Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de setembro 2010

A pergunta que Chávez não respondeu

30 de setembro de 2010 15

Aí vai mais um artigo da correspondente do blog na Venezuela, a minha amiga Yelitza Linares, competente jornalista de Caracas.

Ó:
_

O presidente Hugo Chávez eleva ao estrelato jornalistas quando tenta, na verdade, relegá-los a um segundo plano. Desqualificar colegas em cadeia nacional de rádio e TV acabou convertendo-os em heróis.

Andreína Flores, correspondente na Venezuela da emissora RCN, da Colômbia, e da Rádio France-Internacional, tem agora 12,9 mil seguidores no Twitter e, nas últimas horas, em vez de elaborar perguntas tem respondido questões de representantes de veículos de Miami, Paris, Colômba, entre outros.

Os holofotes a atingem por ela ter cumprido com seu dever ao “encurralar” o mandatário venezuelano em coletiva de imprensa que Chávez oferecera a correspondentes internacionais, na última segunda (há anos que os jornalistas venezuelanos não têm acesso a essas coletivas).

Então, Andreína teve dois privilégios, apesar de ser da Venezuela: poder entrar no Palácio de Miraflores e ainda ganhar o sorteio que dava direito a interrogar o chefe de Estado.

E não deixou passar a oportunidade e fez “a” pergunta.

“A diferença entre os votos obtidos por seu partido, o Partido Socialista Unido da Venezuela, e os que conquistou a Mesa da Unidade Democrática é de apenas 100.000. E é difícil entender que, mesmo chegando quase ao mesmo número de votos, a oposição alcançou 37 cadeiras a menos que o PSUV. Pergunto-me se estaria confirmando a tese da oposição, que sustenta que a redistribuição dos distritos eleitorais se fez com a intenção de favorecer ao PSUV, ou talvez que o voto do PSUV valha por dois…”

O que o presidente venezuelano não reconheceu, nem vai reconhecer, publicamente, é que a Assembleia Nacional reformou no dia 19 de janeiro a Lei Orgânica de Processos Eleitorais para diminuir o número de deputados em estados com maior população (e nos que a oposição tem mais adeptos), e conferir mais representantes ao Parlamento em lugares de menos habitantes, e nos quais o chavismo arrasa.

E como se conseguiu isso? Mudaram-se as circunscrições eleitorais de oito Estados, entre estes seis que concentram 50,53% da população eleitoral: Carabobo, Distrito Capital, Lara, Miranda, Táchira e Zulia. Ao final, a metade dos votantes iria escolher apenas 63 deputados (38%) dos 156 que formam a Assembleia Nacional.

A oposição advertiu que essa sutileza jurídica favoreceria o governo, mas a aceitou porque um eventual confronto seria como espernear em vão, dada a atual desvantagem institucional. Além disso, não poderia se cometer o erro de 2005, quando se retirou das eleições parlamentares por outras medidas que também não o favoreceram.

Hoje, a imprensa crítica preenche páginas imaginando como poderia ter sido a Assembleia com a antiga legislação: uma correlação de forças quase parelhas, segundo afirmam os especialistas – o que levou o presidente a se engasgar e fugir da resposta.

O grande Renato

30 de setembro de 2010 86

Um bom técnico é como um bom cozinheiro: comete maravilhas com as sobras. É na hora do improviso que se vê quem sabe o que fazer quando está a barriga encostada ao calor do fogão ou com os pés fincados na grama fria da área técnica.

Renato, ontem, deu uma demonstração definitiva do quão bom técnico é. Não tendo todos os ingredientes à disposição, trabalhou com o que lhe restava e serviu um belo recozido.

Lúcio jogou como o velho ponta-esquerda recuado. Sei disso, porque era ponta-direita recuado do Huracán. Lúcio fechava quando o time se defendia, abria quando o time atacava, é esse o jeito certo de se jogar.

Paulão foi tão implacável na zaga que Ricardo Oliveira se irritou. Em um lance lateral, empurrou-o para a pista atlética, como se dissesse: “Me larga!”

E o Diego Clementino! Um Tarciso na ponta-direita, rápido e agressivo.

Mas o melhor foi Vilson de centromédio. Vilson na volância deu uma segurança de China em 83, de Dinho em 96. Vilson com Adilson ao lado, tendo atrás dois zagueiros decididos, olha, Vilson na volância é de marejar os olhos de um Wianey Carlet.

Que técnico está me saindo esse Renato!

Lula e os "democratas"

29 de setembro de 2010 63

 

Não esqueci das perguntas. Responderei todas, como já prometi. Até as que não são exatamente perguntas, como a do…

…Guilherme, formulada em máiúsculas de indignação:

“SÓ PODE SER BRINCADEIRA -OU MAIS UM ATO DE ARROGANCIA- ESTAR FALANDO EM DEMOCRACIA DEPOIS DE SER “MASSACRADO” NO POST SOBRE O PARTIDO “DEM” E O COMENTÁRIO DO TEU PRESIDENTE, ELOGIADO POR TI!
VOLTA A ESCREVER SOBRE PERNAS ROLIÇAS DE LOURAS/MORENAS DESLUMBRANTES…(QUE É PRA ISSO QUE TU TEM VOCAÇÃO)”

 

RESPOSTA:

 

Lembram aquilo que eu falei que uns me mandam escrever sobre isso e outros sobre aquilo e que, por isso, continuarei escrevendo sobre o que bem entender?

É o caso do nosso Guilherme aí em cima.

