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Posts de fevereiro 2011

Daniela no Carnaval

28 de fevereiro de 2011 2

Daniela. Linda e reservada. Discreta. Queria namorar com ela. Estou falando em namorar, não em sexo casual, algumas noites de loucuras e prazeres inenarráveis. Compromisso, manja? Andar de mãos dadas pelo shopping. Cinema. Sorvete. Essas coisas.

Mas, claro, ela nunca havia me olhado duas vezes seguidas. Tinha lá um namorado. Dizia que gostava dele. Ele, lógico, era uma besta. Por que as mulheres bonitas e interessantes namoram bestas?

Bem, tudo ia normal, Daniela com sua besta, eu sozinho. Até chegar o Carnaval. Decidi ficar em Porto Alegre – ia trabalhar. À noite, fui assistir aos desfiles das escolas de samba. Fui apenas porque não tinha nada mais empolgante para fazer. Estava lá, meio entediado, pensando que talvez fosse melhor ter ficado em casa vendo Telecine Action, quando Daniela fez sua aparição. Foi isso que aconteceu – foi uma aparição. Ela estava no alto de um carro, era destaque da escola. Usava roupas sumárias, faiscantes, sambava equilibrada em um escarpim sem fim e abria os braços, como se saudasse o povo, os seus súditos. Era uma rainha. Isso que ela era: uma rainha. Segui- a com os olhos, enfeitiçado. Ali, na arquibancada, decidi que precisava vê-la na dispersão. Não sabia bem o que ia fazer ou dizer, tinha vontade de me atirar aos pés dela, abraçar suas canelas macias e gritar, rouco de paixão:

- Minha rainha! Minha rainha!

Bem, talvez fizesse isso mesmo. Rumei para a dispersão. Caminhava sofregamente, desviando das pessoas, batendo nelas, quase correndo. Cheguei lá, mas a princípio não a encontrei. Uma confusão de gente se pechando e rindo, as pessoas riem no Carnaval. Olhei, procurei, já estava desistindo, quando senti sua presença às minhas costas. Virei-me, ansioso. Ela! Imponente. Soberana. Uma rainha. Abri a boca, ia falar algo, mas fiquei indeciso. Ela, ao contrário, deu um passo na minha direção. Ficou tão perto que eu podia sentir-lhe o cheiro doce do hidratante. Nívea, acho.

- Meu namorado viajou para Florianópolis – sussurrou ela, com uma voz tão meiga que me doeu o pâncreas. – Estou furiosa e quero companhia. Quer ser minha companhia hoje?

Não acreditei. Será possível? Será que fui lambido pela língua de fogo do Espírito Santo? Balbuciei:

- Arran – queria dizer algo mais inteligente do que arran, mas não consegui. Mesmo assim, ela entendeu:

- Então vamos.

Tomou-me a mão. Conduziu-me até o carro. No caminho, eu ia pensando: não é possível, vai acontecer algo, não tenho tanta sorte assim. Chegamos ao apartamento dela. Eu desconfiado, sentindo o coração bater no gogó. Ela enfiou a chave na fechadura. Fiquei olhando a mãozinha girar a chave. Unhas redondas e curtas. Não gosto de mulher com unhas compridas. Uma volta para a esquerda. Duas. Ela sorriu para mim um sorriso de dentes pequenos. Bons dentes. Quem será seu dentista? Escolheu outra chave do chaveiro, uma maior, parecia uma daquelas espigas de milho nanicas, como eles fazem aquelas espigas?. A porta se abriu com ruído. Ela sorriu de novo. Estava me viciando no sorriso dela.

Entramos.

- Vou buscar uma champanha – ela disse, armada com outro dos seus sorrisos perigosos.

Ofereci-me para abrir. Tive alguma dificuldade. É preciso ter polegares fortes para abrir champanhes. Consegui, afinal: POC!

Brindamos. Bebemos. Ela ficou bem perto de mim. Eu ofegava. Ela se aproximou mais. Mais.

Corta.

Não vou descrever todas as coisas maravilhosas que aconteceram naquele apartamento. Só revelo que acordei enrodilhado no corpo nu de Daniela e que essa é uma sensação que jamais esquecerei.

O Carnaval terminou e não encontrei Daniela outra vez. Dias depois, estava sentado no Lilliput, bebericando um chope cremoso com os amigos, e aconteceu. Lá vinha ela pela calçada. Estava com o namorado. O tal que tinha ido para Santa Catarina. Caminhavam de mãos dadas. Mais do que mãos dadas, dedos entrelaçados. Prendi a respiração. Ela me viu. Veio na minha direção, puxando o namorado. Veio. Veio. A dois metros de mim, sorriu um sorriso arrancado do mesmo lote que me hipnotizou no Carnaval.

- Tudo bem? – cumprimentou-me.

- Tudo…

O namorado me olhou, desinteressado. Continuaram caminhando. Desapareceram na esquina da Padre Chagas. Compreendi que havia sido o instrumento da vingança de Daniela. Eu fora escolhido por ela para castigar o namorado. Talvez devesse ficar feliz. Talvez. Mas, depois de conhecer Daniela, ter provado das delícias de estar com Daniela, como ia viver sem ela? Diga: como?

Canibais - Capítulo 3

28 de fevereiro de 2011 0

“Odisséia Campeira”

“Os mais valiosos bens de um homem de bem são seus amigos.”

O bordão preferido do sapateiro Walter Scherer. Vivia a agradecer ao Destino, à Sorte, a Deus ou ao mero Acaso por ter sido agraciado com amigos leais. Irmãos, até. Os dois principais, os seus vizinhos Brasiliano Ca­lovi, anspeçada folgazão que morava na rua da Vargi­nha, e Manoel Antunes, próspero pa­dei­ro portu­guês da rua da Figueira. Viam-se sempre. Ajudavam-se mutuamente.

Brasiliano viera da fronteira com o Uruguai. Nascera no Alegrete. Do que muito se orgulhava. Quando encontrava alguém que também se dizia da cidade, perguntava, uma sobrancelha arqueada, co­fian­do os bigodões:

– Mas tu és do Alegrete mesmo ou estás te exibindo?

Filho de um capataz de uma das grandes estâncias da região, acostumado à lida do campo, Brasiliano gostava de contar o quanto era virtuose na doma.

– Pegava touro à unha – gabava-se para os amigos.

Nunca havia pensado em se apartar da Campanha. Gostava daquela vida. De tomar mate no gal­pão com os outros peões. De contar causos ao entar­decer. Gostava de sentir o frescor da madrugada batendo em seu rosto, quando saía a galope, tocando o gado, assistindo ao sol nascer detrás de uma coxilha. Mas Brasiliano enfrentou uma dificuldade que terminou por afastá-lo do seu amado Alegrete. Uma dificuldade de cabelos castanhos e olhos verdes chamada Henriqueta.

Brasiliano amava as mulheres. Era célebre entre as chinas do bordel da cidade, o Palácio do Prazer. Célebre por seu bom humor, por sua generosidade com as meninas e por seus dotes físicos. As rameiras mais experientes juravam jamais ter deparado com homem tão bem instru­mentado quanto Brasiliano. Algumas fugiam dele, trauma­tizadas, causando indignação à proprietária do chinaredo, a famosa Esmeralda, espanhola de tamanha beleza na juventude que, diziam, motivara meia dúzia de mortes, metade delas por suicídio, a outra metade por duelo. Uma noite, Esmeralda resolveu:

– Vou esclarecer eu mesma essa história.

Assim que Brasiliano fincou o bico da bota canhota em sua casa, ela o puxou para o quarto, arrostando:

– Não tenho medo de homem.

Saiu de lá uma hora depois, com os olhos arregalados e a boca carmim muito aberta, balbuciando a frase depois tornada famosa na cidade:

– É um cavalo… É um cavalo…

Donde Brasiliano ficou conhecido no Alegrete como Brasiliano Cavalo, fama que não o desagradava, em absoluto.

Tudo ia bem para Brasiliano Cavalo, até Henriqueta chegar. Era filha do patrão da estância. Brasiliano, cinco anos mais velho do que ela, vira-a nascer. Quando crianças, brincavam juntos na sede da fazenda. Mas, aos treze anos, Henriqueta mudara-se com a mãe para Porto Alegre – a mãe ia fazer trata­mento de saúde, diziam à boca pequena que estava tísica, pobrezinha.

A Henriqueta que se despedira do moço Brasiliano era uma meninota magricela, as perninhas finas que pareciam braços, os braços dois gravetinhos quebradiços que pareciam dedos, o peito liso feito tábua de bater bife.

A Henriqueta que voltara dois anos depois era uma morena de pele macia, cabelos longos, pernas torneadas, seios em flor. Brasiliano perdeu a respiração ao vê-la descer da caleça, em frente à sede da fazenda.

– Avemaria, mas ela voltou recheada! – gemeu, amassando o chapéu de barbicacho entre as mãos fortes.

Desejou-a de pronto. Ao cumprimentá-lo com um quente aperto de mão, Henriqueta sorriu, e seu sorriso não era de menina. Brasiliano passou a sonhar com ela todas as noites. Vez em quando, se cruzavam na fazenda. Ela lhe assestava um olhar d’água meio de viés, coruscante de promessas. Brasiliano mal conseguia se conter. O flerte mudo prosseguiu durante semanas. Uma tarde, quando se encontraram por acaso numa capoeira distante da sede, Brasiliano sabia exatamente o que fazer. Não falou nada, não emitiu um som. Apenas apeou do cavalo e estendeu a mão para ela. Ela apeou também e, ao pousar o pequeno pé no verde da grama, recebeu o primeiro beijo. Não ofereceu a menor resistência. Só quinze anos de idade, e já conhecia os caminhos do coração de um homem. Instinto de bicho, concluiu Brasiliano. Elas são uns bichinhos, entendem as coisas por intuição. Nascem sabendo.

Amaram-se ali mesmo, à sombra de um umbu mais frondoso.

Brasiliano e Henriqueta continuaram se encon­trando nos dias seguintes. E eram encontros sôfregos e silencio­sos. Até que, num avermelhado fim de tarde de primavera, uma escrava que trabalhava na cozinha os flagrou. Já tinham perdido um tanto do medo de serem pegos e, sem o medo, perderam a prudência. Estavam atrás de um dos galpões. Num retouço de sair faísca, como definiu Brasiliano aos amigos, mais tarde. A escrava os viu sem que eles a vissem. Foi correndo contar para o patrão, ansiando por grati­dão ou recompensa. Em minutos, o patrão armou-se de um facão três listras, convocou dois peões e correu para o galpão. Para sorte de Brasiliano, ele já havia se despedido de Henriqueta e estava a uma distância de onde pôde ver a chegada intem­pestiva do trio. Percebeu que fora descoberto. Montou no seu cavalo, um tordilho que ele próprio domara meses atrás, e se foi a galope para fora da estância, para fora do Alegrete, cavalgando sempre e sempre, até achar que podia se encostar num tronco de árvore, tirar um cochilo, dar água para o tordilho. Sabia que estavam atrás dele e que o patrão não descansaria enquanto não o matasse. Ou, pior: o castrasse com um facão sem fio, cruz­credo, ele conhecia histórias de capados no Alegrete, histórias de branquear os fios do bigode. Cavalgou para o norte, muito sestroso, evitando qualquer con­tato humano, comendo o que caçava no mato, beben­do de sanga ou de rio. Em algumas semanas, chegou à região das Missões. Só então se animou a entrar numa cidade, a antiga Vila de Santa Fé, elevada naquele ano a cabeça da comarca de São Borja. Em Santa Fé, achou trabalho e pouso no sobrado de um certo Aguinaldo Silva, nordestino empreendedor, homem de mais de setenta anos, mas ainda forte a ponto de não refugar uma boa campereada, mesmo que tivesse de dormir ao relento com a peonada. Seu Agui­naldo usava bombachas e poncho, mas, sobre a cabeça triangular, leva­va um chapéu de sertanejo com as abas viradas para cima, algo que Brasiliano achou realmente curioso. O velho era avô de uma bela moça de nome Luzia, pela qual Brasiliano se interessou ao primeiro olhar. Luzia havia sido criada em Porto Alegre, tocava cítara, lia livros, cultivava maneiras tão despachadas quanto sua Henriqueta. Brasiliano cogitou de se aproximar de Luzia, mas mudou de idéia ao ouvir algumas histórias relacionadas a ela. Em primeiro lugar, a moça vinha sendo freqüentada por dois primos irmãos muito conhecidos em Santa Fé. Um deles, o tenente Bolívar Cambará, herói da guerra contra a Argen­tina, filho de um outro soldado famoso na região. O outro, Florêncio Terra, um rapaz introvertido, cala­dão, por quem Brasiliano logo se tomou de simpatia. Os dois visitavam constantemente o sobrado, corteja­vam a coquete Luzia e acabaram se transformando em alvo de apostas na cidade. A população inteira de Santa Fé discutia quem, afinal, iria casar com a neta do pernambucano.

