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Posts de setembro 2010

Meguinha

15 de setembro de 2010 2

Tenho visto muito esse comercial.

Adoro ver comerciais.

O que há de melhor no Grêmio

15 de setembro de 2010 56

A propósito destes 107 anos que o Grêmio completa hoje, eu poderia escrever a respeito do tanto que houve no clube de maior e de melhor. Poderia me ocupar dos maiores títulos, as duas Libertadores e o Mundial Interclubes.

Ou quem sabe da maior façanha, sem dúvida a Batalha dos Aflitos, um jogo único na história do futebol mundial.

Também seria simples elencar os maiores jogadores: Ronaldinho, Renato, Aírton Ferreira da Silva, Gessy, Eurico Lara.

Ou os maiores dirigentes: Saturnino Vanzelotti, Luiz Carvalho, Hélio Dourado, Fábio Koff, Paulo Odone.

Mas não vou destacar nada disso. Meu destaque dos 107 anos da história do Grêmio não é uma ironia, nem uma provocação.

É uma convicção.

Vou destacar o maior adversário do Grêmio.

O Inter.

Por mais que gremistas e colorados digam se odiar, na verdade eles se respeitam. E se temem. Não existe nada mais importante na história do Grêmio do que o Inter, não existe nada mais importante na história do Inter do que o Grêmio.

Por um motivo tão singelo quanto definitivo.

Porque você pode medir a estatura de um homem pelo tamanho do seu inimigo.

Eu e Lula concordamos

14 de setembro de 2010 195

Na noite desta segunda, em comício em Joinville, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que é preciso "extirpar o DEM da política brasileira". Em texto do fim do ano passado, também critiquei o DEM.

Assim:

-
Você sabe o que significa a sigla do partido esse, o DEM? Democratas. Vou lembrar-lhe agora qual é a origem desse DEM, e você vai achar que o nome do partido é ironia. Não é. É pior.

É deboche.

Porque o DEM é sucedâneo de nada menos do que o PFL, que por sua vez é sucedâneo de nada menos do que a Arena, que era nada menos do que o partido de sustentação da ditadura militar.

Sei que muitos sentem saudade dos tempos da ditadura militar. Não os julgo, cada um com suas convicções e preferências. Mesmo estes, porém, haverão de admitir que a ditadura é o oposto da democracia. Não por razões ideológicas; por razões conceituais. Desde que os ingleses estabeleceram a monarquia constitucional, no século 17, pode-se ter democracia até havendo um rei. Havendo um ditador, não. Logo, quem defende a ditadura é contra a democracia.

O PFL defendia a ditadura.

E agora o PFL se chama “Democratas”.

Um nome desses para um partido desses só pode ser caso de escárnio cruel. Eles são os “Democratas”… Por favor!

Alguém talvez pergunte os motivos que levaram o PFL a trocar de nome. Afinal, trata-se de uma mudança incomum. Quando o Brizola voltou ao Brasil, em 1979, ele queria desesperadamente retomar o comando de seu velho partido, o PTB.
Seria uma união perigosa para os interesses da ditadura — Brizola tinha prestígio como líder político e o PTB tinha prestígio como defensor dos interesses dos trabalhadores. O governo precisava apartar um de outro, e trabalhou intensamente para que isso acontecesse. Conseguiu. A sigla ficou com a sobrinha-neta de Getúlio Vargas, Ivete Vargas. Brizola chorou quando a Justiça lhe subtraiu os direitos sobre sua antiga legenda. E a ditadura atingiu seu objetivo: nem o PTB de Ivete nem o PDT de Brizola recuperaram o patrimônio trabalhista do PTB de Getúlio e Jango. A herança do velho PTB, de certa forma, foi arrebatada depois pelo PT, mas essa é outra história.

O importante é que o antigo PTB tinha um nome a zelar. Era uma sigla poderosa.

