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Posts de janeiro 2011

O fim de uma saga praiana

31 de janeiro de 2011 0

Quando o velho Pinheiro Machado passava com seu Aero Willys pela Estátua do Laçador, no retorno de mais uma temporada praiana, fitava a silhueta dos arranha-céus do centro de Porto Alegre e suspirava:

– Vou para a cidade grande, onde as aflições são certas.

No banco de trás, os bronzeados e então melenudos irmãos Ivan e José Antônio se entreolhavam e sorriam dentro de suas calças curtas: já estavam acostumados a ouvir o pai entoar a frase a cada final de veraneio, e esperavam por ela como se fosse uma senha de acesso à vida na urbe.

Eu aqui, nessa segunda-feira, deixando para trás as amenidades da Orla, penso na frase do pai dos meus amigos e, como ele, suspiro também. Sei que ficam, às fímbrias do Atlântico, as manhãs ensolaradas de caipirinha e pastel de camarão, as tardes sonolentas à rede que balança, as noites suaves sentindo a brisa que vem desde o mar, ficam os gorjeios dos pássaros da minha rua pacata, o toque preguiçoso da corneta do sorveteiro, o apito comprido do afiador de facas, ficam as loiras douradas da Plataforma de Atlântida, as morenas sinuosas das areias de Xangri-lá, ficam as Jôs da praia.

Foram 30 dias relatando aos leitores de Zero Hora um pouco do que se passa na estreita, porém extensa, faixa de areia do leste do Rio Grande, a área mais prezada e desejada pelos gaúchos nos meses quentes do verão. Uma página por dia. Foi trabalho, sim, que é trabalho, não se enganem. Mas não posso dizer que não me diverti.

A partir de amanhã, rende-me nessa árdua porém agradável tarefa o Paulo Germano. Quem é leitor do meu blog o conhece. Paulo Germano, o PG, foi o primeiro diretor do blog. Com ele mantive uma parceria afinada que rendeu posts pulsantes e promoções emocionantes, com ele mantenho uma amizade que rende noites divertidas diante de copos de chope cremoso e fumegantes bolinhos de bacalhau.

O PG fará uma página diferente, uma espécie de Informe Especial da Orla, com o seu estilo próprio, o que não tem nada a ver com a Fernanda Zaffari nem com o Túlio Milman. Tem a ver com o PG.

Desejo-lhe boa sorte. E que se divirta tanto quanto me diverti. Eu, aqui, reúno meus tubos de bloqueador solar fator 60 quase vazios e a bola de plástico do Pocolino, levo junto as sensações que me trazem um velho calção de banho, um dia pra vadiar, um mar que não tem tamanho, um arco-íris no ar. Eu visto calças compridas, enfim, e cubro minhas canelas que permaneceram expostas durante todo o janeiro. Eu volto para a cidade grande. Onde as aflições são certas.


A Jô e as Jôs

Hoje é o último capítulo da saga de “Jô na Praia”. Quem quiser ler a história completa, da primeira à última tirinha, acesse meu blog. A partir de amanhã o diretor Luan Ott postará a história em sequência, como num gibi.

Hoje também é publicada a foto da última “Jô da Praia” de janeiro. Embora saiba, com certa melancolia, que elas continuarão adejando na Orla dentro de seus biquínis sumários, alguns deles deliciosamente de lacinho, resigno-me a rever todas também no blog, onde o Luan Ott publicará as fotos e promoverá uma votação. O leitor elegerá a Jô da Praia definitiva. A vencedora levará um pacote de prêmios das Lojas Lebes: um banho de loja com assessoria de uma produtora de moda, com direito a calça, blusa, sapatos e biquíni, relógio de pulso, telefone celular e mais um book produzido pelo fotógrafo oficial da empresa.

Acesse através de zerohora.com e procure o blog do David para votar na mais bela e sortuda Jô.


AS GÊMEAS DE CAPÃO


- Nome: Shaienne Marques (esquerda na foto)

- Idade: 22 anos

- Cidade: Porto Alegre

- Praia: Capão da Canoa

– Time:
Grêmio

- Hobby: sair com amigos


- Nome: Xênia Marques (direita na foto)

- Idade: 22 anos

- Cidade: Xangri-lá

- Praia: Capão da Canoa

- Time: Grêmio

- Hobby: caminhar

Sônia quer ler

30 de janeiro de 2011 19

Percebi que Sônia era analfabeta no início do mês, quando o Bernardo lhe estendeu o livro colorido da casa fantasmagórica, que ele chama de fantasmabórica, e pediu:

– Lê pra mim?

Ela encabulou, amanhou uma desculpa e deslizou para a cozinha.

Sônia é uma senhora de 56 anos que eu trouxe de Porto Alegre para fazer os serviços da casa na Orla, cozinhar para o Bernardo, essas coisas – calculei que sairia mais em conta e seria mais confortável ter alguém fixo para isso, alguém de confiança, e estava certo.

Depois daquele episódio, esperei por uma oportunidade em que estivéssemos a sós na casa, chamei-a e perguntei:

– Tu não sabe ler, não é?

– Pois… não sei…

– Quer aprender?

Ela disse que sim, queria muito. Pedi que sentasse ao meu lado, peguei a caneta, o bloquinho da Zero e comecei:

– Primeiro vou te ensinar cinco letras. As mais importantes: A, E, I, O e U.

Ela olhou para as letras desenhadas no papel e desatou a chorar. Não perdi tempo consolando-a. Disse apenas:

– Não é vergonha não saber; vergonha é não querer aprender.

– Eu quero!

– Então vamos lá.

Principiou ali uma experiência inédita na vida dela, sim, mas também na minha. Não havia como imaginar o que veio a seguir.