Tem macho demais atrás dessa prenda, concluiu Brasiliano, pouco disposto a se converter em vértice de um losango amoroso. Mas só tomou a resolução de partir da vila quando conheceu detalhes da vida pregressa de Aguinaldo Silva.

Os bem-informados moradores de Santa Fé comentavam que, nas lonjuras de Pernambuco, Aguinaldo havia sido vítima de adultério. Pois bem. Ao se descobrir portador de cornos, ele armou uma emboscada para a mulher e o amante. Traçou a estra­tégia clássica e sempre eficiente empregada por chi­frudos em todo o planeta: fingiu sair em viagem, deu oportunidade de pecado aos pecadores. Sem que a esposa percebesse, voltou para casa e se escondeu de­bai­xo da cama, artifício algo humilhante, é verdade, mas bastante funcional. Os dois estavam em pleno desfrute quando o marido traído saltou do esconderijo, de peixeira em punho. O sedutor não achou tempo de gritar, ai Jesus. Teve a buchada aberta de um talho. A mulher também foi feita em pedaços, sem piedade.

Brasiliano franziu o cenho ao ouvir a história. Muita violência, para seu gosto. Decidiu partir. Mas para onde? Pensou em Luzia, pensou em Henriqueta: ambas tinham sido moldadas pelos ares de Porto Alegre. Saíram do campo caboclas, voltaram fêmeas. Uma cidade que produzia mulheres assim era uma cidade feita para ele. Juntou os cobres ganhos com o nordestino Aguinaldo, montou em seu tordilho e partiu. Cavalgava ainda pela cidade quando notou que o seguia um dos cães do dono do sobrado, um filhote do qual ele cuidara com gosto nas últimas semanas. Gostava de cães e por aquele havia se afeiçoado especialmente, nem sabia bem por quê. Enxotou o filhote umas três ou quatro vezes, mas o cusco estava determinado a adotá-lo. Deu de ombros.

– Paciência – conformou-se. E, de improviso, batizou o bicho com o nome de um de seus amigos do Alegrete: – Então vamos embora, Januário!

Avançou lentamente pela província, parando aqui e acolá, amealhando uns trocos em cada estância onde podia usar sua habilidade na doma, colecionando histórias com as quais depois iria deliciar os amigos. O sapateiro Walter chamava esse período da vida de Brasiliano de “Odisséia Campeira”.

Ao cabo de dois meses, Brasiliano avistou Nossa Senhora da Madre de Deus de Porto Alegre pela primeira vez. À entrada da cidade, do alto de uma colina, ele sofreou o tordilho. Januário parou ao lado, língua de fora, olhando para o dono. Brasiliano sorriu, admirando o grande ajuntamento urbano. Perto de vinte mil almas se movimentavam pela capital, subiam e desciam suas ladeiras, alguns montados em cavalos, outros em carroças. Havia muita movimentação no porto, barcos que navegavam pelo largo rio que banhava a cidade, e, mesmo ao longe, como ele estava, podia avistar prédios imponentes, provavelmente de até quatro andares.

– Sinto que teremos sorte nessa terra, Januário! – gritou ele, olhando para baixo. O cachorro latiu como que numa resposta afirmativa.

Em Porto Alegre, Brasiliano logo encontrou trabalho no quartel e muita diversão nas bodegas e prostíbulos que pululavam por toda parte. Alugou uma casinha de telhado de capim numa rua um pouco afastada da área central. Nas imediações, conheceu o sapateiro Walter e o padeiro Antunes. Tornaram-se os melhores amigos. Em alguns anos, converteram-se em sua família. Apesar de Antunes já ter sua própria família, a mulher Rosa e dois filhos gordotes como ele. Antunes falava com sotaque português, usava uma barba rala e jurava ser descendente dos açorianos que haviam fundado Porto Alegre cento e poucos anos atrás.

Glutão assumido, Antunes entusiasmava-se quando conseguia cozinhar um novo tipo de pão ou uma cuca com recheio um pouco mais sofisticado. Seu grande orgulho era o fato de que, aos vinte anos de idade, passara uma temporada na Corte. No Rio, aprendera o ofício de padeiro com a comunidade portuguesa local. Mais: assimilara truques gastronômicos que empregava vez ou outra nos jantares que preparava para os amigos. Walter e Brasiliano olhavam desconfiados para os pratos que Antunes trazia riso­nho do fogão a lenha, mas o gordo padeiro jurava que era aquilo que se comia no Rio de Janeiro. Ser­via-os recitando a receita:

– Agora, meus amigos, uma delícia da corte do impe­rador Dom Pedro II: ganso ensopado com samambaias! – e, enquanto distribuía as porções, dançando em volta da mesa, discorria, para divertimento de Walter e Brasi­liano e irritação da mulher, Rosa, que detestava tais extravagâncias:

– Tome pedaços do ganso. Passe-os em gordura quente e cozinhe-os, acrescentando uma garrafa d’água, sal, pimenta, uma cebola, salsa e manjerona. Estando quase cozidos, deite no caldo uma porção de brotos de samambaia bem lavadinhos e, depois de duas fervuras, ponha tudo numa travessa de pão ralado. Deposite com carinho os pedaços de ganso por cima, derramando sobre eles uma porção de manteiga, na qual você deve ter fritado uma cebola pica­dinha. E está pronto, para vosso deleite e da família imperial!

Os jantares ocorriam pelo menos uma vez por mês. Antunes preparava-os durante dias, sempre sob o olhar crítico da mulher Rosa:

– Você gosta de gastar com asneiras – recriminava ela.

Mas nisso Antunes não permitia que Rosa se intrometesse. Abstraía-se dos resmungos da mulher e mergulhava no criterioso planejamento dos jantares, antego­zando a surpresa dos amigos diante dos pratos cariocas tão exóticos ao conservador paladar sulista. Uma semana antes, já estava à mesa da cozinha, anotando os ingredien­tes dos quais necessitaria, perguntando-se onde encontraria cajus para fazer uma sopa substanciosa ou araras para assá-las no espeto.

– Acepipes da Corte! – apregoava, dedo em riste. – Manjares de fidalgos! A verdadeira substância do sangue azul!

Esses encontros eram sua realização, praticamente sua única diversão, ele que, ao contrário de Brasiliano, se constituía num homem caseiro, dedicado à família.

O sapateiro Walter se situava a uma espécie de meio caminho entre Antunes e Brasiliano, pelo menos no quesito vida social. Não era um freqüentador de bordéis, como Brasiliano, nem um ser exclusivamente familiar, como Antunes. Apreciava as peças que eram levadas ao Theatro São Pedro, prédio imponente que se erguia na praça da Matriz. Tão imponente que o povo o chamava de “O Mar­manjo”. Não recusava os raros convites que lhe chegavam para os bailes da cidade. E, sobretudo, gostava de ler. Orgulhava-se de ter adquirido alguma cultura numa província em que a maioria da população era analfabeta. O hábito da leitura vinha da família. O pai havia sido professor na Alemanha. Exigia que o filho conhecesse os clássicos, que aprendesse os meandros da língua deste jovem país onde agora viviam e prosperavam. Assim, Walter cresceu valorizando o intelecto. Em tudo, tentava ser racional.

– O século 19 é o século das luzes – era outra de suas máximas.

Das luzes, de fato. Só que Walter nem sempre conseguia se portar como o cartesiano impecável que imaginava ser. Amiúde, permitia que os sentimentos pautassem suas decisões. Além de ser um eterno condescendente com os amigos, que tudo lhe tomariam, se quisessem, foi devido a outro tipo de sentimento, o amor por uma mulher, que Walter mudou de casa, de cidade e de vida.

Desde sempre residira em Hamburgo Velho. Lá, aprendera o ofício de sapateiro, profissão adotada por seu pai no Brasil. Ajudara o pai na sapataria durante a adolescência e por boa parte da infância. Aos 21 anos, casara-se com Maria Augusta, sua amiga desde os tempos de menino e, como ele, descendente dos imigrantes alemães que se estabeleceram em terras do visconde de São Leopoldo, na década de 20. Amava-a profundamente. Viviam numa casa pe­que­na, porta e duas janelas, horta nos fundos, tudo muito simples, mas que lhes dava orgulho – era a casa deles, seu refúgio. Tentaram ter filhos por dois anos. Quando ela finalmente engravidou, Walter convidou os amigos para um copioso churrasco de comemoração. Jamais se sentira tão feliz.

Nove meses depois, Maria Augusta e a criança, uma menina, como ele tanto queria, morreram no parto. Não chegou a ser uma surpresa. Em toda parte, no Brasil oitocentista, as mulheres morriam de parto. Era comum. Era até esperado. Mas isso não serviu de consolo a Walter.

A tristeza tomou conta de sua vida. Uma tris­teza que doía fisicamente, numa região de palmo e meio que subia do centro do peito ao centro da gar­ganta. Walter sonhava todas as noites com ela. Ao acordar, seu primeiro pensamento era para ela. Passava o dia girando em torno das coisas dela, lem­brando-se dela, olhando para as flores do jardim que ela cultivava, para o bule em que ela fazia o café, para a cadeira em que se sentava, para todas as pequenas coisas que eles tinham em comum. Walter olhava e sofria. Até o dia em que decidiu parar de sofrer.

Mudou-se para Porto Alegre. Estabeleceu-se na rua do Arvoredo. Comprou móveis novos, roupas novas, plantou flores novas no jardim. Não queria mais ter contato com nada que lembrasse sua vida em Hamburgo Velho. Queria uma nova vida.

Walter construiu essa nova vida. Interessava-se pela cidade, uma Porto Alegre que recebia novos investimentos da Coroa, agora que o país caminhava quase que irreme­dia­velmente para uma guerra com o poderoso Paraguai de Francisco Solano Lopes. Uma guerra insana, Walter bem o sabia. Porque estava informado sobre a força do Paraguai e sobre o parecer do mais afamado militar brasi­leiro a respeito da questão. O valente general-de-exército Luís Alves de Lima e Silva aconselhou o imperador a tentar um acordo com o Paraguai, sentenciando, sem hesitar:

– Lopes é invencível.

Mas o conselho não foi ouvido. A guerra se aproximava de forma inexorável, e a província de São Pedro, bem como sua capital, assumiam importância estratégica no conflito. Assim, Porto Alegre passou a receber atenção da corte. Passou a crescer. A tornar-se, realmente, uma cidade. Foi em Porto Alegre que Walter conheceu Brasiliano e Antunes, seus grandes amigos.

– Os mais valiosos bens de um homem de bem! – repetia, para alegria dos companheiros.

Walter passava os dias debatendo com Bra­siliano e Antunes as novidades que surgiam no Rio de Janeiro e em Paris, a guerra civil que devastava os Estados Unidos, os conflitos com o Uruguai e o Para­guai, a possibilidade de a Presidência da Pro­víncia finalmente instaurar na capital o transporte coletivo com os modernos bondes puxados a burro.

Quanto às mulheres, Walter se manteve reservado. Durante quatro anos, viveu apartado delas. Não que não fosse atraente. Seu tipo longilíneo, seus olhos amarelos, seu ar distante provocavam desde as damas que iam ao São Pedro para ouvir concertos de flauta e cítara até as que iam à Bailante, a casa de diversões ali pertinho do tea­tro, onde se dançavam polcas e mazurcas. Elas o achavam misterioso. Mas nenhuma mulher o atraía. Nenhuma.

Até conhecer Catarina Palse, sentir seu cheiro, encan­tar-se com seus olhos verdes e sua pele macia, de leite. Que mulher! A mulher mais enigmática de todas as que conheceu.