O antigo MDB também se orgulhava de seu nome, tanto que o senador Pedro Simon não chama seu partido de PMDB, chama de MDB. Está certo, o Simon: esse MDB com pê na frente assemelha-se muito ao PFL no quesito fisiologismo — o PFL fazia qualquer negócio para se acochambrar com o poder. Só que o PMDB não sustentava a ditadura. O PFL, sim. Por isso, o PFL teve que trocar de nome — até as pessoas menos esclarecidas já intuíam o que o partido representava.

E agora o PFL se chama “Democratas”…

É por isso que exultei ao assistir aos vídeos daqueles caras do DEM-PFL-Arena recebendo pacotes de dinheiro escuso, não tendo bolsos em número suficiente para meter tanto dinheiro em seus ternos bem cortados, sendo obrigados a enfiar maços de notas de 50 nos carpins. Foi bonito aquilo, porque mostrou a verdadeira cara do DEM.

Que é o PFL.

Que era o pior pedaço da Arena.

É possível que existam homens dignos no DEM. Não devia. Democratas não consentem em conviver com tamanha contradição. Democratas não defendem a ditadura.

Quando a mulher tem de ser feia

14 de setembro de 2010 26

Imagine você pedir para uma mulher enfear.

- Embagulhe, querida.

Foi o que fez aquele psicólogo chileno, dias atrás. Pediu para as mulheres dos mineiros que estão confinados 700 metros abaixo da superfície para que fiquem feias quando forem falar com eles por vídeo.

Sábio conselho.

Porque, se um homem não pode ter a mulher que quer, pelo menos que ela embagulhe, que engorde 12 quilos, que escronche!

Nada pior do que você se separar da sua mulher e reencontrá-la depois de algum tempo linda, cheirosa, magra e de minissaia.

Aconteceu com um amigo meu.

Ele havia se separado e estávamos todos, eu, ele e mais uns três ou quatro amigos, sentados à mesa do bar, os copos de chopes cremosos suando, os bolinhos de bacalhau fumegando. Ele, o separado, ele ria e contava casos, ele olhava para as pernas de louça das moças que passavam e suspirava:

- Ah, a vida...

Até que um outro amigo chegou, egresso do bar ao lado. Nem puxou a cadeira e contou:

- Cara, a tua mulher está ali no outro bar. Ela está sentada com dois homens e está sem óculos.

Meu amigo se ouriçou:

- Sem óculos???

- Sem óculos.

- Vou lá!

Tentamos contê-lo. Não vai, deixa a mulher em paz, ex é ex... Em vão. Ele se levantou e foi. Demorou uns cinco minutos, mas pareciam ter passado 10 anos. Voltou alquebrado, cansado, encurvado. Sentou-se em silêncio e só depois de algum tempo é que contou:

- Ela está magra, de minissaia... e sem óculos.

Repetiu:

- Sem óculos...

E passou o resto da noite alheio às nossas conversas, só balbuciando:

- Sem óculos...

Aquilo significava algo para ele. A falta dos óculos. Talvez uma derrota: na gestão dele, com óculos; depois dele, sem óculos. O fato é que ela havia esperado a separação para tirar os óculos. Uma traição, sem dúvida.

Por isso está certo o psicólogo. Uma mulher bonita e intocável é cruel. Um mulher bonita e intocável só faz o homem sofrer.

Inter erra ao não arriscar

13 de setembro de 2010 8

Longe dos líderes e já garantido na Libertadores de 2011, o Inter deveria ousar mais nas alternativas em campo.

Confira aí o meu comentário no Bate-Bola:

Bate-Bola (12/09)

13 de setembro de 2010 5

Pessoal, segue a íntegra do Bate-Bola, deste domingo. Além dos comentários da rodada, Ilan, do Inter, e Vilson, do Grêmio, marcaram presença no programa.

Ó:

Jô na Estrada

13 de setembro de 2010 6

Agora, na próxima Feira, eu e o Fraga vamos lançar um livro com as histórias de Jô, lembram de Jô?

