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Bastidores da imprensa na Copa – parte 2

14 de novembro de 2010 0

Até terça-feira, acompanhe a série sobre os bastidores da imprensa na Copa do Mundo

A seguir, o Capítulo 2:


A Seleção era aberta, portanto. Por isso, o Rangel vezes sem conta amargou o plantão da madrugada no saguão do hotel. Por isso, já na fase preparatória ele se sentia exausto. Chegamos a Kuala Lumpur, na Malásia, e, numa tarde de sábado, resolvemos rodar pela cidade. Havia massagistas profissionais fazendo o seu trabalho em cadeirinhas na rua. O Rangel olhou para um e pensou: “Acho que uma massagem iria me desestressar”. Sentou-se na cadeirinha e o malaio o informou que aquela era uma massagem exclusiva para os pés. Tudo bem, o Rangel tirou os sapatos. O malaio começou a apertar-lhe as solas dos pés. E o Rangel a gemer:

_ Uuuuuuh… Ahhhhhhh…

O cara apertava mais. E o Rangel gemia mais:

_ Uuuuuuuuuuuuuuuuhhh… Aaaaaaaaaaaaahhh…

O Rangel jogava a cabeça para trás, os olhos fechados, e se segurava com força nos braços da cadeira. O massagista aumentou a pressão. Os olhos do Rangel quase saltaram das órbitas. Ele se retesou e ganiu:

_ Uiuiuiuiuiuiuiuuuuuuuu…. Auauauauauauauauuuuuu…

Os transeuntes pararam para ver. Olhavam divertidos para o ocidental sendo massageado. O massagista investia mais fortemente nos pés do Rangel e agora ele urrava de dor:

_ AAAAAAAAAAAHHH! AAAAAAAAAAHHH!

Em alguns minutos, o Rangel tornou-se a principal atração do lugar. Ele berrava e os malaios gargalhavam. O massagista ria também, via-se que estava gostando da coisa.

_ Ai, meu Deus! _ gritava o Rangel. _ Aiaiaiaiai! AI, MEU DEUS!

Terminada a sessão de bom humor e gargalhadas, os malaios se foram, sempre rindo, o Rangel pagou 300 Ringgits ao homem e voltou para o hotel levitando. Dormiu as seis melhores horas da sua vida e acordou-se pronto para uma dúzia de plantões.

Bem. Na Copa de 2010, o Rangel não precisava fazer plantões, mas gostaria de encontrar um massagista malaio nas ruas de Joannesburgo. Porque, na África, ele também sofreu. Joannesburgo é uma cidade alta, encarapita-se a 1.800 metros acima do nível do mar. Logo, é fria. Na época da Copa, píncaros do inverno sul-africano, mais fria ainda. Para arrematar, o clima é seco como o de Brasília. Eram normais os dias em que a umidade relativa do ar oscilava entre 18 e 20%. Muitos jornalistas estrangeiros sofreram com problemas respiratórios, os narizes sangravam, o ar passava rascando nas gargantas. Some-se a isso a política adotada na Seleção em relação à imprensa. Dunga não se espelhou na Seleção vitoriosa de 2002, mas na derrotada de 2006. Concluiu que o fracasso na Alemanha fora ocasionado pela exposição excessiva a que haviam sido submetidos os jogadores e, assim, decidiu literalmente confiná-los. Os jogadores não tinham direito a folgas, ficaram afastados dos torcedores e foram proibidos de conceder entrevistas exclusivas. Os treinos eram fechados. A imprensa permanecia do lado de fora.

Foi durante algumas dessas longas jornadas ao ar livre que o Rangel contraiu uma feroz gripe africana.

No meio da Copa também fui vitimado por essa gripe. Derrubou-me miseravelmente. Um dos sintomas é uma tontura que continuou me enjoando de forma intermitente até 30 dias depois de ter ficado bom da gripe.