Aliás, uns disseram, quando assim respondi: “Não, tu escreves o que teus patrões te mandam”.

Um testemunho a respeito: nunca, jamais, em tempo algum alguém da RBS disse que não podia escrever acerca de xis ou ípsilon, que tal tema era proibido, nunca, jamais, em tempo algum me pediram para escrever a favor ou contra algo ou alguém.

O mesmo não ocorria em outros jornais que trabalhei.

A vantagem da RBS, principalmente da Zero Hora, sobre a maioria dos outros veículos brasileiros, é que os patrões, referidos pelos leitores, querem ganhar dinheiro com comunicação. O que faz com que eles levem a comunicação a sério. É o principal negócio deles. Logo, eles precisam ter credibilidade. Não podem desmerecer o próprio negócio. Isso é ótimo para o jornalista. E para o público, por conseguinte.

Se quiserem, posso me alongar mais neste tema em outra oportunidade. Por enquanto, comentemos o comentário do Guilherme:

Não acho que a declaração do Lula foi antidemocrática. Quando ele falou em “extirpar” o DEM, não falou em arrastar Jorge Bornhausen et caterva pelos cabelos, enfileirá-los no paredão e fuzilá-los sumariamente. Não. Falou em extirpá-los pelo voto. Ou pelo NÃO VOTO. Se ninguém mais votasse nos “democratas”, os “democratas” seriam extirpados da política, o que seria saudável.

 

A rua da tendinha

29 de setembro de 2010 4

Promessa é dívida. Aí vai o último texto do livro “O mundo é uma bola”.

Ó:

_
Vai em 10, em cinco vira! O gordinho, coitado, já se arrastava para o gol. Ficava lá, com as mãos nas dobras da cintura, resmungando que não lhe davam chance de mostrar seu futebol, entre uma trave feita de meio tijolo e outra de um par de Havaianas que não deformavam, não soltavam as tiras, não tinham cheiro. O melhor campinho não era um campinho. Era um areão que separava dois blocos de edifícios da Vila do IAPI, Zona Norte de Porto Alegre, apelidado de “rua da tendinha”, porque lá havia, claro, um pequeno armazém de secos & molhados.

A jogada preferencial era pela esquerda. O ponta Ricardinho tinha velocidade e um drible curto, de palmo e meio. Chutava forte. Um dia, o pessoal jogava três-dentro-três-fora e a bola sobrou para aquele pé esquerdo dele. Saiu oval, tamanha a bomba. Passou zunindo acima da cabeça do gordinho, desapareceu atrás do muro do conjunto de edifícios e então se ouviu um ruído seco e um gemido de dor. Os dois times, menos o gordinho, se dependuraram no muro e viram a cena: uma senhora, já entrada em anos, jazia na calçada, braços abertos como o Cristo Redentor, pernas para cima, óculos para um lado, bolsa para outro, a bola lá adiante, ainda quicando, já inofensiva.

A primeira reação de todos foi sair correndo. Só que alguém precisava resgatar a bola, objeto por demais precioso naquele tempo. Bola de couro, número cinco, como aquela, era coisa rara. Quando fazia uma vaquinha, no máximo, no máximo a turma conseguia comprar uma dente-de-leite de plástico duro, que sugava a pele do infeliz que levasse uma bolada. Só o Zé Fernandes tinha bola de couro número cinco. Todas as tardes, uma comissão ia pedir a bola para o Zé Fernandes. Primeiro, diplomaticamente, o convidavam para jogar. Era um bom centroavante, o Zé. Sempre fazia gol. Podia não estar jogando nada. De repente, a bola batia nele e entrava. Gol do Zé. Era sempre assim. Mas às vezes ele não podia jogar. O pai não deixava. Obrigava o pobre a ficar estudando. Neste caso, o jeito era implorar pelo empréstimo da bola.

A muito custo o Zé Fernandes emprestara a número cinco naquele dia. Perdê-la, portanto, era inadmissível. Alguém precisava ir buscar. O lateral-direito Barnabé foi escalado para a missão. Magrinho, pernas compridas, pulmão para ir de uma linha-de-fundo a outra três vezes seguidas, só o Barnabé reunia condições para apanhar a bola e correr tanto que nenhum dos vizinhos, que já chegavam para socorrer a pobre senhora, o alcançasse. Foi o que fez. Foi o que fizeram todos. O Barnabé com a bola debaixo do braço, o Ricardinho choramingando de pavor, o gordinho lá atrás.

Tudo bem, tudo certo. Os jogos continuaram, lá na rua da tendinha. Até que, uma tarde, uma patrola botou a tendinha abaixo, o terreno foi aplainado, recapado com cimento e transformado em estacionamento de uma gráfica enorme. Era o fim das peladas na rua da tendinha. Foi então que se começou a notar que os campinhos e os terrenos baldios estavam desaparecendo, dando lugar a prédios, estacionamentos, postos de gasolina, bancos.

Alguns cronistas passaram a alertar que aquilo poderia significar o fim do futebol brasileiro. Como surgiriam os Pelés, os Garrinchas, os Tostões e os Rivelinos se os garotos não tinham mais lugar para jogar? Então o futebol brasileiro ganhou outra Copa do Mundo. E começaram a aparecer Rivaldos, Denílsons, Giovannis, Djalminhas. E Ronaldinho, que é singular, apelidado pela última revista semanal do El País de “El Extraterrestre”. Eles estão aí, com tanto fôlego quanto o lateral Barnabé, com tanta habilidade e chute tão forte quanto o ponta Ricardinho. Mas como eles estão aí, se os terrenos baldios, os campinhos de pelada, as ruas da tendinha, enfim, desapareceram? De onde eles vieram? De onde?

