorado, faz um diagnóstico interessante sobre o fenômeno do aumento da torcida do Grêmio nos últimos anos, a despeito das fases ruins do time. Segundo ele, é porque a Geral do Grêmio virou moda. A gurizada anseia por toda aquela movimentação, a avalanche, os cânticos, talicoisa.

A Geral mudou o jeito de torcer no Brasil. E tornou o Grêmio invencível no Olímpico durante duas temporadas.

Com a Geral a empurrá-lo de cinco anos para cá, o Grêmio ganhou três regionais, foi terceiro lugar no Brasileiro em um ano e segundo em outro, além de vice-campeão da Libertadores. É pouco?

Sim, em comparação com o quinquênio do Inter. Compare com os outros clubes brasileiros.

O que o Grêmio ainda tem deve à sua torcida. Alguns integrantes da Geral cometeram deslizes, verdade. Teriam de ser corrigidos. Mas sem emascular a torcida, que foi o que fez a direção. A reação devia ter sido oposta. A direção devia ter fortalecido a torcida, devia ter se aproximado dela para eliminar-lhe os defeitos e reprimir os maus integrantes.

Bem dizia Marx: a turba é um monstro sem cabeça. Manipulá-la é fácil. Orientá-la, nem tanto. A direção do Grêmio havia de ter orientado a sua torcida, nunca se apartado dela.