Enfrentei dificuldades impensáveis. Claro, não sou professor, não tenho didática. Tentava ensiná-la intuitivamente, deduzindo o que lhe abriria a mente, o que seria mais fácil de apreender. Mas seria esse o caminho certo?

Como já disse, comecei com as vogais.

– Repete, Sônia: A, E, I, O, U.

– … Aaaa… Oooo… Aaa…

– Não: AEIOU.

– Ooooo…

– Não! AEIOU!

Foram dois dias até ela aprender a falar e a escrever aeiou. Nisso, consumiram-se todos os meus bloquinhos da Zero. Fui à papelaria, comprei cadernos, canetas e livros de alfabetização. Em casa, apresentei-lhe o material e passei ao que supus ser a segunda fase. Escrevi um B:

– Essa é a letra bê, Sônia. Diz: bê.

– Beeee…

– Agora repete: B mais A igual a BÁ.

– B mais A igual a BÁ.

– Bê com A, BÁ.

– Bê com A, BÁ.

– Bê com E; BÊ, Bê com I, BI; Bê com Ó, BÓ; Bê com U, BU. Repete.

Ela repetiu. Fiz com que repetisse dez vezes. Perguntei, enfim:

– Bê com A?

– BÔ!

Levei mais 15 dias para ensinar-lhe as consoantes, como se pronunciam, como escrevê-las e como se combinam com as vogais, formando sílabas. Quinze dias. E, ainda assim, ela vacilava, errava, ficava nervosa, retrocedia para depois avançar de novo. Nesse processo, quem aprendeu fui eu. Vi como o mundo está pronto na cabeça do adulto. E como é difícil de mostrá-lo de outra perspectiva. As letras e as palavras escritas, para Sônia, representavam um código inacessível, um conjunto de imagens que não tinha nada a ver como a realidade dela. Como explicar-lhe que aqueles traços no papel significavam sons?

Não vou negar que algumas vezes me irritei, mas acho que consegui disfarçar minha impaciência. Afinal, o que parecia tão fácil, para mim, era fácil porque eu já sabia. Depois de feito, tudo parece simples, mas é muito complicado construir algo onde não existe nada.

Sofri com Sônia o mês inteiro. E Sônia comigo. Nos últimos dias, ela fitou a placa em frente à casa e balbuciou:

– Ru…a… Ri…o… Rua rio!

Olhei para ela:

– Tu estás lendo, Sônia!

Ela não sabe ler ainda, é óbvio. Terá uma estrada tortuosa pela frente. Mas jurou que não vai desistir. Diz que vai procurar alguém que ensina adultos e garantiu que nesse mês mesmo fará as primeiras aulas. Fiquei feliz. Talvez essa temporada praiana tenha servido para algo mais do que distrair os leitores. Talvez tenha ajudado a formar uma leitora. Contei-lhe que ia escrever sobre ela. Escrevi. Quis ler o texto em voz alta. Sônia não deixou. Perguntei por que. Ela sorriu e explicou:

– Outro dia eu mesma leio.


Jô da Praia

Nome: Carolina Maciel Vieira
Idade: 32 anos
Cidade: Guaíba
Praia: Capão da Canoa
Time: Grêmio
Hobby: Curtir a praia

A arte de comer picolé de chocolate

29 de janeiro de 2011 5

Você já viu um menino de três anos de idade comendo picolé de chocolate na praia?

Um desastre.

Picolé de chocolate derrete com líquida facilidade. Muito cremoso. E a praia tem vento e sol em abundância, o que faz derreter com ainda maior rapidez os picolés de chocolate.

O problema é que tenho um menino de três anos de idade que só quer comer picolé de chocolate, não aceita nenhum outro menos derretível.

Então é aquilo:

– Papai, me dá um picolé?

– Tcherto. Que tal um picolé de uva?

– Não. Eu quero de chocolate.

– E coco? Coco é tão bom… Adoro tudo com coco. Cocada, doce de coco, quindim…

– Quero de chocolate.

– Tangerina? Sabia que tangerina é o mesmo que bergamota?

– Chocolate!

Aí é aquela lambuzeira. O guri fica todo melado de chocolate, é chocolate na testa, no cabelo, nas bochechas e no nariz, chocolate escorrendo pelo queixo abaixo, chocolate no pescoço, no peito e na barriga, tem chocolate até nas pernas. Como pode um picolé tão pequeno conter tanto chocolate??? Vou reclamar com a fábrica.

Depois de toda essa melecação, sempre tento levá-lo para se lavar no mar, mas alguns meninos de três anos de idade, além de ter adoração por picolé de chocolate, têm medo das ondas. O meu não entra no mar de jeito nenhum. Quer dizer: dá o maior trabalho carregá-lo até o chuveirinho da rua, lá adiante, até porque tenho que pegá-lo no colo no meio do trajeto, o que faz com que eu também fique melecado de chocolate.

Agora mesmo, lá estávamos nós na areia da praia, e o Bernardo, ao ver o carrinho do sorveteiro, não se limitou a pedir um picolé: disparou atrás, pegou a corneta do homem, começou a apertá-la, fazendo todo mundo rir. Fui lá.

– Quer um picolé de limão, filhinho?

– Não. Quero de chocolate.

– E melão? Tem de melão, moço?

– CHOCOLATE!

– O problema do picolé de chocolate é que derrete e te deixa todo melecado. Aí vêm as abelhas.

Ele me olhou. O sorveteiro também me olhou.

– Abelhas? – perguntou o Bernardo.

– É. Aqui na Orla há milhares de abelhas. Milhões, até. A Orla é assim. E elas adoram doce. Sempre atacam quem está lambuzado de doce, sobretudo de chocolate. É horrível.