Era tudo bagaceirada

28 de setembro de 2010 0

Pessoal, mais um texto do livro “O mundo é uma bola”:
-

Não tinha mãe naquela turma. Era tudo bagaceirada, era tudo jogo duro. O Zé Índio. Só jogava, só andava com os pés descalços. Verão, a laje da calçada fervendo, quem estava sem chinelos caminhava aos pulos, ai, ui, ai, e o Zé Índio nem aí, assobiando, mão no bolso, se o calção do Zé Índio tivesse bolso. Seus pés eram cascos; a pele, uma crosta; as unhas, navalhas.

Mas, e o Fenemê, então. Um caminhão na lateral-esquerda. Atropelava ponteiros sem clemência, o Fenemê. E o Marreta. E o Marreta! Cruzes, o Marreta era o pior de todos. Ninguém ganhava dele na briga. Uma vez, quatro caras o provocaram num bar ali no Viaduto Obirici. Chamaram a irmã dele, a Tânia Mara, uma loirinha pequeninha, só que certinha, cheinha onde tinha de ser, fininha onde tinha de ser, tudo em cima, a Tânia Mara, e bem que era aprontadeira, ah, era mesmo aprontadeira, mas para o Marreta era uma santa, e ai de quem falasse da Tânia Mara, o Marreta embrabecia, embrabecia, e aí o Hulk, perto dele, era o Batatinha. Pois os caras lá no bar chamaram a Tânia Mara de alguma coisa pouco airosa, sabe-se lá o que foi. O Marreta levantou, arrastou-se melancolicamente até a mesa deles e mandou, voz pastosa:

– Desdiz.

Os caras riram.

- Como é que é? – perguntaram, por deboche. E ele, na maior pachorra:

– Desdiz.

Os caras continuaram rindo. O Marreta ficou vermelho.

– Não vão desdizer?

Não desdisseram. O Marreta quebrou as caras dos quatro caras e o bar todinho.

Eram esses e outros mais, outros também jogo duro, também tudo bagaceirada, todos estavam juntos no boteco, esfregando as mãos de contentamento em frente à televisão, esperando a hora do começo do jogo Brasil x Itália, na Copa de 1982. Estava frio, o pessoal tomava quentão. O Fenemê ia na canha. Sentava o martelinho no queixo e mandava ver, um atrás do outro. Todo mundo contentão, comendo aipim frito.

Até que começou o jogo. Que coisa, aquele jogo, que nhanha. De repente, os artistas brasileiros ficaram pesados, o campo parecia lodoso, um pântano. Era a Itália que fazia aquele feitiço. Foi dando uma angústia, uma angústia, uma angústia, que não sumiu nem nas duas vezes que Sócrates e Falcão empataram a partida. No fim, o Brasil tentando, e tentando e não adiantava, e se sabia que não ia adiantar, que era assim mesmo que ia terminar, e foi assim que terminou.

Então, a cena. Impensável, a cena. Mas aconteceu. Fenemê, Zé Índio e Marreta, os três tinham se dado as mãos no final do jogo, uma tentativa de corrente pra frente para ver se o Brasil empatava, enfim. O jogo terminara e eles estavam ali, de mãos dadas, pasmados, de pé, três pares de olhos fixos na luz azul da tevê. E, nos três pares de olhos, o brilho de cristal das lágrimas. Os três choravam de mãos dadas, e de mãos dadas se quedaram chorando por sabe-se lá quanto tempo, pareceu o dia todo. Eram como três bandeirantes órfãs perdidas na floresta inóspita, se protegendo mutuamente. A candura atingira aqueles três corações empedernidos. Só mesmo o futebol.

Só mesmo uma Copa do Mundo.

Café TVCOM (25/09)

28 de setembro de 2010 2

Confira a edição completa do programa gravado no 72 Nova York. Estive com Cláudia Laitano, Tânia Carvalho e J.A Pinheiro Machado.

Ó:

Até onde pode chegar a superstição

28 de setembro de 2010 4

O Guilherme Almeida, de Porto Alegre, pediu que eu publicasse os contos do livro “O Mundo é uma Bola“, uma reunião de cronistas que a Editora Ática fez tempos atrás.

Esse seu criado assina o livro junto com Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, Paulo mendes Campos, Rachel de Queiroz, Rubem braga, Stanislaw Ponte Preta, Moacyr Scliar, José Roberto Torero e Lourenço Diaféria. Estou em boa companhia ou não estou???

Os meus contos são:

Cueca lilás. Carpins Pretos
A rua de tendinha
Era tudo bagaceirada

Abaixo, o primeiro. Em breve, os demais:
_

Cueca Lilás. Carpins Pretos

Débora era o nome dela. Débora. Pronunciávamos num suspiro: “Déboraah…”, com reticências no fim. Você sabe como são as mulheres com nomes proparoxítonas. Você sabe. Nomes proparoxítonos, vogais explosivas, só podia dar no que deu: uma mulher serpente, com curvas e aclives de pista de rali. E ruiva, ainda por cima. Déboraah… Pensei nela por causa do Antônio Lopes.

