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A vida malemolente na beira-mar

18 de janeiro de 2011 5

Depois do almoço, passou o afiador de facas.

A verdade é que a vida praiana manemolece.

Você sabe: manemolência, não “malemolência”, como está consagrado e até dicionarizado. Manemolência vem de Mané Mole, um malandro brasileiro que fez história por sua preguiça invencível. Mas o vulgo adotou a malemolência, e sei por quê. Porque malemolência é muito mais manemolente. Malemolente é mais mole, é mais indolente, é bem melhor do que manemole.

Logo, a verdade é que a vida praiana malemolece.

Por isso, compreendo os baianos. Dorival Caymmi o maior exemplo deles.

Caetano Veloso conta que um dia chegou à casa de Caymmi e o encontrou exultante.

– Veja o que fiz – disse Dori a Caê, falando devagar, bem devagar. – Estava muito quente… Então… coloquei o ventilador em frente à poltrona!

Eis a malemolência em forma humana!

Certa feita viajei à Bahia com meus amigos Leo Oliveira e Serginho Villar. Bebíamos cerveja gelada num bar de praia. De repente, o garçom veio de lá e disse, cantando:

– Num tem mais…

– Putzgrilla, com mil abaetés, acabou a cerveja???

– Agora só tem Dimenor…

Dimenor? Que cerveja seria essa, Dimenor?

– Trazaí.

Veio uma long neck.

A malemolência também incentiva a criatividade.

Dias atrás, procurava por uma papelaria. Entrei em um pequeno shopping e perguntei à moça que fazia segurança se havia alguma loja do gênero por ali. Ela pensou. Pensou. Olhou para os lados. E, depois de alguns segundos angustiantes para mim, sentenciou:

– Sabe… Não sou de Xangri-lá…

Ontem mesmo caminhava pela areia e decidi fazer uma pausa para recompor as forças com um pastel de camarão. Fui ao quiosque e perguntei:

– Tem pastel de camarão?

O atendente me olhou distraidamente e perguntou:

– Pastel de camarão?

Confirmei:

– É. Pastel de camarão.

Ele olhou para trás e examinou um cartaz em que estava escrito ao lado do preço respectivo: “PASTEL DE CAMARÃO”. Virou-se para mim. Disse:

– Tem…

E ficou me encarando. Pisquei:

– Hm… Gostaria de um pastel de camarão.

– Agora?

– É. Pode ser?

– Um pastel?

– Sim. Um.

– De camarão?

– Sim!

– Certo. Vou fazer.

Muito malemolente. Saí dali pensando nos motivos de a vida praiana malemolecer as pessoas. O sol aplastante decerto que malemolece. Mas e quando não tem sol, faz frio e mesmo assim a malemolência impera na Orla? Seria o mar e a consequente maresia, o iodo na atmosfera, o ar salgado que a tudo impregna? Mas aí a Inglaterra e o Japão, cercados de mar por todos os lados, como em geral ocorre com as ilhas, seriam malemolentes. E não são…

Obtive a resposta à tarde, logo depois do almoço. A segunda-feira estava silenciosa e quente. Ouvia-se o som ronronante que vinha do mar, o ronco das profundezas da Terra, repetindo que tudo será sempre igual debaixo do sol. Nesse instante, o afiador de facas passou pela minha rua. Passou assoprando seu apito, produzindo um silvo longo terminado por dois curtos que me entorpeceu os membros, me tonteou de sono e quase me derrubou. Resisti, porém, mas voltei a cambalear na sequência, à passagem do vendedor de casquinha. Quando ele surgiu lá na outra esquina, batendo seu instrumento de madeira e metal cujo nome nem sei, fazendo clac-clac-clac, numa música de verão de infância, deixei-me cair na rede, zonzo. Mas não ia me entregar. Não ia! Até ouvir, ao longe, o toque adocicado da corneta do sorveteiro. Então, cedi. Malemoleci. O marulho eterno do mar. O lamento da corneta do sorveteiro. O clac-clac do vendedor de casquinha. O apito do afiador de facas.

Os sons das franjas do mar é que fazem da vida praiana uma vida malemolente.


Jô da praia

Nome: Gabriela Maleski

Idade: 22 anos

Cidade: Porto Alegre

Praia: Imbé

Time:
Inter

Hobby: Curtir a praia


Jô na praia

Comentários (5)

  • leonardo diz: 19 de janeiro de 2011

    Tchê, eu tenho certeza de que tu fumas um.
    Não pode ser o contrário! É criatividade demais para um cérebro careta!!!

  • Gisele da Silva Bassani diz: 19 de janeiro de 2011

    Ah, como eu queria malemolecer nesse momento…

  • Carolina de Oliveira diz: 19 de janeiro de 2011

    Obrigada David Coimbra por fazer nossos dias longe do mar mais prazerosos e malemolentes…

  • Marisa diz: 21 de janeiro de 2011

    a minha praia não tem cafeteria com livros, revistas…mas tem bastante crepe, outlets e tudo mais… só tem a antiga Livraria Leme, na Paraguassu/Capão.

  • João Carlos diz: 23 de janeiro de 2011

    A praia tem esta característica, como se observa nas viagens ao nordeste.

    O clima incentiva os talentos.

    O garçon tá lento. O motorista tá lento. Qualquer atendimento tá lento.

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