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Dois garçons praianos

27 de janeiro de 2011 0

Dois garçons praianos – 1

Eu não queria casquinha de siri. Queria um bife suculento de quatro dedos de altura e batatas douradas como as loiras que se repoltreiam em Atlântida. Queria uma bebida forte para tirar a poeira da garganta, talvez um bourbon. Sim, eu vinha de longe, vinha das montanhas, e me sentia como Tex Willer chegando a um saloon do Kansas. Foi o que disse para o garçom:

– Quero um bife de quatro dedos de altura, meu bom rapaz. E uma bebida forte para tirar a poeira da garganta.

Mas o garçom me olhou e rebateu:

– Nada disso. O senhor vai comer casquinha de siri.

Com mil tatuíras! O que aquele fedelho, biltre, sacripanta, beleguim estava pensando? Eu não queria casquinha de siri. Mas ele argumentou:

– Se a casquinha de siri não estiver ótima, se não for a melhor casquinha de siri que o senhor já comeu, não precisa pagar. Eu pago com meu dinheiro.

Pisquei. Encarei-o. Ele sustentou o olhar, desafiador. Seria verdade? Estaria eu prestes a provar a melhor casquinha de siri dos meus dias praianos? Resolvi aceder:

– Muito bem, meu bom rapaz: casquinha de siri. E uma cerveja gelada como o coração das mulheres de pernas longas e saias curtas que mariposejam pelo litoral.

Mas ele:

– Não. O senhor vai provar uma caipirinha de vodca que eu mesmo faço, com as minhas mãos.

Era mesmo muito atrevimento daquele safardana. Mas cedi outra vez: caipirinha. Ele se foi para a zona cinzenta dos fundos do restaurante. Voltou de lá com uma gorda casquinha de siri e um copo verde-claro de caipirinha. Fez com que aterrissassem a 10 centímetros do meu peito. E ficou de pé ao lado da mesa, esperando o veredicto. Enfiei o garfo na casquinha de siri. Mastiguei um bocado. Virei-me para o garçom. Ele ergueu as sobrancelhas, expectante.

– Não será desta vez que você pagará por uma casquinha de siri, meu bom rapaz – admiti.

Ele sorriu, vitorioso. Mas não se deu por contente.

– E a caipirinha?

Provei um gole. Balancei a cabeça:

– De fato, meu bom rapaz. De fato…

Só então ele se foi. No dia seguinte, voltei ao lugar. Procurei o dono do restaurante, que já conhecia, o Régis Trevisani. Disse-lhe:

– Você tem aí um garçom que sabe das coisas.

Ele:

– Já sei: o Cléder. Um bom rapaz.

Balancei a cabeça:

– Um bom rapaz…


Dois garçons praianos – 2

Eu e meu amigo Amilton Cavalo nos encontramos para empreender uma vigorosa caminhada pela areia da praia. Após quilômetros de exercício estafante, olhamos para o deque do Villa e pensamos que ali poderia ser o lugar ideal para repor as energias.

– Talvez haja uma sombra reconfortante – disse eu.

– Talvez haja também uma cerveja gelada que nos refresque a alma e os membros doloridos – disse ele.

– Talvez haja ainda um camarãozinho ao bafo temperado com ervas finas – disse eu.

Fomos lá. Sentamo-nos. Ao nosso lado, um homem casado muito conhecido da vida citadina tentava seduzir uma garota de joelhos redondos e dedos de tocadora de cítara (sim, há homens que traem na Orla, embora sejam raros). Ela se levantou por um momento, creio que para ir ao banheiro. Foi-se, ondulando. O homem chamou o garçom e perguntou:

– Conto com sua discrição?

O garçom aprumou-se atrás de seus óculos escuros e sentenciou:

– Meu nome é Alex. Tenho olhos e não vejo, tenho ouvidos e não ouço, tenho boca e não falo. Aqui eu sou como um padre no confessionário. Sou profissional.

Eu e o Amilton nos entreolhamos.

– Ei! Alex! – chamei.

Ele se aproximou.

– O que você sugere para dois homens cansados da lida praiana?

Alex não hesitou:

– Uma cerveja tão gelada que vai fazer seus dentes doerem. Um prato de camarão ao bafo temperado com ervas finas.

Eu e o Amilton nos entreolhamos outra vez. Alex. Ali estava, re-al-men-te, um profissional.

- Nome: Maiquele Angeli

- Idade: 19 anos

- Cidade: Novo Hamburgo

- Praia: Capão da Canoa

- Time: Grêmio

- Hobby: Sair para dançar

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