Sempre que entrava na Redação de Zero Hora, o Moacyr Scliar parava em frente à minha mesa, fazia um comentário sobre algo que eu havia escrito no jornal e arrematava:
"Tu tens que escrever um romance."
Sempre isso. Sempre. E a minha resposta era sempre a mesma:
"Estou escrevendo!"
A primeira vez que ouvi esse conselho faz mais de dez anos. Como a resposta vinha no gerúndio, eu estava “escrevendo”, percebi que o Scliar deixou de acreditar em mim. Não era possível que estivesse escrevendo, escrevendo e escrevendo sem terminar nunca. Claro, ele era um escritor prolífero, estava acostumado a parir livros tão bons quanto rápidos.
Mas era verdade! Eu estava escrevendo. Levei quase quatro anos para concluir meu primeiro romance, “Canibais”. Quando cheguei perto do fim, fiquei esperando a entrada do Scliar na Redação, sua paradinha em frente ao meu computador, a conversa amena e o conselho eterno:
"Tu tens que escrever um romance."
Aí eu arremataria:
"Está escrito!"
Por algum motivo, justamente naquele período o Scliar demorou a visitar a Redação um tempo além do normal. Maldição! E eu com o romance praticamente pronto... Passaram-se semanas, até que, finalmente, a silhueta longilínea dele surgiu lá na ponta do salão. Veio gingando devagar, naquele seu jeito de caminhar, e veio com um meio sorriso no rosto amistoso. Parou na minha frente. Pôs as duas mãos sobre o computador. E, para minha surpresa, mudou a pergunta:
"Está pronto o nosso romance?"
Aquilo me desconcertou. Ele parecia saber que estava pronto. Será que não tinha deixado de acreditar em mim, afinal? Pisquei. Pensei. Respondi, um pouco perplexo:
"Está..."
"Quero ler antes de ser publicado", ele anunciou.
Foi a segunda surpresa da noite. Era uma atitude muito generosa da parte dele. Escritores consagrados estão sempre sendo assediados por jovens que lhe pedem para analisar o que escreveram. Em geral, isso representa um fardo, uma chatice. E o Scliar não apenas analisava e comentava o que eu publicava em jornal como agora pedia para ler um romance que eu ainda nem havia publicado!
Repassei-lhe os originais. E o Scliar os devolveu com um belo texto de apresentação. Está lá, imortalizado em papel. São palavras que rebrilham no começo do meu romance. Mas não rebrilham pelos elogios que um prefaciador inevitavelmente faz ao que prefacia, e sim pela bondade com que foram escritas. Hoje, reli aquele pequeno texto e ali identifiquei, em cada verbo, em cada substantivo, o homem que era Scliar: mais do que tudo, uma pessoa boa. Como fazem falta pessoas boas nesse mundo.





Homenagem a Moacyr Scliar
Li muitos livros de Moacyr Scliar, cujo talento, todos sabem, sempre dispensou maiores considerações. No mais, tenho até uma lista de obras dele que pretendo ler, quando possível.
O que conheci e conheço do Scliar é isto: seus livros, suas inúmeras e brilhantes entrevistas, uma ótima impressão pessoal e um ótimo vizinho. Com relação à ótima impressão pessoal, recordo-me de que a primeira vez que ouvi o Moacyr Scliar foi quando, ainda no Primeiro Grau, ele foi à minha escola palestrar. Nessa escola, aliás, ele dirigiu-se muitas vezes durante anos, tanto pela generosidade de dividir seus conhecimentos quanto pela eventual proximidade dela com nossa rua. Estou certo de que muitas pessoas guardam boas recordações do Moacyr Scliar palestrante, literato apaixonado comunicando-se a futuros leitores.
Ao mesmo tempo, há o aspecto do Moacyr Scliar vizinho. Quando pequeno, morava numa casa a uns duzentos metros da do Scliar. Hoje continuo morando na mesma rua, na qual ele também morava, ambos em apartamentos. Essa rua é lendária em Porto Alegre e todos sabem qual é, pois foi muitas vezes citada pelo escritor. Inúmeras vezes o vi caminhando pelas imediações do bairro, sempre muito solícito e educado para com todos os que se dirigissem a ele.
Logo que foi escolhido para ser imortal da Academia Brasileira de Letras, eu caminhava na rua e o Scliar vinha em sentido contrário. À minha frente, três pessoas o cumprimentaram, em sequência. O escritor foi digno de sua imortalidade: sorriu para todas, contagiando a todos com sua humildade e carisma.
Quando hoje, dia 27 de fevereiro de 2011, ocorre o passamento do imortal literato, presto minha humilde homenagem ao grande vizinho, médico e escritor.
