Ainda respondendo aos leitores, o
Gabriel
perguntou:
"Qual o jogo mais difícil da história do Huracán?"
RESPOSTA:
Não vou falar do jogo mais difícil do Huracán, Gabriel, mas de um dos mais pegados do nosso time de futebol de salão, num tempo quem que ainda se jogava com bola pesada e não se falava essa frescura de "futsal".
É um continho antigo, que publiquei no meu livro "A Catada Infalível e a Mulher do Centroavante", relançado há pouco pela L&PM.
Aí vai:
"Lá no IAPI, sim, é que foi guerra
Vou contar uma história de violência e medo. É. Violência e medo. E as vítimas fomos nós, do nosso time de futsal lá do IAPI. Foi um combate. Uma guerra. O inimigo militava em um setor da igreja, ainda por cima. Isso mesmo: um setor da santa igreja católica.
Tudo aconteceu por causa da Alice. Ela era a menina mais cobiçada do bairro, a Alice. Todos queriam namorá-la. Mas sabe quem a namorava? Sabe quem? O degas aqui. Um dia, porém, nos desentendemos e rompemos. Eu ainda gostava dela, tinha certeza de que ela ainda gostava de mim. Mas rompemos. Aquela coisa de orgulho e tal. Mesmo assim, eu sentia que voltaríamos a namorar, que o rompimento era passageiro. Até que ela me deu uma punhalada pelas costas: começou a namorar o cara do CLJ.
CLJ era uma associação de jovens da igreja, acho que existe ainda. Pois a Alice começou a freqüentar o CLJ, ir nos encontros em que eles tocavam violão, cantavam Eu tenho tanto/Pra te falar/Mas com palavras/Não sei dizer..., e lá estava o cara esse. Pois o cara tanto deu em cima da Alice que ela cedeu, a pérfida traidora.
Uma rivalidade surda se instaurou entre eu e o cara do CLJ. Conversávamos. Mas de dentes rilhados. Sorríamos um para o outro. Mas amarelo. Aí um dia, numa conversa pretensamente cordial, marcamos um jogo - o meu time contra o dele. Oficialmente, não era para ser nenhum tira-teima. Oficiosamente, claro que era.
O goleiro do meu time era o Diana. Gremistão. Aquele que, já contei, apostou que, se o Grêmio perdesse um Gre-Nal dos anos 70, comeria grama - comeu. Na frente havia o baixinho Ulisses. Jurava ter 1m60cm. Cascata. Devia ser 1m55cm, e olhe lá. Tinha umas manias estranhas, o Ulisses. De vez em quando, aparecia com uns adereços exóticos. Um chapéu de caubói, um enorme par de óculos espelhados que não tirava nem à noite. Uma vez encrespou os cabelos. A gota d'água foi um colar de conchinhas. Era demais. Não podíamos permitir que o nosso frente usasse colar de conchas. Acabamos com aquela frescura na hora.
Quem mais se revoltou com o colar foi o Amilton Cavalo, o ala esquerda. Pudera, Amilton era do Alegrete, gauderião, só faltava jogar pilchado. Dava um drible muito engraçado, uma acrobacia. Subia na bola, girava o corpo sobre ela, contornava o adversário e saía pelo lado. A gente chamava de drible alegretense. Só vi o Jésun, aquele ponta-esquerda do Grêmio, fazer algo parecido. Mas parecido, não igual.
Finalmente, na ala direita corria o Jorge Barnabé. Corria mesmo. O homem era uma bala, de ligeiro. Magricela, gozador, tinha o hábito de atrair confusão. Sempre havia alguém querendo brigar com o Jorge, mesmo que ele nunca quisesse brigar com ninguém. Naquele jogo, não foi diferente.
O nosso time era muito melhor que o da igreja. Começamos a partida tocando a bola, cadenciando o jogo. Na catega, gritávamos um para o outro. Na catega. A Alice e duas amigas dela, a Josie e a Lisi, estava na torcida. Eu me exibia. Tocava de trivela. Matava no peito. O meu rival era o goleiro deles. Na catega, na catega, 1 a 0 para nós, gol do Ulisses.
