Confira o belo texto de Guilherme Dal Castel. Bom proveito.
Ele era um cara bom. Dos bons mesmo. Aquele cara que todo mundo quer ser, mas não chega a causar inveja em ninguém porque é bom demais. Bom demais pra merecer um sentimento tão ruim quanto a inveja. Todos gostavam dele, sempre gostaram. Mas com as mulheres ele nem sempre fizera o sucesso que fazia. Com as mulheres e com os pênaltis. Não que as mulheres não gostassem dele antes também. Gostavam, claro. Mas gostavam por ser uma ótima pessoa, por ser um cara bom, como eu já disse. Na parte da sedução, ele nunca fora o cara bom, nunca fora o cara. Faltava confiança, dizem. Mesmo motivo que o fez largar a ambição de bater pênalti. Bateu muitos na vida, insistiu, errou quase todos, desistiu.
Nunca lhe faltaram mulheres, até sobravam. E das boas. Mas não tinha sido, até então, unanimidade. Longe disso. Era visto como uma pessoa especial, sério no que tinha que ser sério e descontraído naquilo que pedia descontração. Era o genro dos sonhos de qualquer sogra, mas não o namorado dos sonhos das filhas dessas sogras. Cativante, simpático, amicíssimo e confiável. Mas não era um representante da ala masculina daqueles que arrebata corações. Nem um bom cobrador de pênaltis. Não arrepiava a totalidade das nucas das fêmeas que cruzavam seu caminho. Uma ou outra talvez, mas não todas. Nunca fora assim. Até então. Agora ele era.
Agora era querido. Não no sentido de quando uma mulher diz “como ele é querido”. No sentido de que todas o queriam. E quando o tinham, queriam mais ainda. Conquistava com um sorriso, um “boa tarde”, uma discreta mão na cintura junto ao beijo mais avassalador que uma bochecha de moça já recebera. Meia hora do seu lado e a moça estaria inevitável e perdidamente apaixonada. Era bonito até, mas não muito. Parecia mais bonito do que era. Agora a confiança e a simpatia o deixavam melhor que qualquer galã de novela. Um charme vindo sabe-se lá de onde derrubava queixos, dilatava pupilas e aumentava frequências cardíacas femininas com uma facilidade poucas vezes vista. Sim, agora tinha confiança, agora sobrava confiança, escorria pelos bolsos. E, é claro, ele convertia todos os pênaltis. Todos. E o mais incrível, não fazia força. Sequer uma gota de seu suor era empreendida com o fim de ser o que era. Não era nada vaidoso, nada preocupado com a opinião alheia e nada preocupado com nada. Conquistava garotas e estufava redes com o esforço de quem assiste à televisão deitado no sofá. Era o Zidane do jogo da sedução, o Eike Batista dos tiros livres da marca penal. Fácil, as coisas aconteciam, as coisas aconteceram.
Agora tinha as mulheres. Elas simplesmente lhe pertenciam, todas. Mas ele nem queria todas, só as melhores. Não deixava de tratar as feias absurdamente bem, às vezes até melhor do que as musas, mas por educação, por simpatia, por seguir sendo, no fundo, um cara bom. E isso trazia vantagens, sempre trazia. Qualquer coisa errada que fizesse era atenuada e esquecida por ser ele o sujeito da ação. Tudo era fácil demais, tudo tinha solução simples. Um daqueles sorrisos, somado a uma história qualquer inventada, apagava da memória as canalhices praticadas. E assim foi indo, tendo todas que quisesse, sem mover um músculo que objetivasse tê-las. E empilhando gols de pênalti. Virou mestre na arte de administrar quatro, cinco, seis amantes ao mesmo tempo. Umas sabiam da poligamia, outras não. Mesmo que fossem trinta e sete e todas soubessem de tudo, não ousariam achar ruim. Se reclamassem, ele logo consertava. Um beijo no pescoço desmanchava qualquer artilharia preparada por elas. Era um malabarista. Sempre com uma na mão, mas com tantas outras sob seu total controle. E trocava os malabares rindo, brincando. No início, não era por maldade. Se todo mundo estava satisfeito, por que haveria de se mudar a situação? Depois sim. Converteu-se no maior cafajeste que o mundo ocidental já viu e no melhor batedor de pênaltis da história do futebol. Tomou por vício a prática. Mas até que continuava sendo um cara bom. Sob as luzes à frente da cortina ainda era exemplar. Sua canalhice se desenrolava nas coxias, covarde. Mas confiante.
Tudo ia assim. Muito bem, obrigado. Até que ela apareceu, como elas sempre aparecem. Ela, cuja partida fora o divisor de águas entre suas duas faces, estopim da revolução cafajeste em seu caráter. Era ela. Não, não era, não podia ser. Mas era. Ainda mais linda do que na primeira vez em que a vira e muito mais radiante do que na última. Era ela, seu exaustor de confiança. Ele tremeu. Tremeu o tremor de quem exala nervosismo, de quem sua insegurança pela palma da mão, de quem revela descaradamente ao goleiro o canto em que vai bater o pênalti. Se tudo que ele falava funcionava antes, agora ele não conseguia proferir uma sílaba sequer.
Era Ela.
E assim ele voltou a ser integralmente um cara bom. Um genro dos sonhos, um rapaz irretocável e o errador de pênalti com o melhor coração de que já se ouviu falar.
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