Havia seis meses que Walter só pensava nela. Catarina era sua vizinha. Walter a via andar pela rua do Arvoredo todos os dias. Ela comprava mantimentos na venda, subia a ladeira para ir à missa na Matriz, negociava com os mascates que batiam no portão. Também ia à sapataria. Levava cintos, bolsas, sapatos para consertar. Walter e Catarina conversavam cordialmente, como bons vizinhos. Vez em quando, sentia que ela não lhe era indiferente. Vez em quando, a loira parecia se aproximar um pouco mais dele, lançava-lhe um olhar aquoso um tanto mais demorado, sorria-lhe com maior meiguice. Walter, então, sonhava…

Mas era casada. Quer dizer: a mulher errada. Só que, cada vez que olhava para o brutamontes do marido dela, as esperanças se renovavam no peito de Walter. Não era possível que Catarina amasse aquele homem, um açougueiro embrutecido. Verdade que Ramos era um tipo paradoxal: tinha aparência de troglodita, mas, freqüente­mente, portava-se feito um daqueles famosos dândis de Londres. Perfumava-se com abundância, o monstro. Está certo, a população inteira de Porto Alegre, com exceção dos escravos, tinha o hábito de se perfumar, numa artimanha para sufocar a pestilência natural da cidade e o mau cheiro dos próprios habitantes, pouco afeitos a banhos. Sim, está certo. Mas Ramos exagerava. Quando passava na frente da sapataria, a cinco ou seis metros de distância, mesmo que Walter não pudesse vê-lo, sentia o forte, às vezes nauseante, odor de patchuli. Também não era sempre que o açougueiro se banhava de perfume daquela forma. Acontecia sobretudo nos dias em que ele se enfarpelava e saía ao entardecer, camisa de seda, sobre­casaca, alfinete na gravata, botinas enceradas. Sabe-se lá para onde ia. Um tipo misterioso. Walter duvidava que Catarina o amasse. Ao contrário: sentia que ela, antes de mais nada, o temia. Dia a dia, se convencia de que devia tentar conquistar Catarina. Que devia, no mínimo, se arriscar. Aos poucos, foi o que decidiu: que ia tentar.

Frase do dia

28 de fevereiro de 2011 1

Pinto os cabelos de preto para os encontros amorosos e de branco para as reuniões de negócios.

(Aristóteles Onassis)

Primeira aventura europeia

28 de fevereiro de 2011 3

A Cristine Kist é uma estudante de jornalismo que está fazendo sua primeira viagem pelo Velho Mundo. Pedi que ela relatasse alguns dos seus melhores momentos europeus para os leitores do blog e aí vão alguns tópicos:

O terminal

Pois então que cheguei a Paris com febre, frio e passando mal. Aquele tradicional começo bacana. Segui as placas e cheguei ao terminal dos trens rapidamente, uns 64 minutos. Aí fui até uma maquininha self-service e tentei comprar meu bilhete com o primeiro cartão. Não deu. Segundo cartão. Não deu. Terceiro cartão. Nada. Segunda maquininha. Não. Desistir me pareceu uma solução digna. Sentei em um banco e curti a minha dor por uma meia hora. Pensei que, se eu tivesse que ficar lá pra sempre, talvez fosse uma boa ideia casar com o cara da manutenção das máquinas de comida (ele tinha muitos chocolates). Mas preferi lutar. Cheguei ao balcão de informações com o discurso preparado: “Sir, i’m in pain and these evil self-service machines are not accepting my credit cards. They are mean, maybe we should kill them all. But before that, is there any other way i can buy my ticket?”. Foi o que eu disse, acreditem. Ele sorriu aquele sorriso de comiseração e perguntou qual ticket eu queria comprar. E só então, SÓ ENTÃO, me dei conta de que não sabia pronunciar RER (o nome do trem que vai do aeroporto até as estações da cidade propriamente dita). “Errérr”, disse a minha amiga Mônica quando liguei e gastei uns 20 reais de roaming internacional para tratar dessa importantíssima questão linguística. Tudo isso para dizer que existe um grande complô que envolve as operadoras de celular e os criadores de nomes de trens franceses e que nós não podemos mais nos sujeitar a isso! Então, repasse esse texto para outras 43 pessoas ou você terá sete anos de azar.

O primeiro audioguide piadista

Perdido na National Gallery de Londres está um retrato da Cristina da Dinamarca feito pelo Holbein, o Jovem. Nunca tinha ouvido falar na Cristina da Dinamarca, mas pensei que ela devia ter sido alguém importante para ser retratada pelo Holbein, o Jovem, o mesmo que fazia os retratos do Henrique VIII. E aí felizmente resolvi ouvir o comentário do audioguide, que era o seguinte: “Cristina tinha 16 anos na época do retrato. A pintura foi feita a pedido de Henrique VIII, que queria se casar com ela (o Henrique conhecia as esposas assim). O casamento não aconteceu, mas ele manteve o retrato. Cristina viveu uma boa vida por mais 52 anos, provavelmente bem mais do que teria vivido se tivesse se casado com Henrique”.
Obs.: Eu ia explicar a piada, mas já é bem menos engraçada escrita do que contada pelo audioguide (desculpem por isso, juro que na hora foi muito divertido). Então, no caso de alguém não ter entendido, sugiro fechar esse e-mail e, sei lá, procurar por Henrique VIII na Wikipedia, talvez ajude.

O catolicismo no século XXI

Admito, eu achava que a Igreja era uma instituição conservadora, decadente e presa ao passado. Mas não. Aparentemente até o papa tem estado atento aos avanços tecnológicos e às novidades em se tratando da segurança dos fiéis. Em Roma, por exemplo, está proibido acender aquelas velas tradicionais, de parafina. Agora o sistema é muito mais muderrno: velas fakes, daquelas com luzinha, ornamentam os altares dos santos. Para acender a luzinha, digo, dar uma demonstração de fé, é só depositar uma moeda de um euro. Bem mais seguro assim.

De trem pela Toscana

Aí você lê o título do tópico e pensa em uma viagem romântica, no estilo do filme aquele que eu nunca assisti. Porque claro, eu poderia ter sentado de frente para um italiano alto, moreno e de óculos grande de aro preto. Poderia ter me apaixonado, casado e estar esperando meu passaporte europeu. Mas não. Fiquei de frente para uma freira. Acontece que o assento da freira estava reclinado antes de ela sentar, e ou ela não percebeu ou não sabia que podia mudar de posição. O fato é que ela, que evidentemente vestia uma saia, foi obrigada a passar a viagem inteira com as pernas esticadas e ligeiramente abertas (freiras não cruzam as pernas), o que fez com que eu passasse também a viagem inteira em uma posição delicada, já que ela certamente não entenderia se eu dissesse em inglês que caso ela não encolhesse as pernas dela eu não teria onde colocar as minhas. Talvez tenha sido castigo por não ter deixado uma moedinha pra acender a luzinha da vela da igreja romana. Talvez.

Foras da lei

Já em Florença reencontrei o Rafael, amigo porto-alegrense que conheci em Londres (pois é) e conheci um amigo dele que é mexicano, mora nos Estados Unidos e estuda na Suíça (pois é). Pois que esse mexicano, o Alfredo, morou por um tempo na Toscana (!) e resolveu nos levar para um cidadezinha ali perto, Fiesole. Teríamos que pegar o ônibus, coisa que eu ainda não tinha feito na Itália, e como não tinha nenhuma bilheteria por perto resolvemos pagar ao motorista mesmo (aqui não existe cobrador, país atrasado). Aí, quando o ônibus finalmente chegou depois de uns 34 minutos, o Rafael estendeu uma nota de 20 euros ao motorista (a passagem era 2), que resmungou alguma coisa em italiano e mandou a gente passar sem pagar mesmo. Meio estranho, claro, mas dois minutos depois já estávamos suspirando pela grama verde e pelas ruínas de Fiesole. Acontece que nossos suaves devaneios foram abruptamente interrompidos por duas figuras ligeiramente acima do peso e de barba por fazer, que entraram no ônibus sem qualquer delicadeza e começaram a desfilar seus crachás por entre os passageiros. Fiscais. Veja bem, em seis meses de Florença, o Alfredo jamais tinha encontrado um fiscal. Mas naquele dia encontrou. E lá estávamos nós, sem bilhete. Se tivéssemos parado para pensar a respeito, sem muito esforço teríamos concluído que o motorista simplesmente não tinha troco para a nota de 20. Mas não pensamos. Aí que um dos fiscais, o mais bacana, foi falar com o Alfredo, e o outro, que certamente não tem feito muito sexo nos últimos tempos, começou a nos gritar um discurso sobre turistas que acham que andar de ônibus é de graça. Quando o Rafael tentou explicar em inglês o que realmente tinha acontecido, o fiscal se limitou a responder (aos berros, claro): “Ma parla in italiano!” Aí já era demais. Respondi no mesmo tom: “Mas fala tu em português então!” Ele não gostou muito. Disse que ia chamar a polícia se eu não me acalmasse. Pensei em responder “isso, Quico, vai correndo contar tudo pra sua mãe”. Mas não. Depois de alguma negociação eles concordaram em nos deixar pagar APENAS duas multas de 50 euros, e não três. Deram um recibo para cada um dos guris e informaram, vejam bem, que NAQUELE DIA era só apresentar os recibos para o motorista que poderíamos andar em qualquer ônibus sem pagar. Que bom, hein. Se soubéssemos disso antes não teríamos esperado tanto tempo pra ser multados.”

 

Pistoleiros também mandam flores - Capítulo 6

28 de fevereiro de 2011 0

Mas, afinal, qual é o maldito sentido da vida? A vida é realmente boa? Uma vida sem mulheres de pernas longas e torneadas e macias e rijas, pernas de louça, boas de se ver e agradáveis de se tocar; uma vida sem mulheres de seios sólidos e empinados, seios que mirem o firmamento com seus bicos duros como tachas de aço inoxidável; sem mulheres de nádegas redondas e arrogantes, que balancem com graça e firmeza ao meneio de quadris suavemente recurvos; e mais: uma vida sem os prazeres que o dinheiro paga, sem cartões de crédito, sem gastos em euros, sem temporadas em Punta, sem a segurança de um emprego fixo, sem fama nem glória, essa vida pode ser considerada boa?

Essa era a vida do repórter Régis Rondelli.

Que finalmente podia mudar para melhor. O dia da sua sorte, parecia, havia chegado. Mas a grande oportunidade da recém-iniciada carreira profissional de Rondelli surgia com a desgraça de duas pessoas aparentemente decentes: um honesto professor de arquitetura assassinado a tiros na porta de casa, e sua bela mulher, transformada em uma triste viúva. Era certo aquilo, se regozijar com a infelicidade dos outros? Rondelli se questionava, ao mesmo tempo em que vibrava com a chance de fazer uma matéria estrondosa, o que o perturbava e o fazia se questionar de novo, mas novamente ele comemorava sua sorte, e outra vez achava que estava sendo desumano. Mas o repórter policial tem de ser frio e até um pouco desumano, então ele se felicitava outra vez, e assim seguiam os tormentos morais do repórter Régis Rondelli.

Cometeu a imprudência de falar sobre isso com Beto de Cordes, veterano repórter de polícia da Tribuna. De Cordes estava sentado diante do computador na mesa ao lado, a camisa floreada aberta até o umbigo, a barriga de grávida à mostra, redonda e obscena. Tinha cabelos ralos, a cabeça do tamanho de uma bola de futebol número 5, irônicos olhos amendoados e voz de hiena de desenho animado.

– Está com peninha do presunto? – debochou De Cordes. – Meu filho, nenhum repórter de polícia tem pena de presunto.

Rondelli suspirou.

– Eu sei, eu sei. É que se você visse a coitada da mulher dele…

– Daqui a um mês já está se consolando com o marido da vizinha, pode ter certeza. Ela é gostosinha?

Rondelli pensou um pouco.

– É – reconheceu. – Uma moreninha bem apetecível.

– Vinte dias, então. Se ela é gostosinha, não vai levar vinte dias para se consolar sentando no colo de algum gaiato que tiver carro importado e conta no City Bank.

Rondelli murmurou um “é” desanimado e baixou a cabeça. Tentou se concentrar no texto. Não adiantaria de nada continuar aquela conversa. De Cordes era um velho repórter policial e se orgulhava do seu cinismo de velho repórter policial.