– Holível?

– É. Até porque essas abelhas daqui são abelhas assassinas.

O sorveteiro arregalou os olhos. O Bernardo também.

– Abelhas… assassinas??? – espantou-se ele.

– Assassinas! Muitos já foram mortos por elas. Morrem embolotados como se fossem pizzas de calabresa gigantes.

Nesse ponto, o Bernardo sorriu. Depois riu. Por fim, emitiu uma gargalhadinha de três anos de idade. E concluiu, usando a forma de tratamento que aprendeu na TV:

– Você é englaçado, papai…

Preciso admitir duas coisas:

Coisa número 1: meu filho me conhece.

Coisa número 2: ele mereceu aquele maldito picolé de chocolate.


Letras na Areia

O melhor livro sobre futebol já escrito no Brasil em todos os tempos é O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho, o irmão de Nelson Rodrigues, o homem que empresta o nome ao Maracanã. O Negro no Futebol Brasileiro, além de ser escrito em texto saboroso, é um documento sobre a evolução do futebol, do jogador e do torcedor no Brasil. Leia-o, e você compreenderá um pouco do que se passa na cabeça dos irmãos dos jogadores de hoje.


Jô da praia

- Nome: Francine Barcellos da Silva

- Idade: 18 anos

- Cidade: Novo Hamburgo

- Praia: Imbé

- Time: Inter

- Hobby: Dançar e ler

O nome que a praia não deve ter

28 de janeiro de 2011 4

Arroio dos Ratos deve ser uma terra de delícias inefáveis, a população ordeira e trabalhadora de Arroio dos Ratos deve ser isso mesmo, ordeira e trabalhadora. Mas, tortura-me confessar, não gosto do nome “Arroio dos Ratos”. Fico imaginando um fio d’água do qual são vomitadas ratazanas que infestam as ruas da cidade e escalam as pernas de seus moradores.

Ratos, em geral, não são animais simpáticos, com exceção do Mickey, do Jerry e do Super-Mouse. Por que botaram esse nome no lugar? Arroio dos Ratos. Talvez haja por aí uma Colina dos Vermes ou um Vale das Baratas, vá saber. Mas não devia. O nome não dá a entender que o local seja agradável de se morar, embora bem saiba, repito e torno a repetir, que Arroio dos Ratos é um município aprazível e hospitaleiro, a Terra da Melancia, adoro melancia e os arroio-ratenses todos, sem exceção.

Mas o nome, francamente.

Assim como o nome de certas praias. Existem, pela Orla, outros arroios: Arroio do Sal, Arroio Seco e Arroio Teixeira. Arroio? Por que não usaram Regato ou Córrego? “Regato do Sal”. “Córrego Seco”. Muito mais poético. Arroio é quase o contrário de mar, principalmente Arroio Seco, já que o mar é tudo, menos seco. Aliás, e o Teixeira? Quem foi o Teixeira que virou cidade?

Francamente.

Praias têm de ter nomes suaves. Há uma “Praia Menina”. Pode haver algo mais delicado? Há uma “Praia Azul”, e lá não deve fazer mau tempo. Mesmo a “Praia da Solidão” tem um nome triste, mas musical. Agora, a minha preferida fica aqui pertinho: Remanso. Esse é um nome de praia! Fui a um churrasco na casa do Kadão, ali no Remanso, e me senti muito bem. Na hora em que cruzamos da Paraguassu para lá o fotógrafo Jefferson Bottega anunciou:

– Chegamos a Remanso.

Juro que ouvi passarinhos gorjeando e que as nuvens se abriram para deixar a luz da lua passar.

O Kadão, nosso anfitrião, é o chefe da fotografia da Zero. Preparou uma picanha que se cortava com colher, e a sogra dele fez um aipim com cebola frita que dava vontade de chorar, de tão bom. Naquela noite, provei o melhor aipim da minha vida. Trata-se de uma receita da Fronteira, informou ela. Uma receita campeira. Mas combinou com a praia. Combinou com Remanso. Eu combino com Remanso. Voltarei, Kadão.


Três coisas que um praiano não deve fazer

Nesta temporada na Orla, aprendi algumas regras básicas de comportamento à beira-mar. São curtas e simples, porém indispensáveis. Ei-las:

1 – Um praiano que esteja serelepeando pela Orla em busca de aventuras amorosas não deve jamais abordar uma mulher sentada, mesmo que ela vista apenas um biquíni de lacinho desse tamanhinho.

Lembre-se: uma mulher sentada pode enganar como um irmão de jogador de futebol. Você chega, ela se levanta e, surpresa!, virou uma abóbora de pescoço.

2 – Um praiano não deve passar protetor solar nas costas do amigo, mesmo que ele seja branquicela e vá queimar o lombo irremediavelmente. Se o amigo brancão pedir:

– Passa protetor nas minhas cuooostas?…

O praiano deve responder:

– Vai molê…

3 – Agora o ponto mais importante: um praiano não deve colocar as mãos nos bolsos quando estiver na areia. Jamais! Praianas desprezam homens com mãos nos bolsos na areia.


- Nome: Daiana Fraga Menezes

- Idade: 23 anos

- Cidade: Viamão

- Praia: Joaquina (SC)

- Time: Grêmio

- Hobby: sandboard


Definidos os prêmios para a Jô da Praia

28 de janeiro de 2011 5

Recebi indagorinha o seguinte email do gerente de publicidade e marketing das Lojas Lebes, Rodrigo Fryga:

“A Lebes dará um banho de loja na “Jô da Praia”. Com ajuda de uma produtora de moda, iremos dar um look completo a contemplada:

Roupa completa – parte de cima (blusa), e parte de baixo (calça, short) dependendo da produção.
Calçado
Relógio

Junto com isso, faremos uma seção de fotos onde posteriormente daremos a ela um book feito pelo fotógrafo oficial da Lebes, Rogério Silveira”.

