O Fernando Carvalho prepara uma costela campeã do mundo. Por Deus. Repare: não sou um entusiasta de costelas. A maioria dos meus amigos se revolta quando digo isso.
“Não espalha, David. É até vergonhoso...”.
Não me importo com o que possam pensar de mim. Podem duvidar da minha masculinidade, dizer que não sou gaúcho e talicoisa. A verdade é que prefiro a picanha, com suas fibras perfeitas e sua carne tenra. Só que a costela que o Fernando Carvalho prepara é diferente. Ele faz uma incisão num extremo da peça e retira a capa de gordura. Depois, deposita amorosamente a tira de carne no fogo e vai dourando-a com critério, sem pressa, como um time que está vencendo toca a bola para passar o tempo.
Essa costela campeã do mundo eu a provei num churrasco que o Fernando Carvalho me ofereceu em sua casa num dos condomínios aqui do litoral. Trata-se de uma bela casa, com uma bela churrasqueira. Mais: com DUAS belas churrasqueiras. Essa noite, o Fernando me recebeu na churrasqueira interna, de avental pendurado no pescoço e espeto na mão, como um espadachim. Sentei-me ao balcão de mármore e ele colocou na minha frente uma garrafa de cerveja uruguaia com o casco branco de tão gelada.
– Uuuh... – exclamei em saudação. Sempre faço uuuh quando vejo uma cerveja branca de tão gelada.
– Com esse churrasco, são dois – contabilizou ele.
São dois que estou lhe devendo. Um por cortesia de amigo; outro devido a uma aposta perdida. Uma noite, lembramos do campeonato de 75, quando o Inter foi heptacampeão. Disse-lhe que recordava pormenores do Gre-Nal decisivo. Descrevi: aos sete minutos do segundo tempo da prorrogação, o Valdomiro pegou a bola pela direita e atirou para frente, na sua jogada típica. Passou pelo Jorge Tabajara como se alguém tivesse aparafusado o Jorge Tabajara na grama. Foi-se para a linha de fundo. De lá, cruzou para trás. A bola, violenta, venenosa, bateu no pé do Ancheta e foi em direção ao gol. Chocou-se com o peito do Picasso e voltou para o meio da área, na marca do pênalti. Lá estava o Flávio Minuano, o Flávio Bicudo. Só que de costas para o gol. Mas ele fincou a chuteira esquerda na grama, girou o corpo e chutou com a direita. Gol. O gol do título. Terminado o jogo, o Tabajara quicou a bola na grama e balbuciou, sorrindo:
– Um a zero...
Foi o fim do Tabajara no Grêmio.
Pois disse que aquele Gre-Nal era o decisivo do campeonato. O Fernando disse que era o Gre-Nal decisivo do turno. Apostamos. Perdi.
No churrasco à beira da churrasqueira da casa dele na praia, voltamos a falar do Gre-Nal de 75. E lembramos que, além do Tabajara, houve outros jogadores para os quais o Gre-Nal foi o seu fim.
– O Breno – lembrei, enquanto me servia de mais cerveja.
O Breno levou um gol de falta do Valdomiro lá de longe, quase do meio do campo. Fazia uma cerração braba, o Breno não enxergou a bola direito, e o Inter ganhou. Foi o fim do Breno.
Antes de a costela ficar pronta, o Fernando serviu uma linguiça fininha, comprada aqui mesmo na Orla. Uma delícia.
– O Claudio Radar – citou ele.
O Radar foi vítima de uma jogada que o Inter tinha: Vacaria, Carpegiani e Lula triangulavam pela esquerda. O Radar ficou no meio deles a tarde inteira, gritando:
– Ajudem! Ajudem!
Ninguém ajudou. O Beto Fuscão estava cuidando do Escurinho, o Beto Bacamarte estava cuidando do Flávio, o Cacau estava cuidando do Falcão. O Inter passou o jogo trocando bola por ali e venceu por 2 a 1. No final, o então governandor Guazzelli comentou, das cadeiras do Olímpico:
– Precisamos de um novo lateral-direito.
Foi o fim do Claudio Radar.