Pois é.

Reuni os folhetins, modifiquei um pouco as tramas, sobretudo o final, e transformei em uma novela.

Mas será um livro diferente, com duas linguagens. Eu começo contando, o Fraga segue nos quadrinhos, eu retomo, passo para o Fraga, que devolve para mim, e assim por diante.

Vou adiantar uma cena que o Fraga reproduziu, de Jô em estado natural.

Vejam aí.

Não é uma graça?

Novo Grêmio

12 de setembro de 2010 47

O grupo de oposição que venceu as eleições do Conselho já está trabalhando para mudar o Grêmio em 2011.

Haverá novidades no time, é claro, mas também nas finanças.

Confirmada a eleição de Paulo Odone em outubro, um poderoso investidor firmará contrato com o clube.

Será um negócio de vulto, que alçará o orçamento do Grêmio aos píncaros.

Coisa de R$ 50 milhões.

Em breve, mais detalhes

Rio Grande, antes de as árvores crescerem

11 de setembro de 2010 4

Lembram-se da foto antiga da zona norte da Capital? Pois é, convidei os leitorinhos a mandar suas fotos, e o Marcio Menna estrela esse post:

-
"Fala, David! Tudo certo? De Porto Alegre não tenho fotos, mas aí vão imagens da mais antiga das cidades de todos os gaúchos. Abaixo, a praça Xavier Ferreira, que fica em frente à prefeitura de Rio Grande. Hoje as árvores cresceram, e (quase) nada mais disso se vê do alto.

Um forte abraço. Tu, que gostas tanto de história, devias falar mais de Rio Grande nas tuas crônicas".

-
Dado o recado, Marcio. Curtam as fotos e mandem as suas clicando aqui.

Mais matemática salvadora

11 de setembro de 2010 17

Eu, por exemplo, eu sempre jogo os mesmos números na Mega Sena. Sempre, sempre. Tenho certeza de que vou ganhar o sorteio um dia e, mais!, vou ganhar sozinho.

Mas como sou generoso vou partilhar o prêmio com você.

Melhor: vou partilhar os meus números com você! Revelá-los-ei neste mesmíssimo texto, linhas abaixo.

Números infalíveis.

Que um dia me consagrarão.

E, agora, nos consagrarão.

Atenção...

Atençããão...

Aí vão os números! Os seguintes:

01

02

03

04

05

06

Você aí deve estar dizendo: "Que estultice, esses números nunca saíram!"

E é precisamente por isso que os jogo. Se eles nunca saíram, a tendência é que saiam um dia. Os leitorinhos matemáticos podem argumentar que "não necessariamente", ao que eu rebateria que "necessariamente, não; mas provavelmente, sim". Um, dois, três, quatro, cinco e seis é uma combinação de números tão boa quanto qualquer outra, certo?

CERTO!

Então um dia eles serão sorteados e nós, eu e você, amigão, ficaremos ricos!

Precisamos apenas ter perseverança. Insistir no jogo. E também um pouco de paciência. Porque saem 52 combinações por ano na Mega Sena, certo?

CERTO!

Quantas combinações podem sair na Mega Sena?

Pouco mais de 50 milhões.

Quer dizer: se jogarmos todas as semanas, todos os meses e todos os anos, faremos 520 jogos em 10 anos, 5.200 em 100 anos, 52.000 em 1.000 anos, 520.000 em 10 mil anos, 5.200.000 em 100 mil anos e, finalmente, 52 milhões de jogos em um milhão de anos!!!

Se nenhum número se repetir, o que, convenhamos, não acontece amiúde, o nosso reluzente umdoistrêsquatrocincoseis sairá! E nós ficaremos ricos.

Bem, para o caso de não vivermos um milhão de anos, vamos orientar nossos filhos a jogar o 123456, e que eles orientem seus filhos, que orientarão os filhos de seus filhos e assim sucessivamente, até que nós acertemos nessa FRISKLOMBREGTRORBEMGLITZ#@¨@%!!!!! da Mega Sena.

