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Posts de abril 2011

Túnel do tempo: o teste de Cibele

30 de abril de 2011 6

Durante a maior parte da história do mundo, Deus não era Deus; era Deusa. Primeiro porque os seres humanos demoraram milhões de anos para compreender o papel do homem na reprodução. Sabiam que os nenês se desenvolviam na barriga da mulher e, chegado o tempo, blop, dela saíam protestando.

Mas como tinham ido parar lá?

Talvez nossos mais remotos ancestrais até intuíssem que havia alguma contribuição da atividade sexual na concepção, mas não podiam ter certeza de que o filho de uma mulher era de um só homem. Afinal, não existia casamento, nem o conceito de fidelidade conjugal. Ninguém era de ninguém nos velhos e bons tempos. Uma mulher se repoltreava, chafurdava e espadanava com vários homens, às vezes todos os da tribo, que alegria.

Assim, a mulher era o veículo da vida. A mãe. Natural que fosse venerada.

Mais tarde, provavelmente observando os animais enfim domesticados, as pessoas compreenderam que os machos também faziam filhos.

A maneira como os seres humanos viam o homem estava mudando.

Mas a Deusa manteve seu prestígio, porque os homens pouco se importavam com sua descendência. Por um simples motivo: os humanos primitivos eram nômades,não tinham propriedade, a não ser pequenos pertences que podiam carregar ao se transferir de um acampamento para outro. Se os homens não tinham propriedade, não tinham herança. Se não havia herança, qual era o sentido de“preservar a descendência”?

Com a invenção da agricultura é que foi inventada a propriedade. Em suma, com a invenção da agricultura foi inventado o capitalismo. Então, o homem queria deixar sua terra para o seu filho. E sua casa. E suas posses. E seu poder. E, por consequência, seu nome.

Entenda o que escrevi acima: “Por consequência”, não“por causa”. Os nomes e dinastias se formaram a partir da propriedade e do poder, não o contrário.

Bem. Mas como saber que o filho era do homem proprietário e poderoso? Não havia teste de DNA. A mãe era aquela ali, ninguém duvidava, o filho fora cuspido de seu ventre. Mas o pai… Como saber quem era o pai, se ninguém era de ninguém?

Foi essa angústia que gerou a instituição do casamento, da monogamia, da fidelidade conjugal, da família e de todos os nossos problemas. Alguém precisava ser de alguém. A partir de agora, o homem virava proprietário não apenas das suas terras, mas de seus filhos e da sua mulher. O homem cresceu em importância na comunidade. E a Deusa foi trocada pelo Deus. Os hebreus se encarregaram disso. Substituíram a Deusa Mãe pelo Deus Pai. O judaísmo e seus derivados, o cristianismo e o islamismo, são religiões masculinas e capitalistas. Religiões sombrias, eivadas da noção de pecado. Religiões que falam de posse e poder.

A antiga religião, da Deusa Cibele, era uma religião orgiástica, de celebração da existência, uma religião sem culpas. Mas que tinha suas normas. Para se tornar sacerdote da Deusa Cibele, o homem precisava passar por algumas provas. Uma delas se constituía no seguinte: o sujeito devia atravessar uma extensa ponte que ficava tomada por anciãos sentados à esquerda e à direita, encostados nos parapeitos, formando uma espécie de corredor polonês. O candidato a sacerdote passava por entre os anciãos, que o insultavam. Diziam tudo de ruim que sabiam a respeito dele, inventavam ofensas, xingavamno à exaustão. Se o pobre difamado conseguisse chegar ao outro lado da ponte sem se abalar, estava aprovado.

A internet é mais ou menos assim. Emails, tuíter, comentários de blog, tudo é quase instantâneo, a pessoa sentase diante de um teclado e desabafa suas frustrações pela ponta dos dedos. Quem lida com esse instrumento tem de entendê-lo. É como se fosse uma provação.Um exercício de humildade. A pessoa pública,como os jogadores de futebol,não pode se deixar levar pelas provocações. O torcedor, irracional, apaixonado e irresponsável, esse pode dizer o que bem entender. E diz. Como diz. O profissional, não. O profissional tem de se conter. Ou será reprovado no teste.

Vernissage

30 de abril de 2011 0

Veja mais algumas obras do Ivan Pinheiro Machado. A vernissage é no dia 3 de maio.