Bebemos mais um pouco de cerveja uruguaia, e a costela ficou pronta. Desmanchava-se sob a língua.
– Nem parece costela! – elogiei. – É um patê!
– Lembra do Benitez? – observou o Fer-nando.
Naquele Gre-Nal em que o Inter entrou todo de vermelho, o Iúra havia aplicado uma voadora no Falcão. Na jogada seguinte, a bola quicou na frente dele, e o Caçapava, louco para revidar, veio que veio rosnando, mas veio e veio e veio brabo que nem um bicho. O Iúra, apavorado com aquele baita negão correndo de dentes rilhados em sua direção, deu um balão, livrou-se da bola. Pois o vento carregou-a direitinho para debaixo do travessão, dentro do gol do Inter. O Grêmio venceu por 4 a 0, o Inter levou 25 anos para se vestir todo de vermelho de novo e foi o fim do Benitez. Pelo menos naquele ano.
E ficamos a nos lembrar de Gre-Nais que foram o fim para um ou para outro e de jogos que foram o começo de tudo e de heróis e vilões de chuteira e foi-se a costela campeã do mundo e foram-se as cervejas uruguaias branquinhas de tão geladas e foi-se a noite. Antes de nos despedirmos, o Fernando Carvalho deu-se ao trabalho de contar quantas cervejas consumimos naquele churrasco em seu condomínio: 10!
Foi o nosso fim.






Quanto puxa-saquismo,hein?!É impressionante como a imprensa gaúcha se coloca de joelhos diante desse Fernando Carvalho.Gostaria de saber qual a utilidade de uma crônica estritamente bajulatória.É por essa ausência de conteúdo relevante que os jornais impressos se tornam cada vez mais dispensáveis.
É David... nao é fácil contentar esse povo. Quando se fala de dupla Grenal no RS parece que tem gente que perde a razão.
Prezado David,
Uns dois dias atrás fiz o comentário abaixo (agora com algumas modificações). Acho que foi um dos melhores comentários da minha lavra publicados aqui, no blog. E foi um dos melhores comentários porque consegui realizar uma crítica destrutiva, destrutiva no bom sentido, óbvio. Só que esse meu comentário foi deletado – acho até que foi por uma falha operacional do sistema. Em razão disso, confiando no altíssimo espírito democrático do teu blog que, aliás, é o melhor do sul do país, reenvio o comentário na certeza de que ele será publicado de novo. Um abraço!
A VIDA QUE EU GOSTARIA DE LEVAR
Já fui assaltado, bem ali, na Rua Dona Laura. Levaram meu carro. Nunca mais o vi. Ainda bem que estava coberto por seguro total. Moro na Zona Sul de Porto Alegre. Para ir, de automóvel, até ao Parcão levo aproximadamente 25 minutos. Faço isso várias vezes por semana eis que gosto de curtir os bares da Rua Padre Chagas. Sexta-feira passada por exemplo, saí de casa por volta das dez horas da noite. Acreditem se quiserem: não cruzei por nenhuma viatura da Brigada Militar.
Nos USA, nas cidades que conheço (New York, Las Vegas, São Francisco e Los Angeles), você não consegue passar cinco minutos, do dia ou da noite, sem cruzar com uma viatura policial. Se formos contar as viaturas discretas, acho que você não passa mais do que três minutos sem o controle delas.
Certa feita, em Los Angeles, por volta das duas horas da madrugada, fui abordado por policiais na Lincoln Ave — com fraquíssimo movimento naquela hora — só porque não sinalizei, com o pisca-pisca esquerdo do automóvel, a mudança da faixa em que eu me encontrava. Os policiais, que estavam numa viatura discreta circulando por ali, mandaram que eu parasse o carro; fizeram eu e minha amiga americana sair do mesmo com os braços levantados; eles nos encaminharam para a calçada; pediram os documentos e a carteira de habilitação (eu tenho uma internacional); disseram que eu ainda não tinha condições de dirigir nos USA porque não conhecia as regras de trânsito deles e, por último, mandaram minha amiga, que tinha carteira de motorista (a famosa “driver licence” deles), assumisse a direção do automóvel e seguisse adiante.