Combinados?

Colunas do jornal

11 de setembro de 2010 10

Pessoal, as colunas que escrevo para o jornal agora são exclusivas do jornal. Não apenas as minhas, as de todos os demais colunistas também.

Em compensação, o que escrevo no blog é só para o blog.

E garanto que vou escrever muito mais a partir de agora.

Podem cobrar.

-
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Porque o Grêmio pode vencer o Corinthians

10 de setembro de 2010 78

Fato número 1:

O Corinthians jogou 10 partidas em casa neste Campeonato Brasileiro e venceu as 10.

Fato número 2:

O Grêmio jogou 10 partidas fora de casa neste Campeonato Brasileiro e não venceu nenhuma.

Fato número 3:

Um dia o Corinthians vai perder uma partida em casa.

Fato número 4:

Um dia o Grêmio vai ganhar uma partida fora de casa.

Ora, pela Lei das Probabilidades é óbvio que quanto mais partidas o Corinthians ganha em casa, mais próximo está de ser derrotado; assim como quanto mais o Grêmio deixa de ganhar fora mais próximo fica de vencer a primeira.

Logo, pela Lei das Probabilidades, o Grêmio tem boa chance de derrotar o Corinthians neste sábado.

Pela Lei das Probabilidades. Pela matemática.

Pelo futebol, bom, aí é outra coisa.

O bom uso do tomate

10 de setembro de 2010 15

Não consigo imaginar a vida sem tomate. Não pelo tomate em si, mas por seus nobres derivados, os molhos vermelhos, densos, olorosos, que dão alma e sabor às massas.

Ainda hoje há quem se valha do tomate tão somente como o fruto que é. Tomam-no com as mãos nuas e desferem-lhe dentadas vulgares tais quais desfeririam numa... maçã.

Bárbaros.

Coreanos fazem assim. Tomate, os coreanos não o põem nem nas saladas. Não passa de uma reles fruta que se consome crua, sem adereços ou solenidade. Bárbaros, bárbaros.

Inexplicavelmente, a Humanidade sobreviveu milênios sem usufruir de tudo o que o tomate pode propiciar.

>>> Quer continuar lendo a saga do tomate? Clique aqui para conferir a minha coluna completa desta sexta-feira

Velha Zona Norte

10 de setembro de 2010 5

Vejam só essa foto da Assis Brasil há muito, muito, muuuuito tempo, idos de 1959.

(Foto: acervo Henrique Boldrini)

Ao fundo, no horizonte, vê-se a Igreja Cristo Redentor. A primeira transversal é a Rua Itapeva. O canteirão do centro transformou-se em corredor de ônibus. E os carros, onde estariam rodando os carros? No futuro conflagrado.

>>> Você tem uma foto antiga da cidade? Deseja publicá-la no blog? Clique aqui e mande sua imagem.

A cidade amaldiçoada e os quatro rios do Paraíso

09 de setembro de 2010 18

A HISTÓRIA DO MUNDO E O SENTIDO DA VIDA - 6º CAPÍTULO

Os velhos egípcios orgulhavam-se de ser velhos.
O grego Heródoto, que enfiou o nariz curioso nas margens do Nilo há 25 séculos, contou que eles se jactavam de ser o povo mais antigo da Terra. É assim a alma dos povos, cada qual com suas vaidades e suas bazófias, os cariocas e suas praias ensolaradas, os russos e sua literatura sombria, os franceses e sua gastronomia sutil, os alemães e sua filosofia profunda, os austríacos e sua música requintada, os gaúchos e... seu pôr-do-sol.