Renato e Falcão

30 de abril de 2011 10

Falcão e Renato Portaluppi se encontraram ontem no Painel RBS, transmitido pela TVCOM. Intermediados por Pedro Ernesto Denardin, Maurício Saraiva e por mim, a dupla conversou abertamente sobre suas histórias, a fama e responderam diversas perguntas.

História do Gre-Nal - Final

30 de abril de 2011 6

A superioridade do Grêmio sobre o Inter, ou do Inter sobre o Grêmio, poderia ser contada pelo número de tijolos dos estádios de cada um. No começo do século, o Grêmio era dono da Baixada. Um estádio pequeno, com pavilhões de madeira, um deles cedido ao Força e Luz em troca do passe do zagueiro Aírton, nos anos 50. Mas, lá, o Grêmio foi feliz. Montou o primeiro grande time do futebol gaúcho.

Tinha o mitológico Eurico Lara no gol, jogador tão especial que é citado no hino do clube. Tinha Luiz Luz na zaga. Chamado de O Fantasma da Área, Luz foi parar na Seleção Brasileira, um feito raro para um gaúcho, na época. Tinha Noronha no meio-campo, o mesmo que, no São Paulo, formou o famoso trio com Ruy e Bauer. Tinha Foguinho, o grande Oswaldo Rolla, na meia. E Luiz Carvalho, O Rei da Virada, como centroavante.

O Inter só se equiparou ao Grêmio quando erigiu os Eucaliptos. Demorou um tanto, é verdade – nos anos 30, o Grêmio continuou como dono do Estado. Até porque os Eucaliptos e a Baixada eram igualmente acanhados. O Inter finalmente superou o rival porque, antes dele, aboliu a discriminação racial, passou a contratar negros e, assim, formou o Rolo Compressor. Sua escalação era sonora como um poema: Ivo; Alfeu e Nena; Assis, Ávila e Abigail; Tesourinha, Motorzinho, Adãozinho, Vilalba e Carlitos. Um supertime. Mas só existiu porque havia o palco dos Eucaliptos para se apresentar.

No fim dos anos 40, os Eucaliptos passaram por uma reforma a fim de sediar alguns jogos da Copa de 1950. Pois nos novos Eucaliptos havia quem tivesse luz para brilhar. Havia os laterais Paulinho e Oreco, o zagueiro Florindo, o médio Odorico, os pontas Luizinho e Chinesinho, a dupla Larry e Bodinho, e o volante Salvador, que, se conta, era o Falcão da década de 50. Um assombro.

Mas o Grêmio estava concluindo o Estádio Olímpico e já abolira o preconceito. O técnico era Oswaldo Rolla, o Foguinho, que teceu um time enérgico, veloz e habilidoso. Uma seleção: Germinaro; Orlando, Aírton, Ênio Rodrigues e Ortunho; Élton e Milton; Marino, Gessy, Juarez e Vieira. Esse time foi pentacampeão, de 1956 a 1960.

Em 1961, um drama: Foguinho queria sacar o craque Gessy do time. Alegava que ele não tinha mais condições físicas. De fato, Gessy já apresentava sinais da doença que, mais tarde, o vitimaria. Um dos diretores do clube, Leitão de Abreu, tempos depois escolhido ministro da República, não aceitou. Exigia a titularidade de Gessy. Foguinho saiu do Grêmio, inconformado. Foi para o Cruzeiro. No Cruzeiro, derrotou o Grêmio por 1 a 0, gol de um jogador emprestado pelo próprio Grêmio, Paulo Lumumba. Aquela derrota deu ao Inter o título de 61. Foguinho se vingou de Leitão de Abreu. Mas, vendo o seu Grêmio perder, chorou.

O Grêmio, porém, estava moldando outro supertime. Sua escalação também era recitada feito um soneto: Alberto; Altemir, Aírton, Áureo e Everaldo; Cleo e Sérgio Lopes; Babá, Joãozinho, Alcindo e Volmir. Esse time conquistou um título inédito: heptacampeão.

Só que a vez do Inter vinha chegando. E, como sempre, escorada em ferro e cimento armado. O Grêmio foi hepta em 1968. No ano seguinte, o Inter terminou o Beira-Rio. Passou a ganhar. Tornou-se octacampeão e, glória das glórias, tricampeão brasileiro. A escalação-símbolo daquela época foi a de 1976: Manga; Cláudio, Figueroa, Marinho e Vacaria; Caçapava, Falcão e Carpeggiani; Valdomiro, Dario e Lula. Nunca mais o Inter teve um time como aquele.