Você vai achar estranho eu pensando na Débora por causa do Antônio Lopes. Bem, é que, na verdade, não foi exatamente na Débora que pensei em primeiro lugar. Não. Foi no Odone Carpim. Pois lá estava o Antônio Lopes, no Japão, com sua camisa da sorte, suas calças da sorte, seu sapato da sorte. Então lembrei do Odone Carpim. Justamente devido a isso de roupa da sorte.

Está certo, é comum no futebol essa história de roupa da sorte. O Foguinho tinha uma. Um colete. Torcedores e jogadores acreditavam que, quando o Foguinho usava seu colete, o Grêmio não perdia. Acontece que o colete era de lã, quente, e Foguinho tinha de usá-lo mesmo no verão. Uma vez, o Grêmio ia jogar no Interior, o ônibus da delegação já deixara a cidade, quando Foguinho, remexendo na mala, comentou, distraído:

– Esqueci meu colete…

Num repente, todo o bulício dos jogadores, as risadas, os gritos, os jogos de cachetinha, tudo cessou. As respirações ficaram em suspenso. O silêncio se tornou tão pesado que ameaçou estourar os pneus do ônibus. Os olhares se voltaram para o técnico. Esqueceu? Meia-volta. Todos à casa de Foguinho, atrás do colete.

Times vencedores cultivam superstições. O Inter de 75. Os jogadores entravam e saíam do ônibus sempre na mesma ordem, sentavam nos mesmos lugares. E havia o perfume. O massagista Moura borrifava as camisetas com um perfume odor alfazema que dizia ser mágico. O time entrava em campo todo cheiroso, intrigando os adversários.

Um amigo meu, o Jorge Barnabé, acreditava ardentemente que o Grêmio só vencia se ele fosse ao jogo com uma certa cueca lilás. Empenhado na conquista do campeonato, ele não perdia uma partida. O pessoal se encontrava com ele na arquibancada e nem dava boa-tarde:

- Tá com a cueca? Tá com a cueca?

E ele, sorridente, puxava uma ponta de pano lilás do lado das calças e mostrava:

– Oh! – todos suspiravam de alívio.

O brabo é que a cueca essa era daquelas “cuecas machão”, lembra? Um tecido furadinho, quadriculado, baratíssimo, vinham várias delas dentro de um cilindro plástico vendido a parcos centavos. Chegava uma hora que as tais cuecas começavam a pinicar a pele do usuário. Aí, o Jorge ficava inquieto na arquibancada, sentado de lado, levantando, incomodando a torcida ao redor.

Aquelas cuecas se gastavam rapidamente. Certa feita, a mãe do Jorge, vendo o estado lamentável da cueca lilás dele, atirou-a no lixo. No dia do jogo o Jorge procurou a cueca e não a encontrou. Revirou as gavetas, o cesto de roupa suja. Nada. Pressentindo a tragédia, correu para a cozinha:

– Mãe! – berrava. – Cadê a minha cueca lilás?

Agora você sabe por que o Grêmio perdeu tantos campeonatos na década de 70.

Mas a história que interessa é a do Odone Carpim. Como você é esperto, já adivinhou que a roupa da sorte do Odone Carpim era, exatamente, um par de carpins. Pretos. Comuns. Meia canela. Em outras rodas consagradas como “peúga”.

Olha, o Odone não venceria nenhum concurso de mister elegância com seus carpins, mas parecia ter sorte mesmo. No futebol, a bola batia na canela dele e entrava. Sorteio, ganhava todos. Vivia achando dinheiro na rua. A todas essas, repetia: é o carpim, é o carpim.

Odone usava os carpins quase todos os dias. Resultado: os carpins começaram a gastar. Ficaram puídos, desbotados. Até que chegou um tempo em que ele foi deixando de usá-los. Não sem se lamentar pungentemente:

– Sou um comum sem o carpim. Um comum.

O curioso é que a sua sorte realmente mudava. As coisas não davam mais tão certo para ele. Talvez porque sua confiança diminuísse sem os carpins. Foi então que surgiu Débora. A Débora proparoxítona. Todos nos apaixonamos pela Débora. Todos a assediávamos. Ela nem bola.

Uma tarde, a Débora estava perto do campinho do IAPI com três amigas. Nós cochichávamos a alguns passos. Sobre ela, claro. “Como é exibida, nem olha pra gente”. Então, o Odone bradou:

– Vou dar um jeito nisso.

E saiu correndo. Foi em casa. Voltou de bermudas.

E carpins. Os velhos carpins da sorte. Veio gingando, sorrindo, em nossa direção. Subitamente, desviou para o lado das meninas. Óbvio: ia apresentar os carpins para a Débora. Tensão. Daria certo? Débora se apaixonaria pelo Odone por causa dos malditos carpins? Odone chegou perto dela. Bem perto. A roda das meninas também silenciou. Aí, ele se abaixou, ajeitou os carpins demoradamente, chamando a atenção para eles. Todos, inclusive a Débora, olhamos para os carpins. Ele olhou para trás, para nós. Sorria maliciosamente. Sorrindo ainda, olhou para cima. Para Débora. Ergueu-se. Ficou diante dela, sorrindo. Então deu-se o inacreditável. Débora sorriu para ele. Era a primeira vez que sorria para alguém da turma. Dissemos: “Oooh”. O Odone olhou para trás, vitorioso. E Débora, incrível!, falou com ele. Disse assim:

- Tu que és o Odone Carpim?

Ele, orgulhoso:

– Eu mesmo.

Ela, ainda sorrindo, mas desta vez olhando para as outras meninas:

– Vocês têm razão: é um nojo.