A votação da Jô da Praia começará a partir de terça-feira, quando se encerra minha temporada praiana.

Dois garçons praianos

27 de janeiro de 2011 0

Dois garçons praianos – 1

Eu não queria casquinha de siri. Queria um bife suculento de quatro dedos de altura e batatas douradas como as loiras que se repoltreiam em Atlântida. Queria uma bebida forte para tirar a poeira da garganta, talvez um bourbon. Sim, eu vinha de longe, vinha das montanhas, e me sentia como Tex Willer chegando a um saloon do Kansas. Foi o que disse para o garçom:

– Quero um bife de quatro dedos de altura, meu bom rapaz. E uma bebida forte para tirar a poeira da garganta.

Mas o garçom me olhou e rebateu:

– Nada disso. O senhor vai comer casquinha de siri.

Com mil tatuíras! O que aquele fedelho, biltre, sacripanta, beleguim estava pensando? Eu não queria casquinha de siri. Mas ele argumentou:

– Se a casquinha de siri não estiver ótima, se não for a melhor casquinha de siri que o senhor já comeu, não precisa pagar. Eu pago com meu dinheiro.

Pisquei. Encarei-o. Ele sustentou o olhar, desafiador. Seria verdade? Estaria eu prestes a provar a melhor casquinha de siri dos meus dias praianos? Resolvi aceder:

– Muito bem, meu bom rapaz: casquinha de siri. E uma cerveja gelada como o coração das mulheres de pernas longas e saias curtas que mariposejam pelo litoral.

Mas ele:

– Não. O senhor vai provar uma caipirinha de vodca que eu mesmo faço, com as minhas mãos.

Era mesmo muito atrevimento daquele safardana. Mas cedi outra vez: caipirinha. Ele se foi para a zona cinzenta dos fundos do restaurante. Voltou de lá com uma gorda casquinha de siri e um copo verde-claro de caipirinha. Fez com que aterrissassem a 10 centímetros do meu peito. E ficou de pé ao lado da mesa, esperando o veredicto. Enfiei o garfo na casquinha de siri. Mastiguei um bocado. Virei-me para o garçom. Ele ergueu as sobrancelhas, expectante.

– Não será desta vez que você pagará por uma casquinha de siri, meu bom rapaz – admiti.

Ele sorriu, vitorioso. Mas não se deu por contente.

– E a caipirinha?

Provei um gole. Balancei a cabeça:

– De fato, meu bom rapaz. De fato…

Só então ele se foi. No dia seguinte, voltei ao lugar. Procurei o dono do restaurante, que já conhecia, o Régis Trevisani. Disse-lhe:

– Você tem aí um garçom que sabe das coisas.

Ele:

– Já sei: o Cléder. Um bom rapaz.

Balancei a cabeça:

– Um bom rapaz…


Dois garçons praianos – 2

Eu e meu amigo Amilton Cavalo nos encontramos para empreender uma vigorosa caminhada pela areia da praia. Após quilômetros de exercício estafante, olhamos para o deque do Villa e pensamos que ali poderia ser o lugar ideal para repor as energias.

– Talvez haja uma sombra reconfortante – disse eu.

– Talvez haja também uma cerveja gelada que nos refresque a alma e os membros doloridos – disse ele.

– Talvez haja ainda um camarãozinho ao bafo temperado com ervas finas – disse eu.

Fomos lá. Sentamo-nos. Ao nosso lado, um homem casado muito conhecido da vida citadina tentava seduzir uma garota de joelhos redondos e dedos de tocadora de cítara (sim, há homens que traem na Orla, embora sejam raros). Ela se levantou por um momento, creio que para ir ao banheiro. Foi-se, ondulando. O homem chamou o garçom e perguntou:

– Conto com sua discrição?

O garçom aprumou-se atrás de seus óculos escuros e sentenciou:

– Meu nome é Alex. Tenho olhos e não vejo, tenho ouvidos e não ouço, tenho boca e não falo. Aqui eu sou como um padre no confessionário. Sou profissional.

Eu e o Amilton nos entreolhamos.

– Ei! Alex! – chamei.

Ele se aproximou.

– O que você sugere para dois homens cansados da lida praiana?

Alex não hesitou:

– Uma cerveja tão gelada que vai fazer seus dentes doerem. Um prato de camarão ao bafo temperado com ervas finas.

Eu e o Amilton nos entreolhamos outra vez. Alex. Ali estava, re-al-men-te, um profissional.

- Nome: Maiquele Angeli

- Idade: 19 anos

- Cidade: Novo Hamburgo

- Praia: Capão da Canoa

- Time: Grêmio

- Hobby: Sair para dançar

A Jô das Jôs da Praia

27 de janeiro de 2011 0

Atenção Jôs da Praia!

As Lojas Lebes vão dar um presente para a Jô das Jôs da Praia.

A menina que for escolhida pelos leitores do blog como a mais linda de todas as clicadas pela coluna na Orla em janeiro vai ganhar um banho de loja da Lebes, assessorada por uma produtora de moda.

Vai ganhar também um book feito pelos profissionais da empresa.

E outros presentes mais, que anunciarei no devido tempo.

A Jô das Jôs da Praia será escolhida a partir de fevereiro pelos leitores do blog!

