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Bastidores da imprensa na Copa - parte 4

15 de novembro de 2010 4

Até terça-feira, acompanhe a série sobre os bastidores da imprensa na Copa do Mundo

A seguir, o Capítulo 4:


Conheci o Cosme Rímoli quando ele trabalhava no Jornal da Tarde, de São Paulo. O JT enviava equipes tão numerosas quanto competentes para as coberturas da Seleção. Normalmente iam o Cosme, o Luiz Antônio Prosperi, o Luis Augusto Simon, o Sidnei Mazzoni, entre outros.

Um deles era casado e morava numa cidade próxima a São Paulo. Valendo-se de seu charme maduro e sua conversa envolvente, esse nosso amigo desenvolveu um caso com a jovem e formosa assistente do seu dentista. Tudo ia muito bem até que, a folhas tantas, a legítima esposa ligou-lhe no meio da tarde:

_ Estou me sentindo mal, preciso falar contigo!

_ Mas o que aconteceu??? _ assustou-se o nosso herói.

_ Um mal-estar. Me encontra naquela padaria em que sempre vamos tomar lanche.

Ele foi, sem saber que ia para uma cilada.

Chegando à padaria, encontrou a mulher já sentada a uma mesa.

_ O que foi, querida? _ perguntou, aflito, pespegando-lhe uma bicotinha e sentando-se de costas para a porta.

_ Nada, nada, já estou bem. Só queria te apresentar uma pessoa.

Ela fez um gesto com a cabeça, indicando um vulto parado de pé, a poucos metros de distância. Nosso amigo girou a cabeça e jogou o olhar sobre o ombro. Você já adivinhou: a assistente do dentista estava lá, mãos na cintura, olhando para ele. Que reagiu da seguinte forma: sem vacilar um único décimo de segundo, levantou-se e… saiu correndo! Fugiu, pusilânime mas sensato, rua acima, sem nem olhar para trás, por quilômetros e quilômetros, até a segurança do anonimato.

Mas quero deixar claro que não foi o Cosmão o protagonista dessa aventura. O Cosmão foi de outra, ocorrida na Copa da Alemanha. Estávamos ainda na fase preparatória, na bela Weggis, na Suíça. Chamar um lugar suíço de belo é redundante. Não existe nada que não seja bonito na Suíça. Até as latas de lixo, a gente olha para elas e suspira, aaah, o lindo lixo suíço…

Mas Weggis é especial. Mark Twain dizia que é o lugar mais lindo do mundo. Talvez seja. Casinhas coloridas parecendo casinhas de boneca espalhando-se pelo sopé dos Alpes, ao longe os picos eternamente nevados das montanhas, vacas pastando nos montes verdejantes e, embaixo, o Lago Lucerna esparramando-se como um espelho azulado. A cidade é tão plácida que os patos andam rebolando pelo Centro, tão civilizada que esses mesmos patos só atravessam a rua na faixa de segurança.

Claro, isso impressiona no primeiro dia. Você abre a janela do quarto, respira o fresco ar alpino e se delicia:

_ Ah, as vaquinhas pastando solenes nos montes… Ah, os picos eternamente nevados dos Alpes… Ah, os patos atravessando na faixa de segurança… Ah, as casas que parecem casinhas de boneca…

À noite, a cidade dorme ás 22h. Você acorda no dia seguinte, abre a janela e:

_ Ah, as vaquinhas pastando solenes nos montes, Ah, os picos eternamente nevados dos Alpes… Ah, os patos atravessando na faixa de segurança… Ah, as casas que parecem casinhas de boneca…

Mais um dia se vai, exatamente igual ao anterior, e na terceira manhã você abre a janela e:

_ Ah, as vaquinhas pastando, os picos nevados, os patos atravessando na faixa, as casinhas de boneca…

No quarto dia:

_ Vacas, patos, picos, casas…

No quinto:

_ Vaca! Pato! Pico! Casa!

No sexto:

_ Maldidas vacas, quero matar um pato atropelado, que se derretam essas miseráveis neves eternas, que peguem fogo as casinhas de boneca!

Chega um momento em que mesmo a beleza aborrece, se nada acontece (rimou!).

Nada acontecia em Weggis. Essa história de “A farra de Weggis”, que Dunga tanto usou para justificar o fechamento da Seleção na África, essa história é, no mínimo, um exagero. A imprensa não tinha acesso ao hotel da Seleção, exceto durante as entrevistas previamente marcadas ou as janelas com os jogadores. O que houve foi a torcida assistindo aos treinos e festejando os jogadores. O que houve foi Ronaldo Nazário apresentar-se pesando 104 quilos. Isso foi a “Farra de Weggis”.

A cidade era tão calma que, num sábado, fomos para Lucerna, conferir se havia algum movimento na noite suíça. O Cosme ia dirigindo o carro que o jornal havia alugado. Bebemos um pouco, confesso. Mas o Cosme é um motorista cuidadoso. Na volta, tomou todas as precauções para evitar acidentes. Mesmo assim, erramos a entrada de Weggis, ingressamos numa rua na contramão. Eram umas quatro horas da madrugada, não havia ninguém as ruas, nada, nada, só o silêncio do lago, mas bastou que entrássemos na contramão para que a luz de um holofote nos iluminasse como o sol e uma sirene soasse:

“UÓÓÓÓÓÓ!”

Um carro de polícia apareceu de algum lugar. Mas onde é que estava aqueles caras? Os policiais mandaram que o Cosme saísse da direção e, examinando o seu estado, apresentaram-lhe um bafômetro. Mandaram que soprasse. Putz! Ser pego dirigindo embriagado na Suíça… No mínimo ia nos render a expulsão do país, senão cadeia. Era o fim da Copa para nós. Talvez o fim dos nossos empregos. O fim de tudo!

O Cosme fazia que soprava, mas não soprava. A policial suíça ordenava:

_ Sopra direito!

Ele simulando. Ela:

_ Sopra!

Então o Cosme começou com aquela conversa que está acostumado a aplicar nas meninas da pauliceia: ele era um jornalista brasileiro, estava ali a trabalho, gostara tanto da Suíça… tudo na Suíça era belo, os lugares belos, as casas belas, as mulheres belas…

A policial o encarou:

_ Está bem. Desta vez passa. Só desta vez!

No dia seguinte, ao abrirmos as janelas de nossos quartos, Weggis parecia tão linda quanto no primeiro dia que chegamos lá. Ah, os montes, os patos, as vacas…

Pois o Cosmão, como um admirador do sexo oposto, gostou de ouvir a história da minha vizinha nua. Aquele primeiro strip foi, bem, o primeiro. Na noite posterior, no mesmo horário, lá estava ela, dançando diante do espelho. E eu da minha janela, assistindo e sorrindo. Na noite seguinte, a mesma coisa. E na outra. E na outra. Acostumei-me com o aquilo. Tornou-se um evento previsível como abrir a janela todas as manhãs para as belezas de Weggis. Empurrei um sofá para perto da janela e já deixava preparados drinques e acepipes para a hora da apresentação. De vez em quando convidava um amigo para ir até minha casa. Na hora do show, avisava:

_ Olha ali pela janela. A minha vizinha vai tirar a roupa.

O amigo ficava assistindo, embasbacado, enquanto eu via o Jornal Nacional.


Comentários (4)

  • stacy diz: 16 de novembro de 2010

    cool

  • Gisele Bassani diz: 16 de novembro de 2010

    Pois é, até a beleza enjoa…

  • jimmy diz: 19 de novembro de 2010

    give me now

  • matt diz: 21 de novembro de 2010

    show me

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