Pois os egípcios acreditavam ser os pioneiros da Civilização. No reinado do faraó Psamético, nos anos 600 antes da nossa era, essa crença era sólida como as paredes das pirâmides. Até que surgiram uns frígios irritantes afirmando que a Frigia, sim, era muito mais antiga. Discute daqui, discute de lá, Psamético decidiu descobrir quem tinha razão através de prova provada. Tomou duas crianças recém-nascidas, de famílias pobres, e as entregou a um pastor com as seguintes instruções: os nenês deveriam ser criados longe de quaisquer outros seres humanos e o pastor jamais, eu disse JAMAIS!, deveria falar uma única palavra diante deles.

O faraó pretendia, desta forma, estabelecer qual seria a primeira palavra que as crianças falariam, assim que deixassem de emitir sons inarticulados. Para garantir a lisura do experimento, Psamético mandou que seus soldados arrancassem as línguas das mulheres que viviam com o pastor, convencido de que a natureza feminina não suportaria permanecer muito tempo em silêncio, no que, aliás, estava tapado de razão. Ter a língua amputada é chato, mas suponho que as mulheres devem ter entendido as necessidades da ciência.

Bem.

Passados dois anos, o pastor notou que, quando abria a porta e entrava na cabana onde estavam alojados os nenês, eles estendiam as mãos e punham-se a gritar:

- Becos! Becos!

A princípio ele não deu muita importância ao fato, mas como as crianças não paravam de repetir becos, becos, beeecos, o pastor procurou o rei e contou-lhe o caso. Psamético chamou os seus sábios, que os reis sempre tinham sábios a assessorá-los, e perguntou-lhes em qual língua existia a palavra "becos" e o que significava. Depois de uma afanosa pesquisa naqueles tempos sem Google, os sábios o informaram que, na língua frigia, becos quer dizer "pão".

Gol dos frígios.

O faraó, e todos os demais egípcios, frustrados, admitiram que a Frigia era mais antiga.

Só que tem o seguinte:

Não é.

A experiência de Psamético, narrada por Heródoto, não foi muito diferente daquelas pesquisas que os ingleses patrocinam hoje em dia. Os ingleses fazem assim: reúnem 100 mulheres casadas que pintaram o cabelo e outras 100 que não pintaram. Apresentam-lhes um questionário perguntando, basicamente, se traíram ou pensam em trair os respectivos maridos. Ora, todo mundo sabe que uma mulher, quando pinta o cabelo, está tendo ideias.

A cabeça da mulher muda de fora para dentro, isso é fato.
Logo, as 100 que pintaram os cabelos responderão, todas elas, eu disse TODAS, que traíram ou traem ou talvez traiam seus cônjuges. "A minha vida está tão igual", miarão. "Preciso fazer algo novo...". O "novo", esse, é o vil adultério.

Já as outras, as não-pintadas, dirão que não, que ainda não cogitam de trair os maridos.

Conclusão dos cientistas ingleses: tintura de cabelo causa infidelidade.

O "becos" das criancinhas do rei talvez até significasse "pão" para elas, mas não em frígio e sim na língua dos nenês. O meu filhinho, por exemplo, só falava Abu quando tinha um aninho ou menos. Isso significa que ele é filho de árabe???

Hmm, vou verificar se a mãe dele pintou o cabelo.

Enfim. O fato é que os frígios não são o povo mais antigo da Terra. É verdade que até detêm algumas prerrogativas. Foram eles os primeiros adoradores de Cibele, a deusa-mãe que rivalizou com o cristianismo durante pelo menos 300 anos. O imperador romano Juliano, chamado "o apóstata", era um ilustre devoto de Cibele. Gore Vidal escreveu um bom romance sobre ele. O título é, exatamente, "Juliano". Vale a pena ler.

Mesmo assim, repito, não é dos frígios a primazia da antiguidade das civilizações.

O homem foi domesticado pela mulher, em primeiríssimo lugar, provavelmente na Mesopotâmia.

