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O salvamento do peixe Dirceu

14 de janeiro de 2011 2

Você já viu um peixe morrendo?

Eu vi, ontem, nas areias de Xangri-lá. Estava conversando com o pescador Nelson Portella quando ele içou do mar aquele peixe enganchado em seu anzol. Era um papa-terra de palmo e meio de comprimento, prateado, reluzente, de aspecto saudável. Com muita perícia e até indiferença, sem parar de falar comigo, o Nelson libertou o peixe da sua vara de pesca e o jogou na areia atrás de nós. Fiquei olhando para o peixe que saltava, sufocando aos poucos.

Já devo ter assistido à agonia de outros peixes, decerto que sim, mas nunca havia observado tão detidamente como fiz ontem. Reparei nas escamas do pobre papa-terra, em seu olhar que implorava por salvação, em sua pequena boca muda que parecia gritar:

– Help!

Aquele peixe se tornou um indivíduo para mim, não era mais um dos bilhões de peixes que nadam no mar. Era O peixe. Poderia dar-lhe um nome, sei lá, Dirceu.

É aquilo que os psicólogos falam sobre a eventualidade de você estar sob a mira de uma arma. Você deve dizer seu nome, dizer quantos filhos tem, o que faz para viver. Você deve se tornar “alguém” para o agressor, tem que ter uma história e deixar de ser apenas um alvo.

Foi o que aconteceu com Dirceu. No instante em que parei para examiná-lo, imaginei-o nadando feliz pelos oceanos na companhia dos amigos. Como seria Dirceu quando era nada mais do que um girino? Ele dando rabanadas ao lado dos pais, barbatana com barbatana. Seus pais deram por sua falta? Estariam procurando-o, como o pai de Nemo procurou por ele?

Nelson não parecia tecer considerações a respeito. Já enfiava nos anzóis outras tatuíras que lhe serviriam de isca, já atirava a linha ao mar lá adiante, depois da segunda arrebentação. Para Nélson, pescador experiente, de 49 anos de idade, pele ressecada pelo sol de todos os dias, para ele Dirceu era tão somente mais um papa-terra que iria para a mesa na hora do jantar com sua esposa e suas três filhas em Guará, bairro de Xangri-lá. Nélson captura e executa de 25 a 32 peixes iguais a Dirceu todos os dias. São eles, as suas vítimas, que enriquecem a dieta da família. Assim, Nélson gasta menos com alimentação. O que ganha no verão com o aluguel de barracas na praia (R$ 540 por mês, cada barraca) ou no inverno trabalhando como pedreiro, esses rendimentos vão para outras despesas. A escola das meninas, os reparos na casa, algum mimo para a esposa.

Dirceu, portanto, precisava morrer. Seu sacrifício não ocorria em vão. Servia para manter bem fornida toda uma família humana xangri-laense.

Mas para mim não era fácil ver aquilo. Para mim, quem saltava em desespero na areia era ele… Dirceu. Pensei que poderia dar dois passos, colhê-lo da areia e, num único e vigoroso arremesso, devolvê-lo ao mar. Talvez o pescador se enfurecesse, mas aí eu argumentaria:

– Esse era Dirceu, entende? Dirceu!

Abandonado ao asfixiante ar livre, Dirceu parou um pouco de saltar, exausto. Mas continuava a abrir e a fechar sua boca redonda. Ainda vivia, Dirceu, ainda podia ser salvo.

E se o comprasse? Podia gritar:

– Dez reais por esse!

E em seguida atirá-lo ao mar.

Mas ficaria ridículo. Nélson não compreenderia por que alguém ia comprar um peixe sem consumi-lo, me consideraria um ser exótico da cidade, um não praiano. Hesitei. Dirceu agora pulava mais alto do que nunca. Havia tempo. Havia tempo! Cheguei a dar um passo para trás a fim de resgatá-lo, mas, naquele momento, uma onda mais forte esticou seu braço na areia, ia levar Dirceu com ela para a salvação do mar. Só que Nélson foi mais rápido, colheu-o daquele ponto da areia e o atirou mais longe, fora do alcance da água. Dirceu pareceu ter consciência de que sua hora havia chegado. Lançou um olhar derradeiro para o pai Atlântico e, a seguir, seus olhos ficaram vítreos.

Expirou.

Suspirei. Olhei para o pescador impiedoso.

– Nélson… – chamei-o.

– Sim? – ele respondeu, sem virar-se para mim.

– Aquele peixe – apontei para trás. – Como vai prepará-lo?

– Fritinho.

Suspirei de novo.

– Com cerveja bem gelada deve ficar uma delícia – comentei.

E fui embora.


Jô na praia

Nome: Jéssica Pigozzo

Idade: 23 anos

Cidade: Bento Gonçalves

Praia: Capão da Canoa

Time: Grêmio

Hobby: Música

 

Comentários (2)

  • joao batista camargo diz: 15 de janeiro de 2011

    PÔ DAVID…..

    FILHOTE DE PEIXE É ALEVINO……. GIRINO É FILHOTE DE SAPO, RÃ, PERERECE, ETC…!!!!!!

  • Eduardo diz: 15 de janeiro de 2011

    Bela Jéssica Pigozzo, acho que vou me mudar para região da serra.

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