Ao que deu as costas para Odone e foi embora.

Moral da história: superstição só funciona no futebol.

Bate-Bola (26/09)

27 de setembro de 2010 1

No domingo, a rodada foi movimentada, a Dupla ganhou bem.

Não faltou, pois, assunto no Bate-Bola, da TVCOM.

Confira aí a integra do programa:

A guerra no subúrbio

27 de setembro de 2010 14

Ainda respondendo aos leitores, o
Gabriel
perguntou:
“Qual o jogo mais difícil da história do Huracán?”

RESPOSTA:
Não vou falar do jogo mais difícil do Huracán, Gabriel, mas de um dos mais pegados do nosso time de futebol de salão, num tempo quem que ainda se jogava com bola pesada e não se falava essa frescura de “futsal”.
É um continho antigo, que publiquei no meu livro “A Catada Infalível e a Mulher do Centroavante”, relançado há pouco pela L&PM.
Aí vai:

“Lá no IAPI, sim, é que foi guerra
Vou contar uma história de violência e medo. É. Violência e medo. E as vítimas fomos nós, do nosso time de futsal lá do IAPI. Foi um combate. Uma guerra. O inimigo militava em um setor da igreja, ainda por cima. Isso mesmo: um setor da santa igreja católica.

Tudo aconteceu por causa da Alice. Ela era a menina mais cobiçada do bairro, a Alice. Todos queriam namorá-la. Mas sabe quem a namorava? Sabe quem? O degas aqui. Um dia, porém, nos desentendemos e rompemos. Eu ainda gostava dela, tinha certeza de que ela ainda gostava de mim. Mas rompemos. Aquela coisa de orgulho e tal. Mesmo assim, eu sentia que voltaríamos a namorar, que o rompimento era passageiro. Até que ela me deu uma punhalada pelas costas: começou a namorar o cara do CLJ.

CLJ era uma associação de jovens da igreja, acho que existe ainda. Pois a Alice começou a freqüentar o CLJ, ir nos encontros em que eles tocavam violão, cantavam Eu tenho tanto/Pra te falar/Mas com palavras/Não sei dizer…, e lá estava o cara esse. Pois o cara tanto deu em cima da Alice que ela cedeu, a pérfida traidora.

Uma rivalidade surda se instaurou entre eu e o cara do CLJ. Conversávamos. Mas de dentes rilhados. Sorríamos um para o outro. Mas amarelo. Aí um dia, numa conversa pretensamente cordial, marcamos um jogo – o meu time contra o dele. Oficialmente, não era para ser nenhum tira-teima. Oficiosamente, claro que era.

O goleiro do meu time era o Diana. Gremistão. Aquele que, já contei, apostou que, se o Grêmio perdesse um Gre-Nal dos anos 70, comeria grama – comeu. Na frente havia o baixinho Ulisses. Jurava ter 1m60cm. Cascata. Devia ser 1m55cm, e olhe lá. Tinha umas manias estranhas, o Ulisses. De vez em quando, aparecia com uns adereços exóticos. Um chapéu de caubói, um enorme par de óculos espelhados que não tirava nem à noite. Uma vez encrespou os cabelos. A gota d’água foi um colar de conchinhas. Era demais. Não podíamos permitir que o nosso frente usasse colar de conchas. Acabamos com aquela frescura na hora.

Quem mais se revoltou com o colar foi o Amilton Cavalo, o ala esquerda. Pudera, Amilton era do Alegrete, gauderião, só faltava jogar pilchado. Dava um drible muito engraçado, uma acrobacia. Subia na bola, girava o corpo sobre ela, contornava o adversário e saía pelo lado. A gente chamava de drible alegretense. Só vi o Jésun, aquele ponta-esquerda do Grêmio, fazer algo parecido. Mas parecido, não igual.

Finalmente, na ala direita corria o Jorge Barnabé. Corria mesmo. O homem era uma bala, de ligeiro. Magricela, gozador, tinha o hábito de atrair confusão. Sempre havia alguém querendo brigar com o Jorge, mesmo que ele nunca quisesse brigar com ninguém. Naquele jogo, não foi diferente.

O nosso time era muito melhor que o da igreja. Começamos a partida tocando a bola, cadenciando o jogo. Na catega, gritávamos um para o outro. Na catega. A Alice e duas amigas dela, a Josie e a Lisi, estava na torcida. Eu me exibia. Tocava de trivela. Matava no peito. O meu rival era o goleiro deles. Na catega, na catega, 1 a 0 para nós, gol do Ulisses.

Mais uns minutinhos, o Jorge voou pela direita, centrou rasteiro e o Cavalo mandou um canhotaço. O cara do CLJ nem viu onde ela entrou. Em seguida, peguei a bola no meio, fiz que ia para lá, para cá, para lá de novo, me enfiei entre dois igrejeiros e, na saída do cara do CLJ do gol, encostei para o Ulisses: 3 a 0. As gurias mudas, na lateral. Que beleza.

Foi então que o pessoal da igreja começou a chegar. Vinham aos magotes, em cardumes, alguém os chamara. Cercaram a quadra de cimento e areia da Amovi, a associação de moradores da vila. Eram da igreja, sim, mas de comportamento nada cristão. Quando a gente ia cobrar lateral, eles, atrás, rosnavam:

- Vocês vão apanhar! Vamos quebrar a cara de vocês!