A série de títulos colorados foi interrompida em 1977. Naquele ano, lógico, o Grêmio aumentava o seu estádio, fechava o anel superior das arquibancadas, transformando-o no Olímpico Monumental. Muitos consideram a equipe de 77, comandada por Telê Santana, a melhor da história do Grêmio: Corbo; Eurico, Ancheta, Oberdan e Ladinho; Vitor Hugo, Tadeu Ricci e Iúra; Tarciso, André e Éder.

A reforma do Olímpico foi concluída em 1981. Não por coincidência, quando o Grêmio conquistou o seu primeiro Campeonato Brasileiro. Dois anos depois, alcançaria as maiores proezas do futebol gaúcho: campeão da América e do Mundo, com Renato Portaluppi refulgindo, aos 20 anos de idade.

A partir daí, a disputa entre Grêmio e Inter passou a se dar além dos limites do clássico Gre-Nal. Tornou-se uma disputa por títulos nacionais, continentais e mundiais. Mas o jogo jogado continua sendo o tira-teima que geralmente encaminha o vencedor para a glória e o perdedor para a tragédia. O Gre-Nal prossegue sendo um marco. Um ponto de partida. Ou de chegada, como esse de amanhã, que pode decidir quem será o campeão do Gauchão.

Túnel do tempo: a foto do presunto

29 de abril de 2011 2

Nos velhos tempos da máquina de escrever e da lauda, do telefone com disco e do telex, o repórter de polícia tinha sempre de trazer à redação a foto do presunto.

“Presunto”, no caso, era a maneira chula como nos referíamos ao morto de morte matada. Os editores diziam que o leitor precisava ver a cara da vítima. Precisava reconhecêla. Afinal, ela era protagonista da história a ser contada.

O problema é que a família do defunto nunca queria ceder foto dele. Compreensível. Ninguém gosta de ver um“ente querido”na página policial.

Numa dessas, lá estava o atilado repórter Antoninho Gonzalez e o fotógrafo com o qual formava dupla naquele tempo de duplas repórterfotógrafo, ambos na azáfama de conseguir a foto de um morto que estava sendo velado na casa da família. Sem outra saída, percebendo que não conseguiria a foto, o Antoninho traçou um plano.Apontou o interior da casa para o fotógrafo:

– Olha lá: está cheio de retrato do falecido na parede.Vamos fazer assim: vou lá atrás, no pátio, e vou desligar a energia. Quando ficar tudo escuro, você entra correndo, pega um quadro dele, coloca na bolsa e vamos para o jornal. Combinado?

Combinado.

Antoninho esgueirou-se até os fundos da casa. Lá, encontrou a caixa-deforça e, TCHUNS!, cortou a energia. As trevas desabaram sobre o lugar, foi aquele gritedo, ninguém se entendia. O fotógrafo, aproveitando-se da confusão, entrou correndo, surrupiou um quadro da parede, enfiou-o na bolsa e zuniu para fora.Voltaram os dois saltitantes para a redação. Lá chegando, tiraram o retrato da bolsa e…

…e…

…era Jesus Cristo.

Contei essa história na Feira do Livro, quinta passada, durante um debate do qual participávamos eu, meu amigo Juremir Machado da Silva, e dois velhos lobos da imprensa, Celito de Grandi e Elmar Bones, o“Bicudo”.

Falávamos de história, de literatura e de jornalismo. De como o jornalismo mudou com as mudanças do mundo. De fato. No futebol, inclusive. Havia, no ambiente do futebol gaúcho de meados do século 20, um repórter impagável: Édson Pires, alcunha“Rei do Furo”. Um dos furos que lhe valeram o apodo, Édson Pires conseguiu-o assistindo clandestinamente a uma reunião da Federação Gaúcha de Futebol. Como ele cometeu essa façanha? Com um ardil único: escondendo-se debaixo da mesa em torno à qual se reuniam os presidentes dos clubes. Os participantes da reunião não o viram porque a mesa estava coberta por uma grande toalha.

Hoje, o Rei do Furo seria descoberto. As mesas de reunião não são mais cobertas por toalhas.