– Essa meninada – comentou De Cordes, fitando-o de lado.

Nesse momento, Manique, o editor de polícia, se debruçou sobre a mesa de Rondelli:

– Temos o boneco do presunto?

Boneco é a foto do rosto. O popular três por quatro.

– Não… Acho que o fotógrafo só pegou foto dela.

– Que merda – Manique consultou o relógio. – Estamos atrasados. Mas vou mandar o fotógrafo voltar lá assim mesmo. Quem sabe conseguimos publicar a foto do cara na segunda edição.

– Não têm a foto do presunto…  – De Cordes balançou a cabeça.  – No meu tempo, a gente não podia voltar para a redação sem a foto do presunto.

– No tempo dele a foto do presunto era com pê agá – caçoou Lessa, repórter da Editoria de Geral, que sentava próximo e ouvia a conversa.

De Cordes franziu os lábios e prosseguiu falando com as mãos sobre o teclado do computador, mirando a parede do fundo da redação, como se lá fosse projetado um filme sobre o seu tempo:

– Lembro de uma vez que o Antoninho, um velho colega nosso, era bom repórter, o velho Antoninho, pois o Antoninho foi cobrir um homicídio. O presunto estava sendo velado em casa. O Antoninho chegou lá, pediu uma foto do presunto para a viúva. Ela respondeu que não daria, eles nunca querem dar fotos dos caras assassinados, não sei por quê. Qual é o problema?

– É tão agradável ver a foto de um parente na página policial, não é? – disse Lessa, enviando um sorriso cúmplice para Rondelli.

Rondelli sorriu de volta. De Cordes foi em frente:

– Mas o Antoninho não podia voltar sem a foto. Aí ele bolou um plano: viu que na parede da casa havia várias fotos do morto. Combinou com o fotógrafo o seguinte: ele, Antoninho, daria a volta na casa, até a caixa de força, nos fundos, no quintal. Cortaria a energia. Aí, o fotógrafo se aproveitaria da confusão e do escuro, entraria na casa correndo, pegaria uma foto do morto que estivesse pendurada na parede, enfiaria dentro da bolsa e os dois voltariam correndo para o jornal. Fizeram tudo isso: o Antoninho desligou a força, o fotógrafo pegou o retrato, meteu na bolsa, eles correram para a redação, tiraram o quadro da bolsa e… era Jesus Cristo!

As gargalhadas estouraram nas mesas do entorno. Lessa admitiu que aquela era boa. Rondelli riu também. E baixou a cabeça novamente. Tinha que se concentrar para escrever um belo texto. Aquela matéria teria grande leitura no dia seguinte. Seria a matéria do ano. Sua maior matéria. A chance da sua vida.

Grêmio 4 x 2 Cruzeiro - Crônica do jogo

27 de fevereiro de 2011 33

O Grêmio fez 4 a 2 no Cruzeiro e é finalista da Taça Piratini, mas francamente…

Quem quer se enganar, engane-se. Mais uma vez o Grêmio encontrou dificuldades quando bem marcado, e o Cruzeiro bem o marcou. Mais uma vez o Grêmio demonstrou seus problemas. São vários e são sérios. Os principais:

1. Qualquer um, de qualquer altura, de qualquer parte, faz gol de cabeça na área do Grêmio. Já faz tempo, isso.

2. Nos intestinos da zaga, Paulão não é mais aquele beque enérgico do ano passado. Parece sempre meio distraído, qualquer ponta sassaricador passa por ele. Se Renato olhasse bem para a despensa do Olímpico, talvez visse Mário Fernandes. Alguém precisa dizer a Renato que Mário Fernandes é um dos melhores zagueiros do Brasil.

3. Na lateral-esquerda, Gilson, além de marcar mal, quando ataca, ataca para trás. Ele atrasa o jogo, está muito aquém do seu par do outro lado do campo, Gabriel. Se Renato olhasse bem para a despensa do Olímpico, veria Neuton. Alguém precisa dizer a Renato que Neuton marca, cabeceia e ataca. É um lateral raro que poderia inclusive ajudar a corrigir o defeito que o Grêmio tem na bola área.

4. No ataque, o Grêmio tem dois estafermos dentro da área. André Lima e Borges. Sem Jonas, o Grêmio não tem quem abra uma defesa fechada. Se Escudero não der certo, o Grêmio fica sem alternativas de ataque. E, neste caso, não adianta Renato olhar para a despensa do Olímpico. Não há nada para o setor, nas estantes. Porque Junior Viçosa, que está lá, nunca marcou um gol na vida. Centroavante que não marca gol não é centroavante.

Hoje Borges marcou três e o Grêmio fez quatro, mas dois foram de pênalti e um dos pênaltis muito duvidoso. O Cruzeiro merecia melhor sorte.

Canibais - Capítulo 2

27 de fevereiro de 2011 1

“Abriu um talho na garganta”

Ramos não deixou que o corpo de Duarte desabasse. Susteve-o pelos cabelos. O machado cravado na testa dificultava-lhe um pouco os movimentos. Postou-se atrás do corpo. Apoiou as costas de Duarte em seus joelhos. Com a mão esquerda, tomou-lhe o queixo. Puxou para cima. O pescoço ficou bem à mostra, branco, o gogó saltado. Levou a mão direita às costas. De lá, trouxe um facão de dois cabos e bom fio. Num único e vigoroso golpe, abriu um talho na garganta de Duarte. Lembrou-se do seu pai, sempre se lembrava dele nesses momentos. Não com remorso, não com dor, não com alegria. Apenas uma lembrança. Devia ser exatamente assim que o velho fazia na Guerra dos Farrapos. Exatamente assim.

Finalmente, o açougueiro recuou dois passos e permitiu que o corpo desabasse, o sangue se espalhando pelo chão de terra batida. Ramos contemplou o corpo de Duarte por alguns segundos. Pouca carne. Nenhuma gordura. Embainhou o facão sem se preocupar em limpá-lo. Debruçou-se sobre o cadáver, curvando o torso, as grandes mãos apoiadas nos joelhos. Olhava-o com curiosidade, como se tentasse descobrir algo nos olhos baços. Examinou-o bem. Tinha ainda os olhos abertos, uma expressão de perplexidade no rosto lívido.

Nem todos eram pegos de surpresa. Alguns compreendiam no último momento o que lhes sucederia. Ramos percebia que sentiam a iminência da morte. Feito bichos. Bois e vacas sentem o cheiro da morte quando ingressam no brete, ele bem sabia. Cheiro do sangue vertido, talvez. Eles, seus bois, pressentiam o fim no instante derradeiro. Interessante. Mesmo assim, ninguém nunca teve tempo de reagir. A rapidez era seu principal trunfo.

Precisava tirar o machado do crânio de Duarte. Pôs-se ereto. Pisou no pescoço e no queixo do outro, sujando de sangue suas botinas de couro. Agarrou com firmeza o cabo de madeira. Com um puxão vigoroso, livrou o machado da testa fendida.

– Ufa…

Mãos à cintura, Ramos olhou para cima. Para o alçapão. Viu o rosto de Catarina num canto do quadrado de luz. Os olhares deles se encontraram. Flagrada, Catarina recolheu rapidamente a cabeça, um animal assustado. Ramos ouviu os passos dela correndo para o quarto, tropeçando nas cadeiras. Ela sabia o que aconteceria a seguir. Safada. Vadia.

– É hora… – murmurou para si mesmo, sentindo as virilhas coçarem de excitação. Em seguida, fitando o teto, urrou um urro medonho: – É HORA!

Riu. Limpou as mãos no avental. Começou a subir os degraus de madeira do porão.
Lá em cima, Catarina encolheu-se num canto do quarto. Olhava fixamente para a porta. Rezava baixinho: “Deus, aquilo vai acontecer de novo comigo… Deus, aquilo vai acontecer de novo comigo…”. Os passos de Ramos ecoavam pela casa. Cada vez mais perto. Catarina tinha as mãos unidas, os braços em volta dos joelhos. Repetia, mais alto: “Deus, ele quer fazer aquilo comigo! Não deixa, por favor!”. Cada vez mais perto. “Não deixa, não deixa.”

Mais perto.

Ramos assomou à porta do quarto. Ofegava. Os olhos injetados queriam saltar das órbitas. Catarina reconhecia aquele olhar. Sabia o que significava. Sabia o que iria lhe acontecer.

– Não, Ramos! Por favor, não! – implorou.

Ramos deu dois passos na direção dela. Sorriu um sorriso malévolo. Um sorriso que ela reconhecia desde muito cedo em sua vida.

– Não, Ramos! Não! Por favor! De novo, não!

Ramos ria. Gargalhava. Aproximou-se mais, o sangue ainda fresco no avental branco. Catarina ajoelhou-se, desesperada, as mãos postas. Gritava. Implorava:

– Não, não, não, não, por favor!

E, quando ele já estava sobre ela, um berro rouco lhe rasgou a garganta:

– Nãããããão!!!

Frase do dia

27 de fevereiro de 2011 1

Disseram que dei vexame bebendo champagne no sapato de Sophia Loren.

Não é verdade. Derramei fora quase metade porque ela se recusava

a tirar o maldito pé do sapato.

(Groucho Marx )

Quem era Moacyr Scliar

27 de fevereiro de 2011 7

Sempre que entrava na Redação de Zero Hora, o Moacyr Scliar parava em frente à minha mesa, fazia um comentário sobre algo que eu havia escrito no jornal e arrematava:

“Tu tens que escrever um romance.”

Sempre isso. Sempre. E a minha resposta era sempre a mesma:

“Estou escrevendo!”

A primeira vez que ouvi esse conselho faz mais de dez anos. Como a resposta vinha no gerúndio, eu estava “escrevendo”, percebi que o Scliar deixou de acreditar em mim. Não era possível que estivesse escrevendo, escrevendo e escrevendo sem terminar nunca. Claro, ele era um escritor prolífero, estava acostumado a parir livros tão bons quanto rápidos.

Mas era verdade! Eu estava escrevendo. Levei quase quatro anos para concluir meu primeiro romance, “Canibais”. Quando cheguei perto do fim, fiquei esperando a entrada do Scliar na Redação, sua paradinha em frente ao meu computador, a conversa amena e o conselho eterno:

“Tu tens que escrever um romance.”

Aí eu arremataria:

“Está escrito!”

Por algum motivo, justamente naquele período o Scliar demorou a visitar a Redação um tempo além do normal. Maldição! E eu com o romance praticamente pronto… Passaram-se semanas, até que, finalmente, a silhueta longilínea dele surgiu lá na ponta do salão. Veio gingando devagar, naquele seu jeito de caminhar, e veio com um meio sorriso no rosto amistoso. Parou na minha frente. Pôs as duas mãos sobre o computador. E, para minha surpresa, mudou a pergunta:

“Está pronto o nosso romance?”

Aquilo me desconcertou. Ele parecia saber que estava pronto. Será que não tinha deixado de acreditar em mim, afinal? Pisquei. Pensei. Respondi, um pouco perplexo:

“Está…”

“Quero ler antes de ser publicado”, ele anunciou.

Foi a segunda surpresa da noite. Era uma atitude muito generosa da parte dele. Escritores consagrados estão sempre sendo assediados por jovens que lhe pedem para analisar o que escreveram. Em geral, isso representa um fardo, uma chatice. E o Scliar não apenas analisava e comentava o que eu publicava em jornal como agora pedia para ler um romance que eu ainda nem havia publicado!

Repassei-lhe os originais. E o Scliar os devolveu com um belo texto de apresentação. Está lá, imortalizado em papel. São palavras que rebrilham no começo do meu romance. Mas não rebrilham pelos elogios que um prefaciador inevitavelmente faz ao que prefacia, e sim pela bondade com que foram escritas. Hoje, reli aquele pequeno texto e ali identifiquei, em cada verbo, em cada substantivo, o homem que era Scliar: mais do que tudo, uma pessoa boa. Como fazem falta pessoas boas nesse mundo.