Em pouco tempo, havia uns 40 sujeitos do CLJ nos pressionando, armados de sarrafos, pedaços de pau, pedras, barras de ferro. A intimidação surtiu efeito. Levamos um gol, dois, três. Eles iam virar o jogo. O cara do CLJ se entusiasmou e decidiu sair do gol. Foi para a linha. Decerto queria fazer o gol da vitória deles. Aí nos tomamos de galhardia. Que era aquilo? Não íamos perder para aqueles pernas-de-pau cantadores de hinos.

Faltava um pouquinho para terminar, a sirene da cancha já ia apitar, e a bola pererecou no meio da quadra, o cara do CLJ veio que era um ônibus da Sopal lotado, mas eu cheguei antes, firmei o corpo no pé esquerdo e, com o bico do direito, levantei a bola. Ela subiu, macia, fez uma elipse, roçou no cabelo do cara do CLJ e, quando ele tentou travar, eu já estava do outro lado, completando o balãozinho, cheio de pose, rindo por dentro.

Na sequência, vi o Jorge correr da lateral para o meio. Meti. Ele apanhou dentro da área. Puxou para fora, que na época não valia gol dentro, e encobriu o goleiro: 4 a 3. Na comemoração, o Jorge, na maior faceirice, buscou a bola no fundo da rede e deu um chutão para cima. Só que na queda a bola acertou o coco do cara do CLJ. Para quê! Os igrejeiros invadiram a quadra, vieram para cima de nós. Nisso, a sirene tocou. O jogo acabara. Havíamos vencido, mas íamos apanhar, ah, íamos. As gurias começaram a gritar deixem eles, deixem eles! Os igrejeiros hesitaram. O que nos deu tempo para sair de fininho.

- Não vamos correr, senão eles vêm! – dizíamos uns para os outros, enquanto caminhávamos lado a lado, os cinco juntinhos de uniforme azul-escuro.

Mas a vontade de correr era grande. Os igrejeiros saíram atrás, caminhando ainda, gritando, jogando pedras. Elas explodiam ao nosso lado, atrás, na frente. Nós, apavorados, caminhando pelas ruazinhas da vila. De repente, o que aparece lá adiante, à nossa frente? A sétima cavalaria! Eram o Fio, o Zé Índio e o Ricardinho, três camaradas respeitados lá do IAPI, bons de briga, metidos a valentes, e nossos amigos.

A salvação! Os igrejeiros não iriam enfrentar aqueles três. Caminhamos em direção a eles sorrindo, aliviados. Sentimos que, atrás de nós, os declamadores de salmos vacilaram, diminuíram o passo, cessaram com os gritos e pedradas. Abrimos os braços para cumprimentar o Zé, o Ricardinho e o Fio. Então, notamos que eles estavam de cara feia, nos olhando atravessado. Pararam diante de nós, nos encararam, e perguntaram, irritados:

- Vocês é que andam espalhando que a gente é maconheiro?

Aquilo é que foi guerra. Sim, sim, aquilo é que foi guerra. Ah: logo depois, eu e a Alice voltamos a namorar.

O que mostrou o Beira-Rio

26 de setembro de 2010 33

O trepidante Inter versus Corinthians de agora há pouco no Beira-Rio deixou evidentes os méritos dos dois times.

O Corinthians demonstrou calma de campeão, mesmo nos momentos difíceis do jogo. É um time que não se assusta, que sabe o que quer. Se retomar a dianteira na tabela será difícil tirar-lhe o título.

De todos os seus bons jogadores, o que mais impressionou foi Jucilei. Aí está um volante arrumador de meio-campo, como Mauro Galvão era arrumador de defesa.

Há um lance emblemático de Jucilei, em meados do primeiro tempo. Ele e Giuliano vão disputar uma bola na intermediária. Giuliano está na frente. Pois Jucilei passa-lhe à frente, vence-o na velocidade, depois vence-o no corpo e, por fim, vence-o na técnica ao sair limpo com a bola, queixo erguido feito um Beckembauer, aquele de quem se dizia que não saber qual era a cor da grama por jogar sempre de cabeça levantada.

Já o Inter arrancou sua vitória porque, como os Estados Unidos na Segunda Guerra, tem recursos quase infinitos. Roth precisou mudar o jogo? Chamou do banco Alecsandro e Andrezinho. Pois os dois fizeram gols e o Inter buscou, aos 48 do segundo tempo, uma vitória de quem não está pensando só nos Emirados Árabes.

Ele perdeu seis quilos depois de traído

26 de setembro de 2010 1

Hoje, ele diz rir dos próprios chifres. No entanto, até se resignar da traição da mulher, após 10 anos de casamento, teve que encarar um longo e tortuoso caminho.

Escute aí a dramática saga de um ouvinte do PB:

Extra! Extra! Artigo caliente sobre as eleições na Venezuela

25 de setembro de 2010 5

A jornalista Yelitza Linares envia, direto de Caracas, um texto exclusivo para o blog contando uma interessantíssima particularidade das eleições venezuelas.

Aí vai:

“Os estranhos azares pré-eleitorais da Venezuela. 


Hoje, pela primeira vez em 11 anos, as eleições não são tema das primeiras páginas dos diários de Caracas, apesar de se estar a um dia da votação.
Sete mortes causadas pelas chuvas na capital venezuelana obscureceram os eventos do processo eleitoral.

Nos meses anteriores à dezena de eleições que tivemos desde 1998, a afluência às urnas invadiu os espaços dos jornais bem como os da vida quotidiana. Desta vez não aconteceu o mesmo. Escândalos sobre comida estragada no PDVAL, quedas de aviões, acidentes de trânsito e a precariedade dos serviços públicos se impuseram, com justa razão, sobre o ato de votar.