Os tempos são outros, realmente. Nos anos 80 nós fazíamos reunião de pauta no bar. Não o bar da redação, o bar mesmo, com a cerveja gelada lubrificando nossos cérebros e melhorando a qualidade das matérias. Quando a edição ficava pronta, voltávamos ao bar. Foram vários os bares dos vários jornais em que trabalhei. Havia uma churrascaria do Menino Deus onde a turma costumava dobrar a curva mais sombria das madrugadas. Foi lá que um dia um respeitável colega levantou-se e bateu com o garfo no copo, anunciando que ia falar. Todos silenciaram. Ele:

– Quero anunciar que, a partir de hoje, sou gay.Vou casar com o Arlindo.

Que côsa.

Já nos anos 90, não muito tempo atrás, a relação entre jornalistas e jogadores era bem diferente do que é hoje. Uma vez, o Guerrinha, então setorista do Inter, decidiu provar que o Fabiano Cachaça não era mais o pândego de outrora. Que ele havia se regenerado. Que era um santarrão. Levou-o para o parquinho da Redenção, fez com que se sentasse no elefantinho do carrossel e dê-lhe a tirar foto.A imagem do Fabiano refestelado no elefantinho cor-de-rosa tornou-se histórica.Mas não foi o suficiente para convencer o mundo de que Fabiano, o chamado Uh Fabiano, era agora um novo homem. Guerrinha tirou-o do Beira-Rio de novo e o arrastou para a Igreja Santa Terezinha. Desta vez, Fabiano foi fotografado ajoelhado no genuflexório da igreja, as mãos postas, o olhar pio fixo na imagem do Cristo crucificado, aparentemente rezando pelo perdão de seus pecados pretéritos.

O Guerrinha quase transformou o Uh Fabiano em carola. Quase.

Velhos tempos do jornalismo. É certo que não tinham a seriedade de hoje. É certo que eram mais divertidos.

Arte no blog

29 de abril de 2011 0

Meu amigo Ivan Pinheiro Machado está preparando uma vernissage para o dia 03 de maio. Confira mais algumas obras dele.


Som de Sexta

29 de abril de 2011 2

Esse blues é um dos meus favoritos do Tom Waits, que é um dos meus favoritos.
Tenho vontade de postá-lo toda sexta, mas vou fazê-lo só em algumas especiais.
Como hoje:

O que é Damião

29 de abril de 2011 17

Damião é um Roberto Dinamite, é um Jardel, é um Nunes, um Dadá Maravilha, um Claudiomiro, um Alcindo, um Geraldão, um Lima, Damião é um desses centroavantes que, ainda que não seja virtuose, é essencial.

Fará história no futebol.

O Inter tem que se organizar em torno do Damião, como um formigueiro se organiza em torno da rainha.

O melhor do Inter

29 de abril de 2011 9

O jogo da noite de quinta do Inter prova que um dirigente, qualquer dirigente, a primeira missão que ele tem são duas:

Primeiro: deve contratar um centroavante.

Segundo: deve contratar outro centroavante.

O Inter, se for qualquer coisa em 2011, é por causa de seu supercentroavante.

Série na RBS

28 de abril de 2011 2

Domingão, junto com o Gre-Nal, começam as gravações de uma nova série da RBS baseada em contos do degas aqui. Vejam só:


Gre-Nal é Gre-Nal” é a nova série de ficção da RBS TV e vai ao ar em julho, aos sábados, após o Jornal do Almoço, em Curtas Gaúchos. As gravações começam nesse domingo quando os personagens principais vão se misturar com os torcedores reais do clássico do futebol que será disputado no Beira-Rio. O diretor Cristiano Trein estará com quatro câmeras para gravar cenas que depois serão inseridas nos quatro programas. A eterna disputa entre gremistas e colorados tem roteiros de Marcelo Pires e Leticia Wierzchowski, baseados nas histórias de David Coimbra.

- O gremista sempre tem uma piada para o colorado. E o colorado sempre sabe como responder à altura do gremista. – diz a roteirista Leticia Wierzchowski – E isso não é ficção. As pessoas fazem isso mesmo.

Rafael Guerra e Eduardo Mendonça serão os atores principais de “Gre-Nal é Gre-Nal”, interpretando “Neves” e “Feliciano”, o gremista e o colorado.

- Desde que ficamos sabendo que faríamos esses personagens, a gente não para de brincar – conta o ator Eduardo Mendonça. – É só uma notícia nova sobre o Inter surgir, que eu já ligo pro Rafael para aprontar.