Você sabe, a palavra mesopotâmia vem do grego e é muito fácil de lembrar o que significa. Pense na pizza mezzo calabresa, mezzo portuguesa. O que quer dizer mezzo? Meio. Pense agora no Rio Tamisa, que rasga elegantemente a cidade de Londres. Pois tamis é o mesmo que "rio", o que equivale a dizer que "Rio Tamisa" é "Rio Rio".

Bom, então o que significa mesopotâmia?
"No meio de rios", ou "entre rios". Uma terra entre rios, mais ou menos localizada onde hoje se situa o moderno Iraque, se é que o Iraque hoje pode ser chamado de moderno.

Os rios em questão são o Tigre e o Eufrates. A Bíblia informa que havia quatro rios no Paraíso perdido de Adão e Eva: o Tigre e o Eufrates, que ficam bem próximos um do outro, mais o Ganges, na Índia, e o Nilo, no Norte da África.

O Paraíso era enorme, portanto.

Agora é preciso tecer algumas observações a respeito desse capítulo bíblico, o Gênesis, que se arroga ser o contador da história da formação do mundo.

Segundo a tradição judaica, Deus criou a Terra circa quatro mil anos antes de Cristo. Trata-se de uma parábola, naturalmente. Afinal, os cientistas já descobriram que o Big Bang ocorreu há mais ou menos 13,7 bilhões de anos e que o Planeta Terra se formou há 4,6 bilhões de anos.

Durante os primeiros 500 milhões de anos, a Terra era uma bola de fogo e lava derretida. Não havia água, o extremo calor impedia que o vapor se condensasse. As nuvens negras mantinham-se no alto da atmosfera. Mas a Terra, bem como todo o universo, foi se resfriando, e continua se resfriando, e continuará - o universo está ternamente em expansão e esfriamento, lembre-se. Quando ficou frio o suficiente para que a lava endurecesse, formou-se a superfície em que a Scarlet Johansson pisa com o pezinho macio dela. Os cientistas conseguiram descobrir na Groenlândia rochas de 3,8 bilhões de anos de idade. São as mais antigas do planeta. Nessa época, violentas tempestades elétricas desabaram sobre a Terra, as nuvens de vapor começaram a se liquefazer e, durante milhões de anos, choveu.

E choveu.

E choveu.

Os cientistas acreditam que a sopa química dos oceanos primevos, ao ser atingida pelos raios, de alguma maneira causou uma reação que originou as primeiras bactérias. As primeiras formas de vida. Existem fósseis de bactérias de 3,5 bilhões de anos, imagine que bactéria bem velha.

Então, tudo começou.

Só que muito lentamente. Passaram-se bilhões de anos até que os animais fossem formados. O bicho número 1 a sair do mar e habitar o solo, acreditam os cientistas, foi o humilde... tatuzinho. Observe um meio enterrado na areia da praia, da próxima vez que você for a Pinhal: ele é seu tataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataravô. Ou ao menos foi, há uns 460 milhões de anos.

Como esses animais marinhos se reproduziam? Aí é que está. Você já viu peixes transando? Uma noite de loucuras e prazeres inenarráveis entre peixes acontece assim: a peixa louca de desejo deposita os ovos em algum lugar e os peixos garanhões vão lá e espalham esperma em cima. E terminou a farra. Consummatum est. Hora do repouso do guerreiro.

Se dependêssemos dos peixes, até hoje estaríamos fazendo sexo desse jeito. Nada divertido.

Mas um dia os répteis evoluíram e passaram a depositar os espermatozóides DENTRO das fêmeas, e não fora, a fim de fertilizar os óvulos. Ou seja: os répteis são responsáveis pelo sexo como nós o conhecemos e, por consequência, pela psicanálise, pela minissaia e pelas calcinhas de renda, por quase toda música e literatura, pela escova progressiva, pelo bronzeamento artificial, pelas calças legging e por muitas das minhas noites de dor.