Zé Pedro e o Caso Jonas

27 de janeiro de 2011 37


Meu amigo José Pedro Goulart, cineasta, publicitário, jornalista, cronista e torcedor do Grêmio, escreveu ontem um texto muito parecido com o que publiquei no blog sobre o Caso Jonas. Ele o publicou no Terra Magazine.

São textos semelhantes sobretudo no conceito. O do Zé Pedro grita um desejo de mudança que me agrada. Vai além da simples revolta com a questão ética. Propõe uma nova forma de se fazer futebol. Pedi permissão ao Zé Pedro para reproduzi-lo aqui.

Ei-lo:

“Cala boca, torcedor!

 

Atenção leitor, esta não é uma coluna de esportes. Se você por acaso leu a minha última, sobre o Ronaldinho, pode ficar com essa impressão. Mas garanto que só volto ao tema pelas circunstâncias. É que o Jonas, atacante do Grêmio (sim, novamente o Grêmio), deixou os clube como quis e ainda mandou que a torcida calasse a boca na última vez em que jogou pelo time.

 

Cabe esclarecer quem é o Jonas para um passante desavisado: não, ele não é um Ronaldinho, um Ronaldo, menos ainda um Renato. Por outro lado, sim, ele foi o goleador do último Campeonato Brasileiro, jogando pelo Grêmio, pago pelo Grêmio, recebendo passes de jogadores do Grêmio, festejado, estimulado pela torcida do Grêmio.

 

Pois o Jonas saiu. E saiu, como dito, arrumando uma briga oportunista com a torcida, com o dedo na boca num gesto de quem exige silencio: calem-se! E ainda chutou a bola em direção aos pagantes – um ator que joga o sapato na platéia. Depois do jogo, saiu de cena e mergulhou num covarde silêncio.

 

Eu aqui não quero falar do Jonas, do contrato mal elaborado, mal proposto por quem assinou pelo clube. Eu aceito as condições que lhe dão o direito de fazer o que bem quiser – e ele que faça as contas com a sua consciência.

 

Eu quero apenas me dirigir ao torcedor de futebol no Brasil. Seja do Flamengo, Corinthians, Fluminense, Palmeiras, Vasco, Santos, São Paulo, Bahia, Botafogo, Cruzeiro, Atléticos, do Olaria, Bangu, enfim, e do Inter e do Grêmio, claro. Vocês sabem por quem estamos torcendo? Vocês sabem afinal qual é a nossa parte nessa cantoria desafinada?

 

Somos um número – um bilionésimo número depois da vírgula.

 

Aquela herança afetiva de quando íamos ao jogo, levados pela mão do nosso pai, avô, tio. Aquela lendária história contada e recontada sobre o goleiro que morreu ao defender um pênalti decisivo, ou sobre o atacante que jogou com o pé quebrado. Tudo isso virou farofa nostálgica com pitadas de pieguice, polvilhada de um romantismo tolo.

 

Não bastasse o único apelo da grana para um jogador jogar num clube hoje em dia, com trocas de camisas e beijos em distintivos diferentes a cada ano, a Seleção privilegia os que jogam fora – estimulando ainda mais o êxodo.

Basta. Chega. Que se convoque jogadores daqui e ponto, como forma de garantir algum interesse. “Tupy or not tupy!”.

 

Que se façam jogos em horários humanos, mesmo que interfiram na novela das 8. Que seja devolvido um aspecto perto do original às camisetas, privilegiando as cores, os distintivos: os jogadores de hoje parecem homens-sanduíches, verdadeiros ambulantes de propaganda

 

Todos sabemos do mundo corporativo. Da necessidade de ganhos. Mas qual é o fim disso, afinal? Quais os limites? Uma fábula cuja moral é sempre invertida? Cadê os mocinhos, os heróis, os autênticos? Onde se pode achar um pouco de amadorismo no meio dessa indecente busca de resultados? Até quando vamos freqüentar um circo onde os palhaços ficam nas arquibancadas?

 

Pois bem.

 

Nós que deixamos a filha de sete em casa no domingo, ignoramos o lazer da família, botamos a grana – que muitas vezes faz falta – no clube; que destinamos nossa audiência, nossa paixão e tudo isso com uma fidelidade de cachorro. Nós que enfrentamos estádios sujos, banheiros podres, violência nas ruas. Nós que suportamos o frio, a chuva ou a vergonha de uma derrota, avisamos:

 

Nunca, sob nenhuma hipótese, aceitaremos que um outro jogador – seja milionário, craque ou perna de pau, nos mande calar a boca.

 

O resto nós ainda vamos discutir.”


Twitter: ZPgoulart




Crônicas não lidas

26 de janeiro de 2011 2

Recebi ontem um email que me emocionou. Não por ser-me elogioso, mas por falar da relação entre pai e filho, cara para mim, eu que passo a temporada praiana com meu filhinho. Ei-lo:

“Meu nome é Rodrigo Edres Antonelo. Tive o primeiro contato com as crônicas de David Coimbra em meados de 2002, pela Zero Hora. Minha identificação foi à primeira vista. Meu pai, Dirlei, falecido em 13 de novembro de 2006, naquela época acompanhou esse meu interesse pelas tuas crônicas. Eu estava na escola de especialistas de aeronáutica, no interior de São Paulo, e em umas férias que vim para casa (Gravataí), meu pai me presenteou com um livro intitulado “Crônicas da selvageria ocidental” – o livro mais perfeito que tinha lido até então.

Meu pai, vendo minha empolgação com o livro, passou a recortar todas as tuas crônicas e a guardar em um envelope. Como meu pai sempre foi muito organizado, recortou até a tua foto e colou no envelope. Toda vez que eu descia de férias, ele me entregava aquele envelope cheio de páginas da Zero com crônicas de David Coimbra, e eu passava horas e horas lendo.

