Manoela queria ter um filho. Mais do que tudo na vida. Terminara com o namorado porque ele não aceitava nem sequer cogitar a ideia.
Fernando sabia disso, eles eram amigos havia muito tempo. Na verdade, Fernando sempre fora apaixonado por ela. Durante algum tempo, tentou conquistá-la. Não deu certo. Desistiu. Agora, estavam na praia, caminhando pela areia, Fernando deixando que as ondas lhe molhassem os pés. À noite, iam ao Planeta Atlântida - Fernando havia conseguido um camarote e a convidara. Foi quando pararam em frente ao quiosque que ele propôs:
- Nós poderíamos ter um filho juntos.
Manoela estacou:
- Tá maluco?
- Nunca falei tão sério na vida. Olha só: a gente se dá bem, estamos solteiros. Tenho vontade de ter um filho. Tu também. Temos condições de criá-lo, não precisamos casar pra isso. Por que não?
Manoela olhou para o mar. Refletiu.
- Mas eu queria ter um filho com um marido. Com o meu marido... - argumentou.
- Ora, Manoela, tu já está com 30 anos, sabe como é difícil encontrar alguém legal. Quanto tempo vai demorar pra encontrar esse marido? Vamos tentar!
Manoela ficou alguns segundos em silêncio. Olhou analiticamente para Fernando. Tinha lá seus atrativos. Além disso, gostava dele. Era uma boa pessoa. Seria um bom pai.
- Tá bom - disse, num suspiro. - Eu topo.
Fernando sentiu a felicidade lhe incendiar as orelhas. Traçaram os planos ali, de pé, na areia _ teriam de ser precisos, impessoais. Sexo com finalidade de procriação. Nada mais. Sem envolvimento emocional.
- Acho que estou no meu período fértil - disse Manoela, olhando para cima, calculando os dias do mês com os dedos. - Temos que tentar hoje mesmo.
- Certo, certo - Fernando compenetrado, obediente.
- Talvez seja melhor fazermos a coisa antes de irmos ao Planeta. Depois podemos ficar cansados demais.
- Antes! Claro! Boa idéia!
- Seria importante também bebermos algo. Pra aquecer, sabe?
- Lógico, o aquecimento é fundamental.
- Então vamos ali no quiosque.
Começaram tomando caipirinhas. Duas. Manoela bebeu rapidamente. Depois pediram cerveja. Outras duas. Manoela bebia rápido mesmo. Fernando se esforçava para acompanhar.
- Agora que já estamos altos podemos tentar - sentenciou Manoela.
Fernando saltou da cadeira. Entraram no carro. Seguiram para o Motel Chamonix. No caminho, Manoela se virou para Fernando:
- Quem sabe tu acaricia as minhas coxas. Pra esquentar.
Fernando tirou os olhos da estrada e os depositou sobre as coxas luzidias dela. Sentiu o coração lhe palpitar na garganta.
- Ai, meu Deus - balbuciou, levando a mão às pernas de Manoela. - Ai, meu Deus - e a mão foi se aproximando, trêmula. Havia anos que Fernando sonhava tocar naquelas pernas. - Ai, meu Deus! E tocou. A sensação da pele macia e fria entrou pelas terminações nervosas da palma da sua mão e se espalhou pelo braço, pelo corpo todo. Fernando ficou apalpando aquelas coxas, apertando, se emocionando, dizendo ai, meu Deus, ai, meu Deus.
Até que bateu com o carro.
Nada grave, acertou a traseira de um Chevette, ninguém se machucou. Só que o dono do Chevette não gostou. Saiu do carro. Começou a discussão. Fernando dizia que pagaria tudo, que o dono do Chevette não se preocupasse. Não adiantava. Tiveram de chamar a polícia. Manoela assistia a tudo sentada no cordão da calçada, irritada. De repente, ela se levantou:
- Fernando, te encontro no Planeta. Foi-se, deixando Fernando a murmurar mas... mas... mas...
