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Refugiados de Chávez

25 de janeiro de 2011 2

Aí vai mais um artigo da correspondente do blog na Venezuela, a minha amiga Yelitza Linares, competente jornalista de Caracas.

Como se fossem dois apresentadores de um programa de televisão, o vice-presidente da Venezuela, Elias Jaua, recebe por um sinal de microondas, o Presidente da República, Hugo Chávez. A transmissão oficial passa por rádio e TV. Hora? 18h.

“Obrigado, presidente”, disse Jaua. “Aqui estamos no quarto andar, sede da Vice-Presidência, onde construímos alguns apartamentos para abrigar 29 famílias.”

Chávez, do outro lado, mostra as 25 “casas-abrigo” que foram construídas na Praça Bicentenária do Palácio de Miraflores para receber um número igual de famílias desabrigadas, que perderam suas casas em consequência das fortes chuvas em Caracas no início de dezembro.

Mais de 130 mil pessoas abandonaram suas residências porque estavam em perigo. Oito estados declararam situação de emergência devido aos danos causados pela chuva.

A maioria dos afetados foram transferidos inicialmente para escolas, onde permaneceram até 10 de janeiro, quando as aulas recomeçaram.

Mas o seu destino não foi o habitual. No final de 2010, Chávez surpreendeu mais uma vez quando pediu a ministros que sigam seu exemplo e abram espaço para os desabrigados, por tempo indefinido, nos escritórios do governo.

Desde então, funcionários compartilham escritórios com flagelados, muitos deles crianças.

Ministérios, o Banco Central da Venezuela, a Assembleia Nacional, museus, centros esportivos, hospitais, estações ferroviárias, entre outros, cederam os locais em que antes estavam computadores e arquivos para abrigar camas ou colchões, instalar banheiros, banheiras e cozinhas.

O setor privado também deve colaborar. Proprietários de redes hoteleiras foram intimados pelo governo a destinar uma parte de seus quartos aos desabrigados.

Alfredo Urbano foi um dos beneficiados pela medida, junto com sua família e vizinhos. Em 27 de novembro, teve que deixar sua casa, localizada na parte mais alta de Carapita (periferia do estado de Miranda), porque o morro cedeu e várias propriedades do local desmoronaram.

Logo depois de recorrer a abrigos por vários dias, sua família foi recebida no 7º andar da sede do Banco de Venezuela, na avenida Urdaneta, onde funciona uma agência bancária. Nos outros seis andares estão escritórios administrativos.

Por ser funcionário da instituição, Urbano tem o privilégio de compartilhar a unidade, mais segura, com outras 17 famílias.

“Aqui estamos mais tranquilos. No abrigo anterior, não tínhamos nenhuma privacidade e tínhamos que lidar com pessoas violentas e armadas”, comenta.

A vida conjunta os levou a se organizarem em comissões, que eram responsáveis por alimentos, limpeza, segurança, logística, entre outros.

Esse também é o caso de Carlos May e sua família, que dormem desde 10 de janeiro em camas improvisadas no quinto andar do Ministério da Educação.

Nos corredores do mezanino e em outros três níveis do prédio, acomodações foram instaladas para 120 pessoas que tiveram que abandonar residências na antiga estrada Petare-Guarenas.

“Nada como ter uma casa própria, mas aqui nos sentimos melhor”, expressa May.

Os flagelados se diferenciam dos trabalhadores por braceletes e cumprem normas de segurança impostas pelos departamentos de governo: eles têm horários restritos para sair e entrar, para tomar banho e não podem circular pelos corredores durante o expediente. Isso não impede que se cruzem com funcionários públicos.

Entre os trabalhadores dessas unidades foram criados, por ordens de seus superiores, comitês de apoio que se encarregam de organizar a distribuição de comida e de materiais de higiene pessoal (que na maioria das vezes são doados pelo governo ou pelos próprios funcionários).

Mas a implantação desta população afetada na rotina da administração pública tem provocado conflitos em algumas unidades.

Na semana passada, os funcionários do Ministério das Relações Exteriores protestaram porque foram descontados 10% de seus salários para ajudar as vítimas, em um ato de “solidariedade forçada”, como eles mesmo chamaram. O dinheiro finalmente foi devolvido, ante a manifestação que tomou as ruas.

O arquiteto Marco Negrón questiona a improvisação com que se está enfrentando o problema e a qualifica de “absurdo”. Em um programa da rádio Circuito Unión, argumentava que a resposta oficial é apenas um reflexo da falta de previsão para resolver os casos e que se evidencia a falta de abrigos e moradias.

O governo só construiu 290 mil casas em 12 anos de gestão, segundo dados do Centro de Pesquisas Econômicas, e precisa de, pelos menos, 2,5 milhões.

Somado a isso está o mercado de aluguel de imóveis, cujas ofertas diminuiram oito vezes durante o mandato de Chávez, como consequência do congelamento da renda.

Negrón disse que o país não tem capacidade para construir um conjunto habitacional prometido agora pelo governo, porque o setor está desmantelado.

Chávez anunciou esta semana que irá erguer, com a ajuda dos russos, 40 mil casas na base militar de Fuerte Tiuna, em Caracas.

Também firmou o Decreto de Lei Especial para Abrigos Dignos, o primeiro aprovado no âmbito da Lei Habitante, que lhe dotou de amplos poderes para legislar nesta e outras matérias.

A Assembleia Nacional anterior (que era formada, em sua maioria, por deputados governistas) lhe cedeu em dezembro este poder, que poderá administrar por um ano e meio, quase o que lhe resta de mandato.

A lei lhe permite legislar para atender a tarefa urgente que tem o presidente de realocar os refugiados e oferecer-lhes a oportunidade de ter uma casa. Mas Chávez tem utilizado outras medidas que promovem a anarquia na capital.

“Aqui nos organizamos e criamos comitês de habitação”, explica Carlos May, refugiado no departamento de Educação. “Temos nosso projeto e terreno”. Quando questionado qual terreno, silencia.

A verdade é que obedece a uma ordem presidencial, dada na quinta-feira em emissoras de rádio e TV. “… todo aquele que busca suas casas, que Chávez os desapropriará”. Há 1 mil residências abandonadas, 2 mil em Caracas. Embora a burguesia diga o que diga, a revolução avança. O que queremos é que o povo seja o mestre do vale e não os burgueses.

Nessa mesma noite, houve duas tentativas de invasão na Paróquia de São Pedro por parte de grupos de pessoas que admitiram não ser flagelados, mas que tinham necessidade de ter uma casa própria, “porque vivemos na superlotação”, expressaram.

Na madrugada seguinte (sábado), houve ocupações massivas de 20 terrenos em Chacao – um bairro de classe média. Ao amanhecer, moradores protestaram nas ruas por causa dessas invasões, e o prefeito do departamento teve de negociar a retirada da população que tomou as terras, e o ministro do Interior e Justiça apareceu na mídia para “esclarecer” que a ordem do chefe de Estado foi “identificar os terrenos abandonados, não ocupados”.

Esta história agitada continuará…

Comentários (2)

  • Misael Bandeira Silveira diz: 29 de janeiro de 2011

    Esse é o tal de populismo…

    Nunca tinha ouvido falar em uma ação governamental deste cunho.

  • textile reports diz: 11 de outubro de 2011

    Recommended websites…

    Amazing blog! Thanks for the great contribution with this post….

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