Mais uns minutinhos, o Jorge voou pela direita, centrou rasteiro e o Cavalo mandou um canhotaço. O cara do CLJ nem viu onde ela entrou. Em seguida, peguei a bola no meio, fiz que ia para lá, para cá, para lá de novo, me enfiei entre dois igrejeiros e, na saída do cara do CLJ do gol, encostei para o Ulisses: 3 a 0. As gurias mudas, na lateral. Que beleza.
Foi então que o pessoal da igreja começou a chegar. Vinham aos magotes, em cardumes, alguém os chamara. Cercaram a quadra de cimento e areia da Amovi, a associação de moradores da vila. Eram da igreja, sim, mas de comportamento nada cristão. Quando a gente ia cobrar lateral, eles, atrás, rosnavam:
- Vocês vão apanhar! Vamos quebrar a cara de vocês!
Em pouco tempo, havia uns 40 sujeitos do CLJ nos pressionando, armados de sarrafos, pedaços de pau, pedras, barras de ferro. A intimidação surtiu efeito. Levamos um gol, dois, três. Eles iam virar o jogo. O cara do CLJ se entusiasmou e decidiu sair do gol. Foi para a linha. Decerto queria fazer o gol da vitória deles. Aí nos tomamos de galhardia. Que era aquilo? Não íamos perder para aqueles pernas-de-pau cantadores de hinos.
Faltava um pouquinho para terminar, a sirene da cancha já ia apitar, e a bola pererecou no meio da quadra, o cara do CLJ veio que era um ônibus da Sopal lotado, mas eu cheguei antes, firmei o corpo no pé esquerdo e, com o bico do direito, levantei a bola. Ela subiu, macia, fez uma elipse, roçou no cabelo do cara do CLJ e, quando ele tentou travar, eu já estava do outro lado, completando o balãozinho, cheio de pose, rindo por dentro.
Na sequência, vi o Jorge correr da lateral para o meio. Meti. Ele apanhou dentro da área. Puxou para fora, que na época não valia gol dentro, e encobriu o goleiro: 4 a 3. Na comemoração, o Jorge, na maior faceirice, buscou a bola no fundo da rede e deu um chutão para cima. Só que na queda a bola acertou o coco do cara do CLJ. Para quê! Os igrejeiros invadiram a quadra, vieram para cima de nós. Nisso, a sirene tocou. O jogo acabara. Havíamos vencido, mas íamos apanhar, ah, íamos. As gurias começaram a gritar deixem eles, deixem eles! Os igrejeiros hesitaram. O que nos deu tempo para sair de fininho.
- Não vamos correr, senão eles vêm! - dizíamos uns para os outros, enquanto caminhávamos lado a lado, os cinco juntinhos de uniforme azul-escuro.
Mas a vontade de correr era grande. Os igrejeiros saíram atrás, caminhando ainda, gritando, jogando pedras. Elas explodiam ao nosso lado, atrás, na frente. Nós, apavorados, caminhando pelas ruazinhas da vila. De repente, o que aparece lá adiante, à nossa frente? A sétima cavalaria! Eram o Fio, o Zé Índio e o Ricardinho, três camaradas respeitados lá do IAPI, bons de briga, metidos a valentes, e nossos amigos.
A salvação! Os igrejeiros não iriam enfrentar aqueles três. Caminhamos em direção a eles sorrindo, aliviados. Sentimos que, atrás de nós, os declamadores de salmos vacilaram, diminuíram o passo, cessaram com os gritos e pedradas. Abrimos os braços para cumprimentar o Zé, o Ricardinho e o Fio. Então, notamos que eles estavam de cara feia, nos olhando atravessado. Pararam diante de nós, nos encararam, e perguntaram, irritados:
- Vocês é que andam espalhando que a gente é maconheiro?
Aquilo é que foi guerra. Sim, sim, aquilo é que foi guerra. Ah: logo depois, eu e a Alice voltamos a namorar.
Comentários