Pistoleiros também mandam flores - Capítulo 5

27 de fevereiro de 2011 2


Era importante cortar o filé em tiras. Não picá-lo ou reduzi-lo a cubos, como fazem alguns bárbaros. Trata-se de um estrogonofe, ora, não um reles guisado. Meriam espargiu sal e pimenta-do-reino nas tiras. Em seguida, escolheu uma cebola de tamanho médio e picou-a também. Abriu a torneira enquanto trabalhava. A água corrente de alguma forma espalhava o gás emitido pela cebola e evitava que ela lacrimejasse. Cebola é um alimento riquíssimo. Ajuda a regenerar as células, a recompor os tecidos. Meriam fechou a torneira. Fatiou os cogumelos. Cogumelo é bom para o fígado. Se alguém toma um porre, no dia seguinte deve comer cogumelos. Não era o caso dela. Não gostava de beber. Um vinhozinho de vez em quando, no máximo. Meriam apanhou uma panela grande, jogou uma colherada de manteiga no fundo. Pôs a panela no fogo. Começou a cantarolar. Estendeu as tiras de filé na panela. Elas tinham de ser fritas, para não sair muito sumo. Terminada a fritura, embebeu-as em um quarto de copo de conhaque. Então encheu mais uma colher de sopa de conhaque e, usando a própria boca do fogão, inflamou-a. Levou a colher à panela, inclinou a panela levemente e espalhou o fogo. Adorava aquela parte. Até a palavra é linda: flambar. Lembrou-se que um dia tentou flambar uma comida, usou conhaque demais e queimou os cílios. Sorriu com a lembrança e balançou a cabeça. Apagado o fogo, acrescentou uma colher de mostarda, duas de ketchup, uma de molho inglês e mexeu com uma colher de pau. Mexeu, mexeu, jogou os cogumelos na mistura e, por fim, pôs o creme de leite. Sem soro! Não podia ser com soro! Outra: não devia deixar ferver. Se o creme de leite fervesse, talhava e arruinava o estrogonofe. Um bom estrogonofe era uma arte. Levou-o vitoriosa para a mesa. Vanderlei aguardava sentado, sorrindo.

Vanderlei comeu em meio a suspiros e gemidos.

– Uma delícia – repetia. – Uma delícia.

Meriam sorria, orgulhosa.

– Um homem veio aqui em casa hoje à tarde – contou ela, o garfo a caminho da boca.

Vanderlei levantou a cabeça.

– Um homem?

– Veio atrás de você.

– Quem era?

– Não sei. Não conheço. Disse que tinha um trabalho a oferecer.

– Um trabalho? – Vanderlei fechou um pouco as pálpebras, um gesto que fazia quando estava pensando. – Estranho. Deixou algum recado?

– Disse que voltaria mais tarde.

– Estranho – repetiu Vanderlei, enquanto mastigava. – Tem mais arroz?

Antes que Meriam respondesse, a campainha da porta soou. Meriam estremeceu:

– Será que é o homem?

Vanderlei hesitou por um momento. Meriam viu um relampejar de medo nos olhos dele. E sentiu medo também. Enfim, ele se levantou, limpando os lábios com um guardanapo de papel.

– Vou ver.

Eram as últimas palavras que lhe dirigia.

Meriam baixou a cabeça para a mesa, mas não conseguiu mais comer. Ficou parada, com as mãos pousadas no colo, ouvindo. Ouviu Vanderlei abrir a porta, ouviu a voz do homem. Parecia uma discussão. Estariam discutindo? Conheciam-se? Meriam girou o pescoço. Olhou sobre o ombro direito. Será que deveria ir lá para conferir pessoalmente o que acontecia? Ergueu-se. Virou-se para a porta, mas permaneceu de pé, em dúvida. De onde estava, via as costas do marido e um vulto disforme com quem ele conversava. Seria o mesmo homem que a visitara durante a tarde? Deu um passo em direção a eles. Parou. Esticou a cabeça. Queria ver bem o rosto do homem, mas não conseguia. O corpo de Vanderlei estava na sua frente. Subitamente, a angústia tomou conta de seu peito. Meriam sentiu a garganta fechar e a aflição lhe queimar os olhos. Decidiu-se a ir lá, apoiar o marido. Aprumou-se. Partiu, resolvida. Deu um passo. Dois.

Foi quando ouviu o primeiro tiro.

O estampido fez Meriam saltar para trás e levar a mão ao peito. Quase que simultaneamente, outros dois tiros foram disparados e o corpo de Vanderlei desabou no chão da sala.

– Vanderlei! – ela gritou.

Não obteve resposta.

– Vanderlei! – já corria na direção dele.

Ele não se mexia. Não falava. Quando Meriam se debruçou sobre seu corpo, Vanderlei exalou o último suspiro.

Som de Sexta no sábado

26 de fevereiro de 2011 2

No Pretinho da última sexta-feira debatemos brevemente sobre um clássico da música pop internacional. Love you just way you are é um daqueles sons que, bem usados, faz galopar os corações, transforma noites em datas históricas, marca para sempre.

Billy Joel, o autor, decidiu se tornar cantor profissional quando assistiu à apresentação dos Beatles nos Estados Unidos, em 1964. Ele tinha então 15 anos de idade. Hoje, é um dos músicos mais ricos do mundo.

Quero uma noite de sábado assim para você:

http://www.youtube.com/watch?v=hjCoBTzrN9E

Canibais

26 de fevereiro de 2011 4

Durante o pré-Carnaval, vou dar aos leitores do blog uma prova de alguns livros meus já publicados.

Abaixo, o primeiro capítulo de “Canibais”

1. “E o enorme vulto de um homem  saiu da sombra”

Catarina Palse era uma caçadora de homens.

Naquela noite, Duarte era a caça. Desavisado, entrou no território dela, as sombras da rua do Arvoredo. Foi fisgado assim que a viu caminhando com indolência de gata sem dono, caminhando como quem não vai a lugar algum. Passeando, que estava claro que ela passeava.

Estranhou.

Nenhuma mulher “de bem” ousava sair de casa àquela hora. Porto Alegre era perigosa à noite. Escravos fugidos, imigrantes desgarrados, bandidos de todo tipo se atocaiavam em cada canto penumbroso das estreitas e malcheirosas ruas da Capital. O incauto caminhava por uma das ruelas do centro e, de repente, um ou dois escravos quilombolas lhe pulavam em cima, navalha ou porrete em punho. Depois de limpar a vítima de todos os seus tostões, se homiziavam nos campos baldios da Várzea ou no Areal da Baronesa ou em alguma das ilhas do Guaíba. A situação era tão grave que o chefe de polícia Dario Rafael Callado decretara toque de recolher ao bimbalhar do sino da Igreja Matriz, mas algumas pessoas continuavam se aventurando em busca de diversão e, sobretudo, de sexo.

Sexo. Era o que Duarte queria. Suas virilhas formigavam de desejo quando ele olhava para Catarina ondulando as ancas em sua direção. Jamais vira mulher tão linda. O cabelo loiro, esvoaçante, devia ser suave ao toque. Os lábios eram carnudos, mas ao mesmo tempo despretensiosos. Os olhos… azuis ou verdes? Verde-azulados, decidiu Duarte. Uma mulher de boa altura, quase um metro e setenta, esguia, segura de si, pelo jeito que andava.

A noite se cristalizou no instante em que ela apareceu na esquina. Duarte permaneceu sob uma das árvores que davam nome à rua, sentindo o coração ribombar no peito. Catarina veio do fundo da rua, as árvores lhe servindo de corredor, as copas folhadas de dossel. Duarte a observava se aproximar com o peito oprimido pela beleza de Catarina. Quando ela ficou a uma distância de dois passos, ele temeu que seu coração fosse estourar. Catarina passou devagar. Bem devagar.
Bem devagar.

Duarte pensou em abordá-la, mas logo se acovardou. Achou improvável que tivesse uma chance. Trabalhava numa camisaria, ganhava pouco, era solteiro, e um solteiro que ganhasse pouco, na época, enfrentaria problemas no mercado do sexo da cidade. Só com escravas ou meretrizes, nunca uma fêmea deslumbrante como Catarina. Verdade que ela se comportava como uma mulher da vida, zanzando pela noite, coquete, mas… não parecia. Ela parecia uma mulher… direita.
Então, aconteceu. Catarina girou o longo pescoço para trás e lhe pespegou um olhar de esmeralda. Seria possível? Cristo!, era evidente que o olhava. Duarte estremeceu. Será que sua sorte havia chegado? Ele sabia que havia um dia de sorte na vida de cada homem. Depois de vinte e tantos anos, teria enfim o seu dia de sorte?

Catarina continuava a fitá-lo por cima dos ombros de leite, pequenas ondas de cabelo dourado agitadas pela brisa do outono porto-alegrense. Em seguida, virou o queixo delicado para a frente. Continuou caminhando. Duarte a seguiu, o coração aos saltos. Ela avançava pela rua tortuosa, rua sem calçamento, de terra batida, que ora se estreitava, ora se alargava. Caminhava ainda lentamente, mas agora com um tanto mais de decisão. Seguia da esquina do Beco do Poço, onde Duarte a vira pela primeira vez, para a região que dava para o pátio do palácio da Presidência. De repente, parou. Será?… Duarte conhecia aquela casa. Será que… que o levava para a casa amaldiçoada? Jesus! Exatamente. Era a casa. Lá estava ela, parada diante do portão, olhando-o mais uma vez. Duarte teve vontade de voltar correndo para o seu pequeno quarto na rua da Ponte. Mas Catarina chamava-o com o olhar de promessas. Devia ir atrás dela? Devia entrar na casa maldita?

Catarina já se ia pelo jardim. Duarte estacou no portão. Olhou para os lados, para a rua escura. Os lampiões a óleo de peixe não estavam funcionando. Como esses lampiões exalavam mau cheiro e uma nuvem de fuligem que manchava roupas e sujava casas, a Câmara de Vereadores decidira mantê-los apagados nas noites de lua. Naquele momento, Duarte preferia que estivessem acesos. Era difícil enxergar, apesar da clara luz da lua. Olhou para trás, por sobre os ombros. Fitou a colina que levava ao palácio e à praça da Matriz. E também ao cemitério antigo. Sentiu um arrepio ao pensar no velho cemitério. Suspirou. Devia entrar? Não queria, tinha medo daquela casa. Mas a ânsia por sexo lhe comichava as glândulas, lhe abrasava o rosto. Fazia mais de ano que não pegava mulher. A última fora a escrava Aparecida. Nada que o entusiasmasse. Não apreciava sexo a soldo. Mas como alternativa só havia, basicamente, o casamento. Com 23 anos de idade e sonante algum no bolso, Duarte não se sentia pronto para o matrimônio. Além disso, sabia que não podia ser considerado um tipo atraente. Magro demais. As mulheres de meados do século 19 realmente não apreciavam homens magros demais. Outra: o bigode de Duarte era muito ralo. Oh, como ele gostaria de ostentar um bigode espesso, uma barba frondosa como a do revolucionário Garibaldi, que arrebatara uma brasileira durante a Guerra dos Farrapos e agora fazia fremir a Itália, do outro lado do oceano. Ah, Duarte realmente ansiava por desfraldar uma taturana negra e gorda sob o nariz, que tornasse seu rosto mais cheio, mais forte, mais másculo. Suspirou outra vez. Uma fêmea como Catarina interessar-se por ele não acontecia sempre. Não acontecia nunca! Precisava aproveitar a chance. “É o meu dia!”, murmurou para a própria gravata. “É o meu dia.” Essa certeza lhe forneceu coragem.

Abriu o pequeno portão e entrou. Olhou para o jardim sombrio: a grama alta, malcuidada, não devia ser cortada há meses. As árvores copadas, espalhadas aleatoriamente, aumentavam as áreas de penumbra do lugar. Duarte sentiu um calafrio lhe gelando as vértebras. Catarina parou no alpendre e virou-se para ele. Sussurrou, rouca:

– Vem.

Os pêlos da nuca de Duarte se eriçaram. Ela disse apenas vem, e foi a frase mais espetacular que ele jamais ouviu.

Vem.

Lindo. Suas bochechas magras queimavam. Naquele momento, sentiu-se bem como há muito não se sentia. Sentiu-se… um gordo. Forte, bem fornido, a prosperidade fazendo dobras na cintura.

Vem.
Foi. O olhar sempre atarraxado nos olhos luminosos de Catarina, olhos verdes e úmidos, olhos de felina prestes a devorar sua presa. De repente, pareceu ter visto um vulto numa janela. Parou de novo, a um passo do alpendre.

– Tem mais alguém em casa? – perguntou.

