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História do Gre-Nal (4)

28 de abril de 2011 0

Os anos 40 foram os anos luminosos de Porto Alegre. Nunca a cidade cresceu tanto, nunca foi tão notívaga, tão urbana. Tão alegre. Foi a década dos malandros e das mulheres “de vida fácil”. Para o sexo barato, bastava visitar uma das casinhas de madeira da Pantaleão Telles, hoje Washington Luís. Ou ir até a Azenha e tentar um romance com uma das meninas do Cabaré do Galo, na Cabo Rocha, atual Freitas de Castro. No Galo, o freguês provavelmente encontraria Ávila, meio-campista do Inter, sempre bebericando sua cervejinha Oriente, mesmo nos dias de jogo. Havia opções mais refinadas, claro. Quase todas no Centro, na Voluntários da Pátria, onde brilhavam os cabarés Maipu e Royal.

Mas o coração da cidade, de todo o Estado, era a Rua da Praia. Na Rua da Praia, os jovens faziam o footing, as mulheres se lambuzavam com mil-folhas nas confeitarias elegantes – algumas delas animadas por orquestras –, enquanto os homens discutiam política e futebol nos cafés. Na Rua da Praia havia os cinemas, as vitrinas iluminadas, os bares da moda. Havia as sedes de Grêmio e Inter. Uma ao lado da outra, ali onde agora se empina o Santa Cruz, o edifício mais alto do Estado. O Grêmio alugava o andar superior do prédio das Lojas Brasileiras, o Inter, o andar superior do Café Nacional. O Grêmio tinha uma marquise; o Inter, uma sacada. Depois dos Gre-Nais, os vencedores festejavam na marquise ou na sacada, e os torcedores na rua, embaixo, aplaudiam.

Nos anos 40, houve muito mais festa na sacada. Era o tempo do Rolo Compressor, um dos melhores times da história do Inter. E a diferença básica do Inter para o Grêmio era que o Inter abolira o preconceito racial.

Com os negros, o Inter se tornou mais popular. E mais popular ainda ficou graças a um personagem único na história da cidade: Vicente Rao. Rao foi o Rei Momo mais famoso e o maior carnavalesco de Porto Alegre, numa época de memoráveis carnavais. As famílias saíam em corsos, alvejavam- se com lança-perfume, travavam guerras de confete e serpentina. Cada bairro assistia ao seu desfile de blocos. Rao era líder do Tira o Dedo do Pudim, no qual os homens brincavam vestidos de mulher.

Rao era colorado de nascença – deu o primeiro de seus tantos berros em 4 de abril de 1909, dia da fundação do Inter. Era um líder. Montou o DPC, Departamento de Cooperação e Propaganda, o embrião das torcidas organizadas. Fazia faixas, costurava bandeiras, picava papel.

Até que um gremista foi tomado de brios e resolveu contra-atacar: Salim Nigri, o bibliotecário do Grêmio, pediu ao presidente José Gerbase para formar o DTG, Departamento do Torcedor Gremista. E o Grêmio também fez seu Carnaval, também picou papel, também pintou faixas. Numa delas, Nigri pintou: “Com o Grêmio, onde estiver o Grêmio”. A frase acabou sendo adaptada por Lupicínio Rodrigues no hino do cinqüentenário, em 1953, e entrou para a história do futebol gaúcho.

Salim era arrojado. Antes de um Gre-Nal amistoso, em junho de 1946, reuniu alguns músicos gremistas e gravou um disco de acetato com paródias gozando o Inter. Uma temeridade. Mas o Grêmio venceu! Fez 4 a 3. E o disco foi tocado até gastar a agulha, numa vitrola colocada sobre a marquise da Rua da Praia.

Menos de um mês depois foi jogado um novo Gre-Nal, este pelo Gauchão. Aí Carlitos, o maior goleador da história dos Gre-Nais, se encarregou de garantir o 1 a 0 para o Rolo. Naquela noite, o Inter empoleirou uma orquestra inteira na sacada. Os gremistas, emburrados, ouviam:

Ganharam uma partida de caçoada.

Vocês não valem nada!

Mas 46 era o ano de Salim. Em 15 de setembro, dia do aniversário do Grêmio, o pontaesquerda Cordeiro marcou dois gols, Carlitos só um, e o Grêmio venceu o Gre-Nal. E o campeonato. A nova movimentação da torcida e o título ajudaram a popularizar o clube. Mas a massificação mesmo ocorreu meia dúzia de anos depois, quando a discriminação racial foi banida do Grêmio. Enquanto isso, porém, o Inter continuava forte, e o Rolo preparava uma vingança cruel. Sobre a qual você lerá na edição de amanhã.

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