Em novembro de 2006, quando vim para o velório do meu pai, achei na gaveta do armário dele outro envelope com o teu rosto colado e cheio de crônicas.

Admito que até hoje não li nenhuma crônica deste último envelope organizado pelo meu pai. Não sei por quê. Talvez por medo de que, depois de lê-lo, tenha a certeza de que meu pai nunca mais me dará outro envelope que fazia com tanto carinho.

O certo é que não preciso de nada em especial para lembrar de meu pai, mas quando leio tuas crônicas ou teus livros o pensamento no meu velho pai é imediato. Queria dizer que teu trabalho é sensacional e me faz sentir mais perto do meu pai.

Obrigado”.

Jô da praia

- Nome: Jeniffer da Silva Monteiro

- Idade: 18 anos

- Cidade: Capão da Canoa

- Praia: Capão da Canoa

– Time:
Grêmio

- Hobby: Ir a barzinhos com os amigos

Para você, otário

26 de janeiro de 2011 136

Quero escrever agora para você colorado, você gremista, você palmeirense, você flamenguista, você torcedor de futebol.

Você é um otário.

Faz tempo que sei disso, mas só agora, depois do Caso Jonas, resolvi me manifestar e dizer a verdade. A verdade é que você é um trouxa.

Você discute com seu amigo por causa de futebol, ofende o juiz, insulta o jornalista, você passa a noite sem dormir, sonha acordado com um novo centroavante, vai ao aeroporto para recebê-lo, pula de alegria na Goethe, rasga de raiva o jornal, viaja atrás do time, vê jogo na chuva.

Você é muito burro. Eles não estão nem aí para você. Eles se dizem “profissionais”. Mentira. Um profissional de verdade é um amador. Porque faz as coisas com amor. Porque seus valores são mais do que valores monetários. Ele quer ser recompensado, sim, mas por um trabalho digno, tratando os outros com dignidade, sendo ele próprio digno e reto. Sendo um homem de verdade.

Jonas e Ronaldinho são símbolos desse profissionalismo que não é profissional. Dessa imoralidade em que se transformou o futebol. Jonas, antes de ir embora sem nem dar explicação, xingou a torcida. Perfeito! Naquele momento, ele foi verdadeiro.

Ele queria dizer isso mesmo. Queria dizer como você é otário, burro, trouxa. Você que paga ingresso, compra camiseta, dá audiência.

Idiota, é o que você é.

Eu, como alguém que volta e meia escrevo sobre essa atividade econômica, que é o futebol, eu lhe sugiro: gaste sua energia e seu tempo com outra atividade. Leia um livro, assista a um bom filme, vá a uma peça de teatro, saia com os amigos, ame sua mulher, brinque com seu filho ou até jogue bola. Mas não seja mais otário.

A morena e o buldogue

26 de janeiro de 2011 1

Tarde dessas, aqui em Atlântida, uma morena desdobrou sua cadeirinha de alumínio e a remontou como se fosse uma maca. Então, estendeu-se de bruços para ser untada pelo sol. Bem. Ela usava um biquíni pequeno. Era um biquíni re-al-men-te pequeno. E ela tinha longas pernas da cor do caramelo terminadas por uma região glútea muito… (como direi para não chocar a pudicícia dos leitores?) muito redonda e pronunciada e também aparentemente rija.

Ocorre que, ao lado dessa morena, sentado na areia como se fosse um buldogue, estava um sujeito grande. Era um sujeito re-al-men-te grande. Ele havia apoiado os cotovelos nos joelhos e fincado os calcanhares na areia. Não era uma pose ameaçadora, mas ELE era ameaçador. Tinha umas bolotas de músculos nos braços e umas bolotas de músculos no peito e um pescoço com o diâmetro de uma panela de pressão.

Tratava-se, é evidente, do namorado ou noivo ou marido ou coisa pior da morena deitada de bruços.

Estabeleceu-se uma situação embaraçosa. Porque a morena, devido à sua compleição física e à maneira como se estirou na cadeira, chamava o olhar dos vizinhos e dos passantes. Sua já referida região glútea destacava-se, inclusive à distância, como um gentil outeiro que clamasse por ser escalado e explorado. Só que, a palmo e meio dela, vigiava aquele brutamontes. Como matar a fome do olhar sem provocar a reação furiosa do monstro?

Notei a aflição dos homens do entorno, como eles tentavam olhar à sorrelfa e eu mesmo, confesso, eu mesmo me sentia compelido a dar uma boa olhada na cena, mas, como os outros, mas me contive. Caras grandões às vezes são muito suscetíveis com assuntos que envolvam suas mulheres deitadas de bruços em cadeirinhas de alumínio na praia.

Fiquei, pois, a contemplar o oceano proceloso. Fixei o olhar em algum ponto onde deve estar a África e pensei em Durban, onde viveu o poeta Fernando Pessoa e onde há uma praia infestada de tubarões tão perigosos quanto o noivo da morena.

Aí deu-se a cena. Uma esposa refestelada sobre uma canga multicor rosnou para o esposo refestelado numa cadeirinha amarela:

– Não vai parar de olhar para o pé dela?

O marido gemeu:

– Eu não tô olhando…

– Tá, sim! Tu não para de olhar para o pé dela! Pensa que não vi???

O homem suspirou.

– Não tô…

– Tá, sim! Para de olhar para o pé dela! Odeio isso!