Ela sorriu um sorriso que lhe cavou duas covinhas no rosto perfeito:
– Vem.

Nossa Mãe, quem poderia resistir?

Catarina entrou na casa. Duarte levantou o pé vacilante e, finalmente, subiu no alpendre. Tirou o chapéu de pano da cabeça e cruzou a porta entreaberta.

Na sala, viu móveis poucos e toscos, algumas cadeiras, um armário grande, um canapé. No centro da peça, havia uma enorme mesa com algo, decerto comida, coberto por uma toalha branca. Na parede, um retrato, uma fotografia de estúdio, dessas que se tornaram moda no país. Duarte fixou-se no retrato. Conhecia aquele homem. Conhecia! Quem?… Mas… não seria José Ramos, o açougueiro? Claro, o açougue ficava ali em frente, no terreno da casa. Como Duarte era distraído! Estava na casa de outro homem, certamente com a esposa dele. Oh, Deus, o que significava aquilo? Onde andaria o açougueiro? Sentiu a boca secar. Não devia estar ali. Não mesmo. Não é saudável seguir mulheres de açougueiros e entrar na casa deles quando elas dizem: vem. Devia ir embora, voltar para sua casa. Aí estava uma palavra que lhe transmitia segurança: casa. Era onde queria estar agora.

Mas Catarina se aproximou, chegou bem perto e lhe tomou a mão. O contato com a pele fria e macia excitou Duarte o suficiente para que, num segundo, esquecesse de casa, do açougueiro, da santa prudência e de si mesmo. Desejava Catarina, só isso.

Ela o puxou através da sala, para um corredor. Poucos passos mais e então pararam diante de uma porta fechada. Catarina levou a mão livre ao trinco e a abriu.

Era o quarto.

Duarte sorriu. Queria gargalhar, na verdade. Fez força para não gargalhar. Catarina continuou conduzindo-o. Levou-o até a cama, uma cama de casal, grande, com lençóis brancos desarrumados. Pôs as duas mãos em seu peito e o empurrou de leve, fazendo com que sentasse. Duarte sentou-se, obediente. Ela se afastou um passo. Dois. De pé, com movimentos rápidos de gazela, se livrou do vestido verde como seus olhos. Estava nua. Uma nudez ofuscante de tão maravilhosa. Que tipo de mulher era aquela? Sequer usava anágua! Uma mulher completamente nua. Completamente! Duarte nunca vira uma mulher nua sem precisar pagar por isso. No máximo, vislumbrara os tornozelos de algumas criadinhas mais faceiras na rua da Praia. Jesus Cristo! Duarte sentia que a respiração lhe faltava.

Então ouviu um suspiro. Havia mais alguém na casa. Duarte saltou da cama. Que suspiro era aquele?

– Que suspiro é esse?

Olhou para os lados, em busca de uma terceira pessoa. Era óbvio que havia uma terceira pessoa, em algum lugar. Embaixo da cama? Agachou-se, procurou debaixo da cama. Um penico, provavelmente vazio. Muita poeira. Sentou-se de novo no colchão, o coração bombeando sangue para as têmporas.

Catarina veio do meio do quarto, ondulando. Os joelhos redondos dela colaram nos joelhos pontudos dele. As mãozinhas dela voaram na sua direção, duas pequenas borboletas brancas. Cingiram-lhe os braços de graveto. Levantaram-no suavemente. Duarte obedeceu ao leve comando da loira. Pôs-se de pé. Abaixou a cabeça e fitou os bicos intumescidos dos seios dela. O medo pareceu pequeno perto daqueles bicos duros.

– Foi o vento – cochichou ela, a voz quente lhe titilando os tímpanos, o cabelo fino lhe acariciando o rosto. – Essa casa é cheia de frestas.

Empurrou Duarte de volta à cama, um empurrãozinho doce, mas suficiente para fazê-lo desabar. Decúbito dorsal. Duarte sentiu um pouco de vergonha da estreiteza de seu corpo ao aterrissar no colchão. Catarina acavalou-se nele, ronronando. E ele se esqueceu do medo, esqueceu-se da vida. Oh, Deus, não acredito!, pensava. Não acredito, não acredito!

Duarte tremia de prazer. Catarina deitou-se sobre ele. Uma mulher linda e nua deitada sobre ele, ele não acreditava. Ela enroscou seu pescoço liso e comprido no pescoço dele. Duarte sentia o peso leve e o calor de seu corpo. Teve uma ereção. Ficou constrangido. Não era educado ter ereções daquela forma, o que ela poderia pensar? Catarina ergueu o torso outra vez. Começou a tirar a roupa dele, lentamente. Não permitia que ele participasse, não deixava que agisse. Ela queria fazer tudo. Duarte, que sempre se envergonhara da sua nudez, não pensava em mais nada. Estava paralisado de prazer. Deixava a iniciativa para ela. Catarina acavalou-se sobre ele de novo. E começou a passar o sexo em seu corpo anguloso. Em todo o corpo. Nas pernas, na barriga, nos braços, no rosto, no sexo de Duarte.

Hora e meia depois, Duarte jazia na cama, feliz e saciado. Que mulher! Olhou mais uma vez para aquela nudez resplandecente. Olhou para o teto, procurando o firmamento. Pensou: obrigado, Deus. Havia sido a melhor noite da sua vida, o ponto culminante, seu dia de sorte que chegara, enfim. Tinha de repetir tudo. Tudo. Não seria feliz se não repetisse aquela noite. Quis saber:
– Você é casada? Com o açougueiro? Onde ele?…

– Você falar demais – interrompeu Catarina, num delicado sotaque alemão. Quem diria, era a primeira vez que um sotaque alemão parecia delicado a Duarte.
Sorrindo, ela escorregou para fora dos lençóis. Ergueu-se. Era a Vênus de Boticelli, nua e deslumbrante. Assim nua, as carnes rijas e brancas, caminhou até a porta e olhou para trás, por sobre os ombros redondos:

– Vem.

Parecia ser sua palavra preferida.

Duarte se levantou, inseguro. Olhou em volta, procurando suas roupas pelo chão de tábuas do quarto. Devia vesti-las? Mas Catarina já se afastava. Bem, ela estava nua… Resolveu ficar nu também. Seguiu-a até a sala, a pele pendurada frouxamente nos ossos. Como gostaria de ter uma barriga burguesa.

Ela parou em frente à mesa e, num gesto seco de mágico de teatro, puxou a toalha. Surgiu uma mesa posta. Sobre ela estavam dispostas garrafas de vinho, pães de meio quilo, um tablete de queijo do tamanho de uma caixa de sapatos, uma travessa com lingüiças, outra com fatias de bolo. Catarina buscou uma cadeira. Ofereceu-a a Duarte. Ele sentou-se, ainda nu, sorrindo para os acepipes. (Não acredito, não acredito!) Estava se sentindo um paxá. Um rei. O próprio imperador Dom Pedro. Comeu com prazer. Tudo ótimo, mas a lingüiça… Jamais comera lingüiça tão saborosa. De suíno, concluiu, só podia ser de suíno, algum suíno criado com método e arte. Catarina observava-o em silêncio, com um meio sorriso tornando ainda mais desejáveis os lábios polpudos. Comprazia-se com a visão de Duarte se regalando, era a impressão que passava. Decerto, ela mesma tinha engendrado todas aquelas delícias. Uma mulher linda e boa cozinheira. Poderia existir um anjo assim?

Duarte estalou os beiços ao terminar.

– Divino! – exclamou. – Divino!

Viu Catarina bater com o garfo no copo, como se chamasse uma criada. Haveria ainda mais guloseimas? E aquela lingüiça formidável? Estava curioso sobre aquela lingüiça. Onde criavam aqueles porcos deliciosos? Se comesse aquelas maravilhas todos os dias, se tornaria um gordo, enfim. Olhou para Catarina, os cotovelos ainda cravados na mesa, e perguntou:
– Da onde é que…

Não terminou a frase. Num instante, o chão se abriu, a sala desapareceu da visão de Duarte, e ele mergulhou na escuridão.

Duarte se chocou contra o solo duro, de chão batido. Gemeu. Contorceu-se. Não conseguia se mexer muito. Várias partes do corpo lhe doíam. Teria quebrado algum osso? Onde estava? Olhou para cima. Viu o quadrado de luz que vinha do teto – o alçapão pelo qual fora sugado. Catarina. Ela devia estar lá.

– Ei! – gritou. – Ei!

Nada. Duarte tentou se erguer. O corpo doía demais. Mal conseguia sentar-se. Será que alcançaria o teto, se pulasse? Olhou para cima: de jeito nenhum. Três Duartes, um sobre o outro, não alcançariam o alçapão. Pensou em gritar de novo, quando algo se moveu na escuridão. Duarte forçou os olhos. Uma forma humana estava parada de pé, junto a uma coluna. Duarte sentiu o pavor lhe comprimir o peito. O que era aquilo? Quem era?

Súbito, assaltou-lhe a consciência de que estava nu. Olhou para o próprio corpo magro, ossudo, desbotado. Sentiu vergonha, sentiu-se indefeso e, sobretudo, sentiu medo. Queria chorar, estar de volta ao seu pequeno quarto na rua da Ponte, queria que nada daquilo tivesse acontecido, nem a noite de sexo, nem a ceia faustosa. O vulto continuava lá, agora imóvel. Mas Duarte sabia que era alguém. Ou algo.

– Quem está aí? – gritou, voz trêmula.

Nenhuma resposta. Duarte começou a ofegar. Sentou-se, enfim, com grande dificuldade.
– Quem está aí? – repetiu.

E o enorme vulto de um homem saiu da sombra. Duarte olhou-o, cheio de pavor. Era a visão mais horrenda da sua vida. Tinha bem uns dois metros de altura. Vestia um avental ensangüentado. Levava nas mãos um machado enorme.

O homem lançou-lhe um olhar cruel. Era o próprio Mal que o encarava.
Nu, rojado ao solo, indefeso, Duarte se encolheu. Teve vontade de gritar, mas sentiu um misto de vergonha e pavor. Não conseguia tirar os olhos do homem parado a sua frente, ameaçador.
Então o reconheceu.

O açougueiro. Sim, só podia ser José Ramos! A familiaridade encheu Duarte de esperança e, até, de meia porção de coragem. Duarte o conhecia, ele não era nenhum monstro, nada sobrenatural, nada inumano. Já tinham se cumprimentado na rua, trocado olhares. Conheciam algo um do outro. Era possível negociar. Talvez Ramos quisesse dinheiro, talvez estivesse furioso porque Duarte dormira com a mulher dele. Isso! Era ciúme! O arrabaldino sentimento do ciúme. Mas Duarte nem sabia que eram casados… Entrara na casa embalado pela maior inocência. Ela que o havia provocado. Sim, ia negociar. Começou a dizer:

– Senhor Ramos, eu…

Foi interrompido outra vez. Era uma noite de frases incompletas para Duarte. Viu Ramos fazer um movimento rápido com as duas mãos, um gesto enérgico e feroz. A princípio, não entendeu bem o que aconteceu. Apenas sentiu um forte baque que lhe fez tremer a testa, o pescoço, a espinha dorsal, o corpo inteiro. Então, a confusão, a dor intensa, e a compreensão derradeira de que estava com uma lâmina, a lâmina do machado, fincada entre os olhos. Queria falar algo, queria se queixar, queria tirar aquilo da testa, mas tudo escureceu.

1. “E o enorme vulto de um homem
saiu da sombra”

Catarina Palse era uma caçadora de homens.

Naquela noite, Duarte era a caça. Desavisado, entrou no território dela, as sombras da rua do Arvoredo. Foi fisgado assim que a viu caminhando com indolência de gata sem dono, caminhando como quem não vai a lugar algum. Passeando, que estava claro que ela passeava.

Estranhou.

Nenhuma mulher “de bem” ousava sair de casa àquela hora. Porto Alegre era perigosa à noite. Escravos fugidos, imigrantes desgarrados, bandidos de todo tipo se atocaiavam em cada canto penumbroso das estreitas e malcheirosas ruas da Capital. O incauto caminhava por uma das ruelas do centro e, de repente, um ou dois escravos quilombolas lhe pulavam em cima, navalha ou porrete em punho. Depois de limpar a vítima de todos os seus tostões, se homiziavam nos campos baldios da Várzea ou no Areal da Baronesa ou em alguma das ilhas do Guaíba. A situação era tão grave que o chefe de polícia Dario Rafael Callado decretara toque de recolher ao bimbalhar do sino da Igreja Matriz, mas algumas pessoas continuavam se aventurando em busca de diversão e, sobretudo, de sexo.