A maior parte das gravações serão feitas em Porto Alegre no bairro Navegantes e começam na próxima quarta-feira, dia 4 de maio.

“Gre-Nal é Gre-Nal” terá direção de fotografia de Pablo Chasseraux, arte de Bernardo Zortea, montagem de Drégus de Oliveira. Produção executiva é da Sqma. Coordenação de produção de Nice Sordi e direção geral de Gilberto Perin. Realização da RBS TV.

Túnel do tempo: o melhor amigo

28 de abril de 2011 11

Esse meu amigo tinha um cachorro. Não era cachorro de raça nem nada. Não passava de um vira-latinha malhado, o corpo todo manchado de preto e branco, a cara preta, só a ponta do focinho branca, assim como o contorno dos olhos. Parecia que usava óculos, aquele guaipequinha.

Meu amigo encontrou o cachorro na rua, ainda filhote. Afeiçoou-se a ele e levou-o para casa. Conviviam havia já mais de dois anos em seu pequeno apartamento. O cachorrinho era relativamente obediente e espaçosamente alegre, como em geral são os cachorrinhos.

Um dia, meu amigo encontrou uma namorada nas lides noturnas. Afeiçoou-se a ela e levou-a para casa também. Passaram a viver juntos, os três.

A mulher, porém, não gostava do cachorro. O apartamento ficava com cheiro de bicho e cheio de pelo, os latidos a incomodavam. Essas coisas que mulheres dizem de cachorros. Passaram-se meses, ela sempre reclamando,meu amigo sempre evitando o assunto. Adiando a solução. Quando o cachorrinho roeu as tiras da sandália preferida dela,ela deu um ultimato: ou ele ou eu!

Mais tarde, meu amigo confessou que, naquela hora, vacilou. Ela ou ele? Ela? Ou ele? Mas a disputa era entre um animal e um ser humano. Nesses casos, o humano quase sempre sai ganhando.

Ela ganhou.

Uma manhã,meu amigo,com o peito confrangido, o coração do tamanho de uma ervilha, a alma pesada, meu amigo colocou o cachorrinho no carro.Teria de livrar-se dele. O cachorrinho estava feliz. Gostava de passear de carro. Meteu o focinho branco para fora da janela e ficou sentindo os odores que passavam pela rua, sentindo o vento bater na cara preta e branca. Meu amigo dirigiu até Canoas. Enveredou pelos bairros da cidade. Parou em um descampado. Desceu. Deu a volta no carro. Abriu a porta do carona. O cachorrinho pulou para fora, o rabo abanando, faceiro com a atenção que o dono lhe despendia.

Meu amigo caminhou uns 30 metros. O cachorrinho o seguiu, como sempre. Meu amigo olhou para ele, pesaroso.

– Senta! – ordenou.

Ele obedeceu.

– Fica aí!

Ele obedeceu outra vez.

O cachorrinho ficou parado, enquanto ele voltava para o carro. Sentou-se atrás do volante. Arrancou. Antes de engatar a segunda marcha, parou. Olhou para trás. Viu, nos olhos do cachorrinho, a compreensão conformada, a lealdade triste. Os olhos do cachorrinho mostravam que ele sabia que seria traído. Que seria abandonado.

Como foi.

Meu amigo dirigiu uma quadra pensando naquele olhar. Então,num repente,se arrependeu. Pisou no freio. Fez o retorno, apressado. Voltou num tzin para seu companheiro. Ansiava por abraçá-lo e afagá-lo, por dar-lhe um osso novo, por pedir desculpas. Mas não o encontrou mais. Rodou por mais de duas horas pelas imediações, e nada. Voltou para casa abatido, desencantado da vida. Até hoje ele lembra daquele olhar desapontado. Daquele olhar que expressava amizade, fidelidade e um coração partido. Até hoje ele sonha com seu cachorrinho.

A mulher continua morando no apartamento.