Que Moacyr Scliar siga sua senda de imortalidade e, onde quer que esteja e para onde volte, continue evoluindo e exercendo sua melhor vocação: escrever.
Valeu, Scliar. Agora subiste a maior lomba, mas já estás no Alto.
Talvez um dia sejamos vizinhos novamente. E eu, certamente, seu leitor.
CRÔNICA - MOACYR SCLIAR
As lombas de Porto Alegre, as lombas da vida
A vida é, num certo sentido, subir lombas. Ou seja: a vida é esforço, enfrentar obstáculos.
Moacyr Scliar
Data: 30/03/2007
Nascido e criado em Porto Alegre, muito cedo acostumei-me a subir ladeiras, que nós aqui chamamos de lombas. Elas fazem parte da geografia da cidade e também da história de seus cidadãos. Cada um de nós tem as suas lombas de referência, ligadas a períodos de nossas vidas. E Porto Alegre é, provavelmente, a única cidade do mundo que instituiu a corrida de carrinhos de lomba. Durante muito tempo a competição se realizava na Dom Pedro II: a nossa versão da Fórmula 1. Eu tive meu carrinho, mas era precário, modesto: não dava para encarar a disputa. Mas dava para enfrentar as lombas a pé.
Menino, eu subia a pé a lomba da rua João Telles até a Independência. Lá seguia, sempre andando, para o Rosário, onde concluí o ginásio. Depois passei para o Júlio de Castilhos - exatamente no ano em que o colégio foi destruído por um incêndio e passou a funcionar no Arquivo Público, na Riachuelo. De novo, eu tinha de subir uma ladeira, a da Caldas Júnior. Por fim, ingressei na Faculdade de Medicina. No terceiro ano, para ir à Santa Casa, eu tinha de subir a lomba do Sétimo, ao longo da Praça do Portão. Casei, e fui morar com minha mulher, Judith, na rua Camerino, em Porto Alegre. Àquela altura já tínhamos carro, mas se por acaso precisávamos ir até a Protásio, a pé, precisávamos subir a Felizardo Furtado. Depois, mudamos para a Santa Cecília, onde até hoje moramos. Esta rua tem dois trechos, um plano, outro em ladeira. Adivinhem em que trecho fica o nosso prédio?
Ano após ano, voltando do trabalho, eu descia do ônibus na Protásio e subia a Santa Cecília, que é uma lomba íngreme e que, por ser íngreme, se constitui num desafio. Ano após ano testei minha resistência física (e psicológica) nesta subida.
Que, por causa disto, adquiriu para mim um caráter simbólico. A vida é, num certo sentido, subir lombas. Ou seja: a vida é esforço, enfrentar obstáculos. Portanto, e não importa a nossa idade, é importante que continuemos galgando lombas. Em primeiro lugar é uma prova de que estamos vivos. Depois, há nisto um consolo: sempre podemos descer as lombas da vida, em vertiginosa corrida, no carrinho de lomba da nossa imaginação.
Sabe David, as pessoas que eu conheço duvidam e dizem que é mentira minha quando digo que estou realmente triste com a morte do Scliar. Mas é a mais absoluta verdade. Por causa do Moacyr eu comecei a gostar de ler. O primeiro livro que li inteiro foi O anão no televisor e ele me fascinou. Eu fico realmente triste que ele tenha morrido e nós todos tenhamos perdido a peça rara que é Moacyr Scliar. Nunca tive a oportunidade de vê-lo pessoalmente, muito menos de conviver com ele, como você conviveu. Mas fica aqui meus mais sinceros pêsames para você e para a familia dele. E se você tiver oportunidade de repassar para a familia do Scliar que eu sinto pela morte dele eu agradeço. Não precisa dizer que foi o Vinicius, mas sim: O pessoal do meu blog. Pois com toda a certeza mais pessoas viram dizer o que sentiram à morte dele.
amigos assim são raros hoje em dia...
Grande perda para o Rio Grande e para o Brasil!
Ter um livro prefaciado por Scliar, realmente, é um privilégio, assim como um livro apresentado por David Coimbra.
Há braços!!
Ah, com certeza uma pessoa como Scliar faz
muita falta. Compartilho do grande pesar que
hoje se abateu sobre as passoas que apreciam
a leitura e homens de caráter. Agora o sorriso
dele vai iluminar outros pagos e as lembranças
de quem teve a sorte de conhecê-lo.
Emocionante o que escreveste a respeito do Scliar, ele devia ser um homem que se importava e torcia a favor dos outros .Isso está ficando tão raro hoje!
Bjs