Sexo. Era o que Duarte queria. Suas virilhas formigavam de desejo quando ele olhava para Catarina ondulando as ancas em sua direção. Jamais vira mulher tão linda. O cabelo loiro, esvoaçante, devia ser suave ao toque. Os lábios eram carnudos, mas ao mesmo tempo despretensiosos. Os olhos… azuis ou verdes? Verde-azulados, decidiu Duarte. Uma mulher de boa altura, quase um metro e setenta, esguia, segura de si, pelo jeito que andava.

A noite se cristalizou no instante em que ela apareceu na esquina. Duarte permaneceu sob uma das árvores que davam nome à rua, sentindo o coração ribombar no peito. Catarina veio do fundo da rua, as árvores lhe servindo de corredor, as copas folhadas de dossel. Duarte a observava se aproximar com o peito oprimido pela beleza de Catarina. Quando ela ficou a uma distância de dois passos, ele temeu que seu coração fosse estourar. Catarina passou devagar. Bem devagar.

Bem devagar.

Duarte pensou em abordá-la, mas logo se acovardou. Achou improvável que tivesse uma chance. Trabalhava numa camisaria, ganhava pouco, era solteiro, e um solteiro que ganhasse pouco, na época, enfrentaria problemas no mercado do sexo da cidade. Só com escravas ou meretrizes, nunca uma fêmea deslumbrante como Catarina. Verdade que ela se comportava como uma mulher da vida, zanzando pela noite, coquete, mas… não parecia. Ela parecia uma mulher… direita.

Então, aconteceu. Catarina girou o longo pescoço para trás e lhe pespegou um olhar de esmeralda. Seria possível? Cristo!, era evidente que o olhava. Duarte estremeceu. Será que sua sorte havia chegado? Ele sabia que havia um dia de sorte na vida de cada homem. Depois de vinte e tantos anos, teria enfim o seu dia de sorte?

Catarina continuava a fitá-lo por cima dos ombros de leite, pequenas ondas de cabelo dourado agitadas pela brisa do outono porto-alegrense. Em seguida, virou o queixo delicado para a frente. Continuou caminhando. Duarte a seguiu, o coração aos saltos. Ela avançava pela rua tortuosa, rua sem calçamento, de terra batida, que ora se estreitava, ora se alargava. Caminhava ainda lentamente, mas agora com um tanto mais de decisão. Seguia da esquina do Beco do Poço, onde Duarte a vira pela primeira vez, para a região que dava para o pátio do palácio da Presidência. De repente, parou. Será?… Duarte conhecia aquela casa. Será que… que o levava para a casa amaldiçoada? Jesus! Exatamente. Era a casa. Lá estava ela, parada diante do portão, olhando-o mais uma vez. Duarte teve vontade de voltar correndo para o seu pequeno quarto na rua da Ponte. Mas Catarina chamava-o com o olhar de promessas. Devia ir atrás dela? Devia entrar na casa maldita?

Catarina já se ia pelo jardim. Duarte estacou no portão. Olhou para os lados, para a rua escura. Os lampiões a óleo de peixe não estavam funcionando. Como esses lampiões exalavam mau cheiro e uma nuvem de fuligem que manchava roupas e sujava casas, a Câmara de Vereadores decidira mantê-los apagados nas noites de lua. Naquele momento, Duarte preferia que estivessem acesos. Era difícil enxergar, apesar da clara luz da lua. Olhou para trás, por sobre os ombros. Fitou a colina que levava ao palácio e à praça da Matriz. E também ao cemitério antigo. Sentiu um arrepio ao pensar no velho cemitério. Suspirou. Devia entrar? Não queria, tinha medo daquela casa. Mas a ânsia por sexo lhe comichava as glândulas, lhe abrasava o rosto. Fazia mais de ano que não pegava mulher. A última fora a escrava Aparecida. Nada que o entusiasmasse. Não apreciava sexo a soldo. Mas como alternativa só havia, basicamente, o casamento. Com 23 anos de idade e sonante algum no bolso, Duarte não se sentia pronto para o matrimônio. Além disso, sabia que não podia ser considerado um tipo atraente. Magro demais. As mulheres de meados do século 19 realmente não apreciavam homens magros demais. Outra: o bigode de Duarte era muito ralo. Oh, como ele gostaria de ostentar um bigode espesso, uma barba frondosa como a do revolucionário Garibaldi, que arrebatara uma brasileira durante a Guerra dos Farrapos e agora fazia fremir a Itália, do outro lado do oceano. Ah, Duarte realmente ansiava por desfraldar uma taturana negra e gorda sob o nariz, que tornasse seu rosto mais cheio, mais forte, mais másculo. Suspirou outra vez. Uma fêmea como Catarina interessar-se por ele não acontecia sempre. Não acontecia nunca! Precisava aproveitar a chance. “É o meu dia!”, murmurou para a própria gravata. “É o meu dia.” Essa certeza lhe forneceu coragem.

Abriu o pequeno portão e entrou. Olhou para o jardim sombrio: a grama alta, malcuidada, não devia ser cortada há meses. As árvores copadas, espalhadas aleatoriamente, aumentavam as áreas de penumbra do lugar. Duarte sentiu um calafrio lhe gelando as vértebras. Catarina parou no alpendre e virou-se para ele. Sussurrou, rouca:

Vem.

Os pêlos da nuca de Duarte se eriçaram. Ela disse apenas vem, e foi a frase mais espetacular que ele jamais ouviu.

Vem.

Lindo. Suas bochechas magras queimavam. Naquele momento, sentiu-se bem como há muito não se sentia. Sentiu-se… um gordo. Forte, bem fornido, a prosperidade fazendo dobras na cintura.

Vem.

Foi. O olhar sempre atarraxado nos olhos luminosos de Catarina, olhos verdes e úmidos, olhos de felina prestes a devorar sua presa. De repente, pareceu ter visto um vulto numa janela. Parou de novo, a um passo do alpendre.

Tem mais alguém em casa? – perguntou.

Ela sorriu um sorriso que lhe cavou duas covinhas no rosto perfeito:

Vem.

Nossa Mãe, quem poderia resistir?

Catarina entrou na casa. Duarte levantou o pé vacilante e, finalmente, subiu no alpendre. Tirou o chapéu de pano da cabeça e cruzou a porta entreaberta.

Na sala, viu móveis poucos e toscos, algumas cadeiras, um armário grande, um canapé. No centro da peça, havia uma enorme mesa com algo, decerto comida, coberto por uma toalha branca. Na parede, um retrato, uma fotografia de estúdio, dessas que se tornaram moda no país. Duarte fixou-se no retrato. Conhecia aquele homem. Conhecia! Quem?… Mas… não seria José Ramos, o açougueiro? Claro, o açougue ficava ali em frente, no terreno da casa. Como Duarte era distraído! Estava na casa de outro homem, certamente com a esposa dele. Oh, Deus, o que significava aquilo? Onde andaria o açougueiro? Sentiu a boca secar. Não devia estar ali. Não mesmo. Não é saudável seguir mulheres de açougueiros e entrar na casa deles quando elas dizem: vem. Devia ir embora, voltar para sua casa. Aí estava uma palavra que lhe transmitia segurança: casa. Era onde queria estar agora.

Mas Catarina se aproximou, chegou bem perto e lhe tomou a mão. O contato com a pele fria e macia excitou Duarte o suficiente para que, num segundo, esquecesse de casa, do açougueiro, da santa prudência e de si mesmo. Desejava Catarina, só isso.

Ela o puxou através da sala, para um corredor. Poucos passos mais e então pararam diante de uma porta fechada. Catarina levou a mão livre ao trinco e a abriu.

Era o quarto.

Duarte sorriu. Queria gargalhar, na verdade. Fez força para não gargalhar. Catarina continuou conduzindo-o. Levou-o até a cama, uma cama de casal, grande, com lençóis brancos desarrumados. Pôs as duas mãos em seu peito e o empurrou de leve, fazendo com que sentasse. Duarte sentou-se, obediente. Ela se afastou um passo. Dois. De pé, com movimentos rápidos de gazela, se livrou do vestido verde como seus olhos. Estava nua. Uma nudez ofuscante de tão maravilhosa. Que tipo de mulher era aquela? Sequer usava anágua! Uma mulher completamente nua. Completamente! Duarte nunca vira uma mulher nua sem precisar pagar por isso. No máximo, vislumbrara os tornozelos de algumas criadinhas mais faceiras na rua da Praia. Jesus Cristo! Duarte sentia que a respiração lhe faltava.

Então ouviu um suspiro. Havia mais alguém na casa. Duarte saltou da cama. Que suspiro era aquele?

Que suspiro é esse?

Olhou para os lados, em busca de uma terceira pessoa. Era óbvio que havia uma terceira pessoa, em algum lugar. Embaixo da cama? Agachou-se, procurou debaixo da cama. Um penico, provavelmente vazio. Muita poeira. Sentou-se de novo no colchão, o coração bombeando sangue para as têmporas.

Catarina veio do meio do quarto, ondulando. Os joelhos redondos dela colaram nos joelhos pontudos dele. As mãozinhas dela voaram na sua direção, duas pequenas borboletas brancas. Cingiram-lhe os braços de graveto. Levantaram-no suavemente. Duarte obedeceu ao leve comando da loira. Pôs-se de pé. Abaixou a cabeça e fitou os bicos intumescidos dos seios dela. O medo pareceu pequeno perto daqueles bicos duros.

Foi o vento – cochichou ela, a voz quente lhe titilando os tímpanos, o cabelo fino lhe acariciando o rosto. – Essa casa é cheia de frestas.

Empurrou Duarte de volta à cama, um empurrãozinho doce, mas suficiente para fazê-lo desabar. Decúbito dorsal. Duarte sentiu um pouco de vergonha da estreiteza de seu corpo ao aterrissar no colchão. Catarina acavalou-se nele, ronronando. E ele se esqueceu do medo, esqueceu-se da vida. Oh, Deus, não acredito!, pensava. Não acredito, não acredito!

Duarte tremia de prazer. Catarina deitou-se sobre ele. Uma mulher linda e nua deitada sobre ele, ele não acreditava. Ela enroscou seu pescoço liso e comprido no pescoço dele. Duarte sentia o peso leve e o calor de seu corpo. Teve uma ereção. Ficou constrangido. Não era educado ter ereções daquela forma, o que ela poderia pensar? Catarina ergueu o torso outra vez. Começou a tirar a roupa dele, lentamente. Não permitia que ele participasse, não deixava que agisse. Ela queria fazer tudo. Duarte, que sempre se envergonhara da sua nudez, não pensava em mais nada. Estava paralisado de prazer. Deixava a iniciativa para ela. Catarina acavalou-se sobre ele de novo. E começou a passar o sexo em seu corpo anguloso. Em todo o corpo. Nas pernas, na barriga, nos braços, no rosto, no sexo de Duarte.

Hora e meia depois, Duarte jazia na cama, feliz e saciado. Que mulher! Olhou mais uma vez para aquela nudez resplandecente. Olhou para o teto, procurando o firmamento. Pensou: obrigado, Deus. Havia sido a melhor noite da sua vida, o ponto culminante, seu dia de sorte que chegara, enfim. Tinha de repetir tudo. Tudo. Não seria feliz se não repetisse aquela noite. Quis saber:

Você é casada? Com o açougueiro? Onde ele?…

Você falar demais – interrompeu Catarina, num delicado sotaque alemão. Quem diria, era a primeira vez que um sotaque alemão parecia delicado a Duarte.

Sorrindo, ela escorregou para fora dos lençóis. Ergueu-se. Era a Vênus de Boticelli, nua e deslumbrante. Assim nua, as carnes rijas e brancas, caminhou até a porta e olhou para trás, por sobre os ombros redondos:

Vem.

Parecia ser sua palavra preferida.

Duarte se levantou, inseguro. Olhou em volta, procurando suas roupas pelo chão de tábuas do quarto. Devia vesti-las? Mas Catarina já se afastava. Bem, ela estava nua… Resolveu ficar nu também. Seguiu-a até a sala, a pele pendurada frouxamente nos ossos. Como gostaria de ter uma barriga burguesa.