Pergunto: foi uma atitude demasiada dos policiais americanos? Respondo: evidente que não! Lá existe lei e a lei deve ser obedecida.
Mas o fato principal é que às duas horas da madrugada havia uma viatura policial discreta circulando por ali, na Lincoln Ave, com pouquíssimo movimento naquela hora.
E aqui no Brasil? E aqui em Porto Alegre? Durante vinte e cinco minutos a gente circula por aí, numa sexta-feira, e não vê uma única viatura militar. Então, é fácil concluir que esses assaltos, esses roubos de automóveis, uns, inclusive, com morte, que acontecem em nossa cidade (semana passada com duas mortes perto do Shopping Total) não são por acaso. É, simplesmente, falta de policiamento!
E onde estão nossas viaturas e nossos policiais?
Os gatos os comeram!
Ou seja, essa fábula de dinheiro que pagamos nos impostos e que deveriam ser destinados às aquisições de viaturas policiais e à efetivação de um maior número de policiais e melhoria de seus salários, vai para onde? Respondo: vai para o bolso dos senadores, dos deputados, dos vereadores, dos magistrados, da corrupção, das aposentadorias dos ex-governadores, para as horas-extras exageradas dos funcionários públicos, para o aumento da quantidade de cargos públicos, enfim, para a súcia toda aqui não indicada, se é que me entendem?
Enquanto isso, a vida que eu gostaria de levar, que é comer um pão de queijo acompanhado por uma laranjada ali na Padre Chagas e encontrar uma loira de pernas longas, cabeludinhas e bronzeadas e levá-la para minha casa e faturá-la, de cabo à rabo, na banheira do meu AP, que vá a merda, como diria o Lula!
Que vergonha um jornalista profissional se sujeitar a isso. Nome? Conflito de interesses. Por isso elogias tanto o Fefe. Contratação magníficas, dum terceiro reserva da Fiorentina que nem estava jogando, nem banco pega, o tal Bolatti, ao contrario do Escudeiro nem no banco, num time mediano como a Fiorentina, um Goiás ou Avaí da Itália, Deve jogar muitp. Como vcs não informam corretamente, tudo conforme as amizades suspeitas. Vai publicar essa ou vai continuar puxando o saco do Fefe? O que contratou o melhor volante do mundo, o Wilson Mathias e o véio Tingana que eu Gosto.
David, por favor continue nos brindando com suas cronicas, seja de qual assunto for. Para individuos que veem futebol e rivalidade em tudo que leem, deixemos que o tempo se encarregue do amadurece-los e abrande seus rancores. Ah, espero tua cronica sobre o fim futebolistico do fenomeno, o grande craque da minha geração. Abco.
David....
10 cervezas de litro...só os dois????????????
Que dupla meu amigo...e a costela nem tava salgada.
Abs.
Beto
ELTON
Caro david, apenas para relembrar, aquele gre-nal de 75 gol do Flavio Minuano na prorrogação, foi sim a final do campeonato gaúcho. Outra coisa, no gre-nal de 77 pelo campeonato brasileiro, Grêmo 4 x0 Inter no Beira-Rio, jamais o Iúra deu voadora no Falcão. O Gre-nal da voadora foi no clássico amistoso disputado em 75 em 1 de maio (dia do trabalho) no Beira-Rio, Inter 1 x 0 Grêmio ( gol do escurinho ). Inclusive o jogo foi transmitido direto pela TV Gaúcha na época ( Hoje RBS TV ) como presente do dia do trabalho aos torcedores da dupla. O lance foi o seguinte: O Falcão quase no final da partida levou a bola para a lateral do campo, o Iúra veio afoito e levou um chapéu ( de gancho ) do Falcão, o Iúra indignado e perdendo o jogo deu uma voadora no peito do Falcão e foi devidamente expulso pelo árbitro.
Boa David!
continua tudo no seu lugar...colorados pagando cervejas uruguaias, costelas, enfim...servindo gremistas!!!