E aqui há algo engraçado e dramático ao mesmo tempo: os opositores do presidente atribuem esses eventos a Chávez por ele ter mandado exumar os restos mortais de Simon Bolívar.
Azares desse gênero vêm ocorrendo desde julho do ano passado, quando foram desenterrados os ossos do Libertador para uma investigação sobre sua morte.

Muitos dizem que Chávez pretendia usar os ossos numa cerimônia de bruxaria para se eternizar no poder. O certo é que depois que os restos de Bolívar foram desenterrados, estranhas intempéries e tragédias vêm ocorrendo na Venezuela.

As seguintes:

Logo após a exumação morreram quatro dirigentes do PSUV, um deles governador de Guárico. Outro foi o homem liderou o abaixo-assinado do ano 2.000 contra Chávez, lista usada para muitas demissões no governo. Além disso, morreu de causas naturais o diretor do jornal governista “Vea”. E, um dia depois que diretor da Telesur (promovido pelo governo) negou durante uma transmissão da CNN que há uma crise de segurança pública na Venezuela, foi assaltado um ônibus escolar lotado de crianças e uma bala perdida da base militar de Fort Tiuna feriu uma jogadora asiática que participava do Mundial de Beisebol.

Há duas semanas caiu um avião da Conviasa, matando 17 pessoas, e três barcos, tripulados por várias famílias de pescadores, se perderam no mar durante três dias. Tudo isto sem mencionar as falhas frequentes que vêm ocorrendo no serviço de Metrô de Caracas e as quedas de energia elétrica, principalmente no interior.
As falhas do sistema de energia inclusive obrigaram o Conselho
Nacional Eleitoral a reivindicar geradores para todos os postos eleitorais que vão funcionar nesse domingo, um aparelho que se converteu em artigo de primeira necessidade nos estabelecimentos comerciais das províncias.

A tudo isso, os que acreditam no azar acrescentam os 14 mortos vitimados pelas chuvas desta semana em Caracas.

É nesse contexto que ocorrem as eleições, num processo em que se prevê que o chavismo ganhará dois terços da Assembléia, muito graças aos azares que desviam as atenções da população.

Prefiro pensar que o azar nos aconteceu 11 anos atrás.”

Os melhores filmes de todos os tempos

25 de setembro de 2010 48

Ainda respondendo às perguntas dos leitores. Mais uma, do…

Leonardo Ribas:

“David, você é fã de listinhas. Já falou sobre os melhores do grêmio, do inter, do estado, do brasil, de livros, melhores camisas 10, enfim, é grande a tua lista de listas.
E de filmes, quais são seus melhores 20 filmes?”

 

RESPOSTA:

 

Leonardo, meu velho, tu me deste muito trabalho. Fiz uma tentativa honesta. puxei pela memória, comecei a elencar mais ou menos por categorias e deu o seguinte, veja só:

 

O Exorcista

O Iluminado

O Bebê de Rosemary

     O Sexto Sentido

Os Outros

Drácula de Bram Stoker

Frankenstein

O Poderoso Chefão

Era Uma Vez na América

 Forrest Gump

Trainspotting

Perdidos na Noite

Manhattan

As Vinhas da Ira

Os Bons Companheiros

O Banheiro do Papa

O Clube da Lua

Um Estranho no Ninho

Platoon

Tubarão

A Festa de Babette

A Marca da Pantera

Rain Man

Pulp Fiction

Amores Brutos

Cinema Paradiso

     O Exterminador do Futuro

Blade Runner

E.T.

Laranja Mecânica

Testemunha de Acusação

Veludo Azul

Golpe de Mestre

Os Intocáveis

Fargo

O Silêncio dos Inocentes

A Janela Indiscreta 

Cleópatra

300

Os 10 Mandamentos

Quo Vadis?

O Último Imperador

Pequeno Grande Homem

Todos os Homens do Presidente

Spartacus

O Nome da Rosa

A Queda 

Feitiço do Tempo

O Incrível Exército Brancaleone

O Jovem Frankenstein

A Primeira Noite de Um Homem

A Vida de Brian

Um Peixe Chamado Wanda

O Pecado Mora ao Lado

Se Meu Apartamento Falasse 

Doutor Jivago

E o Vento Levou…

Os Gritos do Silêncio

 

E agora? Alguém aí me ajuda a tirar 20 dessa lista, pelamordedeus!

 

Pergunta apropriada

24 de setembro de 2010 7

Continuo respondendo aos leitorinhos queridos.

Atendê-los-ei a todos, creiam.

Eis uma pergunta a calhar para o dia de hoje. A seguinte:

 Leonardo Wroblewski diz:

David, qual é o bar pra tomar uma na sexta feira?

 

RESPOSTA:

Sexta-feira é um grande dia e uma noite melhor ainda.

É quando as coisas acontecem.

Sexta-feira de começo de primavera, então, pode ser uma noite perfeita para quem está em busca de emoções, como já esteve um dia o Rei Roberto. O pólen está no ar, e você sabe muito bem o que o pólen faz com as pessoas, Leonardo.

(Além de causar alergia, é claro.)

O pólen excita.

As mulheres, que, você bem sabe, são como bichinhos, elas ficam mais propícias ao amor na primavera, e muito mais nas sextas-feiras de primavera.