Vernissage

28 de abril de 2011 0

Confira mais algumas obras do Ivan Pinheiro Machado. Ó:

O cara que era o cara

28 de abril de 2011 11

Hoje estou de aniversário, mas quem vai ganhar o presente é você, leitorinho.
Primeiro, vou postar um vídeo do cara que era o cantor americano preferido do Beatles: Nilsson. Quando novinho, nos albores dos anos 70, Nilsson gravou este som que foi o tema de um grande filme, Perdidos na Noite, com o Dustin Hoffman e o John Voight, que, se mais não fizesse na vida, fez ser o pai da Angelina Jolie. Veja o Nilsson careta, mas genial:

Agora veja o Nilsson com Ringo Star, mais velho e mais relaxado, para provar a você e a mim mesmo que a idade provecta também pode fazer bem:

História do Gre-Nal (4)

28 de abril de 2011 0

Os anos 40 foram os anos luminosos de Porto Alegre. Nunca a cidade cresceu tanto, nunca foi tão notívaga, tão urbana. Tão alegre. Foi a década dos malandros e das mulheres “de vida fácil”. Para o sexo barato, bastava visitar uma das casinhas de madeira da Pantaleão Telles, hoje Washington Luís. Ou ir até a Azenha e tentar um romance com uma das meninas do Cabaré do Galo, na Cabo Rocha, atual Freitas de Castro. No Galo, o freguês provavelmente encontraria Ávila, meio-campista do Inter, sempre bebericando sua cervejinha Oriente, mesmo nos dias de jogo. Havia opções mais refinadas, claro. Quase todas no Centro, na Voluntários da Pátria, onde brilhavam os cabarés Maipu e Royal.

Mas o coração da cidade, de todo o Estado, era a Rua da Praia. Na Rua da Praia, os jovens faziam o footing, as mulheres se lambuzavam com mil-folhas nas confeitarias elegantes – algumas delas animadas por orquestras –, enquanto os homens discutiam política e futebol nos cafés. Na Rua da Praia havia os cinemas, as vitrinas iluminadas, os bares da moda. Havia as sedes de Grêmio e Inter. Uma ao lado da outra, ali onde agora se empina o Santa Cruz, o edifício mais alto do Estado. O Grêmio alugava o andar superior do prédio das Lojas Brasileiras, o Inter, o andar superior do Café Nacional. O Grêmio tinha uma marquise; o Inter, uma sacada. Depois dos Gre-Nais, os vencedores festejavam na marquise ou na sacada, e os torcedores na rua, embaixo, aplaudiam.

Nos anos 40, houve muito mais festa na sacada. Era o tempo do Rolo Compressor, um dos melhores times da história do Inter. E a diferença básica do Inter para o Grêmio era que o Inter abolira o preconceito racial.

Com os negros, o Inter se tornou mais popular. E mais popular ainda ficou graças a um personagem único na história da cidade: Vicente Rao. Rao foi o Rei Momo mais famoso e o maior carnavalesco de Porto Alegre, numa época de memoráveis carnavais. As famílias saíam em corsos, alvejavam- se com lança-perfume, travavam guerras de confete e serpentina. Cada bairro assistia ao seu desfile de blocos. Rao era líder do Tira o Dedo do Pudim, no qual os homens brincavam vestidos de mulher.

Rao era colorado de nascença – deu o primeiro de seus tantos berros em 4 de abril de 1909, dia da fundação do Inter. Era um líder. Montou o DPC, Departamento de Cooperação e Propaganda, o embrião das torcidas organizadas. Fazia faixas, costurava bandeiras, picava papel.

Até que um gremista foi tomado de brios e resolveu contra-atacar: Salim Nigri, o bibliotecário do Grêmio, pediu ao presidente José Gerbase para formar o DTG, Departamento do Torcedor Gremista. E o Grêmio também fez seu Carnaval, também picou papel, também pintou faixas. Numa delas, Nigri pintou: “Com o Grêmio, onde estiver o Grêmio”. A frase acabou sendo adaptada por Lupicínio Rodrigues no hino do cinqüentenário, em 1953, e entrou para a história do futebol gaúcho.

Salim era arrojado. Antes de um Gre-Nal amistoso, em junho de 1946, reuniu alguns músicos gremistas e gravou um disco de acetato com paródias gozando o Inter. Uma temeridade. Mas o Grêmio venceu! Fez 4 a 3. E o disco foi tocado até gastar a agulha, numa vitrola colocada sobre a marquise da Rua da Praia.

Menos de um mês depois foi jogado um novo Gre-Nal, este pelo Gauchão. Aí Carlitos, o maior goleador da história dos Gre-Nais, se encarregou de garantir o 1 a 0 para o Rolo. Naquela noite, o Inter empoleirou uma orquestra inteira na sacada. Os gremistas, emburrados, ouviam:

Ganharam uma partida de caçoada.

Vocês não valem nada!

