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Canibais - Capítulo 2

27 de fevereiro de 2011 1

“Abriu um talho na garganta”

Ramos não deixou que o corpo de Duarte desabasse. Susteve-o pelos cabelos. O machado cravado na testa dificultava-lhe um pouco os movimentos. Postou-se atrás do corpo. Apoiou as costas de Duarte em seus joelhos. Com a mão esquerda, tomou-lhe o queixo. Puxou para cima. O pescoço ficou bem à mostra, branco, o gogó saltado. Levou a mão direita às costas. De lá, trouxe um facão de dois cabos e bom fio. Num único e vigoroso golpe, abriu um talho na garganta de Duarte. Lembrou-se do seu pai, sempre se lembrava dele nesses momentos. Não com remorso, não com dor, não com alegria. Apenas uma lembrança. Devia ser exatamente assim que o velho fazia na Guerra dos Farrapos. Exatamente assim.

Finalmente, o açougueiro recuou dois passos e permitiu que o corpo desabasse, o sangue se espalhando pelo chão de terra batida. Ramos contemplou o corpo de Duarte por alguns segundos. Pouca carne. Nenhuma gordura. Embainhou o facão sem se preocupar em limpá-lo. Debruçou-se sobre o cadáver, curvando o torso, as grandes mãos apoiadas nos joelhos. Olhava-o com curiosidade, como se tentasse descobrir algo nos olhos baços. Examinou-o bem. Tinha ainda os olhos abertos, uma expressão de perplexidade no rosto lívido.

Nem todos eram pegos de surpresa. Alguns compreendiam no último momento o que lhes sucederia. Ramos percebia que sentiam a iminência da morte. Feito bichos. Bois e vacas sentem o cheiro da morte quando ingressam no brete, ele bem sabia. Cheiro do sangue vertido, talvez. Eles, seus bois, pressentiam o fim no instante derradeiro. Interessante. Mesmo assim, ninguém nunca teve tempo de reagir. A rapidez era seu principal trunfo.

Precisava tirar o machado do crânio de Duarte. Pôs-se ereto. Pisou no pescoço e no queixo do outro, sujando de sangue suas botinas de couro. Agarrou com firmeza o cabo de madeira. Com um puxão vigoroso, livrou o machado da testa fendida.

– Ufa…

Mãos à cintura, Ramos olhou para cima. Para o alçapão. Viu o rosto de Catarina num canto do quadrado de luz. Os olhares deles se encontraram. Flagrada, Catarina recolheu rapidamente a cabeça, um animal assustado. Ramos ouviu os passos dela correndo para o quarto, tropeçando nas cadeiras. Ela sabia o que aconteceria a seguir. Safada. Vadia.

– É hora… – murmurou para si mesmo, sentindo as virilhas coçarem de excitação. Em seguida, fitando o teto, urrou um urro medonho: – É HORA!

Riu. Limpou as mãos no avental. Começou a subir os degraus de madeira do porão.
Lá em cima, Catarina encolheu-se num canto do quarto. Olhava fixamente para a porta. Rezava baixinho: “Deus, aquilo vai acontecer de novo comigo… Deus, aquilo vai acontecer de novo comigo…”. Os passos de Ramos ecoavam pela casa. Cada vez mais perto. Catarina tinha as mãos unidas, os braços em volta dos joelhos. Repetia, mais alto: “Deus, ele quer fazer aquilo comigo! Não deixa, por favor!”. Cada vez mais perto. “Não deixa, não deixa.”

Mais perto.

Ramos assomou à porta do quarto. Ofegava. Os olhos injetados queriam saltar das órbitas. Catarina reconhecia aquele olhar. Sabia o que significava. Sabia o que iria lhe acontecer.

– Não, Ramos! Por favor, não! – implorou.

Ramos deu dois passos na direção dela. Sorriu um sorriso malévolo. Um sorriso que ela reconhecia desde muito cedo em sua vida.

– Não, Ramos! Não! Por favor! De novo, não!

Ramos ria. Gargalhava. Aproximou-se mais, o sangue ainda fresco no avental branco. Catarina ajoelhou-se, desesperada, as mãos postas. Gritava. Implorava:

– Não, não, não, não, por favor!

E, quando ele já estava sobre ela, um berro rouco lhe rasgou a garganta:

– Nãããããão!!!

Comentários (1)

  • Gisele diz: 27 de fevereiro de 2011

    Já estou ansiosa para o terceiro capítulo.

    **____________________**

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