Ela parou em frente à mesa e, num gesto seco de mágico de teatro, puxou a toalha. Surgiu uma mesa posta. Sobre ela estavam dispostas garrafas de vinho, pães de meio quilo, um tablete de queijo do tamanho de uma caixa de sapatos, uma travessa com lingüiças, outra com fatias de bolo. Catarina buscou uma cadeira. Ofereceu-a a Duarte. Ele sentou-se, ainda nu, sorrindo para os acepipes. (Não acredito, não acredito!) Estava se sentindo um paxá. Um rei. O próprio imperador Dom Pedro. Comeu com prazer. Tudo ótimo, mas a lingüiça… Jamais comera lingüiça tão saborosa. De suíno, concluiu, só podia ser de suíno, algum suíno criado com método e arte. Catarina observava-o em silêncio, com um meio sorriso tornando ainda mais desejáveis os lábios polpudos. Comprazia-se com a visão de Duarte se regalando, era a impressão que passava. Decerto, ela mesma tinha engendrado todas aquelas delícias. Uma mulher linda e boa cozinheira. Poderia existir um anjo assim?

Duarte estalou os beiços ao terminar.

Divino! – exclamou. – Divino!

Viu Catarina bater com o garfo no copo, como se chamasse uma criada. Haveria ainda mais guloseimas? E aquela lingüiça formidável? Estava curioso sobre aquela lingüiça. Onde criavam aqueles porcos deliciosos? Se comesse aquelas maravilhas todos os dias, se tornaria um gordo, enfim. Olhou para Catarina, os cotovelos ainda cravados na mesa, e perguntou:

Da onde é que…

Não terminou a frase. Num instante, o chão se abriu, a sala desapareceu da visão de Duarte, e ele mergulhou na escuridão.

Duarte se chocou contra o solo duro, de chão batido. Gemeu. Contorceu-se. Não conseguia se mexer muito. Várias partes do corpo lhe doíam. Teria quebrado algum osso? Onde estava? Olhou para cima. Viu o quadrado de luz que vinha do teto – o alçapão pelo qual fora sugado. Catarina. Ela devia estar lá.

Ei! – gritou. – Ei!

Nada. Duarte tentou se erguer. O corpo doía demais. Mal conseguia sentar-se. Será que alcançaria o teto, se pulasse? Olhou para cima: de jeito nenhum. Três Duartes, um sobre o outro, não alcançariam o alçapão. Pensou em gritar de novo, quando algo se moveu na escuridão. Duarte forçou os olhos. Uma forma humana estava parada de pé, junto a uma coluna. Duarte sentiu o pavor lhe comprimir o peito. O que era aquilo? Quem era?

Súbito, assaltou-lhe a consciência de que estava nu. Olhou para o próprio corpo magro, ossudo, desbotado. Sentiu vergonha, sentiu-se indefeso e, sobretudo, sentiu medo. Queria chorar, estar de volta ao seu pequeno quarto na rua da Ponte, queria que nada daquilo tivesse acontecido, nem a noite de sexo, nem a ceia faustosa. O vulto continuava lá, agora imóvel. Mas Duarte sabia que era alguém. Ou algo.

Quem está aí? – gritou, voz trêmula.

Nenhuma resposta. Duarte começou a ofegar. Sentou-se, enfim, com grande dificuldade.

Quem está aí? – repetiu.

E o enorme vulto de um homem saiu da sombra. Duarte olhou-o, cheio de pavor. Era a visão mais horrenda da sua vida. Tinha bem uns dois metros de altura. Vestia um avental ensangüentado. Levava nas mãos um machado enorme.

O homem lançou-lhe um olhar cruel. Era o próprio Mal que o encarava.

Nu, rojado ao solo, indefeso, Duarte se encolheu. Teve vontade de gritar, mas sentiu um misto de vergonha e pavor. Não conseguia tirar os olhos do homem parado a sua frente, ameaçador.

Então o reconheceu.

O açougueiro. Sim, só podia ser José Ramos! A familiaridade encheu Duarte de esperança e, até, de meia porção de coragem. Duarte o conhecia, ele não era nenhum monstro, nada sobrenatural, nada inumano. Já tinham se cumprimentado na rua, trocado olhares. Conheciam algo um do outro. Era possível negociar. Talvez Ramos quisesse dinheiro, talvez estivesse furioso porque Duarte dormira com a mulher dele. Isso! Era ciúme! O arrabaldino sentimento do ciúme. Mas Duarte nem sabia que eram casados… Entrara na casa embalado pela maior inocência. Ela que o havia provocado. Sim, ia negociar. Começou a dizer:

Senhor Ramos, eu…

Foi interrompido outra vez. Era uma noite de frases incompletas para Duarte. Viu Ramos fazer um movimento rápido com as duas mãos, um gesto enérgico e feroz. A princípio, não entendeu bem o que aconteceu. Apenas sentiu um forte baque que lhe fez tremer a testa, o pescoço, a espinha dorsal, o corpo inteiro. Então, a confusão, a dor intensa, e a compreensão derradeira de que estava com uma lâmina, a lâmina do machado, fincada entre os olhos. Queria falar algo, queria se queixar, queria tirar aquilo da testa, mas tudo escureceu.

Incompetência no Grêmio

26 de fevereiro de 2011 21

Recebi esse email do leitor Valdemar Santos:

“Nós gremistas estamos não só revoltados, mas tristes, deseperançados.

Todas as pessoas com quem falo, sócios do Grêmio como eu, demonstram uma profunda decepção com a questão Wiliam Magrão. Um volante de 1,90m de altura, cabeceador, goleador, bom de bola custa muito caro. Que o diga o coirmão do Beira-Rio: pagou 4 milhões de euros para ter o seu Wiliam Magrão (Bolatti).

Nessas horas é que dá vontade de largar tudo . A incompetencia dos dirigentes do Grêmio é assombrosa.”

Olha: o Valdemar tem razão.

 

Frase do dia

26 de fevereiro de 2011 3

Quando se ouve um homem falar de seu amor por seu país, podem saber que ele espera ser pago por isto. (H. L. Mencken)

Pistoleiros também mandam flores - Capítulo 4

26 de fevereiro de 2011 1

O mau pressentimento pulsava cada vez com mais força no peito de Meriam. Recordou do sobressalto que teve ao levantar a cabeça e ver aquele homem ali, parado na calçada da rua tranqüila em que ficava sua casa no Parque Minuano, um bairro de classe média no extremo norte da cidade. Havia algo de errado com ele. A começar pela roupa. Não parecia à vontade dentro do paletó, a gravata pesava-lhe no pescoço. O corpo musculoso combinaria mais com jeans e camiseta. Talvez fosse um executivo que gostasse de malhar, um dono de curso pré-vestibular, um professor que resolveu investir na iniciativa privada, mas tudo nele dizia que não. Que ele estava mais acostumado à atividade física do que à intelectual. E havia o gel. Uma pasta de gel lhe domando os cabelos com dificuldade, algo… Meriam não sabia bem… algo fora do lugar. Não era coisa de um professor.

Ou talvez não fosse nada disso, talvez fosse o jeito dele caminhar, sabe-se lá. O fato é que Meriam ficara nervosa com a visita. Pensou em ligar para Vanderlei a fim de saber se estava tudo bem, mas desistiu da idéia. No começo do namoro, ligava várias vezes por dia para a faculdade. Por ciúme. Conhecia as secretárias do Departamento de Arquitetura, duas alunas dos primeiros níveis do curso, ambas jovens, bonitas, sorridentes e disponíveis. Meriam lembrava-se dela própria algum tempo atrás, de como se interessou pelo professor, como atraiu a atenção dele e como enfim permitiu que ele a assediasse. Vanderlei não era nenhum Brad Pitt, disso ela sabia, mas a figura do professor desperta fantasias nas mulheres. Aquelas duas, uma morena, outra loira, trabalhando todos os dias com Vanderlei… Vagabundas! Havia muita oportunidade de envolvimento. Meriam consumia-se de ciúmes. Então, nos primeiros meses de namoro, ligava todos os dias, queria saber onde Vanderlei estava, o que fazia e o que fizera. Brigaram inúmeras vezes por isso. Até que Meriam compreendeu que aquilo acabaria com o namoro deles e decidiu que não ligaria mais. Que tentaria não pensar nas secretárias. E confiar em Vanderlei. Confiar desconfiando, evidentemente, que nenhum homem é de total confiança.

Não faltava muito para que ele chegasse em casa. Ia preparar um jantar bem saboroso. Estrogonofe. Vanderlei adorava estrogonofe. Sentia-se feliz com Vanderlei. Admirava-o desde os tempos em que se conheceram na faculdade. Não chegou a concluir o curso, mas ficou com o professor, apesar da oposição do pai, um imigrante libanês que enriquecera no Brasil com o comércio de tecidos. Desde a infância, Meriam estava prometida em casamento para um outro filho de imigrantes libaneses. A união das duas famílias as tornaria poderosas. Mas Meriam pouco ligava para os planos de seus parentes.

Nesse momento, odiava o pai. O seqüestro ocorrera por encomenda dele, ela tinha certeza. Antes disso, o velho exercera pressão quase que diária sobre eles, até que Meriam tomou a decisão radical de sair de casa. Foi um escândalo, sua mãe chorou como se ela tivesse dito que tinha uma doença mortal, e o pai deixou de falar com ela. Meriam não fazia questão mesmo. Que ele ficasse no seu canto, contando o vil metal, desde que a deixasse em paz com seu marido. Suspirou. Tirou o pedaço de carne da geladeira. Então se aprumou: barulho na fechadura da porta da frente. Era Vanderlei, que chegava para morrer.

Vanderlei comeu em meio a suspiros e gemidos.

– Uma delícia – repetia. – Uma delícia.

Meriam sorria, orgulhosa.

– Um homem veio aqui em casa hoje à tarde – contou ela, o garfo a caminho da boca.

Vanderlei levantou a cabeça.

– Um homem?

– Veio atrás de você.

– Quem era?

– Não sei. Não conheço. Disse que tinha um trabalho a oferecer.

– Um trabalho? – Vanderlei fechou um pouco as pálpebras, um gesto que fazia quando estava pensando. – Estranho. Deixou algum recado?

– Disse que voltaria mais tarde.

– Estranho – repetiu Vanderlei, enquanto mastigava. – Tem mais arroz?

Antes que Meriam respondesse, a campainha da porta soou. Meriam estremeceu:

– Será que é o homem?

Vanderlei hesitou por um momento. Meriam viu um relampejar de medo nos olhos dele. E sentiu medo também. Enfim, ele se levantou, limpando os lábios com um guardanapo de papel.

– Vou ver.

Eram as últimas palavras que lhe dirigia.

Meriam baixou a cabeça para a mesa, mas não conseguiu mais comer. Ficou parada, com as mãos pousadas no colo, ouvindo. Ouviu Vanderlei abrir a porta, ouviu a voz do homem. Parecia uma discussão. Estariam discutindo? Conheciam-se? Meriam girou o pescoço. Olhou sobre o ombro direito. Será que deveria ir lá para conferir pessoalmente o que acontecia? Ergueu-se. Virou-se para a porta, mas permaneceu de pé, em dúvida. De onde estava, via as costas do marido e um vulto disforme com quem ele conversava. Seria o mesmo homem que a visitara durante a tarde? Deu um passo em direção a eles. Parou. Esticou a cabeça. Queria ver bem o rosto do homem, mas não conseguia. O corpo de Vanderlei estava na sua frente. Subitamente, a angústia tomou conta de seu peito. Meriam sentiu a garganta fechar e a aflição lhe queimar os olhos. Decidiu-se a ir lá, apoiar o marido. Aprumou-se. Partiu, resolvida. Deu um passo. Dois.

Foi quando ouviu o primeiro tiro.

O estampido fez Meriam saltar para trás e levar a mão ao peito. Quase que simultaneamente, outros dois tiros foram disparados e o corpo de Vanderlei desabou no chão da sala.

– Vanderlei! – ela gritou.

Não obteve resposta.

– Vanderlei! – já corria na direção dele.

Ele não se mexia. Não falava. Quando Meriam se debruçou sobre seu corpo, Vanderlei exalou o último suspiro.