Mas ainda que a Bíblia não faça referência a essas verdades comprovadas pela ciência, ela não está de todo errada. Ao contrário: as lendas do Gênesis dão indícios até bem precisos de como se formou não o ser humano, Adão e Eva, blábláblá, mas como se formou a Civilização. Inclusive geograficamente - aquilo dos quatro rios do Paraíso, por exemplo. Ocorre que as primeiras cidades surgiram exatamente naquela região. Foi em vales fluviais da Índia, do Norte da África e do Oriente Médio que os homens se estabeleceram originalmente e fundaram as primeiras cidades.

Eis aí outro ponto essencial dessa história:
a Civilização existe não com exclusividade na cidade, mas, no mínimo, em torno da cidade e por causa dela. "Civilização", a palavra, vem do latim, "civitas", que significa... "cidade".

O que não quer dizer que a Civilização seja algo intrinsecamente positivo. O modo de vida oposto à Civilização é o caçador e coletor. Noventa e oito por cento da existência humana sobre a Terra foi caçadora e coletora. Ainda hoje há povos que são caçadores e coletores. A mudança ocorreu, como já disse, por causa da mulher. A mulher é a rainha da Civilização. Agora, isso é bom? Tenho dúvidas...

O Gênesis não as tem. Para o Gênesis, a Civilização não é algo positivo. E esse é outro dos indícios que a Bíblia oferece a respeito da formação desta mesma Civilização. Porque Adão e Eva, quando viviam no Paraíso, eram caçadores e coletores. Sobreviviam colhendo os frutos das árvores, menos o da macieira, e se servindo dos animais. Não usavam roupas, não sentiam vergonha. Ou seja: ninguém era de ninguém! O Paraíso era, bem, um paraíso.

Então Eva, a mulher original representando todas as mulheres originais, convenceu Adão, o homem original representando todos os homens originais, a provar o fruto proibido. O que significa essa imagem? Que a mulher convenceu o homem a deixar de ser caçador e coletor e passar para a agricultura e a criação de animais.

Deus não aprovou. A agricultura não é um modo de vida natural. Fere a terra, cansa-a e finalmente a exaure. Por tal crime, o Senhor decidiu punir homens e mulheres. Qual foi a pena? Amaldiçoou-os a ganhar a vida com o trabalho. Isto é, com a agricultura e o pastoreio.

Era o dramático fim da vida caçadora e coletora.

Os filhos de Adão e Eva, coitados, eram exatamente isso: Abel, um pastor; Caim, um agricultor. Deus gostava ainda menos dos agricultores - como já disse, a agricultura agride a terra. Assim, Deus preferia Abel. O que terminou sendo a causa do primeiro homicídio, do anátema lançado sobre Caim e da sua fuga pelo mundo. E o que Caim fazia pela Terra afora? Fundava cidades. Construía a Civilização que a sua mãe tanto quis. Todos nós descendemos de Caim.

Uma palavrinha acerca da fundação de cidades. Isso ocorreu de preferência na proximidade dos rios. É à margem deles que os homens, de praxe, se estabelecem e vivem. Porque não há nada de que o ser humano necessite mais do que água. Três quartas partes do corpo do homem (e do sinuoso e macio corpo da mulher também) são compostos por água. A mesma proporção tem a composição do planeta. Não é que a água seja o bem mais precioso da Terra; a água talvez seja o único bem INDISPENSÁVEL da Terra. Pense nisso quando estiver lavando o carro.

Mas, como ia dizendo, o fato é que a Mesopotâmia é reconhecida também pelos hebreus do Pentateuco como um dos sítios originais da Humanidade civilizada. Há indícios velhos de 12 mil anos de sociedades formadas na faixa de terra entre o Tigre e o Eufrates.

Warka é mencionada no Gênesis como Ereque, cidade fundada por Nemrod, filho de Cus, que por sua vez era filho de Cam, que era um dos três filhos de Noé. Esse bisneto de Noé, Nemrod, foi, segundo a Bíblia, "o primeiro homem poderoso da Terra". Warka, a cidade fundada por ele, é chamada de "A Mãe das Cidades".