O Rangel passou tão mal que teve de ser internado em um hospital de Joannesburgo. Os hospitais públicos de lá são piores do que os brasileiros. Africanos infectados pelo vírus da AIDS agonizam pelos corredores, esquálidos, rostos encovados, tipo Cazuza em estado terminal nos anos 80. Já os hospitais privados são ótimos. O Rangel foi para um desses. Atenderam-no num zás, a enfermeira meteu o cano de uma espécie de pistola no ouvido dele, apertou o gatilho e, clic, tirou-lhe a temperatura. Depois, aplicou-lhe uma injeção informando que aquilo lhe repararia as forças. O Rangel nunca descobriu que tipo de tônico havia no embolo da injeção, mas no dia seguinte sentia-se tão bem que podia disputar posição com Lúcio na zaga da Seleção. Mesmo assim, até o fim da Copa ele foi visto sob uma touca de lã, envolto em uma grossa manta e debaixo de camadas de camisetas, camisas, blusões, casacos, tudo o que pudesse protegê-lo do surpreendente frio africano.

Não conseguimos, nesta Copa, partilhar jantares ou almoços, como nas anteriores. Porque a entrada no hotel da Seleção era proibida, sim, mas também pelas características de Joannesburgo, uma cidade do porte do Rio de Janeiro, com cinco milhões de habitantes, mas muito espalhada. De uma ponta a outra, Joannesburgo se estende por 100 quilômetros, e o centro da cidade, propriamente dito, não é recomendável para passeios. Você pode rodar de carro por uma hora inteira pelo centro de Joannesburgo sem ver um único homem branco. Alguém talvez argumente que isso é natural, uma vez que se está na África, o “continente negro”. O problema é que um branco, no centro de Joannesburgo, não é apenas uma figura exótica: é um alvo.

Joannesburgo é uma cidade perigosa. São registrados 55 mil estupros por ano, na África do Sul, grande parte deles em Joannesburgo. Não raro, um grupo de seis ou sete negros sequestra uma mulher no fim de semana. Durante dois ou três dias, ela é usada por todos, várias vezes. Encerrada a diversão, eles a matam. Ou a liberam infectada pelo vírus HIV, o que é quase a mesma coisa, tratando-se de África.

Antes da Copa, um empresário brasileiro foi atraído à África do Sul por promessas de negócios. Foi sequestrado e torturado, antes da polícia encontrá-lo traumatizado e com os pés queimados por ferro de passar roupa. Sequestros relâmpagos, roubos, assassinatos, tudo o que há no Brasil em termos de crime e contravenção há na África do Sul, em especial em Joannesburgo. A cidade vive um Apartheid às avessas. Agora, são os brancos que não podem sair às ruas. Eles se homiziam em casas cercadas por muros de cinco metros de altura, encimados por cercas eletrificadas. Os brancos não se arriscam em lugares abertos nem nos bairros mais sofisticados. São vistos apenas nos shoppings, em especial no complexo do Nelson Mandela Square, um conjunto de hotéis de luxo, bares, restaurantes e lojas situado numa das regiões elegantes da cidade.

Os brasileiros, da mesma forma, eram aconselhados a não se aventurar pela cidade. Para piorar a situação, o transporte público praticamente não existe em Joannesburgo. Táxis e ônibus são raros. A população é precariamente atendida por um serviço de vans semelhante aos clandestinos de Rio e São Paulo.

Os brasileiros tinham de se deslocar em carros alugados, em geral dirigidos por motoristas nativos, que conheciam a cidade. Quer dizer: nossos encontros eram escassos. Como podia alguém contar histórias como a da vizinha nua? Que, aliás, não estava nua da primeira vez que a vi. Calçava sapatos de salto alto, vestia um vestidinho leve, curto, angustiante. Era morena, de pernas longas e corpo sinuoso. E, o melhor, dançava em frente a um grande espelho. Dançava com as penas abertas, fincadas bem firmes no parquê. Flexionava os joelhos e se acariciava. Erguia o vestido com as mãos delgadas e ondulava feito uma serpente de carne tenra e rija e, tenho certeza, macia como a primavera. Olhei para aquilo e pensei que o meu dia de sorte havia chegado. Lancei rapidamente o olhar para o alto e fiz uma pequena prece de agradecimento ao Senhor. Então, como em resposta à oração, a morena levou as mãos à barra do vestido e, num movimento de enguia, puxou-o corpo acima. Ficou só de calcinha e sutiã! Dei um salto a fim de apagar a luz do quarto para de que ela não me visse. No movimento, derrubei a taça de vinho. O tinto derramou-se na minha mesa de trabalho, mas nem pensei em limpar. Um valor mais alto se alevantava, como dizia Camões.


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