Portanto, caro Leonardo, escolha um bar ameno, onde as pessoas estejam alegres, de preferência com mesinhas na rua habitadas por homens e mulheres, certo, porém mais mulheres, de pernas longas e luzidias cruzadas daquele jeito de serpente enroscada no tronco que só as mulheres conseguem cruzar.

Esse é o bar, Leonardo!

Esse é o bar!

Encontre-o. Eu estarei lá. 

O lado bom do chavismo

24 de setembro de 2010 1

Eis o terceiro artigo de Yelitza Linares, a jornalista venezuelana que tem nos contado a situação de seu país. Agora ela fala sobre um projeto bem-sucedido de Chavez, o chamado “Barrio Adentro”.


O filho de Jorge somará nove anos quinta-feira, mas soprará as velas sem o pai, que há quatro meses trabalha na Venezuela enquanto a família vive em Cuba.

Posso escutar o relato de sua existência partida em dois porque a conversa vaza sobre os cubículos do ultrassom da Sala de Rehabilitación Integral de Guaracarumbo, onde trabalha.

– Tenho outro filho de 17 anos – conta a uma paciente. – Crescem longe, mas estão bem, beeem – repete, arrastando as vogais na cadência do sotaque antilhano. – Aqui tenho outra família, a dos amigos – conclui.

Jorge é um dos oito cubanos que atendem neste serviço. Só uma servidora é venezuelana, o que costuma ocorrer.  Seus compatriotas seguem predominando os centros de atenção primária e intermediária da Misión Barrio Adentro, que o governo de Hugo Chávez instalou em 2003 nos bairros pobres e de classe média baixa. São 7,8 mil, segundo cifras do Ministério da Saúde.

Em que pese as críticas, reforçadas pelo próprio presidente, sobre a baixa eficiência da Misión, este é um dos programas que explica o majoritário respaldo popular de Chávez. Especialmente, este do Barrio Adentro II funciona aparentemente bem. Só no Estado de Vargas, há sete serviços de reabilitação. No de Guaracarumbo, oferecem assistência gratuita de hidroterapia, ultrassom, ginástica, massagem, camas magnéticas e até terapia em fonoaudiologia.

No local ao lado, opera um CDI, como se chamam os centros que também pertencem a esta rede, e que contam com modernos e caros equipamentos de diagnóstico.

Os pacientes, em média cem por dia, vêm da localidade de Urimare, região de classe média baixa do estado costeiro de Vargas, que, como a maioria das populações beneficiadas, carecia deste tipo de atenção.

Mulheres e homens, quase todos adultos da terceira idade, vão chegando ao centro em cadeiras de rodas, com muletas, apoiados em bengalas ou nas doloridas pernas; entregam o prontuário médico, cumprimentam e são correspondidos com carinho.

– Olá, meu amor. Tanto tempo. Chico, por que estavas sumido? – pergunta Maribel, coordenadora do centro, há quatro anos na Venezuela. Ernesto Medina recebe seu beijo na bochecha.

Apesar das dores pessoais, sorriem e brincam entre eles. Alguém traz doce para os “doutores”, como os chamam, ainda que a maioria não seja.

Jorge diz a seu paciente que é fisioterapeuta. Mas os colegas venezuelanos desconfiam disso.

– Em Cuba, não existe a carreira de Fisioterapia. Eles não estão preparados para aplicar estes tratamentos – afirma Jaime Noguera, professor universitário e ex-presidente da Federação Venezuelana de Fisioterapia.

Como prova, sugere uma visita aos sites da Confederação Mundial de Fisioterapia Física, na qual Cuba não está filiada, e não conta sequer com estudos nesta especialidade.

Assegura Nogueira que os cubanos das salas de reabilitação são professores de Educação Física ou licenciados em ciências desportivas. No serviço de Guaracarumbo, os pacientes não se preocupam com isto.

- Este médico me salvou de me amputarem outro dedo do pé – explica Ernesto, militar reformado da Marinha de Guerra que padece de diabetes e trata uma gangrena na perna esquerda.

Ali ninguém fala de política, salvo uma mulher que, enquanto espera para ser atendida, conversa por celular em voz alta sobre a “Ube” (Unidad de Batalla Electoral) que comanda para promover o voto a favor do chavismo.

E Luisa Elena, sentada mais adiante, confessa aos sussurros que votará no próximo domingo em candidatos a deputado pela oposição, mas que nem por isto deixa de reconhecer e aproveitar os benefícios do serviço.

– Chávez disse que isto é de todos, não?

É por esta razão que até a Mesa de la Unidad , que reúne os partidos contrários ao presidente, promete a continuidade dos programas sociais, com melhoras substanciais. Onze anos depois, o governo não logrou articular uma rede de saúde. Mas não cumpriu a promessa de substituir os cubanos por médicos venezuelanos. Em 2004, chegou a haver na Venezuela 14 mil profissionais deste país antilhano. Hoje, segundo o mais recente informe de gestão do governo, restam 8,5 mil, ainda que sigam ocupando a maioria dos cargos nestes serviços de reabilitação.

Especialistas afirmam que, neste tipo de serviço médico, a excessiva rotação de pessoal (feita para evitar que os cubanos se fixem nas comunidades) atenta contra a continuidade dos tratamentos.

Mas o grave é que no país estão se graduando 240 fisioterapeutas a cada ano, em quatro escolas, e a maioria está sem emprego.

– Você vai dizer – se pergunta Felipe, um dos pacientes na sala de Guaracarumbo – que este trabalho não pode ser feito por um venezuelano?