Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Bastidores da imprensa na Copa - parte 1

13 de novembro de 2010 6

Até terça-feira, acompanhe a série sobre os bastidores da imprensa na Copa do Mundo

A seguir, o capítulo 1:


Eu tinha uma vizinha que dançava nua.

Lembro de contar essa história para a turma na Copa de 2006. Turma, que digo, são os jornalistas que cobrem a Seleção Brasileira. São sempre mais ou menos os mesmos, então ficamos amigos. Viramos turma. Na Copa de 2010 é que a coisa foi um pouco diferente. Houve poucas oportunidades para ouvir ou narrar histórias como aquela que havia contado na Copa anterior, a de que, certa noite, escrevia em meu apartamento, tranquilo, de chinelos, a taça de vinho ao lado do desktop e, de repente, lancei um olhar despretensioso pela janela e deslizei esse olhar pela parede do prédio ao lado e ele foi descendo e descendo e aí, Mandrake!, paralisou-se na janela de um apartamento um andar abaixo do meu.

Ela estava lá.

A vizinha nua.

Nesse ponto da história, meus amigos dos outros jornais já sorriam, boca entreaberta de expectativa. Entre eles o Sérgio Rangel, grande repórter da Folha de S. Paulo no Rio. Quando o qualifico como “grande” não exagero. Um senhor repórter, o Rangel. Vou citar um de seus furos nacionais: terminada a Copa de 2006, o Rangel foi à Espanha, atrás do Ronaldinho, e descobriu que, um dia após a desclassificação do Brasil, ele festejava com amigos em uma boate com muita bebida, muita mulher e pouca roupa. O mundo comentou e repercutiu essa matéria.

Na Copa de 2002, não raro o Rangel varou madrugadas de plantão no hotel da Seleção. A concorrência com o Estadão era feroz, os dois jornais mantinham repórteres dia e noite no saguão do hotel da Seleção, porque volta e meia um jogador descia para tomar um cafezinho no bar, ou espairecer, ou conversar com algum amigo. A Seleção era franqueada à torcida e aos jornalistas. Eu mesmo tomei chimarrão com o técnico Luiz Felipe e fiz exclusivas com vários jogadores, entre eles uma das estrelas, Ronaldinho.

Luiz Felipe dizia que os jogadores precisavam sentir a pressão externa, precisavam saber o que a torcida esperava deles. Assim, o terreno de trabalho era fértil para os jornalistas. Quando eu pedia os números dos telefones celulares dos jogadores, eles não recusavam. Quando ligava, eles atendiam.

Na véspera do jogo de estreia, na Coreia do Sul, o volante Emerson se lesionou brincando de goleiro durante o rachão. O treino acabou e a delegação retornou ao hotel, todos tensos, em expectativa. A lesão parecia séria.

Emerson recolheu-se ao seu quarto. Enquanto isso, o médico José Luís Runco subiu até uma sala no primeiro andar, para onde a imprensa foi chamada. Runco anunciou que, de fato, a contusão era grave e que Emerson estava cortado da Copa. Desci correndo ao saguão, peguei o telefone da recepção e liguei para o quarto do até então capitão da Seleção. Ele atendeu. Identifiquei-me e já fui falando:

_ Como você recebeu a notícia do seu corte?

Emerson permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois balbuciou:

_ Eu fui cortado?

Estremeci. Acabara de dar a Emerson a notícia do seu corte da Copa do Mundo da Ásia.



Comentários (6)

  • Dirceo Stona diz: 13 de novembro de 2010

    David Coimbra, maravilhoso o livro “Jô na Estrada”. Comecei a ler e não consegui parar. Será peça na lista de meus presentes para amigos neste Natal. Sei que o livro não mais te pertence, disseste que pertencia a Editora, sou contra….. o livro é nosso…. e dele não abrimos mão.
    Parabéns
    Dirceo Stona

  • Candinha diz: 13 de novembro de 2010

    Caro David, ao falar sobre Copa do Mundo, seria bom deixar mais claro se é a Copa do Mundo de Clubes ou de seleções. Antes de 2005, quando não existia mundial de clubes, bastava escrever Copa do Mundo e pronto. Agora, temos que ser mais cuidadosos, são outros tempos…

  • leonardo diz: 13 de novembro de 2010

    um ser superior

  • PC, O PC diz: 13 de novembro de 2010

    Cara, fala sério.. dar noticia de festa do ronaldinho com mulheres, bebidas, etc, etc etc ? sexo, drogas, rock n roll? Não era inveja não? ha ha ha ha ha ha
    Mas o cara tinha que trabalhar era em revista de fofoca, h aha ha ha ha ha ha
    Fui ver o Lendario Tricolor contra o Lendário Santos.

  • Antonio diz: 14 de novembro de 2010

    Caro David, algumas profissoes, poucas, tem o dom da beleza, de proporcional emocao (alegrias e tristezas), momentos marcantes, de levar o ato da vida ao mais alto sentido, conhecer gente e fazer amigos (algumas de mais alto nivel) e, principalmente, histórias para contar nao somente no aspecto do trabalho em si mas, também, um dia para os netos, ai está a beleza da vida, para quem consegue enchergar. Parabéns pelo trabalho, parabéns por ser um representante digno desta profissao que admiro, sucesso sempre. (imagino o que seja ter a oportunidade, a grandeza, de viver profissionalmente num ambiente como a RBS, a redacao de um jornal como a ZH). Quem sou eu para lhe dar sugestao, mas ai vai uma, junte todas essas pérolas de experiencias vividas nas Copas e compile num livro, lembro de já ter lido várias que voce escreveu nas suas colunas (por favor, reedite uma que occorreu numa estacao de trem, na Europa, com apuros entre os colegas, nao lembro detalhes, também aquelas que voce contou com o professor (Rui). Grato.

  • Free AVG diz: 14 de novembro de 2010

    how to use

Envie seu Comentário