Mas houve outras antes dela. Alguns cientistas dizem que Eridu é ainda mais antiga.

Agora, a cidade ainda viva, que seguiu habitada milênio após milênio, é Jericó, na Palestina. Os cientistas não chegaram a um acordo sobre o primeiro povo que a ergueu do chão. Durante 11 mil anos, as raças mais diversas se sucederam naquele lugar, vencendo até uma maldição bíblica.

Essa história aconteceu assim, dois pontos:

Mais ou menos entre 1.300 a 1.200 anos antes de Cristo, Josué chegou às cercanias de Jericó com os hebreus que haviam fugido do Egito, atravessado o Mar Vermelho a pé e vagado 40 anos no deserto, tudo aquilo que você já sabe por ter assistido a "Os 10 Mandamentos", com Charlton Heston no papel de Moisés, na Sessão da Tarde.

Em hebraico, Josué significa "Deus é salvação".
Talvez tenha sido. Mas para os hebreus, não para os cananeus que viviam na chamada "Terra de Leite e Mel".

Josué foi o sucessor de Moisés. Era um líder militar competente, pelo que se pode deduzir. Enviou espiões às cidades cananéias a fim de levantar dados para a campanha de invasão que pretendia liderar. Entre outras informações, os emissários apuraram que Jericó era guarnecida por duas muralhas: a externa com dois metros de espessura e a interna com três metros e meio.

Uma fortaleza inexpugnável.

Seria impossível de derrotá-la, se Ele, o próprio Senhor, não tomasse partido. Um anjo com a espada desembainhada na mão apresentou-se a Josué como "chefe do exército de Iahweh", que é um emprego muito bom. O anjo garantiu que Josué teria ajuda e passou a orientá-lo.

As instruções que vinham do Alto foram as seguintes: todas as manhãs, os hebreus deveriam dar uma volta em silêncio em torno da cidade, com sete sacerdotes a frente deles e da Arca da Aliança. Esses sete padres estariam soprando sete trombetas de chifre de carneiro. Fariam isso durante seis dias. No sétimo, aumentariam a marcha silente para sete voltas. Ao cabo da última volta, as trombetas fariam um toque longo e, a um sinal de Josué, todos os israelitas gritariam a plenos pulmões.

Os hebreus obedeceram direitinho e, depois de berrarem selvagemente, AAAAAAAAHHHHHHH!!!, as muralhas, apavoradas, desabaram por terra.

Os hebreus invadiram a cidade e, seguindo as ordens de Jeová, "passaram a fio de espada tudo o que nela vivia, homens, mulheres, velhos e crianças, e até mesmo bois, ovelhas e jumentos". Como se vê, Deus, por algum motivo, não gostava do pessoal de Jericó. Os únicos sobreviventes foram uma prostituta chamada Raab e sua família, que esconderam em sua casa os espiões de Josué. Finalmente, os soldados pilharam e incendiaram a cidade e puseram todos os prédios abaixo. Como arremate, Josué lançou-lhe um anátema:

"Maldito seja diante do Senhor quem tentar reconstruir a cidade de Jericó! Será ao preço do seu primogênito que lhe lançará os primeiros fundamentos, e será à custa do último dos seus filhos que lhe porá as portas!"

Terrível ameaça. Mas, ainda assim, Jericó foi reconstruída. Sucessivamente os homens lhe lançaram fundamentos e lhe puseram portas. E continua de pé, como um testemunho de milênios de barbárie do homem civilizado.

Há mais a contar sobre as velhas cidades do Oriente Próximo e também, é claro, dos grandes egípcios, acerca dos quais tanto prometi contar e tão pouco cumpri. Mas vamos deixar para o próximo capítulo de A História do Mundo, que, prometo, virá mais cedo do que se espera.

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