O pobre coitado me imitou: mirou o horizonte na direção da mãe África, resignado. Olhei para ele: parecia um tipo normal. Olhei para o pé da morena: um bom pé, mas também um pé normal. Voltei a fitar o mar, pensando comigo mesmo: ah, os mistérios insondáveis da vida praiana…


Tomar banho com uma mulher

25 de janeiro de 2011 3

O Bernardo nunca havia tomado banho nu com uma mulher. Tomou agora, na Orla – na Orla acontecem essas coisas.

Chama-se Antônia.

Sim, bem sei que ele já rolou na areia com Betina, semanas atrás. Bem sei que Gabi, a pequena nissei, espera por ele em Porto Alegre, mas, como disse, na Orla acontecem essas coisas. As mulheres se soltam, por aqui. Natural, estão com pouca roupa e o calor, já sabemos, malemolece.

Inclusive há uma moreninha mais velha do que ele, uns quatro anos de idade, todas as tardes ela passa de bicicleta pela frente da nossa casa e joga charme pelas frestas da cerca de tela. O Bernardo fica olhando. Um dia ele tomou coragem e a chamou:

– Quer brincar de castelo mal-assombrado?

Mas ela empinou o nariz e se foi, pedalando. Esnobe.

Com Antônia o Bernardo teve mais sorte. Estava dentro de uma piscina de borracha do tamanho de um pneu de caminhão, com o desenho do Homem-Aranha no fundo. Há uns dois anos ele tinha medo desse Homem-Aranha. Agora, não. Agora ele anda destemido. Quando ela chegou, encontrava-se nu, chapinhando na água. Viu-a e acenou:

– Vem!

Antônia agitou-se toda no colo da mãe. Em um minuto, os dois, completamente desnudos, banhavam-se na piscina e disputavam um barquinho amarelo e azul de plástico.

Antônia tem um ano e oito meses, é de poucas palavras. Quer dizer, a diversão não durou muito. Logo o convidei:

– Quer tomar banho de chuveiro com o papai?

– Quero!

Fomos.

No box, falando de homem para homem, Bernardo comentou:

– Ela não tem tico.

– Não…

– Tem perereca, não é?

– Tem…

– Nós temos tico.

– Temos…

– Os meninos têm tico.

– Isso…

– Temos tico!

– Sim.

– Tico! Nós temos tico! – estava empolgado. Fiquei olhando.

– Temos tico! – ele repetiu. – Tico! – agora gritava. – TEMOS TICO! – E gritou ainda mais alto: – Os meninos têm tico! Tico! Nós temos tico! Olha o meu tico! – e apontava com os dois indicadores para o dito cujo. – Eu tenho tico! Olha o meu tico! Tenho tico! TICO! TICO! TIIIIIICO!

Não sou psicólogo, mas tenho certeza de que o momento representou alguma passagem de fase importante para o meu Pocolino. Na Orla acontecem essas coisas.


Letras na Areia

Moby Dick não é um livro de praia; é um livro de mar.

Um dos grandes romances da minha vida. Um dos maiores clássicos da literatura universal. Rendeu também um filmaço de John Huston. Vivia dando na Sessão da Tarde. Gregory Peck no papel do torturado capitão Ahab é imbatível, e a cena final é antológica.

Por ironia, Moby Dick liquidou com a carreira do seu autor, Herman Melville. Seus contemporâneos odiaram o livro. Depois da publicação, os editores passaram a recusar suas novas obras. Melville morreu esquecido e pobre. O jornal da sua cidade, o New York Times, publicou seu nome errado no obituário: em vez de Herman, Henry.

Como ocorre com muitas das mais grandiosas obras de arte, Moby Dick aos poucos foi sendo compreendida, aos poucos foi sendo absorvida e, depois da morte de seu autor, se consagrou.

Procure agora uma edição adaptada para o português e deguste-a sob o guarda-sol. Você não vai se arrepender.


Jô da praia

- Nome: Marina Konig Vitola

- Idade: 21 anos

- Cidade: Capão da Canoa

– Praia:
Atlântida

- Time: Grêmio

- Hobby: Sair com os amigos


Meu amigo jornalista

25 de janeiro de 2011 2

Meu amigo jornalista não sabia falar inglês e estava em uma cobertura internacional. Ouça aí o que contei no Pretinho Básico.

O caso Jonas no Pretinho

25 de janeiro de 2011 6

Escute aí o que comentamos sobre a saída de Jonas do Grêmio no Pretinho Básico de ontem.

Refugiados de Chávez

25 de janeiro de 2011 2

Aí vai mais um artigo da correspondente do blog na Venezuela, a minha amiga Yelitza Linares, competente jornalista de Caracas.

Como se fossem dois apresentadores de um programa de televisão, o vice-presidente da Venezuela, Elias Jaua, recebe por um sinal de microondas, o Presidente da República, Hugo Chávez. A transmissão oficial passa por rádio e TV. Hora? 18h.

“Obrigado, presidente”, disse Jaua. “Aqui estamos no quarto andar, sede da Vice-Presidência, onde construímos alguns apartamentos para abrigar 29 famílias.”

Chávez, do outro lado, mostra as 25 “casas-abrigo” que foram construídas na Praça Bicentenária do Palácio de Miraflores para receber um número igual de famílias desabrigadas, que perderam suas casas em consequência das fortes chuvas em Caracas no início de dezembro.

Mais de 130 mil pessoas abandonaram suas residências porque estavam em perigo. Oito estados declararam situação de emergência devido aos danos causados pela chuva.

A maioria dos afetados foram transferidos inicialmente para escolas, onde permaneceram até 10 de janeiro, quando as aulas recomeçaram.

Mas o seu destino não foi o habitual. No final de 2010, Chávez surpreendeu mais uma vez quando pediu a ministros que sigam seu exemplo e abram espaço para os desabrigados, por tempo indefinido, nos escritórios do governo.