Mas 46 era o ano de Salim. Em 15 de setembro, dia do aniversário do Grêmio, o pontaesquerda Cordeiro marcou dois gols, Carlitos só um, e o Grêmio venceu o Gre-Nal. E o campeonato. A nova movimentação da torcida e o título ajudaram a popularizar o clube. Mas a massificação mesmo ocorreu meia dúzia de anos depois, quando a discriminação racial foi banida do Grêmio. Enquanto isso, porém, o Inter continuava forte, e o Rolo preparava uma vingança cruel. Sobre a qual você lerá na edição de amanhã.

Túnel do tempo: o sol nas bancas de revista

27 de abril de 2011 7

O leitor Matheus Alves pediu para reler um texto aqui no blog. Confira:


Vez em quando vou àquela loja de revistas e gibis

usados que tem na Marcílio. Deve ser bem bom trabalhar numa loja de revistas e gibis, sobretudo usados.Você em meio a todas aquelas histórias. Basta esticar o braço para se embrenhar na selva do Fantasma que Anda, dos Pigmeus Bandar, de Lothar e do lobo Capeto. Estica o outro braço e, cáspite!, lá estão Tex Willer e seu fiel companheiro Kit Carson tirando a poeira da garganta com uísque de cevada, trinchando um bife de quatro dedos de altura ou trocando tiros de Winchester com os comanches.

Nessa loja da Marcílio encontrei a histórica Playboy da Tiazinha.

Foi a maior Playboy de todos os tempos.

Na época, 10 anos atrás, uma loirinha que eu conhecia, uma loirinha formosa e tenra, de pele dourada e olhos azuis da cor da água da Praia Brava, uma loirinha cobiçada por todos os homens que a viam, essa loirinha, tendo a revista nas mãos, ronronou:

– Ai, David, até fiquei excitadinha…

A maior Playboy de todos os tempos, sim, senhor. Entendo o que o Caetano quis dizer quando escreveu que o sol nas bancas de revista lhe enchia de alegria e preguiça. É isso mesmo que uma banca ou uma loja de revistas faz sentir: alegria e preguiça. Porque ali você pode sorver as aventuras mais trepidantes sem maiores consequências, tudo é ameno e lento numa loja de revistas e gibis. Sobretudo numa lojas de revistas e gibis usados.

Pois dia desses eu estava lá. Só eu, que pouca gente vai à loja da Marcílio. Vagava por entre as prateleiras, manuseava gibis do Homem Aranha, discos do Bee Gees, edições da Placar dos anos 70, e aquele ambiente me fez sentir como se estivesse desencaixado dos escaninhos do tempo. Ali os movimentos do dia haviam cessado. Rolava, incrível!, um som de The Clevers, algum hit que fora posto para rodar em primeiro lugar pelo Cascalho na velha Continental que não existe mais.

O dono da loja, um homem de cabelos brancos e gestos vagarosos, ele mantinha-se detrás do balcão e debaixo de um gorro de lã xadrez, embora o dia nem fosse assim tão frio. Fiquei pensando que estava em frente a um homem tranquilo, um homem em paz com a existência, que sabia levar a vida sem cobranças, que sorvia cada minuto do dia como quem prova um gole de vinho do Porto. Ali se encontrava um homem que pouco ligava para o frenesi do dia a dia. Ali havia alguém que não se deixava seduzir pelo vil metal, que não era regido pelo mercado, pelo sucesso, pela ânsia de ver e ser visto.

Deve ser bem bom ser dono de uma loja de revistas e gibis usados! Foi o que disse para ele, quando começamos a conversar. Mas ele balançou a cabeça com desdém, suspirou e disse-me que estava pensando em vender a loja.

– Mas por quê??? – espantei-me.

– Muita agitação – respondeu. – Estou pensando em diminuir um pouco o ritmo, sabe? Aproveitar mais a vida…

Como é difícil, na vida, saber a vida que se tem. Como é importante a perspectiva histórica.

Quando você se põe à distância segura, você olha para sua antiga vida e suspira:

– Como pude ficar tanto tempo com aquela mulher?

– Como pude ficar tanto tempo naquele emprego?

– Como fiquei tanto tempo sem experimentar profiterólis?

E:

– Como aquele time era bom…

Ou:

– Como aquele time era ruim…

As coisas estão no mundo, como diria o Paulinho daViola, mas como é difícil saber como elas são.