Fernando chegou tarde ao Planeta. Levou pelo menos uma hora para encontrar Manoela. Quando encontrou, pediu, ansioso:
- Vamos agora? Vamos colocar nosso plano em ação?
- Agora, não - Manoela continuava irritada. - Agora estou cansada.
Marcaram de se encontrar na praia à tardinha, em frente à plataforma. Fernando chegou lá às cinco da tarde. Esperou. Esperou. Bebeu cerveja enquanto esperou. Ela só apareceu às sete e meia. Fernando estava meio zonzo de tanto álcool:
- Vamos? - ele gaguejou.
- Ah, Fê, daqui a pouco vai dar o Papas da Língua, no Planeta... Depois, tá?
Tá. Foram para o Planeta. Papas da Língua. Fernando bebendo, olhando para Manoela tão linda, tão linda. Queria tocá-la.
- Pra aquecer! - justificava.
Ela não deixava.
- Depois - explicava. - Aqui não.
No meio da noite, Fernando se afastou, amargurado com a rejeição, mareado de tanta cerveja. Foi aí que Soraya surgiu. Uma antiga namorada. Sorridente. De minissaia. Fernando não vacilou. Avançou sobre Soraya, pensando: "Manoela... Ah, Manoela... Vamos fazer um filho, Manoela..." Acabaram no Chamonix.
Pela manhã, Fernando acordou com a boca pastosa. Olhou para o lado. Não gritou porque lhe faltou a voz. Minha Nossa Senhora, não era Manoela! Levantou-se de um pulo. Acordou Soraya.
- Temos que ir embora! - sacudiu-a. Minha Nossa Senhora! Temos que ir!
- Que houve?
- Meu filho depende disso!
Saíram. Fernando foi para a praia. Passou o resto do dia procurando por Manoela, angustiado. Ia na casa em que ela estava parando, ia de bar em bar, vasculhou a faixa de areia entre Atlândida e Xangri-lá. Encontrou-a no começo da noite de domingo, no centrinho. Correu para ela:
- Manoela! Manoela! Até que enfim! Vamos agora! Por favor! Agora! Não podemos mais perder tempo! Manoela levou as mãos à cintura:
- O senhor lembra o que fez ontem à noite?
- Ontem?...
- Não quero que o pai do meu filho seja um tarado, um bêbado!
- Mas, Manoela, eu tinha bebido um pouco e...
- Sem-vergonha! Vou procurar outro amigo. Quem sabe o David topa fazer um filho comigo! Girou nos calcanhares macios e se foi, marchando, levando com ela a descendência do pobre Fernando.





Bah, não gostei.
Viva eu 103 anos, como a Gladys, mesmo não sendo virgem em nada, mas jamais, jamais irei me esquecer deste verão de 2011...Muito bem acomodada numa mansão praiana d'um destes condomínios luxuosos à beira-mar plantados, que encontramos aos montes em nosso litoral deslumbrante, sofisticado e repleto de turistas de todo o mundo, acordo sôfrega para um café da manhã nababesco e para abrir meu macbook e encontrar...vc! Vc e suas crônicas refrescantes de verão. Vc, o jogral zerorístico, que brilha na imensidão da internet como o sol que ilumina o nosso litoral paradisíaco. Vc, o pintor das palavras, o único, o original, o inigualável cronista da mulher gaúcha e de seus adoradores. Começar o dia bem alimentada, física e intelectualmente, faz de mim a adorável mulher que sou...Andando pela vida, lépida e fagueira, sobre meus calcanhares macios, com meus dourados peitos aveludados, macios, túrgidos, se lhes comprimindo contra a cortininha de meu biquini (souvenir de St.Barts),trago sempre algo de seu em minha memória - uma frase bem construída, uma historieta bem urdida, um final inaudito! Espero encontrá-lo, ainda, antes que este verão onírico termine, caminhando pelas areias macias e níveas de Atlântida, para um "oi, Coimbra, o David", cheio de emoção e respeito! Sou tão romântica!...