Desde então, funcionários compartilham escritórios com flagelados, muitos deles crianças.

Ministérios, o Banco Central da Venezuela, a Assembleia Nacional, museus, centros esportivos, hospitais, estações ferroviárias, entre outros, cederam os locais em que antes estavam computadores e arquivos para abrigar camas ou colchões, instalar banheiros, banheiras e cozinhas.

O setor privado também deve colaborar. Proprietários de redes hoteleiras foram intimados pelo governo a destinar uma parte de seus quartos aos desabrigados.

Alfredo Urbano foi um dos beneficiados pela medida, junto com sua família e vizinhos. Em 27 de novembro, teve que deixar sua casa, localizada na parte mais alta de Carapita (periferia do estado de Miranda), porque o morro cedeu e várias propriedades do local desmoronaram.

Logo depois de recorrer a abrigos por vários dias, sua família foi recebida no 7º andar da sede do Banco de Venezuela, na avenida Urdaneta, onde funciona uma agência bancária. Nos outros seis andares estão escritórios administrativos.

Por ser funcionário da instituição, Urbano tem o privilégio de compartilhar a unidade, mais segura, com outras 17 famílias.

“Aqui estamos mais tranquilos. No abrigo anterior, não tínhamos nenhuma privacidade e tínhamos que lidar com pessoas violentas e armadas”, comenta.

A vida conjunta os levou a se organizarem em comissões, que eram responsáveis por alimentos, limpeza, segurança, logística, entre outros.

Esse também é o caso de Carlos May e sua família, que dormem desde 10 de janeiro em camas improvisadas no quinto andar do Ministério da Educação.

Nos corredores do mezanino e em outros três níveis do prédio, acomodações foram instaladas para 120 pessoas que tiveram que abandonar residências na antiga estrada Petare-Guarenas.

“Nada como ter uma casa própria, mas aqui nos sentimos melhor”, expressa May.

Os flagelados se diferenciam dos trabalhadores por braceletes e cumprem normas de segurança impostas pelos departamentos de governo: eles têm horários restritos para sair e entrar, para tomar banho e não podem circular pelos corredores durante o expediente. Isso não impede que se cruzem com funcionários públicos.

Entre os trabalhadores dessas unidades foram criados, por ordens de seus superiores, comitês de apoio que se encarregam de organizar a distribuição de comida e de materiais de higiene pessoal (que na maioria das vezes são doados pelo governo ou pelos próprios funcionários).

Mas a implantação desta população afetada na rotina da administração pública tem provocado conflitos em algumas unidades.

Na semana passada, os funcionários do Ministério das Relações Exteriores protestaram porque foram descontados 10% de seus salários para ajudar as vítimas, em um ato de “solidariedade forçada”, como eles mesmo chamaram. O dinheiro finalmente foi devolvido, ante a manifestação que tomou as ruas.

O arquiteto Marco Negrón questiona a improvisação com que se está enfrentando o problema e a qualifica de “absurdo”. Em um programa da rádio Circuito Unión, argumentava que a resposta oficial é apenas um reflexo da falta de previsão para resolver os casos e que se evidencia a falta de abrigos e moradias.

O governo só construiu 290 mil casas em 12 anos de gestão, segundo dados do Centro de Pesquisas Econômicas, e precisa de, pelos menos, 2,5 milhões.

Somado a isso está o mercado de aluguel de imóveis, cujas ofertas diminuiram oito vezes durante o mandato de Chávez, como consequência do congelamento da renda.

Negrón disse que o país não tem capacidade para construir um conjunto habitacional prometido agora pelo governo, porque o setor está desmantelado.

Chávez anunciou esta semana que irá erguer, com a ajuda dos russos, 40 mil casas na base militar de Fuerte Tiuna, em Caracas.

Também firmou o Decreto de Lei Especial para Abrigos Dignos, o primeiro aprovado no âmbito da Lei Habitante, que lhe dotou de amplos poderes para legislar nesta e outras matérias.

A Assembleia Nacional anterior (que era formada, em sua maioria, por deputados governistas) lhe cedeu em dezembro este poder, que poderá administrar por um ano e meio, quase o que lhe resta de mandato.

A lei lhe permite legislar para atender a tarefa urgente que tem o presidente de realocar os refugiados e oferecer-lhes a oportunidade de ter uma casa. Mas Chávez tem utilizado outras medidas que promovem a anarquia na capital.

“Aqui nos organizamos e criamos comitês de habitação”, explica Carlos May, refugiado no departamento de Educação. “Temos nosso projeto e terreno”. Quando questionado qual terreno, silencia.

A verdade é que obedece a uma ordem presidencial, dada na quinta-feira em emissoras de rádio e TV. “… todo aquele que busca suas casas, que Chávez os desapropriará”. Há 1 mil residências abandonadas, 2 mil em Caracas. Embora a burguesia diga o que diga, a revolução avança. O que queremos é que o povo seja o mestre do vale e não os burgueses.

Nessa mesma noite, houve duas tentativas de invasão na Paróquia de São Pedro por parte de grupos de pessoas que admitiram não ser flagelados, mas que tinham necessidade de ter uma casa própria, “porque vivemos na superlotação”, expressaram.

Na madrugada seguinte (sábado), houve ocupações massivas de 20 terrenos em Chacao – um bairro de classe média. Ao amanhecer, moradores protestaram nas ruas por causa dessas invasões, e o prefeito do departamento teve de negociar a retirada da população que tomou as terras, e o ministro do Interior e Justiça apareceu na mídia para “esclarecer” que a ordem do chefe de Estado foi “identificar os terrenos abandonados, não ocupados”.

Esta história agitada continuará…